Resenha: Mark Ronson – Uptown Special

Lançamento: 13/01/2015
Gênero: Funky, R&B e Pop
Gravadora: RCA Records
Produtores: Mark Ronson, Jeff Bhasker, Bruno Mars, Emile Haynie, Boys Noize, James Ford e Riton.

Embalado pelo huge hit “Uptown Funk” em parceria com Bruno Mars, que permaneceu por incríveis 14 semanas em #1 na Billboard Hot 100, Mark Ronson lançou em janeiro de 2015, seu quarto álbum de estúdio. Intitulado de “Uptown Special”, o disco estreou em #5 na parada de álbuns dos Estados Unidos vendendo um total de 30 mil cópias na primeira semana. Mark Ronson é um músico britânico muito talentoso, vencedor de 3 Grammy Awards e 2 BRIT Awards, e que já produziu para diversos artistas, entre eles Amy Winehouse, Lily Allen, Christina Aguilera, Paul McCartney, Robbie Williams e Adele. Ele inclusive já recebeu mais atenção por suas produções para outros artistas, do que por seus próprios lançamentos. Mas isso mudou um pouco com o lançamento do single “Uptown Funk” e, consequentemente, desse álbum mais recente. Aqui, Ronson construiu um repertório com 11 faixas que apresentam um funky clássico e R&B, que lembra muito canções das lendas James Brown e Stevie Wonder (que por sinal aparece no álbum). Mesmo sem sacrificar sua autenticidade, o cara conseguiu criar uma coleção de músicas acessíveis ao grande público e sem ficar totalmente restrito aos seus estilos.

Na produção e escrita, além do próprio Mark Ronson, temos ainda a presença do incrível compositor Jeff Bhasker (que já trabalhou com Kanye West, Drake, Beyoncé e Alicia Keys), e Michael Chabon, vencedor do Pulitzer Prize e um dos autores mais famosos de sua geração. Nos vocais também há um rol especial de músicos de elite, como Stevie Wonder, Andrew Wyatt e Kevin Parker. Colocando todos esses artistas no papel, mais os vários estilos reminiscentes de Ronson, como o disco, funky, rock, jazz e R&B, você já começa a imaginar o quanto esse álbum pode ser bom. O resultado provavelmente agradou seus fãs e devotos desses gêneros musicais mais antigos. Musicalmente, este álbum sente-se como uma reinicialização do som de assinatura de Ronson. Depois de alguns anos onde pareceu perder um pouco de sua auto-confiança musical, que a propósito resultou no morno “Record Collection”, ele soa revitalizado e retornou em grande estilo. “Uptown Special” é extremamente proficiente e divertido, com muita coisa para desfrutarmos, mesmo que também tenha algumas faixas insubstanciais e um pouco insatisfatórias. O álbum abre com a canção “Uptown’s First Finale”, que tem menos de 2 minutos de duração e é influenciada pelo jazz. O tom de assinatura inconfundível da gaita de Stevie Wonder é que começa os trabalhos aqui, seguida logo depois por vocais de Andrew Wyatt.

Wonder não canta, mas definitivamente sua gaita se sobressai mais que qualquer outra coisa nessa introdução. Outra faixa que apresenta a famosa gaita de Stevie Wonder é “Crack In the Pearl, Pt. II”, última do registro. A presença de Jeff Bhasker também foi essencial nessa canção, ao apresentar vocais em camadas mesclando com o bom instrumental. Aqui Ronson também optou por incluir a linha, “Nine exits north of Las Vegas, Vegas”, cantada inicialmente em “Uptown’s First Finale”. Três músicas no álbum apresentam vocais de Kevin Parker da banda Tame Impala. A primeira delas é a faixa “Summer Breaking”, que já dá indícios de que “Uptown Special” não é apenas um disco de funky. A música é caracterizada por uma ótima progressão de acordes jazzy e ainda possui outro ingrediente improvável: letras de Michael Chabon. O falsete de Kevin Parker deriva casualmente durante toda a execução, tão descontraído quanto os riffs de guitarra e a direção retrô geral da música. Essa sensação arejada de “Summer Breaking” foi um começo perfeito para o registro após a bela introdução com Stevie Wonder. Em seguida, artistas como Mystikal tem a chance de brilhar na otimista “Feel Right”.

Mark Ronson

Essa é um funky totalmente inspirado por James Brown, puramente por causa da profanação intensa e do rap agressivo de Mystikal sobre tambores rotativos. Sua melodia é poderosa, embora relativamente simples, e ainda possui riffs de guitarra e uma grande linha de baixo. Essa canção é claramente uma vitrine para o rapper de New Orleans, que abusa de palavrões, e acrescenta um peso de hip-hop adequado para o álbum. A quarta faixa é nada menos que a onipresente “Uptown Funk”, primeiro single do álbum, em colaboração com Bruno Mars, que acabou tornando-se um verdadeiro hit global. Com escrita adicional de Philip Lawrence e Jeff Bhasker, a música é um funky que possui uma natureza muito divertida e um incrível som descolado. O vocal de Mars, a letra grudenta, o instrumental dançante, tudo foi eficaz para transformá-la no sucesso que foi. As tendências musicais de Ronson funcionaram brilhantemente, criando uma música que já soa como um clássico instantâneo logo na primeira escuta. Na minha opinião, desde o seu trabalho com Amy Winehouse e Lily Allen, que Ronson não havia encontrado um artista que se adapte tão perfeitamente ao seu som como Bruno Mars.

