Resenha: Marilyn Manson – The Pale Emperor

Lançamento: 15/01/2015
Gênero: Rock Alternativo, Hard Rock
Gravadora: Hell, etc.
Produtores: Marilyn Manson e Tyler Bates.

A banda Marilyn Manson foi fundada em 1989 pelo vocalista de mesmo nome e Daisy Berkowitz, sendo originalmente chamado de Marilyn Manson & the Spooky Kids. A sua formação mudou muito entre os lançamentos de seus álbuns, atualmente é constituída pelo vocalista homônimo, o baixista Twiggy Ramirez, o guitarrista Paul Wiley, o tecladista Daniel Fox e o baterista Gil Sharone. Brian Hugh Warner, conhecido profissionalmente como Marilyn Manson, é o único membro remanescente da banda, muito conhecido por sua personalidade controversa no palco. Seu nome artístico, assim como o da banda, foi formado pela justaposição dos nomes da atriz Marilyn Monroe e do assassino em série Charles Manson. Sua imagem pública também sempre foi muito polêmica, lhe rendendo uma reputação na mídia como uma figura controversa e supostamente influência negativa para os jovens. Tanto Marilyn Manson como os outros membros da banda costumam usar maquiagens e trajes extravagantes, e se envolver em comportamentos intencionalmente chocantes tanto no palco como fora dele.

No passado, as letras do grupo foram, muitas vezes, alvo de críticas por seu sentimento anti-religioso e referências a sexo, violência e drogas. Suas performances ao vivo, inclusive, foram chamadas de demasiadamente ofensivas e obscenos, a ponto de vários ocasiões, sofrerem protestos e petições contra a suas apresentações. Porém, ao longo dos anos 2000, a controvérsia em volta deles começaram a diminuir, assim como a popularidade no mainstream. De qualquer forma, eles atraíram muito sucesso nos Estados Unidos, com três dos cinco álbuns recebendo certificado de platina. O nono álbum da banda foi lançado em 15 de janeiro de 2015 e chama-se “The Pale Emperor”. Produzido por Manson e o novato Tyler Bates, o álbum evita o gênero rock industrial habitual da banda em favor de um som com influências do blues-rock. Lançado pela própria etiqueta do Marylin Manson, a Hell etc., “The Pale Emperor” é o primeiro lançamento desde seu retorno em 2008 e o primeiro que não dispõe da escrita e contribuições do baixista Twiggy. Liricamente, é um material dedicado à mãe de Manson, que morreu durante a sua produção e depois de uma batalha de oito anos contra a doença de Alzheimer e demência.

Manson aparentemente obteve um pequeno progresso como letrista no “The Pale Emperor”, ele parece estar em um estado de espírito introspectivo, refletindo sobre suas próprias deficiências e identidade, bem como a repartição dos costumes sociais em constante evolução. No entanto, em alguns momentos ele também tenta ser engraçado, pois tanto em suas referências bíblicas como os acenos para a mitologia grega, ouvimos um humor malicioso. Musicalmente, o album concentra-se principalmente em faixas mid-tempo que são, de certa forma, influenciadas pelo blues, mas mantendo o glamour habitual e industrial da banda. Os elementos mais pesados estão no baixo que, por sinal, é o instrumental central encontrado aqui, muitas vezes até mais do que as guitarras e o teclado. Mesmo com o progresso nas letras, o repertório não contém muita coisa verdadeiramente memorável, assim como não tem músicas individuais de grande destaque (ao menos que a repetição constante de alguma delas faça com que fique presa na sua cabeça). Em muitos aspectos temos apenas o mesmo velho Marilyn Manson tentando recapturar os seus dias de glória.

Marilyn Manson

O álbum começa com “Killing Strangers”, um blues-rock que investe fortemente nos licks de guitarra e no groove. É uma música sinistra que marcha de forma arrogante, com o riff principal e o tom sendo basicamente o mesmo. Prova ser um exercício meio cansativo, repetitivo e minimalista, que não poderia ser confundido com nenhum outra artista, se não o próprio Marilyn Manson. Na maior parte da canção ele canta, sussurra sedutoramente e grita seus versos enquanto alguns tambores provocam um ritmo que dá peso às letras. “Deep Six”, segundo single, é um pouco melhor e a música mais metálica encontrada nesse registro. Ela mostra que Manson ainda possui um lado agressivo e sem medo de demonstrar isso. É uma canção musicalmente mais diversificada e representa um dos pontos mais altos do álbum, uma agradável mistura de hard rock com elementos industriais. Ainda apresenta um desempenho ameaçador de Manson, além de uma polida produção levada por um riff de guitarra em potencial.

Seu conteúdo lírico é mais uma vez incrivelmente repetitivo, onde vemos a banda brincar com velhos temas como poder, drogas, sexo, violência e depedência. O primeiro single, “Third Day of a Seven Day Binge”, contém progressões de acordes de guitarra interessantes e com uma clara influência do glam-rock. Foi uma excelente escolha ao ser lançada como carro-chefe do álbum, porque tem um ritmo lento, pecaminoso e deu ao ouvinte uma boa ideia do que encontrar no restante do “The Pale Emperor”. Além disso, ainda tem desde uma pulsante linha de baixo impulsionando-a inteiramente, como também uma rígida bateria e a marca registrada de Manson nos assombrosos vocais. O produtor Tyler Bates trouxe um estilo diferente de tocar guitarra do que nós estamos acostumados a ouvir em álbuns do Marilyn Manson. Isto é notado com maior facilidade na quarta faixa, intitulada “The Mephistopheles of Los Angeles”. Uma música que lamenta-se através dos seus licks de guitarra e percorre através de fortes batidas de tambor. Essa também encaixa-se bem com o restante do repertório, embora seja um pouco mais otimista e rápida que as anteriores.

