Review: Melanie Martinez – Cry Baby (2015)

Lançamento: 14/08/2015
Gênero: Electropop, Dark Wave, Indie Pop
Gravadora: Atlantic Records
Produtores: Kinects & One Love, Christopher J. Baran, Kara DioGuardi e SmarterChild.

“Cry Baby” é um álbum teatral e ambicioso que nos apresenta o melhor da Melanie Martinez. Ela parece uma boneca frágil e delicada, mas se olharmos mais a fundo, podemos notar uma escuridão em sua volta.

Melanie Adele Martinez ganhou notoriedade ao participar da terceira temporada do programa The Voice dos Estados Unidos, onde estreou cantando “Toxic” da Britney Spears e foi membro da equipe de Adam Levine. Martinez foi eliminada do programa pelo voto do público na semana cinco, juntamente com a colega de equipe Amanda Brown. Em resposta, ela disse: “Eu nunca esperava chegar até aqui e isso foi além do que eu alguma vez sonhei”. Depois do reality show, Martinez começou a trabalhar de forma independente em seu próprio material. Em abril de 2014, ela lançou “Dollhouse” como single de estreia juntamente com um videoclipe. Um pouco antes, ela havia anunciado que tinha assinado um contrato com a gravadora Atlantic Records e que estaria entrando em turnê. Posteriormente, em maio de 2014 lançou o seu primeiro EP com um total de cinco faixas. “Carousel” foi o principal destaque e chegou a fazer parte da série “American Horror Story: Freak Show” da FX. O seu disco de estreia, intitulado “Cry Baby”, foi lançado em 14 de agosto de 2015 e precedido pelos singles “Pity Party” e “Soap”.

Desde quando apareceu pela primeira vez no The Voice, Melanie Martinez sempre chamou atenção do público, seja por seu visual ou ótimos vocais. O seu estilo parece uma reminiscência de artistas omo Lana Del Rey, Marina & the Diamonds e Lorde, enquanto seu disco de estreia é claramente ambicioso. “Cry Baby” é um álbum conceitual com letras que falam sobre família, romance e emoções. Durante treze faixas, Martinez flutua através de canções mid-tempo semelhantes às do EP “Dollhouse”. Na verdade, o registro até apresenta algumas faixas do EP, incluindo a faixa-título e “Carousel”. Atualmente com 20 anos, ela parece ter usado este álbum como uma saída criativa para expressar o seu crescimento. De alguma forma, Martinez efetivamente consegue levar a música pop para outros lugares e dar-lhes um tipo de vibração estranha e sombria. Algo que funciona muito bem com seu estilo excêntrico e voz peculiar. Naturalmente, a estranheza que vem nesse debut álbum faz ele ser definitivamente um passeio emocionante, para se dizer o mínimo. É bom ver que ela se manteve fiel ao seu som e permaneceu consistente ao longo do repertório.

A mensagem geral do registro é dizer que “não há problema em chorar”, um conceito que todos podem se relacionar. O álbum abre de forma adequada com a faixa-título, “Cry Baby”, um conto emocional de uma jovem garota solitária e cheia de inseguranças, que serve para introduzir a personagem e alter-ego do LP também chamada de Cry Baby. O refrão é repetitivo e explícito, enquanto sua voz explora alguns truques convincentes. Aqui, ela canta de forma incrivelmente confiante: “Eles te chamam de bebê chorão, bebê chorão, mas você está pouco se fodendo”. Musicalmente, “Cry Baby” é uma mistura de pop moderno com música alternativa e uma pitada de teatralidade. Mesmo com o lirismo demasiadamente repetitivo, não deixa de possuir uma boa produção. A já citada “Dollhouse” é um vislumbre da conturbada vida familiar da Melanie Martinez. Uma música energética que gira em torno da linha “eu vejo as coisas que ninguém vê” e encarna o conceito do álbum como um todo. É certamente uma das músicas mais ambiciosas, especialmente por causa do lirismo e ambiente estranhamente infantil.

