Resenha: Maria Rita – Coração a Batucar

Lançamento: 11/04/2014
Gênero: Samba, MPB
Gravadora: Universal Music
Produtores: Maria Rita e Jota Moraes.

“Coração a Batucar” é o título do quinto álbum de estúdio de Maria Rita, lançado em 22 de Março de 2014 pela gravadora Universal Music. No disco, a cantora volta a se dedicar ao samba e a trabalhar com alguns compositores como Arlindo Cruz e Serginho Meriti. A produção de “Coração a Batucar” foi gravada praticamente ao vivo, em uma autêntica roda de samba. Sua turnê intitulada “Turnê Coração a Batucar” teve estreia no dia 26 de Abril de 2014 na Fundação Progresso no Rio de Janeiro, mas antes teve uma pré-estreia em Lorena, no interior de São Paulo. “Costumo dizer que o primeiro show é sempre uma pré-estreia. É quando podemos fazer os últimos ajustes, acertar os detalhes”, afirmou Maria Rita. “A nossa disposição no palco se dá de uma forma que a plateia pode ver a minha interação com os músicos, sem que para isso eu precise estar de costas para o público”, antecipou.

Filha da cantora Elis Regina e do arranjador e pianista César Camargo Mariano, Maria Rita iniciou sua carreira com cerca de 24 anos, apesar de querer cantar desde os quatorze. A carreira de sua mãe, muito famosa no Brasil, influenciou no adiamento de sua própria trajetória. O seu sucesso na música foi proporcional à altura de seu talento como cantora e produtora, Maria Rita já se consagrou como um verdadeiro ícone da MPB. Ganhadora de 11 prêmios Grammy Latino, incluindo o prêmio de “Melhor Artista Revelação”, única brasileira a vencer nesta categoria. Em 2014, inclusive, o “Coração a Batucar” foi premiado na categoria de “Melhor Álbum de Samba / Pagode”. A ideia de dedicar o álbum totalmente ao samba partiu do momento que se apresentou no Palco Sunset do Rock in Rio em setembro de 2013. Na ocasião, Maria Rita montou um show especial apenas com canções de Gonzaguinha, algo que já tinha vontade de fazer há algum tempo.

Com produção da própria cantora e arranjos de Jota Moraes, “Coração a Batucar” é o seu segundo trabalho dedicado exclusivamente ao samba. Dentre os muitos compositores do álbum temos a presença de Arlindo Cruz, Noca da Portela, Xande de Pilares, Joyce Moreno e Rodrigo Maranhão. Com o sucesso do disco, Maria Rita resolveu gravar uma edição especial em CD e DVD, que foi lançado recentemente, no dia 24 de março de 2015. Esta edição traz imagens inéditas de um show exclusivo e intimista gravado nos estúdios Na Cena, em São Paulo. Dirigido por Hugo Prata, o DVD inclui músicas do álbum “Coração a Batucar”, além de um making of e uma versão inédita da música “Bola Pra Frente”, com participação da Orquestra Projeto Rumpilezzinho que foi registrado em Salvador.

Maria Rita

Os arranjos do pianista Jota Moraes, nome recorrente em discos de MPB, aparecem no disco, assim como a percussão de André Siqueira e Marcelinho Moreira. Três composições de Arlindo Cruz e um grande samba de Joyce Moreno, valorizam o repertório que está à altura da intérprete. Ambientado entre o fundo de um quintal e o interior de uma boate, o samba de Maria Rita também ganha tonalidades românticas e letras positivistas. “Meu Samba Sim Senhor”, de Fred Camacho, Marcelinho Moreira e Leandro Fab, abre o álbum com um clima bem agitado e mostrando uma Maria Rita bem confiante. No toque de instrumentos como surdo e cuíca, a cantora imediatamente já busca uma conexão com o ouvinte (“…Eu vou representar com todo o meu amor / Cantando por aí / Levando a alegria pro meu povo…”).

