Resenha: Macklemore & Ryan Lewis – This Unruly Mess I’ve Made

Lançamento: 26/02/2016
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: Macklemore LLC
Produtor: Ryan Lewis.

Três anos depois de lançar o álbum “The Heist”, vencedor de melhor álbum de rap no 56º Grammy Award, Macklemore & Ryan Lewis estão de volta. A dupla lançou recentemente, em 26 de fevereiro de 2016, o disco “This Unruly Mess I’ve Made”. O duo americano chegou ao sucesso internacional graças ao sucesso do “The Heist” e dos singles “Thrift Shop” e “Can’t Hold Us”. Entre esse período de tempo, Macklemore tornou-se mais consciente, casou-se e teve uma filha. Percebe-se que ele tentou colocar essas experiências de vida neste novo álbum. Eles costumam falar sobre questões sérias em suas músicas, como “Same Love”, embora também alternam para temas mais alegres e convencionais. Sonoramente, Macklemore & Ryan Lewis tentam cultivar os mesmos elementos do trabalho anterior. Aqui, o rapper tenta restabelecer sua credibilidade no hip-hop, embora demonstre algumas falhas líricas. Mas, apesar de ser um pouco disperso e confuso, “This Unruly Mess I’ve Made” possui suas qualidades. No repertório temos um total de 13 faixas e diversos convidados especiais, tais como Eric Nally, Melle Mel, Kool Moe Dee, Grandmaster Caz, Ed Sheeran, Chance the Rapper, Anderson Paak e YG. A primeira canção, “Light Tunnels”, agarra o ouvinte rapidamente, graças ao intenso e poderoso instrumental. É uma releitura da experiência de Macklemore no Grammy Award de 2014, do qual ele saiu como vitorioso. O rapper fala que a maior premiação musical é pretensiosa e gira apenas em torno de índices de audiência.

Ele enfatiza que o Grammy não é digno e não é exatamente como mostrado na televisão. Macklemore relembra o fato de ter vencido o disco “Good Kid, M.A.A.D City” de Kendrick Lamar, um dos melhores álbuns da década. Naquele ano, ele foi muito criticado por sair com 4 prêmios em uma noite que poderia ser de Kendrick Lamar. A canção realmente tem uma mensagem bastante forte. Macklemore fez um bom trabalho ao descrever como se sentiu naquele dia. A batida é interessante e o convidado Mike Slap foi um bom recurso utilizado nos vocais. A consistente produção de Ryan Lewis é eficaz, principalmente pela inclusão de violinos, piano e instrumentos de metais. O primeiro single, “Downtown”, caracteriza Eric Nally, Melle Mel, Kool Moe Dee e Grandmaster Caz. É uma música que utiliza uma estética reminiscente do hip-hop da década de 1980, um fluxo da velha escola, uma percussão funky despojada e retrô, além de batidas pré-programados e sintetizadores eletro. Melle Mel, Kool Moe Dee e Grandmaster Caz aparecem na faixa utilizando seus versos de rap, enquanto Eric Nally (vocalista da banda Foxy Shazam) fica responsável pelo refrão. Embora na primeira escuta “Downtown” transmita uma sensação de bagunça, é uma música com uma boa produção. Considerando que no smash hit “Thrift Shop” vimos Macklemore usando seu rap para falar de compras em um brechó, não é surpreendente ver ele falando sobre um ciclomotor em “Downtown”.

Parece que não importa o que ele está realmente cantando sobre, o rapper de Seattle costuma rejeitar temas comuns do mundo do hip-hop. Tanto o vídeo como a música nos remete facilmente ao hit “Uptown Funk” de Mark Ronson e Bruno Mars, que olharam para o passado em busca de inspiração. Sonoramente, ela inicia com um piano, porém, mais tarde floresce com linhas de trompete, guitarras e uma vibração old-school muito atraente. E, apesar de parecer uma mistura de “Uptown Funk” com “Thift Shop”, é uma canção que consegue captar uma identidade própria. A terceira faixa, “Brad Pitt’s Cousin”, com XPerience, é estranha e soa muito confusa na primeira escuta. Inicialmente, o seu fluxo é vagaroso e só ganha força durante o terceiro verso. Liricamente, é totalmente sem sentido e fala sobre vários assuntos aleatórios. É aparentemente uma música feita apenas para a diversão, como podemos esperar do seu título. “Eu sou o primo feio do Brad Pitt / Mas quando você está bêbado no casamento, ainda vão transar com você”, ele recita no primeiro verso. A faixa oferece alguns grandes momentos, mas outros igualmente ruins. Não deixa de ser uma canção cativante e divertida de se ouvir. A batida é potente, o baixo acentuado e o gacho principal bastante grudento. Em “Buckshot”, Macklemore e Ryan Lewis focam em falar sobre seus anos de juventude. O rapper usa suas técnicas para recitar sobre os seus dias de grafiteiro, ao lado de KRS-One e DJ Premier. A canção começa com sons de latas de spray, para reforçar a arte do graffiti.