Um outro destaque, embora seja um pouco repetitiva, é a faixa “I Can’t Lose”, canção inspirada pelo pop oitentista em colaboração com até então desconhecida Keyone Starr (cantora que Ronson encontrou em Mississippi, quando estava em busca por talentos vocais para o álbum). A voz dela é bastante infecciosa, irresistível e adequou-se muito bem a melodia vocal insposta por Jeff Bhasker e Ronson. Cheia de otimismo, a musica transpira legal com riffs de guitarra funky, sintetizadores e ainda fornece um brilhante solo de sax. Na próxima faixa, “Daffodils”, temos novamente a presença e interpretação de Kevin Parker. Essa é um funky quase fantasmagórico, com o frontman do Tame Impala entregando vocais influenciados pelo rock psicodélico, em cima de letras alucinógenas (“Largar outro que narciso / Pode ir em frente até de manhã / Largar outra vela narciso / Direito fora do mapa até de manhã”). A canção ainda apresenta mais do falsete arejado e discreto de Parker, que dado a seus créditos na escrita, deixa evidente que a mesma também foi influenciada por sua banda. “Daffodils” é tão funky que é difícil de encontrar outras maneiras para descrevê-la. É particularmente uma das canções mais fortes e originais encontradas aqui, além de ser um ajuste ideal para a sonoridade global do “Uptown Special”.

Mark Ronson

A segunda parte do álbum, apesar de não ter a presença de qualquer um dos singles, é por todos os meios ainda tão forte quando a primeira. Ela começa com “Crack In the Pearl”, uma curta e soulful colaboração com Andrew Wyatt, que é basicamente uma continuação da faixa de abertura. Ela serve para dar ao ouvinte uma pausa de toda a emoção que vinha acontecendo no álbum até agora. Não é a faixa mais forte do registro, mas dá alguma variação para o mesmo e evita que ele torne-se monótomo. Em outras palavras, essa música é convincente, melodramática e ainda ajuda a transformar o álbum em uma experiência mais enriquecedora musicalmente. O co-produtor do álbum e Grammy-Winner, Jeff Bhasker aparece como vocalista na faixa “In Case of Fire”, a com o som mais autêntico do funky do início dos anos 1980. Repleta de um ruído ambiente, riffs de guitarra incrivelmente cativantes e sintetizadores familiares, essa música é certamente um dos pontos altos do álbum. O doce falsete de Bhasker contrasta bem com peso e melancolia da letra: “Você iniciar incêndios que você não pode colocar para fora / Basta vê-lo queimar / Deixe queimar”. “In Case of Fire” é ao mesmo tempo suave e angustiante, além do seu refrão mostrar um lado de Ronson que acena mais para o rock.

A terceira e última colaboração de Mark Ronson com Kevin Parker acontece na faixa “Leaving Los Feliz”. E essa soa tão brilhante e corajosa quanto as outras duas primeiras. Com uma ranhura rock, densamente definida, e cheia de melodias pop, essa é uma das músicas mais alegres e faz com que o disco fique bem otimista próximo do seu fim. Os vocais inerentemente psicodélicos de Parker, mais uma vez, estão bastante crocantes e adicionam uma narrativa interessante. Inicialmente, podia parecer estranho um cantor de indie-rock ser anunciado para apresentar três faixas no álbum, no entanto, isso só serviu para mostrar a visão musical de Ronson e também o talento que Parker tem para encaixar-se em qualquer gênero. Outra participação com Andew Wyatt acontece na penúltima faixa “Heavy and Rolling”, onde temos falsetes e agradáveis riffs chorosos de guitarra. É outro esforço soulful, assim como ocorre em muitas outras músicas do álbum, que consegue agradar facilmente e ainda possui um grande solo de teclado no final.

No total, “Uptown Special” traz uma mistura dos gêneros favoritos de Mark Ronson, combinados com letras de um autor que ele admira e, de quebra, ainda possui um smash hit em destaque. O talento de Ronson para arranjos e a produção em geral está em grande forma, o álbum flui de uma forma meticulosamente planejada e definida. Esse é essencialmente um registro de funky manipulado para transmitir uma sensação de pop contempoâneo. Portanto, embora “Uptown Special” não seja uma obra-prima ou um trabalho revolucionário, é um forte retorno de Ronson, após 5 anos sem lançar um material próprio. É um show de variedades, onde cada faixa desempenha sozinha seu próprio mérito e simultaneamente complementa as outras. Uma única crítica que pode ser feita ao “Uptown Special” reside na sua essência de registro totalmente colaborativo. Isto é, apesar de ter artistas incrivelmente talentosos presentes, o álbum carece em muitos momentos de uma voz singular. Enfim, fora isto não há o que reclamar à respeito do disco que, sem dúvida, é um dos melhores álbuns do gênero lançados em 2015. Ele prova o quanto realmente bom Mark Ronson é no que faz.

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Favorite Tracks: “Summer Breaking (feat. Kevin Parker)”, “Uptown Funk (feat. Bruno Mars)”, “Daffodils (feat. Kevin Parker)”, “In Case of Fire (feat. Jeff Bhasker)” e “Leaving Los Feliz (feat. Kevin Parker)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.