Na letra encontramos referências a uma mãe dona de casa, alcoólica, casada com um marido infiel e com um filho que fuma maconha no quarto (“Mãe, por favor, acorde / Papai está com uma vadia / E seu filho está fumando erva”). Percebemos que, liricamente, ela tenta mostrar que sua família não é perfeita. Por trás das paredes de sua “casa de boneca”, eles têm segredos e problemas, assim como todas as outras pessoas. A produção de “Dollhouse” é assombrosa e possui uma vibração estranha que se encaixa bem com as letras que criticam a ilusão de perfeição. Em seguida, um ritmo lento e misterioso surge junto com a faixa “Sippy Cup”, uma canção rítmica que experimenta sons diferenciados, como gotas de água. Essa música é altamente perturbadora e ainda oferece uma letra insanamente interessante, que tenta mostrar a verdade por trás dos vícios. Não importa o quanto sua mãe tentava esconder seu alcoolismo, Cry Baby sabia que ela estava escondendo álcool em seu copo com canudinho. É uma música bem teatral, distorcida e mórbida, que faz uso de várias metáforas para tentar transmitir uma mensagem realista.

A quarta faixa é “Carousel”, um electropop obscuro e hipnotizante que foi lançado anteriormente no primeiro EP da cantora. Impulsionada pela boa combinação de xilofone e acordeão, a canção fala sobre estar apaixonada por um garoto que nunca corresponde seus sentimentos. É um relacionamento amoroso que parece não sair do lugar, onde você fica dando voltas e voltas como um verdadeiro carrossel. Aqui, encontramos letras como: “Rodando e rodando como um cavalo em um carrossel, nós vamos / Eu vou me apaixonar? Eu nunca posso dizer, eu sei / Correndo atrás de você é como um conto de fadas”O romance da produção, juntamente com a entrega vocal de Martinez, fazem desta música algo verdadeiramente especial. Outro grande destaque do álbum é “Alphabet Boy”, uma música que soa como uma inspiração, da melhor maneira possível, em Lana Del Rey. Esta faixa é talvez a mais atrevida, visto que é direcionada a um cara que fez ela se sentir como uma criança. Desta vez, Cry Baby se encontra em algum lugar entre o final da adolescência e início da idade adulta. Na música ela brinca com o alfabeto, enquanto os versos são muito bem construídos.

Mais tarde, demonstrando total confiança em sua capacidade, ela diz sobriamente: “Não sou uma criancinha agora / Me veja ficando grande agora”A melodia dessa canção é calma e uma das melhores do álbum, ao passo que o xilofone e a vibe indietronica combinou perfeitamente com sua voz. O segundo single do álbum, “Soap”, é talvez a canção mais radio-friendly e criativa que encontramos por aqui. É uma faixa escura e atmosférica que fala sobre a insegurança de confessar o seu amor a um garoto. O refrão é repetitivo, mas a produção como um todo e a inesperada quebra no seu instrumental, são incrivelmente cativantes. Uma canção trap que começa obscura, mas posteriormente surpreende com sua batida totalmente borbulhante. A sétima faixa, “Training Wheels”, é a primeira balada e única canção de amor verdadeiro. Essa música capta mais da sua vulnerabilidade, enquanto a vemos encontrando alguém que está pronto para dar um próximo passo no relacionamento. Sua melodia é linda e calmante, conforme Martinez canta: “Eu amo tudo o que faz / Quando você me chama de burra por causa da merda que eu faço / Eu quero pedalar em minha bicicleta com você”.

Seu conteúdo lírico tem um aspecto muito inocente e mantém dessa forma o pueril imposto pela personagem Cry Baby. “Pity Party”, o primeiro single oficial, é sem dúvida um grande acerto! Um electropop explosivo, poderoso e cativante que incorpora uma produção old school e faz uma ótima interpolação com o clássico “It’s My Party” (1963) de Lesley Gore. Embora seja animada e coloque um ar fresco em uma música antiga, o lirismo possui uma aura deprimente. Aqui, ela fala sobre ninguém aparecer na sua festa de aniversário: “Meus convites desapareceram? / Por que eu coloquei meu coração em cada letra cursiva? / Me diga por que diabos ninguém está aqui / Me diga o que fazer para tudo ficar melhor”. Em “Pity Party”, Melanie Martinez está no seu melhor, tanto vocalmente como artisticamente. É particularmente a minha canção favorita do álbum. A nona faixa, chamada “Tag, You’re It”, cresce de forma perturbadora e está entre as mais desconfortáveis do registro. É uma música incrivelmente obscura sobre um homem que a persegue, agride, envenena e a sequestra. 

