Resenha: M83 – Junk

Lançamento: 08/04/2016
Gênero: Synthpop
Gravadora: Naïve Records / Mute Records
Produtores: Anthony Gonzalez e Justin Meldal-Johnsen.

Formada em 2001, M83 é uma banda francesa de música eletrônica, composta pelos membros Anthony Gonzalez, Jordan Lawlor, Loïc Maurin, Kaela Sinclair e Joe Berry. Lançado em abril de 2016, “Junk” é o título do sétimo álbum de estúdio do grupo. Mais uma vez, o líder da banda, Anthony Gonzalez, foi capaz de criar um álbum cheio de nostalgia. Ele é, definitivamente, a principal força motriz por trás do M83. Durante 15 faixas, temos a presença de baladas encantadoras, poderosos sintetizadores e músicas ritmicamente e liricamente complexas. “Junk” também oferece uma nova direção eclética para a banda, algo facilmente percebido. Além de ser o seu álbum mais intrigante, “Junk” conseguiu alcançar um som igualmente crítico e comercial. “Hurry Up, We’re Dreaming” foi o registro responsável por trazer M83 para a fama, em grande parte graças à maravilhosa “Midnight City”. Tem sido longo cinco anos, mas eis que, Anthony Gonzalez e companhia lançaram um novo disco. É um material poderoso e estranho em sua própria maneira.

Ele carrega um estilo excêntrico e viaja por ondas de new wave, música eletrônica, dream pop e synthpop. Depois de todo o sucesso crítico com “Hurry Up, We’re Dreaming”, era difícil imaginar por onde M83 iria seguir. Mas, aparentemente, eles optaram por apresentar um som estranhamente cativante. A faixa de abertura e primeiro single do álbum, “Do It, Try It”, apresenta características típicas da banda. Ela não possui os majestosos sons orquestrais do disco anterior e, muito menos, a grandeza de “Midnight City”. No entanto, é uma canção extremamente divertida e com ótimas camadas de sintetizadores. Além disso, poderosos acordes de piano cobrem a canção, enquanto a base é formada por órgãos, baixo e vocais distorcidos. As letras são básicas e ligeiramente repetitivas, mas, por outro lado, conseguem oferecer um refrão viciante. No geral, “Do It, Try It” é uma brilhante mistura de simplicidade e complexidade musical.

Anthony Gonzalez

A segunda faixa, “Go!”, toma um rumo interessante ao apresentar um extravagante solo de guitarra. É um eletropop cintilante, guiado pelos otimistas vocais de Mai Lan. Essa canção consegue manter a personalidade já conhecida do grupo, principalmente pelo uso do saxofone e lufadas de sintetizadores. É uma canção carismática, cuja melodia do refrão é envolvente e catchy. Guiada pelos vocais de Jordan Lawlor, “Walkway Blues” é uma faixa downtempo que utiliza saxofone e guitarras em sua composição. É um número temperamental que, apesar de soar um pouco vago, consegue ser efetivo. A cantora francesa Mai Lan retorna em “Bibi the Dog”, uma canção interpretada em francês e inglês. Essa faixa revela-se como o primeiro crossover do “Junk”, conforme a tendência do M83. Ela é conduzida por palavras faladas, um baixo pesado, instrumentos de metais e uma batida muito interessante. O refrão em inglês é bem excêntrico, conforme cantam: “Eu estou andando com a batida / Agora / Eu estou falando na rua / E agora / Eu estou queimando com o calor”.

“Moon Crystal”, por sua vez, chama atenção de uma maneira excêntrica. Isso acontece porque é uma faixa instrumental, que lembra aberturas ou encerramentos de algum programa de televisão da década de 80. Seu fluxo é suave e apresentado sob um riff de piano, linhas de sintetizador e uma nostálgica melodia. Seu conceito é interessante, porém, sem qualquer dinâmica ou desenvolvimento. Em “For the Kids” temos vocais maravilhosos e um excelente trabalho no saxofone. É uma balada soft-rock apresentada sob uma bela melodia de piano. É uma canção muito agradável, especialmente por causa dos expressivos vocais de Susanne Sundfør. Sua voz, ao lado do saxofone e piano, consegue capturar um tom estranhamente sombrio. Com esta faixa, Gonzalez conseguiu criar o momento mais elegante do álbum. “Solitude” é uma balada downtempo, dramática, com linhas de sintetizadores e órgãos, sustentada pelo crescimento de fortes cordas orquestrais. As cordas e vocais em falsete, são os principais elementos da música. Profundos acordes de piano também são contemplativos e auxiliam na reflexão da letra.

