Review: Melanie Martinez – Cry Baby (2015)

“Cry Baby” é um álbum teatral e ambicioso que nos apresenta o melhor da Melanie Martinez. Ela parece uma boneca frágil e delicada, mas se olharmos mais a fundo, podemos notar uma escuridão em sua volta.

Melanie Adele Martinez ganhou notoriedade ao participar da terceira temporada do The Voice americano, onde estreou cantando “Toxic” da Britney Spears e foi membro da equipe de Adam Levine. Martinez foi eliminada do programa pelo voto do público na semana cinco, juntamente com a colega de equipe Amanda Brown. Em resposta, ela disse: “Eu nunca esperava chegar até aqui e isso foi além do que eu alguma vez sonhei”. Depois do reality show, Martinez começou a trabalhar de forma independente em seu próprio material. Em abril de 2014, ela lançou “Dollhouse” como single de estreia juntamente com um videoclipe. Um pouco antes, ela havia anunciado que tinha assinado um contrato com a Atlantic Records e que estaria entrando em turnê. Posteriormente, ela divulgou o seu primeiro EP com um total de cinco faixas. “Carousel” foi o principal destaque e chegou a fazer parte da série “American Horror Story: Freak Show” da FX. Precedido pelos singles “Pity Party” e “Soap”, seu disco de estreia, “Cry Baby”, foi lançado em 14 de agosto de 2015. Desde quando apareceu pela primeira vez no The Voice, Melanie Martinez despertou atenção do público, seja por seu visual ou vocal. Seu estilo parece uma reminiscência de artistas como Lana Del Rey, Marina & the Diamonds e Lorde. “Cry Baby” é um álbum conceitual e claramente ambicioso com letras que falam sobre família e romances. Atualmente com 20 anos, ela parece ter usado este álbum como saída criativa para expressar o seu crescimento pessoal.

De alguma forma, Martinez efetivamente consegue levar a música pop para outros lugares e lhe dar um tipo de vibração estranha e sombria – o que funciona perfeitamente com seu estilo excêntrico e voz peculiar. Naturalmente, a estranheza do seu álbum de estreia nos leva por um passeio emocionante, para se dizer o mínimo. É bom ver que ela se manteve fiel ao seu som e permaneceu consistente ao longo do repertório. O álbum abre com a faixa-título – um conto emocional de uma jovem garota solitária cheia de inseguranças – que serve para introduzir a personagem e alter-ego Cry Baby. O refrão é repetitivo e explícito enquanto sua voz explora alguns truques convincentes. “Eles te chamam de bebê chorão, mas você está pouco se fodendo”, ela canta de forma confiante. Musicalmente, “Cry Baby” é uma mistura de pop com música alternativa e uma pitada de teatralidade. Mesmo com o lirismo demasiadamente repetitivo, não deixa de possuir uma boa produção. A citada “Dollhouse” é um vislumbre da conturbada vida familiar da Melanie Martinez. Uma música energética que gira em torno da linha “eu vejo as coisas que ninguém vê” e encarna o conceito do álbum como um todo. É certamente uma das músicas mais ambiciosas, especialmente por causa do lirismo e ambiente estranhamente infantil. Nas letras, encontramos referências a uma dona de casa alcoólica, casada com um marido infiel e mãe de um filho que fuma maconha no quarto. Liricamente, ela tenta mostrar que sua família não é perfeita.

Por trás das paredes de sua “casa de boneca”, eles têm segredos e problemas, assim como todas as outras pessoas. A produção de “Dollhouse” é assombrosa e possui uma vibração escura que se encaixa com as letras que criticam a ilusão de perfeição. Em seguida, um ritmo mais lento e misterioso surge junto com “Sippy Cup” – uma canção rítmica que experimenta sons inusitados como gotas de água. É uma música altamente perturbadora com letras insanas que tentam mostrar a verdade por trás do vício. Não importa o quanto a mãe tentava esconder seu alcoolismo, Cry Baby sabia que ela estava escondendo álcool em seu copo com canudinho. É uma música teatral, distorcida e mórbida, que faz uso de várias metáforas para tentar transmitir uma mensagem. “Carousel” é um electropop obscuro e hipnotizante lançado anteriormente no EP “Dollhouse” (2014). Impulsionada pela combinação de xilofone e acordeão, ela fala sobre estar apaixonada por um garoto que nunca corresponde aos seus sentimentos. Um relacionamento amoroso que parece não sair do lugar e fica dando voltas e voltas como um verdadeiro carrossel. O romance da produção juntamente com a entrega vocal da Martinez, fazem desta música algo verdadeiramente especial. Outro grande destaque é “Alphabet Boy”, uma música aparentemente inspirada pela Lana Del Rey. Uma peça atrevida direcionada a um cara que fez ela se sentir como uma criança. Desta vez, Cry Baby se encontra em algum lugar entre o final da adolescência e início da idade adulta.