É um conto tão sombrio que a agressão sexual é o seu principal cenário. A sua produção é forte, no entanto, a melodia é desconcertante e a voz de Martinez, em alguns momentos, está distorcida e manipulada por auto-tune. Em seguida, o repertório segue com “Milk and Cookies”, uma canção que brinca com temas e rimas infantis, mas que não deixa de transformar o inocente em algo obscuro e torcido. O fluxo e produção dessa música se destacam, conforme possui um ar de vingança onde Cry Baby finalmente se dá bem. “Oh, querido você me quer agora? / Não suporto mais, preciso te colocar para dormir / Cantar para você uma canção de ninar / Onde você morre no final”, ela canta no gancho principal. Essa faixa faz referência à música de Freddy Krueger e ainda ficou muito bem colocada na tracklist, por vir logo depois de “Tag, You’re It”. A próxima faixa, “Pacify Her”, é outro lembrete de um amor não correspondido, onde Cry Baby, ou a própria Melanie Martinez, parece não se importar se vai acabar se machucando. Ela gosta de um garoto e quer lutar por seu amor, mesmo ele sendo comprometido.

“Aquela básica vadia saiu finalmente / Agora eu posso pegar o homem dela / Alguém me disse pra ficar longe das coisas que não são nossas / Mas se ele era seu, porque me queria tanto?”, ela canta de forma obsessiva. A penúltima faixa, “Mrs. Potato Head”, por sua vez, é um comentário pungente sobre a cirurgia plástica e padrões estéticos. Melanie Martinez tenta transmitir uma mensagem dizendo que métodos como esses não são necessários para realçar a beleza tanto externa como interna. É uma canção bastante agressiva e interpretada de forma sarcástica, o que a deixa ainda mais agradável. “Não seja dramática, é apenas um pouco de plástico / Ninguém vai amar você, se você não é atraente”, ela canta tentando mostrar a auto-aceitação. Influenciada pelo R&B, essa música é uma verdadeira crítica social, além de ser engraçada e cativante. Indo pelo lado oposto, “Mad Hatter” encerra o álbum da melhor maneira possível. Sob um ritmo mais rápido e fortes batidas, os métodos de composição são apaixonantes e criativos. Basicamente, esta canção pode ser resumida por uma frase: “Todas as melhores pessoas são loucas”.

A cantora afirma que ela não se importa de ser louca e que algumas das melhores pessoas também são. Através de um cativante e lunático refrão, Martinez abraça sua insanidade mútua e faz o ouvinte sentir sua loucura. Tudo somado, “Cry Baby” é um álbum irresistível e ambicioso que nos apresenta o melhor da Melanie Martinez. É um registro um pouco repetitivo, com algumas músicas soando muito semelhantes entre si, entretanto, sua produção é polida, contém temas habilmente orquestrados e um lirismo obscuro que mostra suas habilidades como letrista. No exterior, Melanie Martinez parece uma boneca delicada e frágil, que possui canções inocentes e infantis, como os próprios títulos sugerem (“Casa de Boneca”, “Leite e Biscoitos”, “Senhor Cabeça de Batata”)No entanto, se olharmos mais a fundo, podemos notar que o conteúdo deste álbum é extremamente escuro e sombrio. Sem dúvida, Martinez e companhia merecem créditos por toda a criatividade na concepção deste projeto. As letras melancólicas, voz peculiar, metáforas e mensagens impressionam e exalam uma profundidade capaz de manter o ouvinte interessado.

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Favorite Tracks:

“Soap” / “Pity Party” / “Mrs. Potato Head”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.