Sem dúvida, é uma das canções mais poderosas do álbum, apesar de muito parecida liricamente com as demais. Mas isso deve-se ao fato das letras de Warner estarem muito similares, com pouquissímas variações de uma para a outra. “Warship My Wreck” começa com um ambiente assustador, sombrio e escuro. Uma introdução muito cinematográfica que, inclusive, nos remete ao segundos iniciais de “Deep Six”. Nesta faixa encontramos versos como: “Cicatrizes em meus dedos, contusões no meu pescoço / Quebrando minhas correntes, adorando minha ruína (…) / Corte as mãos fora / Então suicide a sua alma”. Novamente, Marylin Manson entrega letras muito repetitivas, ao passo que o seu vocal está praticamente monótomo ao longo do tempo de execução da música. Felizmente, a natureza e atmosfera da mesma te convida a repeti-la alguns vezes. Os seus teclados minimalistas, guitarras contidas e o baixo, misturados a experimentação em texturas com múltiplas camadas, ficaram admiráveis. Em seguida, temos uma canção rock pesada com uma forte bateria, chamada “Slave Only Dreams to Be King”. Nessa faixa os vocais de Manson estão bem colocados, mas um pouco mais histéricos em sua maior parte.

Marilyn Manson

Manson sempre teve atitudes que o colocava contra as crenças cristãs e isso ainda não mudou. “Slave Only Dreams to Be King”, por exemplo, abre com um breve discurso feito por um pregador, enquanto na letra ele mostra como e porque se opõe ao que é dito. No refrão ele continua a ser repetitivo, como ouvimos na maior parte do registro, além de fornecer rimas pobres e um lirismo sem brilho. A segunda metade do álbum, a propósito, não tem a mesma energia que a primeira. Eu acredito que com algumas manobras na posição das faixas isto teria sido evitado. A sétima faixa, “The Devil Beneath My Feet”, é uma mid-tempo com um tom dançante e arejados sintetizadores. Junto da presença de pesados riffs de guitarras, aqui ainda tem uma batida de tambor motriz que a impulsiona inteiramente. Liricamente, Manson vira seu script contra a religião, falando que é capaz de cuidar de si mesmo e não precisa de mais ninguém fazendo isso para ele. Abrindo com explosões ameaçadoras de sintetizadores temos a faixa “Birds of Hell Awaiting”, que traz de volta a influência do blues que pairava sobre as primeiras faixas. Mas por qualquer meio, essa não é uma faixa de destaque, simplesmente porque ela tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo.

Manson entrega vocais convencionais, em tons ameaçadores, com uma extravagância teatral e todos os gemidos de dor e cansaço que conseguiu passar. Sua estrutura é sombria, como todo o registro, mas definitivamente pode ser considerada um tropeço ou anomalia para o conjunto. “Cupid Carries a Gun” é provavelmente a faixa mais popular de todo o álbum, pois foi música-tema da série “Salem” da FOX. Ela apresenta um dos melhores vocais do álbum, uma mid-tempo inspirada pelo blues-rock que faz uso de uma guitarra elétrica, piano e uma linha de guitarra acústica em sua introdução. É um bom exemplo de uma abordagem em mais camadas, onde várias paisagens sonoras, como teclados e piano se tornam o seu principal fundamento. É uma música que flui livremente e possui um poderoso refrão, além de ser bem executada. A voz rouca e baixa de Warner ajuda a concretizar uma escuridão, bizarrice misteriosa e estranheza que assombra a letra. Em vários momentos o seu lirismo passa a incorporar referências a feitiçaria e invocar bruxas, cobras, aranhas e corvos. Abrindo com sons de coiotes temos a última canção “Odds of Even”, que mostrou ser uma boa opção para encerrar o álbum. É a faixa mais longa, com mais de 6 minutos de duração que poderia até ser trilha sonora de um filme de terror.

O ritmo bluesy, juntamente com o forte trabalho no baixo, consegue resumir muito bem todo o contexto desse registro. Tudo somado, “The Pale Emperor” é um registro agradável. Está longe de ser o mais pesado do Marylin Manson, mas é um dos mais fortes. Não dá para negar que as canções, no geral, são muito semelhantes em seu ritmo e em vários outros aspectos. Porém, a produção global também é inegavelmente muito boa, ao contrário do disco “Born Villain” de 2012. A angústia e a agressividade típica da banda ainda está lá, mas apresentada em um formato mais maduro. Foi bom apreciar esses sinais de maturidade no comportamento de Warner, porque isso ajudou a criar uma atmosfera diferente ao longo de todo o álbum. Além disso, Tyler Bates foi um colaborador adequado que ajudou a impulsionar a criatividade em diversos momentos. Mesmo que o trabalho das guitarras não tenham sido tão contundentes, como em seus outros discos, você percebe o quão cinematográfico as músicas aqui são. A forte corrente do blues-rock que permeia em algumas faixas, algo atribuído por Bates, provavelmente vai aparecer em futuros trabalhos da banda. Em última análise, digo que o “The Pale Emperor” acabou sendo a oferta mais agradável que o Marylin Manson ofereceu nos últimos dez anos.

Favorite Tracks: “Deep Six”, “Third Day of a Seven Day Binge”, “The Mephistopheles of Los Angeles”, “Warship My Wreck” e “Cupid Carries a Gun”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.