Resenha: Lady Gaga – Born This Way

Lançamento: 23/05/2011
Gênero: Pop, Dancepop
Gravadora: Interscope Records
Vendas: 6.4 milhões
Produtores: DJ White Shadow, DJ Snake, Fernando Garibay, Lady Gaga, Robert John “Mutt” Lange, Jeppe Laursen, RedOne e Clinton Sparks.

O “Born This Way” foi o segundo álbum de estúdio de Lady Gaga, lançado dia 23 de maio de 2011, pela Interscope Records. Foi o sucessor do “The Fame” (2008) e do EP “The Fame Monster” (2009), dois grandes sucessos internacionais responsáveis por alavancar a carreira de Lady Gaga. A cantora co-produziu e co-escreveu todas as 14 canções do disco e trabalhou com vários produtores, entre eles DJ White Shadow, DJ Snake, Jeppe Laursen, Mutt e Cliton, além de RedOne e Fernando Garibay, com quem já havia trabalhado anteriormente. “Born This Way” estreou em #1 na Billboard 200, com vendas de 1,108,000 cópias na primeira semana, apenas nos Estados Unidos. Parte desses exemplares, cerca de 440 mil cópias, foram vendidas através de uma promoção da Amazon a um preço de $ 0,99 cents. Na época, isso acabou gerando algumas críticas e piadas na mídia e redes sociais, por se tratar de um valor muito baixo. A criação do disco começou em março de 2010, quando Gaga revelou que estava trabalhando em um novo álbum e que já havia escrito a maioria de suas canções.

Em outra entrevista, ela declarou que entre as faixas havia “o hino dessa geração”, concluindo com: “O álbum inclui a melhor música que já escrevi”. Em 12 de setembro de 2010, Gaga anunciou o título do álbum e cantou o refrão da faixa-título, durante o seu discurso de agradecimento pelo prêmio de Vídeo do Ano, no MTV Video Music Awards 2010. As músicas do “Born This Way” decorrem de estilos como o synthpop e dance-pop, assim como seu material anterior, porém, incorporando diferentes formas de instrumentação que não haviam sido utilizadas anteriormente. Ele também inclui uma gama mais ampla de gêneros musicais, como ópera, heavy metal, disco, house e rock, enquanto seu conteúdo lírico fala sobre temas como sexualidade, religião, liberdade e feminismo. O primeiro single do álbum, a faixa-título, foi lançada sob um buzz enorme, todos estavam extremamente ansiosos para ver o próximo passo de uma estrela pop em acensão. O lançamento ocorreu três dias antes do Grammy Awards daquele ano, local onde foi realizada a primeira performance ao vivo da canção.

Tanto o álbum, como o primeiro single, foram alimentados pela adoração de Gaga por seus fãs, os Little Monsters. Naquele ano, a cantora estava com uma popularidade muito acima de outros atos pop, ela acabou criando sua própria órbita e tornou-se um verdadeiro fenômeno. O álbum é realmente muito bom e fez jus a toda espera e hype criado em cima dele. Antes mesmo do seu lançamento, o álbum já estava se tornando um fenômeno auto-declarado. Lady Gaga estava colhendo os frutos, depois de um absurdo sucesso com o disco “The Fame”. Mas como ninguém agrada à todos, o registro também recebeu diversas críticas de vários grupos religiosos, que condenaram o material por sua incorporação de vários ícones religiosos do Cristianismo e sua posição sobre sexualidade. O vídeo da música “Judas” foi duramente criticado pela Igreja Católica, por causa da forma como Gaga abordou Maria Madalena e Judas. Inclusive, também foi acusada de lançar a música e o vídeo, propositadamente, na Semana Santa e logo após a Páscoa, respectivamente.

Isso tudo, vindo pouco tempo depois dela lançar um videoclipe onde engole um terço. Discussões à parte sobre as controvérsias do disco, o fato é que o “Born This Way” é realmente muito divertido, com bons momentos inspirados pela década de 1980 e possuindo praticamente tudo que um álbum pop mainstream deve ter. Contém várias canções radiofônicas, bem como outras mais reservadas e executadas com verdadeiras ambições e amor pela música. “Born This Way” foi um registro, assumidamente, teatral e calculado a partir da primeira nota até o seu fim. Quase todo o álbum possui alguma homenagem e influência, mesmo que seja em referências sutis. Este fluxo de influências é parte do que fez de Lady Gaga a estrela que ela é, e o fato é que ela conseguiu construir, ao longo de sua carreira, um contexto histórico para si mesma que acabou fazendo parte do seu charme. O “Born This Way” foi lançado com a intenção de solidificar sua posição como uma cantora pop visionária, o problema foi que Gaga foi um pouco ansiosa demais para abraçar seu papel de atual rainha do pop.

