Resenha: Meghan Trainor – Title

Lançamento: 09/01/2015
Gênero: Pop, Doo-Wop, Soul
Gravadora: Epic Records
Produtores: Meghan Trainor, Kevin Kadish, Chris Gelbuda, The Elev3n e J.R. Rotem.

Meghan Trainor lançou três álbuns independentes antes de assinar com a gravadora Epic Records e alcançar o sucesso imediato com o single “All About That Bass”. A canção foi um smash hit, permaneceu por oito semanas em #1 na Billboard e vendeu mais de 5 milhões de cópias digitais nos Estados Unidos. Natural de Nantucket, Massachusetts, Meghan Trainor começou a cantar aos seis anos de idade, com seu pai na igreja, enquanto aos 11 anos começou a escrever suas próprias músicas. A cantora está atualmente com 21 anos e lançou o seu primeiro álbum de estúdio (por um grande gravadora) em 09 de janeiro deste ano. O disco, nomeado de “Title” (mesmo nome do EP lançado em 2014), estreou em #1 na parada de álbuns americana, vendendo cerca de 194 mil cópias na primeira semana. Também chegou ao número #1 na Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Reino Unido. A música de Trainor é predominantemente pop bubblegum e doo-wop, sendo musicalmente inspirada por seu amor pela música das décadas de 1950 e 1960.

O álbum, composto por 11 canções, foi escrito e produzido principalmente por Trainor e Kevin Kadish. Mas entre outros colaboradores temos Chris Gelbuda, Jesse Frasure, John Legend e Shy Carter. Aparentemente, Meghan Trainor se tornou uma artista muito conhecida da noite pro dia, mas, na verdade, ela já estava trabalhando na indústria musical há alguns anos. Porém, somente na metade de 2014, convencida pelo executivo de sua gravadora, que ela lançou “All About That Bass”. E para descartar qualquer hipótese de se tornar uma one hit wonder, logo em seguida ela lançou “Lips Are Movin” e conseguiu outra canção de sucesso que, por sinal, tem uma fórmula muito semelhante à “Bass”. Percebe-se por seus singles que Trainor é realmente obcecada pelo som que dominava as paradas musicas três décadas antes dela nascer. Em outras palavras, todas as músicas do “Title” são enraizadas nesse estilo que ela utilizou em “All About That Bass” e “Lips Are Movin”.

Felizmente, a maioria das músicas conseguem esculpir algumas melodias individuais muito boas e encontrar ganchos inteligentes dentro do seu molde. Em última análise, Meghan Trainor e Kevin Kadish equilibraram um pop adequado com uma sonoridade hip hop old-school, que consegue entreter. O álbum abre com “The Best Part (Interlude)”, uma pequena introdução acapela de apenas 24 segundos. É um teaser apropriado para o que está por vir e uma introdução perfeita para a sensação retrô-pop do álbum. Aqui, Trainor canta: “Mas a melhor parte em ser uma cantora nisso tudo / É cantar para o mundo as minhas músicas”. A primeira faixa completa do álbum é nada menos que a onipresente “All About That Bass”, responsável por catapultar a carreira de Meghan Trainor para o topo. Inegavelmente, ano passado não tinha como escapar deste hino extraordinariamente cativante. Desde sua percussão simples, o refrão grudento, a instrumentação esparsa, o som com infusão retrô até o ritmo doo-wop, enfim, tudo nessa música é a personificação do pop chiclete.

