Resenha: Lady Gaga – Joanne

Lançamento: 21/10/2016
Gênero: Soft Rock, Dance-pop, Country-pop
Gravadora: Interscope Records
Produtores: Lady Gaga, Mark Ronson, Jeff Bhasker, BloodPop, Emile Haynie, Josh Homme, Kevin Parker e RedOne.

Lady Gaga é uma das artistas mais populares e polarizadoras dos últimos anos. Desde sua aparência extravagante até seus grandes hits, ela criou um forte nome para si mesma. Após três anos de espera, a cantora finalmente lançou um novo álbum em outubro de 2016. Sem dúvida, foi um projeto que dividiu a opinião de seus fãs, uma vez que sonoramente tomou uma direção completamente diferente. Nesse tempo que ficou ausente, Lady Gaga lançou um disco de jazz em conjunto com Tony Bennett, ganhou um Globo de Ouro por seu trabalho em American Horror Story e se apresentou no Óscar. O seu quinto álbum de estúdio, intitulado “Joanne”, em homenagem a sua tia falecida, afasta-se do visual extravagante do seu passado. Em comparação com seus trabalhos anteriores, “Joanne” possui um som mais orgânico, com influências de rock e country. Nesse álbum, Gaga usou uma abordagem mais crua em seu processo criativo. Não é um disco perfeito por qualquer meio, mas certamente mostra um novo lado de Lady Gaga que nunca tinha sido visto antes. Apesar de suas diferentes influências, “Joanne” tem um som autenticamente pop. É um registro onde Gaga está no seu estado mais pessoal e vulnerável, e empurra a cantora para além de suas fronteiras musicais comuns. Nos bastidores, Gaga foi acompanhada pelos produtores Mark Ronson, que co-escreveu dez faixas do álbum. Além dele, Kevin Parker (Tame Impala), BloodPop, Jeff Bhasker e Josh Homme, participaram do processo criativo do disco.

Enquanto a nova imagem e o som de Gaga confirmam seus pontos fortes como artista, não se pode deixar de sentir a imprevisibilidade do álbum “Born This Way” na segunda metade do “Joanne”. Muitas das canções são rígidas e excessivamente formuladas. É evidente a falta de coesão do álbum em seu som geral, mas isso não diminui a força do repertório. O álbum abre com a poderosa mid-tempo “Diamond Heart”, uma canção pop com influências de rock que define o humor de todo o disco. O ritmo rápido é ditado por fortes tambores e vocais crus de Lady Gaga. A sua voz toma a frente de tudo, enquanto é acompanhada na guitarra por Josh Homme da banda Queens of the Stone Age. O seu refrão é um dos mais memoráveis de todo o álbum. “Eu não sou perfeita, mas tenho um coração de diamante”, Gaga canta. “Aqui vamos nós!”, ela grita no início de “A-Yo”, segunda faixa. O som country-pop salpicado em torno do álbum é bastante evidente aqui. É uma canção muito focada na guitarra e percussão, enquanto hand-claps e vocais poderosos a conduzem. A melodia balançante, a letra e alguns solos de guitarra a tornam em uma das faixas mais otimistas do álbum. “Joanne”, a peça central do novo álbum, é dedicada a sua tia que morreu em 1974 de lúpus quanto tinha apenas 19 anos de idade. Embora Gaga nunca chegou a conhecê-la, ela sempre sentiu uma forte conexão com a sua tia. “Garota, onde você acha que está indo?”, ela canta de forma emocionante.

“Joanne” é uma linda balada conduzida por uma simples e bonita guitarra acústica, que fornece um momento muito honesto da cantora. É difícil não se conectar emocionalmente com essa doce canção. Em seguida, Lady Gaga declara o seu amor por cowboys na faixa “John Wayne”. Um esforço pop-rock energético, sobre uma batida de bateria que transforma-se num refrão poderoso, onde seus vocais estão muito modificados. Gaga é acompanhada pela guitarra de Homme, enquanto a letra faz uma alusão aos seus relacionamentos, com comparações ao ator John Wayne. Essa canção traz um pouco de arrogância para o jogo, além de sintetizadores percorrendo o seu caminho. “Dancin’ in Circles” é uma das músicas mais suaves e sensuais do álbum. Seu tom sussurrante na introdução, por exemplo, é bastante sedutor. É uma colaboração com o cantor Beck, que encontra Lady Gaga cantando sobre o amor próprio. “Eu fico deitada, acaricio a mim mesma para passar o tempo / Eu me sinto mal, queria que você fosse meu”, Gaga canta aqui. “Dancin’ in Circles” possui uma vibe sensual, fala sobre masturbação e fornece uma batida infundida de reggae. Quando Lady Gaga lançou “Perfect Illusion” como primeiro single, dividiu sua fã-base. A canção produzida pela própria cantora, Mark Ronson, Kevin Parker e Bloodpop foi amada por alguns e desprezada por outros. Não obteve o sucesso nos charts como esperado, mas seu som funciona no contexto do álbum. Por ser uma das canções mais cativantes do disco, parecida uma escolha óbvia para single.

