Resenha: Megadeth – Dystopia

Lançamento: 22/01/2016
Gênero: Thrash Metal
Gravadora: Universal Music
Produtores: Dave Mustaine e Chris Rakestraw.

Megadeth foi formado em 1983 pelo guitarrista Dave Mustaine e o baixista David Ellefson, logo após a saída de Mustaine do Metallica. É uma banda pioneira no cenário do thrash metal, sendo constantemente creditada, ao lado de Anthrax, Metallica e Slayer, como uma das responsáveis pelo desenvolvimento e popularização do sub-gênero. Lançado em 22 de janeiro de 2016, “Dystopia” é o seu décimo quinto álbum de estúdio. Produzido por Dave Mustaine e Chris Rakestraw, o álbum apresenta o já conhecido estilo técnico da banda, e volta a oferecer ritmos rápidos e arranjos bem complexos. Atualmente formada por Mustaine, David Ellefson, Kiko Loureiro e Chris Adler, Megadeth continua a explorar temas como violência, política, religião e morte. Eles são gigantes do metal que atingiram seu pico durante a década de 1980 e início de 1990. Mas, ainda hoje, são capazes de criar álbuns decentes e músicas dignas de compor sua sólida discografia. Ao longo dos últimos anos, eles passaram por diversos acontecimentos, incluindo a saída dos membros Chris Broderick e Shawn Drover. Ambos foram, mais tarde, substituídos por Kiko Loureiro (Angra) e Chris Adler (Lamb of God).

Embalado com 11 faixas no total, “Dystopia” abre com uma faixa intitulada “The Threat Is Real”. Uma canção exótica, com riffs poderosos, um ritmo acelerado, tons femininos ao fundo e um refrão cativante. O riff de guitarra realmente define o tom, tanto para a própria canção como para todo o álbum. Esse riff alucinante fica melhor a cada minuto transcorrido da música. A introdução é bem construída e reforçada pelo primeiro solo de Dave Mustaine no álbum. Da mesma forma, ele não perde tempo para fazer uma declaração ousada: “Um ataque mortal, a ameaça é real / Um tiro fatal, uma sede de sangue / O ato final, a ameaça é real”. “The Threat Is Real” rapidamente levanta a esperança desse álbum ser melhor que os últimos lançados e ser um retorno ao nível da qualidade da banda. A faixa-título, “Dystopia”, segue a mesma linha e inclui alguns ganchos melódicos muito agradáveis. É uma canção mid-tempo que possui todos os elementos que fazem do Megadeth uma banda singular. Suas melodias, empregadas de forma brilhante, também foram peças fundamentais para criar essa ótima música. Sua letra é rebelde, sua sintonia é variada e os riffs bem agitados e escuros.

Seu conteúdo lírico, aparentemente, possui um significado profundo e, curiosamente, também menciona a palavra “câncer”, assim como a faixa de abertura (“A maneira mais rápida de acabar com a guerra é perdendo / Ditadura e começar correndo ao lado / Você deve destruir o câncer em suas raízes”). A adição de Kiko Loureiro na banda foi realmente algo refrescante, pois ele roubou os holofotes com seus impressionantes licks e solos de guitarra. “Fatal Illusion”, terceira faixa, nos leva de volta para a velha escola do Megadeth. Essa canção emprega o metal clássico que fez a banda ficar conhecida. Depois de uma pequena introdução rígida, é o baixista David Ellefson que apresenta o riff principal. Mas, depois de alguns graves e tons de assinatura, o restante da banda começa a participar da música. Sua progressão lenta de acordes é, mais tarde, substituída por um ritmo up-tempo agressivo e uma estrutura peculiar da qual a banda já está acostumada a oferecer. O riff principal é realmente muito agradável, especialmente porque é apresentado na mesma veia de álbuns como o “Killing Is My Business… and Business Is Good!”.

Megadeth

Os vocais de Mustaine, a bateria de Chris Adler e o rápido baixo de Ellefson, fazem a canção percorrer através de um ritmo bastante poderoso. Os fãs mais antigos da banda, sem dúvida, irão apreciar essa música, visto que ela oferece uma nostalgia old-school frenética. As próximas canções também continuam a apresentar alguns riffs incríveis e uma estrutura geral que aprimora o thrash metal clássico do Megadeth. Um bom exemplo disso é a faixa “Death from Within”, quarta do repertório. Com um rufar de tambores constantes, essa canção concede um ritmo profundo, mistura de progressões e alguns riffs bem harmônicos. O foco deste número é baseado em uma estruturação tradicional, com versos pesados e um refrão sólido. Essa faixa realmente tem todos os elementos clássicos que os fãs esperam ouvir de uma música do Megadeth. A abundância desta canção encontra-se na guitarra de Mustaine e de Loureiro, assim como a dinâmica oferecida pelo baixo de Ellefson. “Não há lugar para correr / Chegou a hora / Nenhum lugar para se esconder / A lua está vermelha / Ninguém está a salvo”, zomba Mustaine em um dos versos. Realmente, ninguém está a salvo da natureza cativante desta canção.

