Resenha: Mac DeMarco – Salad Days

Lançamento: 01/04/2014
Gênero: Indie Rock, Pop Psicodélico
Gravadora: Captured Tracks
Produtores: Mac DeMarco.

O canadense Mac DeMarco lançou em abril de 2014 seu segundo álbum de estúdio, o “Salad Days”. Foi gravado em seu próprio apartamento, na área de Bedford-Stuyvesant de Brooklyn, New York, na sequência de uma extensa turnê feita após o lançamento do seu primeiro disco. “Salad Days” possui um conteúdo lírico mais pessoal do que o seu antecessor, “2” (2012), onde do qual três faixas concentram-se em falar sobre sua namorada de longa data, Kiera McNally. Para quem não o conhece, Mac DeMarco tem 24 anos e cresceu em Edmonton, Alberta (Canadá). Durante o ensino médio, chegou a participar de várias bandas, incluindo The Meat Cleavers, The Sound of Love e Outdoor Miners. Após se formar no colegial, em 2008, ele mudou-se para Vancouver e, posteriormente, para Montreal onde começou a trabalhar como artista solo.

No início de 2012, ele lançou um EP intitulado “Rock and Roll Nightclub”, com um total de 4 faixas. O extended play impressionou seu selo, a Captured Tracks, o suficiente para que eles concordassem em lançar o seu primeiro álbum. Este trabalho, intitulado”2″, foi inclusive muito bem recebido pela crítica internacional. “Salad Days”, por sua vez, foi anunciado dia 21 de janeiro de 2014 junto com a estreia do single “Passing Out Pieces”. Suas composições à base de guitarra mudaram-se de obras inspiradas pelo glam rock para algo que seus colaboradores descrevem como “pop fora de ordem”. Vários gêneros podem ser descritos na música de Mac DeMarco, incluindo indie rock, soft rock, pop psicodélico, surf rock, glam rock, além de outros subgêneros como indie pop, folk rock, rock acústico, rock psicodélico e surf pop. Ele também é bastante influenciado por gêneros como o jazz, new wave, pop, R&B e hard rock.

Em seus shows ao vivo costuma interagir com o público fazendo piadas, além de envolver nudez e atos obscenos. Isso fez, inclusive, o público questioná-lo o porquê do seu comportamento no palco não se relacionar, necessariamente, com o seu estilo musical. O “Salad Days” vai ainda mais longe que o “2” no quesito variedade de estilos, um álbum perfeito na definição de estado de espírito jovial. Ele pega as vibrações estranhas do “2” e mistura a uma produção mais iluminada. Também afastou-se um pouco dos impulsos mais insanos de Mac DeMarco, para assim fornecer uma imagem mais clara de suas ideias. Na mesma qualidade, o som da guitarra de DeMarco está se tornando cada vez mais uma de suas assinaturas. Ele aperfeiçoou suas habilidades para escrever canções pop de uma forma maravilhosamente estranha. Mas o foco ainda está em sua voz soulful e nas canções de auto-zoações.

Mac DeMarco

Mac DeMarco pode ser um artista meio selvagem e louco no palco, mas embora ele não se leve muito a sério, o “Salad Days” mostra que há uma certa ternura por trás de um cara lunático de olhos azuis e sorriso banguela. Ele é realmente um artista sem medo de arriscar e muito competente na hora de sua entrega musical. Para esse registro, DeMarco cutucou os elementos mais soltos e absurdos de seus trabalhos anteriores e trouxe-os para um lado que oferece uma perspectiva mais dentro do seu romantismo habitual. Suas preocupações líricas aqui vão de medos da juventude desperdiçada e lições aprendidas ao abrir mão de amar, até o poder de uma amizade e a imporância de tratar as mulheres com respeito. Musicalmente, o disco traz mudanças suaves e uma maior variedade. Seus vocais cadenciados, acordes e melodias infecciosas dita o ritmo do álbum da mesma forma que seu material de estreia.

O “Salad Days” também permite um lado mais sombrio e mais perspicaz ao emergir por trás de ritmos alegres. O resultado disso é um registro, por vezes, melancólico, instantaneamente íntimo e gratificante. Composto por 11 faixas, o disco abre com a faixa-título e já adota um tom suave, obscuro e ganchos curiosamente cativantes. “Salad Days” ostenta alguns “la la la” e ainda possui ecos misteriosos e agradáveis. Em “Blue Boy”, um dos destaques do disco, temos uma ótima guitarra e um baixo funky em harmonia com o suave timbre de DeMarco. Aqui, ele tenta definir um caminho desconcertante para descobrir a sua própria auto-estima. “Blue boy / Worried about the world’s eyes / Worried every time the sun shines”, ele fala como enfrenta sua maturidade iminente, ao passo que adota sua mais sábia progressão de acordes em anos.