“Perfect Illusion” é uma canção disco-rock divertida, embora sofra por uma infeliz repetição. Além disso, o aumento de oitava no último terço da música a torna muito cansativa e barulhenta. Toques potentes de guitarra e efeitos de produção deixaram claro que Gaga estava tentando sair de sua zona de conforto. A influência rock dos anos 80 é agradável, mas sua exagerada performance vocal teve um efeito contrário. O segundo single do álbum, “Million Reasons”, é uma balada pop fala sobre um relacionamento disfuncional. Nessa canção, encontramos Lady Gaga atrás de teclas de piano com nada mais do que sua voz. As harmonias aqui são nítidas e aumentam ainda mais a simplicidade da canção. Embora também sofra de um pouco de repetição, é vocalmente um dos melhores momentos do “Joanne”. Co-escrita por Hillary Lindsey, é uma música tocante que também fornece delicadas cordas de guitarra acústica. Ademais, “Million Reasons” é uma balada que combina muito bem o country, rock e pop para relatar um relacionamento destrutivo. A próxima faixa, “Sinner’s Prayer”, capta imediatamente a atenção do ouvinte graças a ótima introdução com cordas de guitarra. Os padrões de tambor trabalham em conjunto com o piano e a guitarra, para criar uma doce melodia. O refrão é bastante discreto, especialmente tratando-se de uma canção da Lady Gaga. Sua produção é quase sublime, até mesmo para os padrões de Mark Ronson. A parte mais agradável do trabalho vocal de Gaga é que ela nunca ultrapassa a gama necessária.

É bom e convincente ver a cantora tonificando as coisas para criar uma abordagem mais sutil. Em “Come to Mama” Lady Gaga canta sobre o estado em que o mundo se encontra no momento. Logo no primeiro verso, ela pede mais amor e menos ódio: “Todos têm que amar uns aos outros / Pare de jogar pedras / Em suas irmãs e seus irmãos”. “Come to Mama” é um retrocesso que traz a nostalgia dos anos 70, ao mesmo tempo que foca num ponto político. Mas, enquanto o conteúdo lírico é mais sério, a produção de apoio sente-se leve e despreocupada. “Venha para a mamãe / Me diga quem te machucou / Não vai haver um futuro / Se nós não resolvermos isto”, a cantora avisa com o intuito de espalhar uma mensagem de amor e aceitação. “Come to Mama” é uma das faixas mais lúdicas do disco e realmente beneficia-se disso. Ela não se baseia em truques, pois apresenta um padrão de bateria e linha vocal simples. Essa música afasta-se fortemente do som country das outras faixas e nos oferece uma agradável sensibilidade doo-wop. Além disso, a vibe otimista que o saxofone traz é muito contagiosa e cativante. O aguardado dueto com Florence Welch em “Hey Girl” não é o potencial banger vocal que todos esperavam. Entretanto, é uma das melhores músicas de todo o álbum. Novamente, influências dos anos 70 podem ser sentidas, enquanto elas cantam sobre ajudar uns aos outros. É uma música mais discreta onde seus vocais misturam-se muito bem.

Sintetizadores retrô e uma lenta batida proporcionam um som bastante sensual, inclinado para o synthpop da era moderna. Na última faixa do álbum, “Angel Down”, Lady Gaga faz alguns comentários sérios sobre a sociedade. As letras criticam a violência armada do mundo e questionam onde nossos líderes políticos estão nesse momento de necessidade. É uma música com um tom aborrecido, ritmo lento, instrumentação leve e melodias variadas. “Tiros foram dados na rua / Perto da igreja onde nos encontrávamos / Anjo abatido, anjo abatido / Mas as pessoas só ficaram olhando”, Gaga canta. Sonoramente, é uma balada que serve como um final atmosférico para o “Joanne”. O foco principal nas composições, vocais cru e instrumentos nervosos mostraram uma artista pronta para expandir seus horizontes. Com esse registro, Lady Gaga empurrou os limites da música pop, a fim de pisar em novos territórios sonoros. Sem dúvida, os fãs amaram ou odiaram os riscos corridos com este álbum. Os momentos em que a cantora mora na emoção são quando o álbum destaca-se. Por outro lado, quando ela exagera na composição, tende a falhar. Aqueles que queriam que Lady Gaga voltasse ao mundo pop podem não ter gostado tanto do “Joanne”, uma vez que ele é bem menos extravagante do que seus trabalhos do passado. Afinal, é difícil não sentir falta do brilho e glamour de discos como “The Fame” e “Born This Way”.

Favorite Tracks: “Sinner’s Prayer”, “Come to Mama” e “Hey Girl (feat. Florence Welch)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.