Aqui, através de vocais ligeiramente processados, Gonzalez entoa: “Algum lugar, de volta no tempo / Deixei uma parte de mim / Eu quero ver se você pode tentar / Trazê-la de volta para mim”. Em seguida, temos outra faixa instrumental intitulada “The Wizard”. Da mesma forma que “Moon Crystal”, ela serve como um interlúdio para o álbum. É uma canção inusitada que apresenta efeitos de filtro pesados, blips eletrônicos, notas de sintetizador e uma batida difusa. “Laser Gun”, com Mai Lan, possui uma boa introdução e faz um ótimo trabalho ao manter a atenção do ouvinte. Dessa vez, Gonzalez e companhia se movem através de um sulco alegremente dançante. A faixa apresenta um piano house, brilhantes guitarras e uma adequada batida de tambor. O piano é bastante percussivo, da mesma forma que a melodia é palpável e atraente. “Road Blaster” é, provavelmente, a música mais rápida e alegre do repertório. Sua batida é cativante, os sintetizadores cristalinos e o ritmo bem oitentista. Também possui um ciclo agitado, vocais volúveis e ótimas trompas. É uma boa faixa, por qualquer meio.

M83

A terceira faixa instrumental do álbum chama-se “Tension”. É uma canção hipnotizante e downtempo, que acalma um pouco as coisas. Ela é conduzida por um teclado, riffs de guitarra e arejadas notas de sintetizadores. A próxima faixa, “Atlantique Sud”, é uma linda balada em francês, cantada através de um dueto. Aqui, sob o apoio do piano, ambos cantam num tom leve e ofegante: “Não tenha medo / Sim, eu sou você / Tomo altitude / Eu sempre penso em você / Espere por mim no escuro“. Em seguida, na faixa “Time Wind”, temos a participação do cantor Beck nos vocais. As vibrações funky desta canção, trazem uma forte sensação de nostalgia para a mesma. Aqui, uma linha de baixo, acordes de piano e batidas de tambores emprestam seu apoio. Seu conteúdo lírico é um pouco clichê, mas, felizmente, o apoio instrumento é bastante substancial. O último interlúdio instrumental do álbum é “Ludivine”, uma canção cheia de lentos acordes de sintetizadores. É um número cinematográfico e repleto de cordas sinfônicas delicadamente traçadas. É um interlúdio um pouco incoerente, entretanto, muito bem feito.

O disco termina com “Sunday Night 1987”, outro número com melodias inspiradas na década de 80 e vocais volúveis. Aqui, em meio aos acordes de piano e linhas de sintetizadores, temos uma harmonia bem melancólica. Não é uma das melhores faixas, entretanto, um bom retrocesso para finalizar o registro. Resumidamente, “Junk” é uma mudança intrigante na obra de constante evolução do grupo M83. Embora seja um disco com várias canções semelhantes entre si, eu gosto dele. No geral, é um material que tenta manter um conceito já apresentado por Gonzalez. “Junk” foi criado com intenção de tenta continuar o roteiro do ótimo “Hurry Up, We’re Dreaming”. Entretanto, não conseguiu atingir a criatividade sem precedentes do mesmo. Em grande parte do álbum, M83 afastou-se de suas crescentes paisagens sonoras imponentes e prosseguiram em direção ao pop dos anos 80. Por este motivo, “Junk” parece ter sido feito por uma banda com uma visão romantizada do pop oitentista. Aqui, nada é particularmente impressionante como “Midnight City”. Mas, por outro lado, se você escuta-lo por completo, não vai deixar de encontrar uma boa diversão.

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Favorite Tracks: “Do It, Try It”, “Go! (feat. Mai Lan)”, “For the Kids (feat. Susanne Sundfør)”, “Atlantique Sud (feat. Mai Lan)” e “Time Wind (feat. Beck)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.