Uma canção como “Brother”, terceira faixa, é uma lição de como lidar com a fixação emocional, quer se trate de uma fixação com a juventude, o amor ou o futuro. Uma música que surge com uma guitarra saborosa e uma estética rock. antes de ficar completamente envolvida por uma psicodelia nebulosa por volta dos 3 minutos. É uma música perfeira para aqueles momentos em que o mundo parece meio enlouquecido (“You’re no better off living your life / Than dreaming at night”). Seu trabalho de guitarra mais melódica aparece na faixa “Let Her Go”, onde com o seu minimalismo ele consegue ser expressivo e ainda capturar a atmosfera do resto do álbum. Diferente de muitos cantores, ele não transmite uma maturidade forçada, pois adverte um amigo para não se comprometer em um relacionamento sério se estiver inseguro. DeMarco consegue oferecer uma sabedoria sobre assuntos do coração com versos como: “Growing by the hour / Love just like a flower / But when the flower dies / You’ve got to say goodbye / And let her go”.

“Goodbye Weekend”, por sua vez, soa como alguém afinando sua guitarra, enquanto uma linha de baixo balançando sustenta toda sua execução. O seu refrão é esteticamente palatável, ao passo que sua letra diz: “Don’t go tellin’ me how this boy should be leaving his own life”. É uma música rebelde que chama as pessoas para um estado jovial. A próxima faixa, “Let My Baby Stay”, é a música mais contida do registro, trazendo um ritmo e humor ajustado com sua mensagem, um apelo apaixonado a alguém que detém o destino de seu amor. “I was made to love her, been working at it/half of my life, I’ve been an addict”, ele pondera ao mesmo tempo que defende um tom melancólico sobre uma balada acústica. No exclente primeiro single, “Passing Out Pieces”, DeMarco mostra como abster-se ao reconhecer que as coisas podem ficar muito pessoal: “I’m passing out pieces of me / Don’t you know nothing comes free? / What mom don’t know has taken its toll on me”.

Mac DeMarco

Ele certamente está tentando esticar-se para o melhor do seu potencial, através de uma abordagem mais séria. “Salad Days” realmente mostra um lado mais íntegro de sua personalidade, como em “Treat Her Better”, uma faixa que não recua na tomada de assuntos como violência doméstica (“Treat her better, boy / If having her at your side’s something you enjoy”). Musicalmente, outro grande destaque do disco é o synthpop “Chamber of Reflection”, nona faixa. Ela abre com uma batida enlouquecedora antes de surgir com sintetizadores cintilantes e um vocal sensual de DeMarco. “Chamber of Reflection” também oferece algumas das linhas mais misteriosas e assombrosas do registro: “Spend some time away / Getting ready for the day you’re born again / Spend some time alone / Understand that soon you’ll run with better men”.

Em “Go Easy” e no alegre instrumental “Jonny’s Odyssey”, Mac fecha o registro com um lembrete de que ele não ficou abatido pelo peso de suas preocupações. Os acordes de “Go Easy” são furtivos e um verdadeiro deleite, enquanto “Jonny’s Odyssey” abre com um lick de guitarra atrevido e fecha com um “Oi pessoal, este é o Mac! Obrigado por se juntar a mim, vejo vocês novamente em breve”. “Salad Days” é absolutamente refrescante e agradável, em grande parte porque ele consegue gerar uma estranheza sem capricho. As guitarras em todo o registro são impecáveis, as letras sublimes e os vocais merecedores de aplausos. A progressão que o “Salad Days” mostrou é encorajadora, mas sem indicar que Mac DeMarco esteja mudando drasticamente de estilo, já que é mais provável que esteja apenas o refinando pouco a pouco.

Ele não se afastou por completo do insolente rock alternativo de seu último álbum, porém, as músicas apresentam um som mais elegante e intenso. O romantismo de DeMarco agora está muito presente em sua vida, longe de ser uma farsa, e habilmente equilibrado com outros sentimentos e uma intimidade corajosa. “Salad Days” é praticamente um testamento para o amor em sua forma mais altruísta e pura. Ele definitivamente é um compositor multi-facetado, capaz de fazer coisas ainda melhores do que já demonstrou. Com canções que abordam temas como maturidade, a vida aos olhos do público e o bom romance à moda antiga, Mac DeMarco transformou esse disco em uma imagem simplificada de seu desenvolvimento musical. Com faixas memoráveis e uma sensação um pouco mais acessível, este material é menos descontraído e muito mais melódico e cativante do que trabalhos lançados anteriormente.

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Favorite Tracks: “Blue Boy”, “Brother”, “Passing Out Pieces”, “Treat Her Better” e “Chamber of Reflection”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.