Resenha: Logic – Everybody

Lançamento: 05/05/2017
Gênero: Hip-Hop
Gravadora: Visionary Music Group / Def Jam Recordings
Produtores: 6ix, Bobby Campbell, C-Sick, Deats, DJ Khalil, Logic, No I.D., PSTMN, Vontae Thomas e Wallis Lane.

Em maio de 2017, o rapper Logic lançou o seu terceiro álbum de estúdio, “Everybody”. Após lançar um projeto cinematográfico, dessa vez, ele tomou um rota mais socialmente consciente. Depois de ouvir o disco “The Incredible True Story” (2015), eu achava que Logic estava melhorando e desenvolvendo suas habilidades de forma consistente. Muito parecido com Kendrick Lamar, o seu segundo álbum usou uma abordagem conceitual e apresentou uma narrativa bem elaborada. Consequentemente, pensei que “Everybody” seria um avanço e maior demonstração do seu talento como rapper. Entretanto, Logic deu passo para atrás com o lançamento desse novo LP. Desde o início, ele deixa claro que raça e igualdade são os dois principais temas do álbum. Ele trouxe temas importante para a sociedade de hoje. Porém, o problema é que ele empurra suas mensagens sem deixar qualquer espaço para a própria interpretação do ouvinte. A música hip-hop sempre abordou questões raciais, capacitou a comunidade negra e expôs o racismo. No entanto, o caminho seguido por Logic tomou uma direção sonora e lírica insatisfatória.

Os temas aqui são muito bagunçados e dispersos. O problema não é a mensagem que ele tenta passar, mas sim a forma como ele a espalha. “Everybody” é um registro atingido por uma excessiva redundância lírica. O conceito do álbum está profundamente enraizado na raça, algo que Logic sempre teve uma perspectiva interessante. Qualquer um que já ouviu um disco dele sabe sobre sua identidade biracial. Algumas das suas faixas mais emocionantes falam sobre crescer com uma mãe branca racista e um pai negro ausente. E, como um homem bi-racial de pele clara, Logic foi vítima de insultos e bullying durante a infância. É bom ver Logic falando sobre esses assuntos, e escolhendo assumir uma posição para aqueles que não têm voz legítima na música. Entretanto, ele parece repetitivo e poderia dar músicas mais completas a seus fãs. Às vezes suas canções são curtas demais para causar algum impacto, outras vezes excessivamente longas por causa da quantidade de palavras faladas. Os refrões são fracos ou raramente possuem algum efeito duradouro. Sua intenção é admirável. Mas, suas performances, musicalmente falando, deixam muito a desejar.

A faixa de abertura, “Hallelujah”, possui piano, vocais hipnóticos, violões e elementos cinematográficos. É uma música um pouco desestruturada e liricamente bagunçada, com uma mensagem unificadora que tenta abrir a mente do ouvinte. Logic ama incorporar diálogos em seus álbuns, porém, muitas vezes isso atrapalha em vez dar um efeito memorável. Embora eu goste da produção da faixa-título, “Everybody”, acho o segundo verso contraditório. Apesar disso, possui uma forte mensagem de igualdade, lembrando ao ouvinte que todos experimentam lutas apesar da raça ou gênero. Na próxima faixa, “Confess”, com Killer Mike, as coisas ficam um pouco melhores, dada a boa produção em camadas. É uma canção com uma alegre progressão no piano que tece em torno das pancadas de Logic e Mike. Sem surpresa, Mike faz uma aparição assassina, visto que sua poderosa voz agarra facilmente a atenção do ouvinte. Em seguida, Logic aborda as redes sociais na faixa “Killing Spree”. Ele discute a ideia de que as pessoas vivem suas vidas através de telefones celulares, em vez de fazer qualquer coisa que possa mudar o mundo. Enquanto eu gosto do tema, ele parece muito direto com as letras.

De qualquer forma, pelo menos essa música é mais curta e satisfatória. “Take It Back” também discute a desigualdade racial. A letra é organizada em um diálogo e cria uma dinâmica lírica peculiar. Possui uma batida assassina, porém, enquanto dois minutos é Logic rimando, os outros quatro é ele contando sua história. Porque ele prefere falar sobre uma batida como essa, em vez de simplesmente entregar o seu fluxo? “America”, com Black Thought, Chuck D, Big Lenbo e No I.D., fala sobre política e o momento atual dos Estados Unidos. Logic soa melhor aqui, embora siga por um estilo de ritmo similar as outras faixas. Não surpreendentemente, a faixa também se concentra em questões raciais, com os convidados falando sobre a discriminação que já testemunharam. As duas faixas seguintes, “Ink Blot”, com Juicy J, e “Mos Definitely”, transitam por uma vibração mais suave. “Ink Blot” lamenta o estigma do rapper moderno, que idolatra o dinheiro, as drogas e as mulheres. “Mos Definitely”, no entanto, fala sobre o quão bela cada raça é. “Waiting Room” é uma faixa irritante, porque é uma esquete filosófica de cinco minutos que provavelmente ninguém pretende ouvir.

Esta faixa serve como um interlúdio, que revisita uma conversa entre Deus e um personagem. Embora auxiliada por correções de tom, a voz de Logic soa agradável em faixas como “1-800-273-8255”. Uma canção que fala sobre doenças mentais, depressão, suicídio e pensamentos internos. O título da faixa é o número nacional dos Estados Unidos para atendimento ao suicídio, uma boa maneira de divulgar a consciência e os recursos para encontrar ajuda. Enquanto a música é inspiradora, as letras são um pouco superficiais. Alessia Cara soa muito bem na música, embora o refrão não seja tão poderoso. “Anziety”, com Lucy Rose, é uma perspectiva interessante sobre a ansiedade e como Logic lida com isso. O problema aqui é o mesmo encontrado nas outras faixas: Logic rima por três minutos, então faz um discurso chato nos outros minutos restantes. O segundo single, “Black Spiderman”, apresenta altos chimbais, tambores trap, progressões de piano cintilantes e saxofones em movimento. Liricamente, mais uma vez, Logic exclama sua frustração com a discriminação racial. O rapper expressa sua raiva, expondo que mesmo em 2017 a discriminação ainda domina a sociedade.

A última faixa, “AfricAryaN”, obviamente, também fala sobre raça e como isso afeta as pessoas. Essa canção possui mais de 12 minutos de duração e tem Logic afirmando que o seu próximo álbum será o último. Em suma, “Everybody” é uma grande decepção e coloca Logic numa categoria inessencial de rappers atuais. Isso não significa que ele seja um rapper ou artista ruim. Simplesmente significa que, neste momento, ele não evoluiu artisticamente. Faixas como “Confess”, “Take It Back” e “Anziety” apresentam mais conversas e discursos do que um rap real. Juntando isso aos temas repetitivos, deixou o álbum muito cansativo e desgastante. É uma pena porque a força deste álbum vem do retorno de Logic à sua honestidade pessoal. As batidas e produção são muito boas, ​​graças ao trabalho de produtores como 6ix e No I.D., bem como dos produtores convidados do próprio Logic. Porém, em vez de apresentar o óbvio, ele poderia nos surpreender mais. Com certeza, os artistas devem se manifestar contra as injustiças em nosso mundo. Mas, embora as intenções de Logic sejam boas, eu tenho que julgar este álbum como mediano. Há alguns destaques dentro dele, mas, no que diz respeito à sua habilidade musical, Logic ainda tem muito o que melhorar.

Favorite Tracks: “Confess (feat. Killer Mike)”, “Killing Spree (feat. Ansel Elgort)” e “1-800-273-8255 (feat. Alessia Cara & Khalid)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.