A próxima faixa, “Bullet of the Brain”, é ligeiramente down-tempo, em comparação com as antecessoras. Ela começa com uma introdução acústica, mas isto é enganador, pois, logo em seguida, algumas guitarras distorcidas e batidas constantes aparecem. É uma faixa relativamente lenta, entretanto, estruturada por algumas guitarras em grande movimento. O refrão tem uma abordagem diferenciada para a banda, porém, igualmente interessante. Destaque para o ótimo solo oferecido por Kiko Loureiro, que opta por um cuidado maior durante sua execução. A próxima faixa, “Post American World”, aborda questões globais, sociais e políticas. Dave Mustaine se pergunta qual o verdadeiro impacto da América sobre o mundo e a sociedade. Desta forma, ele acaba abordando temas sensíveis como estereótipos, racismo e egoísmo. Ele não mede esforços para falar sobre a segregação de classes sociais (“Nós nos vemos através de olhares diferentes / Segregando-nos por classe e tamanho / Sou eu contra você em tudo o que fazem / Esse planete se tornou um desastre giratório”). Em seguida, isto é levado para pergunta central da música: “Como nós vamos parecer? / Em um mundo pós-americano / Por que se render a todos / Que se opõem ao mundo americano?”.

Musicalmente, “Post American World” é progressiva, down-tempo, afiada e infundida por uma variação interessante de guitarras distorcidas. Abrindo com mais uma introdução acústica, “Poisonous Shadows” apresenta uma melodia exótica e muito interessante. O trabalho agradável de Loureiro no piano, também dá à música uma escala obscura muito atraente. A bateria de Adler, por sua vez, também concede uma força formidável para a composição geral, enquanto a inclusão de sintetizadores deu uma lufada de ar fresco. É uma das faixas mais longas do repertório e um dos destaques da segunda metade do álbum. Os riffs pesados fazem uma introdução adequada para o thrash metal sinfônico desta música. “Poisonous Shadows” pode ser considerada a faixa mais melódica e obscura do registro, graças ao uso proeminente dos segmentos acústicos, do piano, dos pesadíssimos riffs de guitarra e dos vocais assombrosos de Mustaine. Sua estrutura também é muito interessante e acaba por terminar com uma seção de palavras faladas, através do apoio da sombria linha de piano. A oitava faixa, “Conquer or Die!”, é apenas instrumental e também começa com uma introdução acústica apresentada por Kiko Loureiro.

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Essa canção coloca o guitarrista brasileiro no centro do palco, graças ao seu formidável trabalho na guitarra elétrica e acústica. No geral, a faixa contém um grande riff principal e uma quantidade enorme de solos. Embora seja apenas instrumental, não deixa de ser atraente como o restante do repertório. É, definitivamente, um número interessante do ponto de vista criativo. Em seguida, “Lying In State” entra em ação através de rápidos riffs de guitarra e poderosas letras. Essa música traz um novo nível de intensidade, enquanto fornece um senso de urgência por conta dos vocais acelerados. É uma pista grandiosa, consistente e politicamente carregada. Mais uma vez, Mustaine apresenta sua visão sobre a política: “O que estamos testemunhando é o declínio da civilização ocidental / Esmagando o nosso potencial e empilhando-lo, como a história irá se nos retratar? (…) / Um legado duradouro ou ruína trazida às pressas? / O inimigo da verdade está mentindo lá no estado”. Os rápidos riffs permanecem estáveis e presentes ao longo de toda a música. Ou seja, em outras palavras, outra atuação clássica do Megadeth.

Em seguida, “The Emperor” surge com uma pergunta central: “Quem você, quem você pensa que é? / Algum tipo de superestrela? Nós veremos!”. É uma canção um pouco mais otimista, em comparação com o restante do álbum. Ela exala um metal mais melódico, em vez do habitual thrash metal da banda. Dessa forma, ajuda a mostrar a verdadeira criatividade e versatilidade do Megadeth. Consequentemente, os versos empregam um sulco diferente, que articula-se em direção ao hard-rock. Uma troca de solos de guitarra entre Mustaine e Loureiro, ainda mantém as coisas nas alturas. “Dystopia” encerra os trabalhos com a faixa “Foreign Policy”, cover da banda Fear. Para aqueles que nunca ouviram falar do Fear, eles são uma banda americana de punk hardcore, liderada pelo vocalista Lee Ving. Tecnicamente, a musicalidade do Megadeth não se encaixa em covers punk, mas, felizmente, a voz de Dave Mustaine se adequou bem ao gênero. Portanto, a versão do Megadeth proporcionou uma faixa bônus poderosamente agradável. Um número de encerramento que manteve a adrenalina familiar da banda, bem como ofereceu uma letra rebelde, raivosa e obscura.

Com um ritmo acelerado, riffs em excesso de velocidade e vocais pesados, Megadeth manteve a alta intensidade do repertório até a última faixa. “Dystopia” não é um álbum impressionante, mas é realmente muito bom. Como um todo, é mais um material bem sucedido por parte da banda. É cheio de riffs complexos, batidas pesadas, solos formidáveis e letras agressivas. Não é um registro inovador, mas pode ser considerado uma evolução de alguns dos seus antigos álbuns. É, sem dúvida, um disco muito melhor que o seu antecessor, o “Super Collider”. Aqui, Dave Mustaine alcançou resultados incríveis e é um dos seus melhores esforços como vocalista nos últimos anos. A instrumentação geral do álbum também atinge um grande nível de excelência e faz o Megadeth voltar a um dos seus melhores momentos. Mustaine conseguiu, portanto, criar um disco de boa qualidade, com ajuda de parceiros talentosos, como Loureiro, Ellefson e Adler. No geral, “Dystopia” é um retorno triunfante para o Megadeth e acabou restabelecendo o seu status de grande força dentro do thrash metal.

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Favorite Tracks: “The Threat Is Real”, “Dystopia”, “Fatal Illusion”, “Post American World” e “Poisonous Shadows”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.