Ela brinca com o alfabeto enquanto os versos são muito bem construídos. Mais tarde, demonstrando total confiança em sua capacidade, ela diz sobriamente: “Não sou uma criancinha agora / Me veja ficando grande agora”A melodia é inesperadamente calma, ao passo que o xilofone e a vibe indietronica combinou perfeitamente com sua voz. O segundo single do álbum, “Soap”, é talvez a canção mais radio-friendly e criativa que encontramos por aqui. É uma música escura e atmosférica que fala sobre a insegurança de confessar seu amor a um garoto. O refrão é repetitivo, mas a produção e a inesperada quebra no instrumental, são incrivelmente cativantes. Uma canção trap que começa obscura, mas posteriormente surpreende com sua batida totalmente borbulhante. “Training Wheels” é a primeira balada do álbum e a única canção de amor verdadeiro. Ela capta mais de sua vulnerabilidade enquanto a vemos encontrando alguém que está pronto para dar um próximo passo no relacionamento. Enquanto a melodia é linda e calmante, o conteúdo lírico tem um aspecto inocente e mantém o pueril imposto pela personagem Cry Baby. “Pity Party” é um electropop explosivo e cativante que incorpora uma produção old school e faz interpolação com o clássico “It’s My Party” de Lesley Gore. Embora seja animada e coloque um ar fresco em uma música antiga, o lirismo possui uma aura deprimente. Ela fala sobre ninguém aparecer na sua festa de aniversário: “Me diga por que diabos ninguém está aqui / Me diga o que fazer para tudo ficar melhor”.

Em “Pity Party”, Martinez está no seu melhor, tanto vocalmente como artisticamente. É particularmente a minha canção favorita do álbum. “Tag, You’re It” cresce de forma perturbadora e está entre as mais desconfortáveis do registro. Uma música incrivelmente obscura sobre um homem que a persegue, agride, envenena e sequestra – um conto tão sombrio que a agressão sexual é o seu principal cenário. Sua produção é forte, mas a melodia desconcertante e os vocais distorcidos e manipulados por auto-tune. “Milk and Cookies” brinca com temas e rimas infantis, mas não deixa de transformar o inocente em algo obscuro e torcido. O fluxo e a produção se destacam, conforme possui um ar de vingança onde Cry Baby finalmente se dá bem. “Querido você me quer agora? / Não suporto mais, preciso te colocar para dormir / Cantar para você uma canção de ninar / Onde você morre no final”, ela canta. “Pacify Her” é outro lembrete de um amor não correspondido, onde Cry Baby, ou a própria Melanie Martinez, parece não se importar se vai acabar se machucando. Ela gosta de um garoto e quer lutar por seu amor, mesmo ele sendo comprometido. “Aquela vadia sem graça finalmente vai embora / Agora eu posso tomar o seu homem”, ela canta obsessivamente. “Mrs. Potato Head”, por sua vez, é um comentário pungente sobre a cirurgia plástica e os padrões estéticos. Melanie Martinez tenta transmitir uma mensagem dizendo que métodos como esses não são necessários para realçar a beleza externa.

Uma canção agressiva interpretada de forma completamente sarcástica. “Não seja dramática, é apenas um pouco de plástico / Ninguém vai amar você, se você não é atraente”, ela canta tentando mostrar a auto-aceitação. Influenciada pelo R&B, é uma verdadeira crítica social – além de ser engraçada e cativante. Indo pelo lado oposto, “Mad Hatter” encerra o álbum da melhor maneira possível. Sob um ritmo mais rápido e fortes batidas, sua composição é surpreendentemente criativa. Basicamente, ela pode ser resumida por uma frase: “Todas as melhores pessoas são loucas”. Martinez afirma que ela não se importa de ser louca e que algumas das melhores pessoas também são. Através de um cativante e lunático refrão, ela abraça sua insanidade mútua e faz o ouvinte sentir sua loucura. Tudo somado, “Cry Baby” é um álbum irresistível e ambicioso que nos apresenta o melhor da Melanie Martinez. É um pouco repetitivo, mas sua produção é polida, habilmente orquestrada e liricamente obscura. No exterior, Melanie Martinez parece uma boneca delicada e frágil que possui canções inocentes, como os próprios títulos sugerem (“Casa de Boneca”, “Leite e Biscoitos”, “Senhor Cabeça de Batata”)No entanto, se olharmos mais a fundo, podemos notar que o conteúdo é extremamente escuro e sombrio. Sem dúvida, ela merece créditos por toda a criatividade na concepção deste projeto. As letras melancólicas, metáforas e mensagens são impressionantes e capazes de manter o ouvinte interessado.

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Favorite Tracks:

“Soap” / “Pity Party” / “Mrs. Potato Head”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.