Resenha: Lupe Fiasco – Tetsuo & Youth

Lançamento: 30/01/2015
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: Atlantic Records / 1st & 15th Entertainment
Produtores: Charles “Chilly” Patton, Lupe Fiasco, DJ Dahi, The Buchanans, S1, Vohn Beatz, DH Simonsayz, MoeZ’art, M-Phazes, Blood Diamonds, JackLNDN e Marcus Stephens.

Wasalu Muhammad Jaco, mais conhecido pelo seu nome artístico Lupe Fiasco, é um rapper americano que chegou à fama em 2006 após o sucesso de seu álbum de estréia, “Lupe Fiasco Food & Liquor”. Como empresário, Fiasco é o diretor executivo da gravadora 1st & 15th Entertainment. Ele foi criado em Chicago e, apesar de inicialmente não gostar de hip-hop, desenvolveu um amplo interesse pelo gênero. Depois de adotar o nome de Lupe Fiasco e gravar músicas no porão de seu pai, aos 19 anos ele juntou-se a um grupo chamado Da Pak. O grupo se desfez logo após sua criação, entretanto, Fiasco conheceu o rapper Jay-Z e com sua ajuda conseguiu assinar um contrato com a gravadora Atlantic Records. “Tetsuo & Youth” é seu quinto álbum de estúdio, lançado em 20 de janeiro de 2015. Ele é formado por 16 faixas, entre elas quatro interlúdios, com um conteúdo lírico parcialmente inspirado por sua educação e violência do lado oeste de Chicago. Segundo Lupe Fiasco, o álbum não foi diretamente nomeado com base no personagem Tetsuo do mangá japonês Akira. Entretanto, ele admitiu que ouve uma certa inspiração no personagem quando criou o álbum.

Depois de lançar um álbum bastante comercial como o “Lasers” e surgir mais focado com o disco “Food & Liquor II: The Great American Rap Album Pt. 1”, uma sequela do seu álbum de estreia, ele voltou muito ambicioso com o “Tetsuo & Youth”. Mesmo que, às vezes, sua ambição exceda seu real alcance, é essa ambição que faz o Lupe Fiasco ser tão queridinho pelos críticos em geral. “Tetsuo & Youth” é o seu melhor álbum em anos, um material que definitivamente atendeu às expectativas dos seus fãs mais exaltados. Ele tem um tempo de execução de quase 80 minutos e pode ser um pouco difícil de digerir, no entanto, depois de duas ou três executas você com certeza vai apreciar todo o seu alcance artístico. É um registro bem temático, desde sua arte abstrata na capa, até suas referências às quatro estações do ano. Sonoramente separado por essas estações em forma de interlúdios, Lupe Fiasco, indiscutivelmente, lançou seu álbum mais tematicamente envolvente até à data. “Summer”, a primeira faixa, é um instrumental relaxante e serve como introdução para o álbum. Aqui, você pode ouvir belos violinos ao fundo e sons de crianças brincando em uma piscina.

Ela configura o tema do registro e consegue ilustrar bem a primeira estação que tenta retratar: o verão. A segunda faixa, “Mural”, possui um tempo de duração que aproxima-se de 9 minutos. Ela não possui refrão ou alguma ponte, apenas apresenta Lupe Fiasco cuspindo suas impressionantes letras em linha reta. É uma canção que realmente consegue mostrar seu talento como rapper. A ausência de um gancho pode fazer algumas pessoas acharem ela um pouco arrastada, no entanto, aqui encontramos algumas de suas letras mais nítidas e fundamentalmente sólidas. Não é uma música particularmente emocionante, na verdade, apesar do seu conteúdo rico, é realizada através de uma tranquilidade notável e em um desinteresse emocional. Sua batida é incrivelmente agradável e ainda contemplada por um grudento riff de piano. A próxima faixa que ouvimos é “Blur My Hands” com Guy Sebastian, essencialmente nos dizendo para não nos preocuparmos com os inimigos. Essa é a terceira vez que Fiasco e Sebastian trabalham juntos, anteriormente, eles haviam colaborado nas canções: “Battle Scars” e “Linger”.

