Review: Madonna – Rebel Heart

Lançamento: 06/03/2015
Gênero: Pop
Gravadora: Interscope Records / Live Nation Entertainment
Produtores: Madonna, Diplo, Ariel Rechtshaid, Avicii, DJ Dahi, Blood Diamonds, Billboard, Jason Evigan, Shelco Garcia & Teenwolf, Kanye West, Mike Dean, Charlie Heat, Toby Gad, AFSHeeN, Josh Cumbee, Salem Al Fakir, Magnus Lidehäll, Vincent Pontare, Astma & Rocwell e Carl Falk.

Em novembro de 2014, um hacker invadiu o computador da Madonna e espalhou pela internet um rascunho do que poderia ser o seu novo álbum. Logo em seguida, ela respondeu simplesmente lançando na iTunes Store seis novas canções e pedindo aos fãs que esperassem pelo álbum completo, que viria a ser lançado em 2015. Intitulado “Rebel Heart”, o álbum foi lançado oficialmente em 06 de março de 2015 via Interscope Records. Ele estreou no número #2 da parada de álbuns da Billboard ao vender pouco mais de 121 mil cópias. No começo do ano, Madonna chegou a fazer aparições e performances no Grammy Awards e BRIT Awards para promovê-lo. Após a conclusão da tour do disco “MDNA” (2012), Madonna começou a trabalhar no “Rebel Heart” ao longo de 2014 co-escrevendo e co-produzindo-o ao lado de vários músicos, incluindo Diplo, Avicii e Kanye West. Ao trabalhar com um alto número de colaboradores, a Rainha do Pop enfrentou problemas para manter um som coeso. Entretanto, o “Rebel Heart” pode ser considerado o seu melhor material desde o “Confessions On a Dance Floor” (2005), disco lançado há uma década.

Tematicamente, “Rebel Heart” representa duas facetas diferentes da cantora, um lado romântico e outro mais rebelde. O primeiro deles trata de amores perdidos, enquanto a outro mostra uma Madonna libidinosa e cheia de autoconfiança. Os temas, aparentemente, nasceram e cresceram organicamente durante as sessões de gravação e de escrita. Algumas canções são realmente autobiográficas em sua natureza, enquanto outras são amorosas e introspectivas. Musicalmente, é um dos seus trabalhos mais versáteis até a presente data. Aqui, ela fundiu uma variedade de gêneros musicais, como o house, trap, reggae e música eletrônica, bem como utiliza violões e alguns corais gospeis em suas composições. Durante as quatorze faixas também encontramos colaborações com o boxeador Mike Tyson, Nicki Minaj e Chance the Rapper. “Rebel Heart” começa de forma promissora com o primeiro single “Living for Love”, produção de Diplo e Ariel Rechtshaid. Com essa faixa, o álbum apresenta o primeiro de muitos momentos auto-referenciais da Madonna. É uma maravilhosa canção EDM e house, onde não há nada insolente, sexual ou arrogante sobre as letras, muito pelo contrário, seu conteúdo lírico é suavemente edificante.

Contém uma percussão profunda e um piano old-school em sua instrumentação, mas ao mesmo tempo se move de forma fresca e contemporânea. Além disso, “Living for Love” ainda oferece um excelente coral gospel, que nos remete ligeiramente ao passado da Madonna. Aparentemente, ela compôs a letra com base em um rompimento amoroso. Entretanto, ela também fez as letras soarem edificantes em sua natureza, ao falar sobre neutralizar os pensamentos negativos. “Você me levou ao paraíso e me deixou cair / Agora que isso acabou / Vou continuar / Você me levantou e me viu tropeçar / Depois dessa mágoa eu vou continuar / Vivendo para o amor”, ela canta. É um grito de guerra de um espírito independente que se recusa a ficar por baixo por conta de outra pessoa. Sua melodia é incrivelmente cativante e possui um grande potencial, estranho não ter emplacado nas principais paradas musicais do mundo. É, provavelmente, a faixa mais comercial do álbum e, sem dúvida, um grande passo a frente com relação a seus últimos singles. Durante as fases iniciais do álbum, Madonna foi incentivada por seu gerente a trabalhar com Avicii e sua equipe de compositores.