Lady GaGa

Pelo menos ela não abandonou sua sensibilidade e dons criativos no “Born This Way”, mesmo que suas composições e produções não tenham pisado em algum território imprevisível ou totalmente fora de sua zona de conforto. O repertório dá as caras com “Marry the Night”, uma música dance-pop influenciada pelo rock, eletro e house. É conduzida por uma batida techno propulsora, sinos eletrônicos e ganchos explosivos. A letra é um tributo ao amor de Gaga pela vida noturna, o verso “I’m gonna marry the night”, é praticamente um grito de guerra. A ponte, construída pelos versos, “Come on and run / Turn the car on and run”, é onde a canção atinge o seu verdadeiro auge. A fã base de Lady Gaga é formado, em sua grande maioria, pelo público gay. E como ela é considerada um instrumento importante como ativista dos direitos homossexuais, não poderia deixar de fazer uma homenagem da melhor forma possível. Quando ela disse que havia escrito o “hino dessa geração”, se referia a faixa-título, escrita para as mulheres e para a comunidade gay.

“Born This Way” é conduzido com os mesmos vocais com alma de Whitney Houston, cantora da qual Lady Gaga disse ter se inspirado para a música. Mas também é um grande aceno para “Express Yourself” de Madonna, ambas realmente possuem algumas melodias muito parecidas. Essa questão, inclusive, foi muita discutida pela mídia e público em geral, logo após o seu lançamento. De qualquer forma, “Born This Way” é uma música dance-pop potente, com uma boa mensagem de auto-capacitação e liberdade por trás. É apoiada por um sintetizador nervoso, um baixo e uma percussão adicional no refrão, além de um órgão exclusivo no final. Foi escrita por Gaga e Jeppe Laursen, que a produziu juntamente com Fernando Garibay e DJ White Shadow. Letras como – “Don’t hide yourself in regret / Just love yourself and you’re set (…) / OO there ain’t no other way / Baby, I was born this way” – reforçam a mensagem de auto-estima e aceitação pessoal da música. Foi o maior hit do álbum, atingindo o topo das paradas musicais de diversos países e, consequentemente, seu terceiro single #1 nos Estados Unidos.

Também foi a milésima canção da história a ser #1 na Billboard Hot 100 e atingiu em suas vendas finais um total de 8,2 milhões de cópias em todo o mundo. A terceira faixa, “Government Hooker”, também foi produzida por Gaga, Fernando Garibay e DJ White Shadow. É um synthpop que incorpora influências de outros subgêneros eletrônicos, incluindo o techno e o trance. É uma música rebelde, focada por temas à respeito da capacitação sexual das mulheres, expressada por uma metáfora sobre a suposta relação entre a atriz Marilyn Monroe e o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy. Não está entre minhas favoritas, achei que o seu som pesado soa muito artificial, quando combinado com a produção excessivamente agitada. Escrita e produzida por Lady Gaga e RedOne, “Judas” é uma canção dance e eletrohouse, com uma batida frenética, sobre uma mulher apaixonada por um homem que a traiu. Sua produção lembra um pouco “Bad Romance”, embora não transmita o grande impacto da mesma.

É, talvez, a faixa mais polêmica do álbum, por fazer referências pesadas e pisar no território de “Like a Prayer”, sendo considerada uma injúria pela Igreja Católica. Em sua letra, Lady Gaga tenta re-contar a história de Judas como uma metáfora para um relacionamento ruim e ainda fazendo uso de outras parábolas religiosas. “Americano”, por sua vez, combina mariachi, house e techno com elementos de música latina. Liricamente, a canção fala sobre o casamento homossexual, entretanto, é particularmente a música mais chata do “Born This Way”. Por outro lado, “Hair”, lançada como single promocional do álbum, encanta com sua produção disco e seu saxofone realizado por Clarence Clemons, ex-membro da The E Street Band. De acordo com a cantora, “Hair” foi influênciada pelas bandas Kiss, Iron Maiden e por Bruce Springsteen. Sua letra é inspirada pela experiência de Gaga como adolescente, quando seus pais a obrigavam vestir-se de uma certa maneira.