O desing de som da música é complexo, mas há um zumbido ao fundo extremamente irritante. A batida e o piano são contundentes, e tanto os versos de Macklemore quanto de KRS-One são entregues fortemente. “Growing Up”, com Ed Sheeran, é uma canção pop que concentra-se em falar sobre a filha recém-nascida de Macklemore. Ele aborda principalmente esse tema, enquanto dá conselhos sobre a vida. A sinceridade das letras chamam bastante atenção, pois utiliza uma premissa simples e um conteúdo emocional. “Eles dizem que garotos não choram / Mas seu papai já derramou muitas lágrimas / Eles dizem que eu devo ser um homem forte / Mas querida, eu ainda estou cheio de medo / Às vezes, eu não sei quem sou / Às vezes, eu questiono o porque de estar aqui / Eu só quero ser um bom pai / Será que serei? Eu não faço ideia”, Macklemore recita nas primeiras linhas da canção. O ambiente da música é descontraído, guiado por uma lenta batida de tambor e alguns acordes de guitarra. O acompanhamento vocal de Ed Sheeran funcionou surpreendentemente bem ao lado de Macklemore. O britânico ajudou a manter o som tranquilo, enquanto as letras falam por si só. “Kevin”, sexta faixa, é uma canção sobre um amigo de Macklemore que faleceu após uma overdose de medicamentos prescritos por um médico. É sem dúvida uma das canções mais pessoais já escritas por Ben Haggerty. Seu conteúdo lírico definitivamente possui um significado muito forte por trás. Na letra, Macklemore ataca, de forma contundente, toda a indústria farmacêutica e o comportamento imprudente do governo. 

No verso mais poderoso da canção, o rapper diz: “Vamos negligenciar a verdade / Pois um médico com uma licença brincou de Deus / Mas eu? Eu não culpo Kev ou sua mãe / Usando enquanto estava grávida dele / Eu culpo as companhias de farmácia / E um país que gasta trilhões / Lutando uma guerra que eles mesmos bancam / Políticos e negócios e cadeias / Defensores públicos e juízes que falham / Olhe para Kevin, olhe para Kevin / Agora ele que está enrolado em plástico”O fluxo de Haggerty é bastante impressionante, enquanto a batida soulful de Ryan Lewis define o tom emocional para ele. “Kevin” também apresenta Leon Bridges nos vocais, um cantor de soul e música gospel muito talentoso. Ele entra com seus fantásticos vocais durante o refrão, a fim de adicionar uma bela textura sonora. “Doutor, por favor, me dê uma dose do Sonho Americano / Abaixe a caneta, olhe nos meus olhos / Estamos na sala de espera, algo não está certo / Tudo está nas suas costas, são receitas demais”, ele canta. O seu acompanhamento é realmente muito forte. A instrumentação de inspiração jazz é atraente, as harmonias vocais encantadoras e a produção, reminiscente da velha escola, muito bem feita. É facilmente uma das melhores músicas de todo o álbum. A faixa “St. Ides” é um número mais lento e diferente das demais canções do repertório. Aqui, Macklemore reflete sobre sua infância e alguns problemas com álcool e drogas sofridos no passado. Ele, de alguma forma, consegue capturar momentos de nostalgia ao relembrar de sua vida antes da fama.

“Você sabe quem seu amigo é / E quando eu perder a perspectiva / Preciso ir para um lugar onde eu perdo a recepção / Olhando para os satélites passarem / Refletindo sobre minha vida passada”, ele canta. Quase tudo sobre essa música é agradável, por isso é uma das minhas favoritas do “This Unruly Mess I’ve Made”. “St. Ides” traz um piano calmante e serve como uma boa mudança de ritmo para o álbum. O mesmo pode ser dito dos suaves e tranquilos vocais de Macklemore. O movimento dos instrumentos é interessante e o conteúdo lírico bem forte. A produção geral desta música realmente nos proporciona uma sensação de nostalgia. Apesar de não ser tão forte quanto as duas faixas anteriores, “Need to Know”, em parceria com Chance the Rapper, é outro número agradável. É uma faixa que fala sobre fugir da verdade e do vazio da riqueza. Em seu verso, Macklemore fala sobre como gostaria de poder voltar ao que ele era antes de ser famoso. Chance the Rapper, por sua vez, acrescenta linhas reflexivas sobre a pressão que sofreu na indústria. O gancho principal é uma das melhores partes da canção, visto que as vozes de ambos misturam-se bem. O piano, que acompanha boa parte da música, é bem ritmado e um complemento adequado. A nona faixa, “Dance Off”, apresenta o britânico Idris Elba e o cantor californiano Anderson Paak. Na primeira escuta, ela pode soar bastante estranha aos nossos ouvidos, no entanto, depois de um tempo, chama atenção por causa de alguns pontos positivos. É uma canção up-tempo despreocupada e igualmente assustadora, com Idris Elba comandando o hook principal.

