Resenha: M.I.A. – AIM

Lançamento: 09/09/2016
Gênero: Eletrônica, Hip-Hop, R&B Alternativo
Gravadora: Interscope Records / Polydor Records
Produtor: Blaqstarr, Diplo, Fakear, Leo Justi, M.I.A., Polow da Don, Richard X, Skrillex, Surkin, The Partysquad, ADP, João Barbosa, Justus Arison, Levi Lennox, MC Renee e Spanker.

Em 09 de setembro de 2016 a cantora/rapper M.I.A. lançou o seu quinto álbum de estúdio, intitulado “AIM”. Seus dois primeiros lançamentos, “Arular” (2005) e “Kala” (2007), ainda permanecem tão formidáveis como sempre foram. Ambos possuem letras politicamente impetuosas que passeiam por grandes produções de Blaqstarr e Diplo (com quem ela compartilha um passado pessoal e profissional conturbado). Ambos são colaboradores de longa data de M.I.A., e retornaram nesse álbum a fim de fornecer uma boa variedade de sons. Desde que seu hit de sucesso “Paper Planes” empurrou M.I.A. para o mainstream, ela tem sido uma grande força na indústria da música. Ela já deixou claro que faz o que quer. Seu som é uma mistura de sons orientais misturados com batidas de hip-hop ocidentais. Como uma refugiada do Sri Lanka em Londres, M.I.A. costuma lidar com questões relacionadas à imigração em suas letras.

“AIM” não é muito diferente em termos de conteúdo lírico. Uma das coisas mais interessantes nele, em comparação com seus dois últimos álbuns, é o seu som. Aqui, M.I.A. e seus produtores misturaram batidas industriais abrasivas, sintetizadores eletrônicos e vibes de hip-hop e R&B aleatórias. Mas, entre sons nostálgicos, experimentações, arrogâncias e estranhezas, “AIM” sente-se menos cuidadosamente planejado. Isso porque, apesar da assinatura sonora de M.I.A. estar presente por toda parte, “AIM” não possui a força escaldante dos seus lançamentos anteriores. Algumas faixas arrastam-se e tornam o álbum menos interessante. Apesar de seus esforços, M.I.A. soa um pouco esgotada na totalidade desse projeto. O empoderamento do álbum foi um pouco ofuscado porque algumas letras, embora cheias de confiança e honestidade, são interpretadas com pouca convicção.

Entretanto, M.I.A. é uma artista incrivelmente talentosa e criativa, isso não dá para negar. Seus esforços para conscientizar o mundo é, sem dúvida, rodeados por uma verdadeira impressão artística. Em sua música, M.I.A. sempre fez declarações intensas e instigantes, mesmo que às vezes imprecisas ou ocasionalmente insensíveis. Ao londo do registro, a cantora continua explorando temas muito comuns em seus trabalhos anteriores, como racismo, migração, sexismo e vigilância. A faixa de abertura, “Borders”, é facilmente o maior destaque de todo o repertório. Apoiada por uma mistura viciante de hip-hop e música eletrônica, M.I.A. discute alguns atuais problemas do mundo. Ela fala sobre as fronteiras, privilégios e obsessões, usufruindo de palavras fortemente políticas em favor da música. Sua mensagem é muito importante, porque aborda a verdadeira liberdade do homem e a crise das fronteiras que afeta o mundo.

O refrão carregado pela linha “O que há de errado com isso?”, definitivamente tem bastante peso. É um gancho que aparece diversas vezes durante a música e, apesar de repetitivo, é muito viciante. “Borders” ainda possui uma batida de hip-hop incrivelmente hipnótica e sedutora, enquanto o seu clipe aborda explicitamente a crise dos refugiados sírios. O clipe é realmente incrível e visualmente impactante. Podemos dizer que M.I.A. criou um dos singles políticos mais poderosos dos últimos anos. A produção colaborativa de Skrillex e Blaqstarr na eletrônica “Go Off”, por sua vez, prova ser um tanto quanto onipotente. Entre tambores habituais, linha de baixo e sintetizadores, “Go Off” impressiona pela vibração infecciosa e enganosamente íntima. Sua fusão de sons é uma verdadeira colisão de diferentes mundos. Entre a produção eletrônica de “Go Off”, o worldbeat de “Bird Song” e o minimalismo de “Jump In”, temos três boas canções por conta própria.

Mesmo que elas não sintam-se coesas uma seguida da outra, não deixam de ser três faixas interessantes. “Bird Song”, a propósito, foi a primeira colaboração entre M.I.A. e Diplo desde o álbum “Maya” de 2010. Um dos momentos mais melódicos do disco gira em torno de “Freedun”, parceria de M.I.A. com o ex-One Direction Zayn Malik. Se os sons mais estranhos e hipnóticos do álbum vieram de produtores frequentes, como Blaqstarr e Diplo, Polow da Don oferece algo mais convencional em “Freedun”. É uma ótima canção, onde M.I.A. funcionou bem em conjunto com Zayn. Liricamente, a música é politicamente influenciada e refere-se aos refugiados, um tema comum no “AIM”. Em seguida, “Foreign Friend” surge com um refrão estendido e melodias sintetizadas. É outra ótima parceria de M.I.A., dessa vez com Dexta Daps, convidado que possui uma voz cheia de lamento.

Faixas como “Finally” soam particularmente otimistas, com suas vibrações agridoces e positivas. Enquanto “AIM” têm suas falhas, M.I.A. não deixa de ser imensamente talentosa. Canções como “A.M.P (All My People)”, por exemplo, mostra todo o seu potencial artístico. A segunda metade do álbum é mais focada e menos melodiosa, como podemos perceber em “Ali R U OK?” e “Visa”. Ambas canções são centradas em torno de produções worldbeat e possuem uma boa consistência e impacto. “Visa” ainda contém amostras de “Galang”, faixa encontrada no seu primeiro álbum de estúdio. Embora muito repetitiva, a produção de “Fly Pirate” destaca-se da mesma forma que a maioria do repertório. Ao lado de um conteúdo sério, “Survivor” traz sintetizadores que permeiam através de um final esperançoso. É um corte de encerramento muito lindo, especialmente alguns trechos de sua letra: “Os homens são bons, os homens são ruins / E a guerra nunca termina”.

“AIM” não é o melhor trabalho de M.I.A., na verdade é o seu álbum mais fraco. No entanto, possui todo o sabor de sua carreira por trás de várias músicas. Não é um registro tão inovador como a própria M.I.A. tem sido conhecida no seu passado. Enquanto seus álbuns anteriores fluíam maravilhosamente bem, “AIM” soa um pouco confuso. Mas, por outro lado, não deixa de ser um disco sólido e muito agradável. É coeso em seu som, mas tece sua sonoridade de maneiras diferentes e acaba criando um estilo bem variado. Novamente, M.I.A. trouxe questões sobre imigração e guerra, algo que não recebe tanta atenção de músicas mais populares. Ela estabeleceu-se como uma ativista verdadeiramente franca e visionária. Dito isto, o que nos resta é torcer para que os rumores sobre “AIM” ser o seu último álbum, não se concretizarem. Porque mesmo que não seja o seu melhor trabalho, esse registro ainda é maravilhoso de se ouvir.

Favorite Tracks: “Borders”, “Go Off” e “Freedun (feat. ZAYN)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.