Meghan Trainor

Sua mensagem para as mulheres é simples e direta, a cantora diz à elas para abraçarem o seu corpo e sentirem-se confiantes. Mas como nem tudo são flores, “All About That Bass” também dividiu opiniões, sendo acusada de colocar mulheres umas contra outras e perpetuar a ideia de que a auto-estima deve ser medida pelo o que os homens gostam (“Mas posso rebolar, rebolar, rebolar, como devo fazer / Pois tenho aquela performance que os meninos querem (…) / É, minha mãe me disse “não se preocupe com seu peso” / Ela diz “meninos gostam de ter o que apertar à noite”). Alguns críticos inclusive disseram que a música vende uma marca de empoderamento falso. Isto porque na letra também encontramos versos como: “Você sabe que não vou ser uma vara pau, Barbie siliconada (…) / Pois você sabe, eu sou mais um corpo violão / Um corpo violão, não um tipo flauta”. Meghan Trainor já disse que não é feminista, logo algumas canções deste álbum acaba provando isto. O fato é que é muito difícil não gostar dessa música, do seu ritmo cativante e do sensual sotaque da cantora.

Logo em seguida, temos a faixa “Dear Future Husband”, canção esta que foi lançada como terceiro single em março de 2015. Escrita por ela e produzida por Kevin Kadish é, igualmente a “All About That Bass”, uma música pop e doo-wop, que fala sobre temas como casamento e pretendentes românticos. Essa rara mistura de pop com elementos dos bons e velhos tempos da música americana é realmente muito contagiante. “Dear Future Husband”, em outras palavras, é uma música bem sólida, embora possua uma tendência a ser repetitiva. Por ser muito parecida com os seus singles anteriores, também acabou criando uma pitada de homogeneidade na capacidade musical da cantora. Liricamente, “Dear Future Husband” possui uma sensualidade natural, com letras que pedem coisas ao seu futuro marido para satisfazer seus desejos como mulher. “Leve-me a um encontro / Eu mereço um descanso / E não esqueça as flores em todos os aniversários / Porque se você me tratar direito / Eu serei a esposa perfeita”, ela canta. Não é uma letra que diz como um homem pode satisfazer as necessidades sexuais de uma mulher, pelo contrário, mostra muitas facetas das quais os homens podem fazer para conquistar uma mulher.

O vídeo da música gerou alguns comentários negativos, com internautas e críticos acusando-o de sexista. Enquanto a linha, “Porque se você me tratar direito / Eu serei a esposa perfeita”, provavelmente gerou muitas indagações por parte de algumas feministas. Com apenas uma guitarra acústica ao fundo e a voz de Meghan como foco principal, temos a faixa “Close Your Eyes”. Uma linda e doce balada, que serve para esfriar as coisas um pouco após duas faixas up-tempo. O refrão é um dos seus pontos altos, onde Trainor canta: “Então, eu quero que você feche os olhos / Cante para o mundo esta noite, e mostrar-lhes o que é lindo”. A sua letra é realmente auto-positiva e serve como um tranquilizante, especialmente, por conta da simplicidade da produção e do seu tom emocional. Na quinta faixa, “3AM”, temos um ligeiro desvio da vibe retrô do álbum. Apesar de ainda ter um toque vintage, aqui há uma maior influência do R&B. Além disso, percebe-se também que Meghan Trainor e seu produtor Chris Gelbuda, inspiraram-se em “Roar” de Katy Perry e “Brave” de Sara Bareilles na construção dessa música. Porque os riffs do seu piano evoca imediatamente a sonoridade de ambas que, por sinal, já possuem uma estrutura semelhante.

Liricamente, “3AM” fala sobre a cantora querer falar com um cara de madrugada, simplesmente porque não consegue tirá-lo da cabeça. Na faixa seguinte, “Like I’m Gonna Lose You”, Meghan Trainor faz um dueto com o cantor John Legend. Essa é uma balada soul que, embora seja clichê, consegue fornecer um tom emocional e um ar de profundidade para o registro. Ambos possuem uma voz incrível, logo a música mantém-se delicada e romântica o tempo todo. “Bang Dem Sticks”, por sua vez, abre com belas trombetas e possui um vocal mais atrevido. Aqui, Kevin Kadish fica de lado, permitindo que The Elev3n assuma a produção, enquanto a cantora se arrisca a fazer um rap e se auto-intitula de M-Train. A sensibilidade de canção pop chiclete ainda permanece, ao passo que Trainor declara na letra seu amor por bateristas: “Eu tenho uma coisa por bateristas / O jeito como ele bate sacode meu coração”. A próxima faixa, “Walkashame”, fala exatamente sobre o que o título sugere, com Trainor expressando a vergonha que sente por chegar em casa na manhã seguinte e, depois, ficando indignada com a sugestão de que existe um porquê de ser envergonhar disso.

