Resenha: Lorde – Melodrama

Lançamento: 16/06/2017
Gênero: Pop, Eletropop
Gravadora: Lava Records / Republic Records
Produtores: Lorde, Jack Antonoff, Jean-Benoit Dunckel, Flume, Frank Dukes, Kuk Harrell, Joel Little, Malay, S1 e Andrew Wyatt.

Lorde surgiu no mainstream depois do enorme sucesso de “Royals”, faixa do seu álbum de estreia, “Pure Heroine” (2013). A canção foi #1 em diversos países e deu a Lorde os seus dois primeiros Grammy Awards. Agora, quatro anos depois, a cantora neo-zelandesa retornou com o lançamento do seu novo álbum, intitulado “Melodrama”. É um disco com onze faixas que detalha os principais eventos do início da vida adulta. É um registro muito interessante porque explora os demônios internos da cantora e as dificuldades de ser uma jovem tão popular. Além de falar sobre o começo da vida adulta, “Melodrama” é o estudo de Lorde sobre a sua adolescência. Ela assume ser uma jovem famosa na era digital, sem se levar a sério por uma sociedade tão julgadora. Na mesma proporção, Lorde também fala sobre relacionamentos e as suas complicações. A maioria das músicas sobre a adolescência foram escritas em retrospectiva. Mas Lorde tem apenas 20 anos, o que dá ao conteúdo uma sensação muito honesta. Dito isto, há uma maturidade perceptível em seu conteúdo lírico, uma impressionante e refrescante coleção eletropop. No “Pure Heroine” Lorde trabalhou principalmente com Joel Little, cujo envolvimento foi limitado nesse novo álbum e deu lugar a Jack Antonoff (Fun. e Bleachers). Antonoff supervisionou toda a produção e levou o som de Lorde a um nível totalmente novo e ousado. Por outro lado, a lista de produtores do “Melodrama” cresceu em comparação com o “Pure Heroine”. De qualquer maneira, Lorde não desapareceu por trás das paisagens sonoras. Ela co-escreveu todas as faixas ao lado de Antonoff e criou algo que só poderia ser dela.

Os temas do álbum são pessoais, amplamente autobiográficos e possuem um grande alcance emocional. Ela é uma jovem introvertida, mas conecta-se com um verdadeiro senso de maturidade. Aqui há tristeza, raiva, euforia e solidão na mesma quantidade. “Melodrama” é um registro vibrante, cheio de vida, profundo e um maravilhoso reflexo de alguém que está crescendo. Lançado em março “Green Light” foi o seu primeiro lançamento desde “Yellow Flicker Beat”, canção que fez parte da trilha sonora de “Jogos Vorazes: A Esperança (Part 1)”. Esse single marcou o retorno que todos nós estávamos esperando, após o estrondo de “Royals”. Embora siga por uma direção ligeiramente diferente, “Green Light” ainda é completamente Lorde. Assim como Robyn, a cantora neo-zelandesa consegue misturar pensamentos tristes com a música dance. Aqui, ela canta de forma sombria antes de um refrão eficaz e estranhamente cativante. Começando com alguns acordes simples de piano e uma voz quase escassa, Lorde ajusta o humor da faixa com a seguinte frase: “Eu faço minha maquiagem no carro de outra pessoa”. Ela não mudou muito desde o “Pure Heroine”, uma vez que suas letras continuam diretas e cruas. O piano forma a batida na maior parte da canção, além de ser refrescante e efervescente. Durante o refrão, Lorde muda o som radicalmente e joga a música para um som dance-pop. Sua voz soa incrível nessa parte, pois transmite um sentimento muito forte de grandeza. A adição de um sintetizador e guitarra elétrica durante a ponte também é brilhante, pois dá à música uma torção ideal.

As pulsantes batidas de “Green Light” são familiares ao gênero pop, mas estranhas para a cantora. Muito parecida com “Ribs” ou “400 Lux”, a melancolia da canção não é instantaneamente aparente. Liricamente, Lorde canta sobre o seu primeiro grande desgosto amoroso: “Pensei que você havia dito que continuaria apaixonado para sempre / Mas você não está apaixonado, não mais”. A mudança no som é muito positiva, a partir do momento que a produção é mais enérgica do que a maioria de seu trabalho anterior. É um single que leva a cantora para uma direção musical um pouco diferente, enquanto ainda permanece vulnerável. Em seguida, a cantora pisa fora de sua zona de conforto durante a faixa “Sober”. Uma canção rítmica e quase tribal, onde brilhantemente ela faz a seguinte pergunta: “Mas o que faremos quando estivermos sóbrios?”. “Sober” possui um ótimo refrão, grandes batidas, saxofone, pequenas peculiaridades vocais e trompas acentuadas em segundo plano. O seu falsete e sensação distópica lembra um pouco de “Royals”. Liricamente, é uma lembrança sobre os últimos estágios de um relacionamento que não deu certo. A terceira faixa, “Homemade Dynamite”, mostra o ouvinte um presságio do álcool no auge de uma grande festa. Co-escrita por Tove Lo, a música contém uma pitada de hip-hop e batidas eletrônicas. É outra canção verdadeiramente cativante e, provavelmente, uma das mais mainstream do álbum. Um dos destaques, “The Louvre”, começa com strums de guitarra, um teclado eletrônico e vibrações rock.