Lupe Fiasco

“Blur My Hands” pisa em território R&B e oferece algo mais soulful. Sua batida agarra imediatamente a atenção do ouvinte, assim como a doce melodia do piano e a guitarra. Enquanto Guy Sebastian canta o refrão, Fiasco entrega outro bom jogo de palavras que, embora não seja forte quanto o de “Mural”, ainda é interessante. A próxima faixa, “Dots & Lines”, é a última parcela “verão” do álbum. Inesperadamente, esta canção começa com um riff de banjo que soa bem estranho e aleatório. Foi uma boa jogada, mas quando você ouve o restante de “Dots & Lines”, fica se perguntando se o banjo foi necessário. Após isto, a música faz uma transição para uma batida lenta e metódica, seguida de algumas cordas, gaita e um piano. No geral, a qualidade da produção nesta faixa é realmente impressionante. É outra canção muito forte liricamente e de quebra ainda possui uma melodia cativante e um agradável refrão. Em seu fluxo Lupe Fiasco utiliza alguns termos para falar sobre sua tentativa de se libertar do contrato que assinou com a Atlantic Records.

A segunda fase temática do álbum é intitulada “Fall”. Outra faixa instrumental e experimental, apoiado pelos sons de alguém ajuntando folhas secas e crianças brincando. Sua batida é relaxante, bem como os sons de violino, baixo e viola. Outra joia encontrada no álbum é chamada de “Prisoner 1 & 2”. Fiasco divide essa música em duas narrativas distintas. O tema da primeira detalha a existência de um pesadelo onde Fiasco diz que “sua vida é apenas um número e data de lançamento”. Ajudado por uma palavra de sua irmã, Ayesha Jaco, Lupe faz uma boa transição para a segunda narrativa. O assunto dela é contada através dos olhos de um oficial de correções (“Você um prisioneiro também, você vive aqui também / Você é apenas como nós, até seu turno passar”). Produzido por MoeZ’art, esta música habilmente detalha as experiências de ambos os reclusos e guardas dentro do sistema prisional. A entrega de Lupe é magistral, caracterizada por múltiplos fluxos e uma perspectiva genuína. As duas partes se combinam para criar uma pista sólida e uma das mais fortes do álbum. Sonoramente, a música utiliza um violino clássico tingido de gospel, intercalado com sintetizadores em loop, bateria, piano e outros elementos eletrônicos.

Em “Body of Work”, você pode ouvir primeiro o som estridente de fogos de artifício sendo disparados. Aqui, R&B e rap são misturados para construir outra faixa imperdível. É uma música que faz várias referências à cultura pop moderna, religião, política, sexo e ciência. O seu belo refrão é cantado pelos vocais assombrosos de Troi, cantor americano de Los Angeles. Mas o que possivelmente ofusca até mesmo o fluxo de Lupe Fiasco é o saxofone jazzístico de Terrace Martin no final da música. Um solo de sax é jogado por quase dois minutos e acaba criando um perfeito clímax para encerrar a canção. Nikki Jean é caracterizada em três faixas do álbum, “Little Death” é a primeira delas. Essa faixa possui uma grande batida, graças a um forte tambor, é performada com alma e tem boas letras. Ela serve como um comentário ou crítica a respeito da humanidade, onde ouvimos o rapper refletindo sobre temas políticos. O seu refrão é arejado e quase um calmante, apresentado pelos vocais sedutores de Nikki Jean. Em seguida, ela aparece novamente na próxima música: “No Scratches”.

Essa canção contém sample de “You Remind Me of Something” de R. Kelly e, sem dúvida, é uma das melhores deste álbum. Lupe Fiasco brilha em seu melhor ao cantar simultaneamente o refrão com Nikki Jean, bem como entrega uma letra relacionável para aqueles que experimentaram um desgosto amoroso. Além da boa batida, a coisa mais atraente nesta música é o dilacerante riff de guitarra que acompanha os versos. A terceira faixa experimental, intitulada “Winter”, começa com algumas cordas bem estranhas. Isto, juntamente com o barulho de ventos soprando, realmente dão uma sensação de frio, mistério e medo. Logo após o terceiro interlúdio temos a faixa “Chopper”, ela apresenta Billy Blue, Buk of Psychodrama, Trouble, Trae Tha Truth, Fam Lay e Glasses Malone. É um verdadeiro banger com incríveis 9 minutos e 32 segundos de duração. Tal como acontece com a maioria de bangers como este, essa música não é tão forte liricamente. Embora todos os presentes sejam leais ao seu assunto e façam um bom trabalho, essa faixa parece um pouco fora do lugar no álbum. Seu instrumental é formado, basicamente, pelo som de buzinas e constantes sintetizadores.