Juntos, eles trabalharam em sete músicas, incluindo “Devil Pray”, a segunda faixa do repertório. Essa foi composta após o desejo de Madonna para falar sobre suas experiências com drogas e busca de espiritualidade. Portanto, como podemos ver, a música trata de temas como dependência, pecado, tentação e o desejo de salvação. “Devil Pray” é uma canção synthpop que combina bons elementos de country-pop com folk, e possui uma breve semelhança com Don’t Tell Me” da própria Madonna. É realmente uma típica canção da Madge, afinal ela trabalha em cima de diversas referências Cristãs em sua letra. O refrão elegante e a melodia sensual são, definitivamente, um destaque a parte. Aqui, Madonna lista todas as drogas que poderia experimentar, porém, diz que essa não é a maneira de ser salva: “E nós podemos usar drogas / E podemos fumar maconha / E nós podemos beber uísque / Sim nós podemos ficar bem locos / E podemos ficar chapados / E podemos cheirar cola / E nós podemos usar ecstasy / E podemos tomar ácido / Sempre perdidos sem o caminho de casa”Basicamente, as letras contam uma história de luta entre as drogas e a conexão com Deus.

Sonoramente, “Devil Pray” começa com um som de guitarra acústica e, gradualmente, fornece uma batida eletrônica. A terceira faixa e segundo single do álbum é “Ghosttown”, canção escrita por Madonna, Jason Evigan, Evan Bogart e Sean Douglas, e produzida por ela ao lado de Billboard e Evigan. Inicialmente, a cantora havia escutado trabalhos anteriores de Sean Douglas e ficou um tempo em estúdio com ele. Juntamente com os outros compositores, eles escreveram “Ghosttown” em três dias. É uma excelente balada pop inspirada pela imagem de um apocalipse e uma cidade destruída. Madge tenta detalhar como sobreviventes continuam suas vidas, tendo como único apoio o amor entre eles (“Esse mundo virou pó / Tudo que nos resta é o amor”). O produtor canadense Billboard estabeleceu uma paisagem sonora desolada por acordes de um órgão e batidas contagiantes, transformando-a em uma furtiva e atmosférica balada. Ela começa lenta e suave, mas depois explode num poderoso e cativante refrão. Vocalmente, Madonna está no seu melhor aqui, apresentado-se de forma nítida e sem restrições.

Na quarta faixa, “Unapologetic Bitch”, Madonna solta uma produção pop influenciada por sons caribenhos. Escrita e produzida com o Diplo, esta confecção eletro-reggae pode soar como uma surpresa para o registro. Ela é introduzida por um sintetizador crescente que nos leva para uma batida reggae, e um rufar constante que serve como pano de fundo para seus vocais. Aqui, ela canta sobre um término de namoro que levou tempo para esquecer, mas que agora está totalmente curada sobre tudo que diz respeito ao seu ex. Dessa forma, Madonna tentou fazer uma declaração mais abrangente de independência incondicional, utilizando alguns termos bastante atrevidos. “Você sabe que nunca soube realmente / O quanto as besteiras que me disse me custaram / Bem foda-se”, ela canta no refrão. Na produção, Diplo usou cada buzina que conseguiu, juntamente com quebras de tambores e sirenes. Apesar do título e das vibrações dancehall, “Unapologetic Bitch” não é uma das mais memoráveis canções do álbum. O assunto da quinta faixa é muito interessante, pois ouvimos Madonna deixar o ouvinte curioso a ponto de começar a questionar se os Iluminati realmente existem.