Uma canção lúdica dirigida por um riff de guitarra, até chegar no refrão assassino que repete: “Transmita o boom boom boom boom / E faça com que todos dancem”. Os sintetizadores cintilantes, harmonias crescentes e a batida distorcida captam um cenário muito bem-aventurado. “The Louvre” possui uma composição muito sólida e uma atmosfera cheia de vaidade por trás. O single promocional, “Liability”, por sua vez, contém somente Lorde e um piano. Uma canção intimamente sincera e brutalmente honesta, onde ela fala sobre os seus demônios internos. Nesta faixa, Lorde oferece algumas de suas letras mais dolorosas e frágeis: “A verdade é que sou um brinquedo / Que as pessoas curtem / Até que nenhum dos truques funcione mais / E então eles se entediam comigo”. “Liability” oferece uma repetição temperamental que ganha vida através da linda melodia e desespero auto-depreciativo. Cada palavra é entregue com uma emoção devastadora e um simples acompanhamento do piano. Enquanto isso, a faixa “Hard Feelings/Loveless” é permeada por instrumentos mais sinuosos. Outra canção complementada perfeitamente pelas brutas emoções das letras. É uma música eletrônica de seis minutos de duração que documenta o término de um romance. “Hard Feelings/Loveless” é provavelmente a faixa mais próxima do seu primeiro álbum, porém, com os elementos adicionais de Jack Antonoff. Na primeira parte da música, Lorde tenta se lembrar dos bons momentos de um namoro, entretanto, a segunda metade mostra como as coisas podem se tornar dolorosas.

“Sober II (Melodrama)”, a sequela da segunda faixa do registro, apresenta cordas dramáticas e batidas mais contundentes. Dessa vez, Lorde retrata a cena desolada de sentir-se sozinha, mesmo estando num lugar lotado. Em seguida, “Writer In the Dark” oferece um tema mais intimista onde ela exclama: “Aposto que você lamenta o dia que beijou / Uma escritora no escuro / Agora ela vai brincar, cantar / E trancá-lo no seu coração”. Uma balada de piano que a vê percebendo a dificuldade de esquecer um ex-namorado: “Eu vou te amar até parar de respirar (…) / Encontrarei uma maneira de estar sem você, querido”. É uma canção dramática, deslumbrante e com falsetes incrivelmente desconcertantes. Enquanto mostra o seu crescimento vocal, Lorde faz uma performance fortemente inspirada por Kate Bush. A próxima faixa, “Supercut”, é outro número excepcionalmente sublime. Uma canção eletropop mais convencional, repleta de perfeitos riffs e uma energia fabulosamente dançante. “Liability (Reprise)” traz as coisas para baixo novamente, enquanto apresenta uma batida solitária e assombrosa. Isto antecipa um dos destaques do repertório, o segundo single “Perfect Places”. Essa faixa descreve uma noite dançante e a busca por “lugares perfeitos”. As letras, assim como a maioria das faixas do álbum, são muito honestas e genuínas. “Tenho 19 anos e estou em chamas / Mas quando estamos dançando, eu estou bem / É apenas mais uma noite sem graça”, Lorde canta no primeiro verso.

A vulnerabilidade de sua escrita leva o gênero pop para outro nível. “Perfect Places” é uma canção eletropop cativante que, apesar da forte influência de Jack Antonoff, nos faz lembrar do “Pure Heroine”. Ela começa com uma batida pulsante semelhante a “400 Lux”, enquanto é equipada por um sintetizador pesado. Embora o refrão fique preso na cabeça logo na primeira escuta, são os versos que realmente se destacam. Há uma batida pesada e rítmica durante toda a faixa, na medida que Lorde canta suavemente. O refrão explode de forma eufórica e realmente sente-se como um hino de qualquer festa. A cantora reflete sobre como os jovens estão acostumados a procurar por lugares perfeitos, mesmo sabendo que eles não existem. Os vocais de Lorde estão muito cativantes e distintos, e transmitem uma sensação excepcionalmente leve e crua. Tudo em “Perfect Places” soa agradável, desde as batidas, sintetizadores, vocais e o piano durante o último refrão. De certa forma, o som que Lorde conseguiu fornecer com “Perfect Places” parece uma versão mais madura e polida do “Pure Heroine”. “Melodrama” é praticamente impecável. É um registro inventivo, cativante e muito original. Lorde realmente me impressionou com o poder de sua voz, letras magníficas e excelente produção. Ela definitivamente amadureceu e cresceu como artista. É um álbum fenomenalmente estranho e bonito. Lorde escreveu sobre festas e relacionamentos e, de acordo com a produção, correu alguns riscos. O repertório é muito íntimo e honesto, e mostra a história de alguém que sempre sentiu-se sozinha e independente. Dito isto, “Melodrama” mostra com precisão todo o poder dessa jovem e talentosa artista.

Favorite Tracks: “Green Light”, “Supercut” e “Perfect Places”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.