Lupe Fiasco2

Dito isto, a faixa seguinte, “Deliver”, é uma das minhas favoritas do álbum. Ela foi lançada como primeiro single e apresenta um lirismo que conta uma história sobre entregadores de pizza que não vão mais em bairros perigosos por medo e insegurança. Mais uma vez, Lupe mergulha magistralmente em problemas, mencionando o abandono total e absoluto dos guetos, onde até mesmo entregadores de pizza pararam de fazer entregas. “O homem da pizza não vêm mais aqui”, Lupe canta durante o refrão. Ty Dolla $ign também faz uma aparição na música, mesmo que seu nome não esteja nos créditos. É uma canção simples, evocativa, densa, pesada no baixo e com uma batida tão incrível que é difícil descrevê-la. “Madonna (And Other Mothers In the Hood)”, por sua vez, não tem nada a ver com a cantora, mas, na verdade, faz referência a uma frase italiana de mesmo nome. Essa canção também dispõe de Nikki Jean durante o refrão e compara as mães que criam seus filhos nos guetos de Chicago com a Virgem Maria.

Resumidamente, esta canção é uma homenagem a essas mães que vivem preocupadas e fazem de tudo para proteger suas crianças. É uma grande música, com um belo refrão e uma batida muito bem construída. Sua introdução chama bastante atenção, por conta do verso: “Mãe Imaculada da alma santa / Em nome da overdose / Chegamos a você se sentir desconfortável em nossos caminhos / Por favor, não bata a porta em toda minha cara”. As duas últimas canções do álbum, “Adoration of the Magi” e “They.Resurrect.Over.New.”, parecem inclinar-se mais para o sentimento do interlúdio “Spring”, que conclui o álbum. Ambas soam muito diferentes das três faixas anteriores pertencentes a temática “Winter”. Produzida por DJ Dahi, “Adoration of the Magi” utiliza conotações religiosas, metáforas e faz referência óbvia ao nascimento de Jesus. Seu jogo de palavras é realmente inteligente, enquanto o terceiro verso é talvez o melhor e mais brilhante. O refrão, infecioso e com vocais de de Crysyal Torres, é muito interessante e grudento. A última canção é “They.Resurrect.Over.New.”, ela traz Troi no refrão e um verso adicional de Ab-Soul.

Essa música faz referência ao videogame de 1982 Tron, seu título cria a sigla TRON e ainda abre com sons de jogos de videogame. Ela possui fortes versos de ambos os rappers, bem como oferece tema religioso, nerd e faz referências à cultura pop. Após a introdução com sons de videogame, uma batida eletrônica toma conta e adiciona ênfase ao fluxo de Lupe Fiasco e ao cativante refrão. Apropriadamente, “Spring” é o último instrumental temático do álbum e também a última faixa. Sons de crianças brincando retornam nesta trilha, além de cordas otimistas e sons de pássaros cantando. “Tetsuo & Youth”, por fim, é um grandioso e misterioso álbum. Um projeto bem pensado e estimulante, apesar de algumas falhas. Os significados profundos por trás da maioria das canções e o seu som artístico e inteligente, combinam para fazer deste um dos melhores álbum de Lupe Fiasco, se não for o melhor. Nele o rapper divulga suas reflexões e anedotas sobre a condição humana, filtrada para o que poderia ser o seu mais complexo, conceitual e experimental álbum, até a presente data.

Favorite Tracks: “Dots & Lines”, “Prisoner 1 & 2 (feat. Ayesha Jaco)”, “No Scratches (feat. Nikki Jean)”, “Deliver”, “They.Resurrect.Over.New. (feat. Ab-Soul & Troi)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.