Meghan Trainor

“Não aja como se você não tivesse passado por isso / 7 da manhã com a cabeceira da cama”, ela canta. “Todo mundo sabe que é a caminhada da vergonha / Bem, o meu pai sabe que eu sou uma boa menina / Todos nós cometemos erros no mundo alcoólico”. É muito equivocado da parte de Trainor afirmar que tais atividades noturnas é contrária a pose de “boa menina”. Sonoramente, é uma música divertida que mantém o balanço cambaleante e a batida das outras faixas do álbum, enquanto seu lirismo possui uma jovialidade equivocada. A faixa-título, “Title”, apresenta uma combinação de pop e música caribenha com algumas linhas como: “Se não houver “joguinhos” / Não irei ficar a toa / Mas não explodir minha merda às 3 da manhã dizendo / “Como você precisa de mim agora?”. Essas letras, sobre querer o tipo certo de compromisso de um determinado indivíduo, são acompanhadas por um animado ritmo, talvez o primeiro do álbum que sente-se verdadeiramente contemporâneo. O refrão é certamente a parte mais cativante da música, enquanto na péssima ponte há a presença de um rap muito mal colocado.

Conforme a versão padrão do álbum chega ao fim, Trainor nos dá uma canção para ouvir junto daquela pessoa especial. Ela se chama “What If I”, uma linda balada de inspiração vintage e influenciada por músicas dos anos 1960. Vocalmente, Trainor é brilhante, indo e voltando entre o delicado e poderoso. Outro ponto forte desta música é o seu belíssimo arranjo de cordas, que lhe dá uma sensualidade e charme extra. A faixa de encerramento é “Lips Are Movin”, que muitos a chamam de “All About That Bass 2.0”. Isso porque ela utitliza-se da mesma fórmula, possuindo um ritmo e batida muito parecido com a citada. Igualmente à ela, “Lips Are Movin” é uma música pop-bubblegum e reminiscente do gênero doo-wop. No entanto, embora não traga nada de novo para o álbum e não tenha a mesma potência de “All About That Bass”, é inegavelmente uma canção cativante que se encaixa com o tema do registro. Sua batida reminiscente do gênero doo-wop, as harmonias e os ganchos chicletes, foram peças fundamentais para torná-la no segundo hit de Meghan Trainor.

É uma música que funcionou bem como encerramento, por ser bastante otimista. Essencialmente, “Title” é um álbum pop simples, divertido, refrescante e eficaz, que logo à primeira vista você percebe o quanto é agradável. Mas também é um material de poucas surpresas, ou seja, não espere nada de mais profundo ou algo além de “All About That Bass” que, por sinal, é a melhor coisa encontrada aqui. Quanto a Meghan ser talentosa não há dúvidas, seus vocais são fortes, flexíveis e fluem bem. Ela conseguiu reviver um estilo clássico, enquanto a produção apertada é quase que exclusivamente tratada apenas por Kevin Kadish. Sua escrita é relacionável e transpira confiança, mas também cruza muitas vezes a linha entre exagerada e presunçosa. O fato é que Trainor é claramente uma promessa e já provou que tem o que precisa para ter longevidade na indústria musical. Enquanto algumas das canções do “Title” não atingiram todo o seu potencial, o que nos resta é ficar ansioso para ouvir o seu próximo trabalho.

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Favorite Tracks: “All About That Bass”, “Dear Future Husband”, “Like I’m Gonna Lose You (feat. John Legend)”, “What If I” e “Lips Are Movin”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.