A faixa, rapidamente, começa com a voz profunda de Idris Elba desafiando todos a dançarem. Liricamente, é uma música festeira que tenta recriar, em alguns aspectos, a natureza dançante de “And We Danced” de 2009. Seu sinistro, obscuro e progressivo instrumental é colocado em confronto com as letras características do duo. Sua produção sente-se familiarizada com o álbum “The Heist”, enquanto combina amostras vocais estridentes e bizarras com as palavras do ator/DJ britânico. É uma faixa que soa interessante, especialmente por conta do seu acompanhamento sonoro. Sua composição é extremamente diversificada, assim como possui uma alta produção instrumental. Duas coisas ganham um enorme destaque aqui, um loop de sintetizador intenso e um baixo esganiçado. Mas, além deles, “Dance Off” faz uso de teclado, uma percussão incrivelmente variada, ruídos e harmonias vocais. Ao contrário da habitual fórmula utilizada por Macklemore e Ryan Lewis, o refrão se baseia em uma batida em vez de um gancho cativante. A letra é bem peculiar e faz algumas referências desnecessárias a órgãos genitais. Entretanto, Macklemore continua a mostrar uma boa habilidade técnica e chama atenção por conta do seu rap ágil. Ryan Lewis, por sua vez, mostra seu talento na produção, ao fundir com frieza instrumentos eletrônicos de eletro-rock com hip-hop. Ao contrário de Idris Elba, o convidado Anderson Paak não tem uma posição de destaque na música. Seu verso durante a ponte é tão curto e irrelevante, que sua presença pode acabar não sendo notada.

“Let’s Eat”, com XPerience, é talvez a coisa mais engraçada e divertida encontrada nesse álbum. É uma música otimista e uma verdadeira comédia que, literalmente, fala sobre comer. No refrão, por exemplo, XPerience recita todas as comidas que gosta de comer diariamente. Resumidamente, “Let’s Eat” é uma ode para aqueles que não se importam com dietas ou academia. Musicalmente, a faixa não utiliza uma produção extravagante como a faixa anterior. Sua batida é leve e estruturada apenas pelo auxílio de um saltitante piano. A faixa seguinte, “Bolo Tie”, com o rapper YG, gerou expectativas por conta da colaboração de ambos. Entretanto, não é uma pista rápida ou potente como o esperado. Em vez disso, é um número mais lento que fala sobre auto-estima. Mackelmore e YG dizem que não se preocupam com o que os outros pensam deles, pois vivem a vida da maneira como querem. Aparentemente, a mensagem é parecida com a de outras faixas presentes no registro. A sua instrumentação é leve e um pouco escassa, enquanto faz uso de um baixo, piano e algumas batidas de tambor. Ambos rappers fazem um trabalho eficaz, porém, a batida poderia ser melhor trabalhada. “The Train” é uma linda balada que apresenta a cantora mexicana Carla Morrison. O ritmo lento, juntamente com as teclas de piano e vocais suaves, formaram um boa combinação. Liricamente, é sobre Macklemore se distanciar dos amigos e familiares, por causa do seu trabalho na música. Ele soa introspectivo, enquanto utiliza a metáfora do “trem” para ilustrar sua jornada dentro da indústria.

Os ruídos de um trem nos trilhos adiciona uma textura que funciona bem. É uma canção comovente e emocional, reiterada por alguns versos em espanhol de Carla Morrison. A faixa de encerramento, “White Privilege II”, é um hip-hop alternativo, com quase 9 minutos de duração, em parceria com a cantora Jamila Woods. É uma canção expressiva que fala sobre a posição de Macklemore referente ao movimento Black Lives Matter e apropriação cultural. Ela toca em questões sérias e sensíveis do mundo moderno. A luta de todos os países pela igualdade é descrita de uma forma muito complexa. A letra se posiciona quanto aos problemas da cultura negra e as vantagens que artistas brancos possuem com relação ao sucesso. É uma música poderosa que, com certeza, pode fazer as pessoas se conscientizarem melhor com relação ao privilégio branco. Em suma, “This Unruly Mess I’ve Made” permaneceu fiel a identidade criada por Macklemore & Ryan Lewis no álbum anterior. Não é tão um material consistente ou coeso, mas consegue pintar um retrato adequado da atual vida de Macklemore. Na maioria das músicas, ele deixa claro que está em desconforto com tudo que passou a representar. Apesar de entregar algumas faixas divertidas e sem profundidade lírica, o rapper se esforça para apaziguar o ódio, pregar sobre questões sociais e mostrar sua auto-consciência como artista. Ryan Lewis, por sua vez, intensificou tudo isso através de uma produção mais diversificada. “This Unruly Mess I’ve Made” não é um material de alto nível, mas seus pontos fortes merecem alguma atenção.

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São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.