Co-produzida por Kanye West, “Illuminati” faz várias referências a teorias de conspirações e cita nomes conhecidos. A música acabou sendo uma resposta para as pessoas que dizem que Madonna está associada com os Illuminati. Ela cita nomes de outras celebridades que também já foram acusadas de fazer parte da sociedade secreta, incluindo Jay-Z, Beyoncé, Nicki Minaj, Lil Wayne, Rihanna, Kanye West, Lady Gaga, Steve Jobs e Bill Gates. Além disso, ainda canta sobre todo o imaginário associado ao termo, como pirâmides, triângulos, feitiçaria e câmaras do Egito. Sonoramente, é uma canção repetitiva com um gancho dançante, onde sua voz está carente de alguma dinâmica. É uma música dance-pop que esforça-se para ser profunda, utilizando uma produção mais obscura e entrega refrigerada. Enquanto a voz da Madonna nunca foi o seu maior trunfo, ela foi emparelhada com sintetizadores adequados e algumas guitarras acústicas. Ela já utilizou seu rap anteriormente, entretanto, aqui ele está monótomo e simplesmente não funcionou. A ponte e o refrão são algumas das partes mais limpas e sônicas da música, mas não foram suficientes para torná-la tão memorável.

“Bitch I’m Madonna”, com vocais da rapper Nicki Minaj, foi lançada como terceiro single em junho de 2015. O videoclipe que a acompanhou foi dirigido por Jonas Åkerlund e possui aparições de outros artistas, como Diplo, Rita Ora, Chris Rock, Miley Cyrus, Beyoncé, Katy Perry e Kanye West. Musicalmente, “Bitch I’m Madonna” é uma canção EDM com um tom mais nasal, onde Madge fala continuamente o porquê ela ser “Madonna”. A cantora chegou a defender o uso abundante da palavra “bitch”, explicando que, dependendo do contexto, o seu significado não é necessariamente vulgar. É uma música que não faz jus ao título provocador e possui momentos altos e baixos. Ela peca, principalmente, pela confusão barulhenta gerada ao tentar desdobrar-se em vários coisas. Os sons de trap emparelhados com o verso potente e frenético de Nicki Minaj são os seus maiores acertos ao lado da repartição de dubstep. “Hold Tight”, por sua vez, é um número pop mid-tempo com tambores militares, bateria pulsante, teclados atmosféricos e floreios eletrônicos. Liricamente, é uma canção que fala sobre o amor triunfar durante momentos difíceis, onde duas pessoas apoiam-se uma na outra.

A princípio, “Hold Tight” parece ser aquele tipo de música filler que está apenas ocupando espaço. No entanto, após algumas escutas você percebe que ela é muito refrescante e sólida. É uma canção forte que inicialmente acumula-se e somente depois estoura num refrão emocionante. Seu conteúdo lírico é básico e não conta uma história ou faz grandes declarações, mas possui uma bela arquitetura sonora. “Joan of Arc” marca um momento autobiográfico especialmente genuíno e sincero. É uma peça delicada e graciosa que mostra que mesmo você sendo uma lenda do pop ainda pode se machucar. Aqui, Madonna se compara a Joana d’Arc, heroína histórica que liderou um exército francês antes de morrer incendiada. “Eu não sou Joana d’Arc, ainda não / Eu não posso ser super-herói agora / Mesmo corações feitos de aço pode quebrar”, ela canta no refrão. A canção é movida pelo dedilhado de uma guitarra e consegue se sobressair pela metáfora e boa produção. Madonna canta sobre a negatividade da mídia em relação a ela e como isso a machuca, algo surpreendente uma vez que ela sempre foi indiferente e causou tanto polêmica ao longo de sua carreira.

Magde confessa o quanto as palavras de ódio a afetam, mostrando um lado mais vulnerável que nem sempre conseguimos ver. A nona faixa, “Iconic”, é outra canção verdadeiramente sólida onde Madonna colabora com Chance the Rapper e o boxeador Mike Tyson. Quem pensa que o ex-campeão mundial de boxe embarcou em uma carreira musical ficará desapontado, pois sua contribuição é apenas algumas falas proclamadas sobre fortes aplausos. Esta faixa é o reconhecimento da Madonna em seu status de ícone, onde ela canta letras inspiradoras e motivacionais sobre não desistir de nada (“Se você tentou e caiu, levante-se novamente / O destino vai escolher você no final”). Sonoramente, a cantora joga pelo lado seguro em cerca de metade deste álbum, deixando apenas a composição falar por si só. No entanto, as experiências contemporâneas ousadas que ela realiza em “Iconic” se destacam como as mais atraentes. É uma música com batidas fundida por house, EDM e hip-hop que poderiam soar como um desastre no papel, mas funcionou surpreendentemente bem aqui. Chance the Rapper é um pouco dispensável na música, mas o pré-refrão e o próprio refrão são muito memoráveis.