A percussão dividida por Marcelinho Moreira e André Siqueira esquenta o samba em “Saco Cheio”, sucesso de Almir Guineto de 1981, que tem seu deboche acentuado pelo canto preciso da cantora. Na letra Maria Rita brinca com o hábito do povo brasileiro de colocar Deus em tudo (“Tudo que se faz na terra se coloca Deus no meio / Deus já deve estar de saco cheio”). Gravada anteriormente por Rodrigo Maranhão, do seu disco “Passageiro” (2010), “Fogo No Paiol” é menos incendiante que as faixas anteriores. Isso por causa dos arranjos melhores trabalhados, pelo pianista Jota Moraes, que acenam ligeiramente para o jazz. Com o Quinteto em Branco em Preto, a faixa “No Meio do Salão” (Magnu Sousá, Maurílio de Oliveira e Everson Souza) faz Rita se soltar ainda mais em sua interpretação.

Maria Rita

“Abismo”, escrita por Thiago Silva, Lele e Davi, é um pagode romântico e um dos momentos mais suaves de todo o registro. Sua letra é bem bonita, falando sobre a dor do amor (“De onde vem esse jeito / Se eu não fiz nada contigo / Não sei por que me julgar”). O ambiente romântico permanece na faixa seguinte, “Vai Meu Samba” aparece e fornece composições de Noca da Portela e Sérgio Fonseca. É uma faixa mais calma que, inclusive, traz a participação do filho da cantora, Antônio, de 9 anos, no tamborim. Demonstrando total segurança no território que pisa, Maria Rita fala sobre a dor causada pelo fim de relacionamentos na sétima faixa, “Abre o Peito e Chora”. Embora tenha um ritmo agitado, a letra, escrita por Rodrigo Leite e Serginho Meriti, entrega versos como: “Pode chorar / O choro é a voz do sofrer / Gemendo em silêncio, gritando bem alto / Pro novo sorriso poder despertar”.

Em “Bola Pra Frente”, com um clima cheio de positivismo e introduzida pelo piano, Rita interpreta uma das letras mais grudentas do disco, composta por Xande de Pilares e Bernini. “Nunca Se Diz Nunca”, por sua vez, aparece com um samba bem harmonioso e, novamente, composição de Xande de Pilares, porém dessa vez ao lado de Charlles André. Lançada como primeiro single, a faixa “Rumo ao Infinito”, é composição de Arlindo Cruz, Marcelinho Moreira e Fred Camacho. É definitivamente um dos pontos altos do repertório, não foi à toa que foi a primeira música de trabalho. O seu arranjo atrevido e refinado é um dos momentos mais percussivos e rítmicos do álbum. Os contracantos de “Mainha Me Ensinou” indicam que, beneficiada pela herança genética, Maria Rita aprendeu a cantar um samba que parece realmente seu.

“No Mistério do Samba”, penúltima faixa e composição de Joyce Moreno, temos além de um tema alegre e iluminado, uma das melhores homenagens ao samba. Uma canção cheia de classe, confiança vocal e ousadia. Fechando o registro, temos a faixa “É Corpo, É Alma, É Religião”, outra composição de Arlindo Cruz ao lado de Rogê e Arlindo Neto. Essa foi anunciada dia 10 de fevereiro de 2014 pelas redes sociais da cantora e da Universal Music, lançada oficialmente como segundo single. Aqui, a cantora faz questão de deixar claro que “não nasci no samba, mas o samba nasceu em mim”, explicando o seu amor pelo gênero musical. Maria Rita não é apenas a filha de Elis Regina, ela absoluemtante já conquistou seu espaço na MPB e mostrou seu verdadeiro talento para todos. Quando gravou “Samba Meu” em 2007, a cantora afinou o corpo e subiu o morro guiada por Leandro Sapuchay, seu parceiro na época. Sete anos depois, Maria Rita voltou para o samba e produziu um disco calcado em uma sonoridade convincente e interpretações cheias de emoção.

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Favorite Tracks: “Abismo”, “Rumo Ao Infinito” e “É Corpo, É Alma, É Religião”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.