Os pulsantes sintetizadores, por sua vez, são ainda melhores e totalmente infecciosos. A décima faixa, “HeartBreakCity”, é uma balada sincera sobre um devastador término de namoro, onde Madonna canta: “Você conseguiu o que queria / Um pouco de fama e sorte / E agora você não precisa de mim”Aparentemente, o homem do qual a cantora se refere só queria atenção e fama para si próprio. A música é construída principalmente por acordes de piano e um registro vocal mais profundo. É uma balada da qual qualquer pessoa pode se identificar, mas que não tem o mesmo brilho e beleza de outras músicas do repertório. A próxima faixa, “Body Shop”, é uma canção relaxante e gentil, mas também estranha e desarticulada. Os versos são construídos em torno de bandolim e palmas, ao contrário de qualquer coisa que encontramos no catálogo da Madonna. Ela tenta demonstrar uma voz mais versátil, porém, acaba ficando muito aquém do esperado. A produção também não soa acabada ou totalmente dominada, parece que há uma desconexão entre a sua mensagem e melodia. Liricamente, Madonna utiliza uma metáfora meio estranha ao comparar seu amor a um automóvel que necessita de reparos.

“Holy Water” é um retrocesso para Madonna, uma faixa sexy e com uma melodia suave, mas igualmente esquisita e dispensável. Sexo sempre foi um dos seus temas favoritas, especialmente quando anda lado a lado com religião. Aqui ela executa uma espécie de batismo erótico totalmente desnecessário, firmado por gemidos em êxtase e a pergunta: “Não tem gosto de água benta?”. A produção, que teve a mão de Kanye West, não consegue deixar uma impressão duradoura e ainda nos remete a “I’m a Slave 4 U” da Britney Spears. Estranhamente na ponte a música oferece uma interjeição com “Vogue” da própria Madonna. Felizmente, a produção minimalista da próxima faixa, “Inside Out”, funcionou muito melhor ao trabalhar em harmonia com as letras profundas e elegantes. Às vezes, ela soa sexual e outras vezes muito sincera e comovente. É uma peça sonoramente desolada com vocais flutuando sobre alguns sintetizadores fornecidos pelo produtor Mike Dean. Dito isto, também é uma música que permanece contida com acordes de piano e algumas cordas fazendo o serviço. Seu lirismo também fala sobre como conhecer alguém mentalmente e amá-lo exatamente do jeito que é.

A faixa final da versão standard do álbum é “Wash All Over Me”, outra bonita e elegante balada. “Quem sou eu para decidir o que deve ser feito? / Se este é o fim, em seguida, então que venha / Deixe que ele venha, deixe chover”, Madonna canta. É uma música sobre aceitar o destino e as experiências negativas que passamos na vida. Sobre um piano barroco, ela aborda a injustiça no mundo e como enfrentar coisas das quais você não pode fazer nada para mudar. É uma canção arejada, fluída e empolgante em seus elementos sinfônicos. Ademais, é moderada nos sintetizadores e impulsionada por um apoio gospel. Mesmo com suas falhas, há algo de inegavelmente viciante acerca do “Rebel Heart”. Até mesmo as canções que não funcionaram tão bem são melhores do que boa parte do “Hard Candy” (2008) e “MDNA” (2012). “Rebel Heart” é um projeto que luta contra as piadas e preconceito acerca da idade da Madonna. Além disso, sua determinação leva o ouvinte ao seu verdadeiro talento. Ao contrário do seu último par de álbuns, esse talento é claramente evidente no “Rebel Heart”. Ele é composto, em sua maior parte, por canções pop bem trabalhadas que fornecem afiadas melodias e produções interessantes.

 

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.