É basicamente uma canção que fala sobre a libertação e capacidade de trilhar seus próprios caminhos. É realmente uma boa faixa, muito bem produzida, mas se não fosse tão longa seria ainda melhor. Com um título em alemão e inusitado, “Scheiße” (em português “Merda”), é sem dúvidas uma das melhores canções presentes no “Born This Way”. Uma música dance-pop, com sintetizadores pesados e um refrão extremamente cativante. Também tem uma batida techno rápida com electroclash e influências do eurodisco. Sua monstruosa melodia é atada à uma letra bilíngue e um tom feminista por trás. “Bloody Mary” é outra canção cheia de referências religiosas, Gaga tenta canalizar seu interior, injetando imagens bíblicas em uma celebração descarada de indulgência carnal. Musicalmente, é um eletro-pop com um tom suave, erótico e provocativo. “Bad Kids” fornece um refrão bem adorável ao lado de bons licks de guitarra e sintetizadores.

Lady GaGa

Na letra, a cantora entrega outra mensagem de encorajamento para os seus fãs, assegurando que apesar de tudo eles são bons pra ela (“Don’t be insecure if your heart is pure / You’re still good to me if you’re a bad kid baby”). Em seguida, entra em cena a faixa “Highway Unicorn (Road to Love)”, um verdadeiro hino influenciado pela década de 80, que reflete a busca de Lady Gaga para encontrar o seu amor. Uma pista eletro-pop dinâmica, com elementos industriais, uma percussão contundente e um tom melancólico. “We can be strong, we can be strong / Out on this lonely road, on the road to love / We can be strong, we can be strong / Follow that unicorn on the road to love” – O refrão, seguido por uivos alucinantes de Lady Gaga, é a melhor e mais encantadora parte da música. Eu demorei um tempo para começar a gostar de “Heavy Metal Lover”, pois é uma música um pouco difícil de digerir.

Mas depois de escutá-la várias vezes, percebi o quanto o seu instrumental, os vocais em efeitos e as ondas distorcidas, são hipnóticos e viciantes. A faixa seguinte é “Electric Chapel”, uma canção eletrônica e rock, com elementos de europop dentro de sua composição, bem como influências de heavy metal. Órgãos e sinos de igreja foram acrescentados para a melodia global e tema religioso da canção. Enquanto sintetizadores e guitarras elétricas também contribuem para o som de tendência rock & roll. O seu refrão não é tão forte como da maioria das músicas do disco, mas em compensação, a sua criativa produção e sonoridade diferenciada merecem elogios. “Yoü and I”, lançada como quarto single do álbum, é outra potência dentro do repertório. Foi escrita por Gaga e contém amostras de “We Will Rock You (1977)” da banda Queen, bem como dispõe da guitarra elétrica de Brian May.

O seu ritmo mais lento e a instrumentação, com guitarras e piano, ficaram muito bem equilibrados. Os vocais da cantora também ficaram sublimes, em uma balada poderosa, honesta e muito bem escrita. Encerrando a versão padrão do álbum, temos “The Edge of Glory”, outra canção pop maravilhosa e digna de aplausos. Produzida por Gaga e Fernando Garibay, foi lançada como terceiro single e fala sobre os últimos momentos da vida. De acordo com Gaga, a inspiração lírica veio da morte de seu avô, que havia morrido meses antes, em setembro de 2010. Sua produção se assemelha muito a algumas obras de Bruce Springsteen, e ainda conta com um maravilhoso solo de saxofone tocado por Clarence Clemons que, infelizmente, morreu naquele mesmo ano. Bem, o “Born This Way” apresenta várias canções fortes, enquanto Gaga demonstra bastante confiança em suas interpretações. Ela conseguiu equilibrar bem a sua imagem extravagante, com a boa produção musical e seus vocais implacáveis.

As composições, no geral, são ousadas, porém, com um certo exagero de menções à Jesus Cristo e contextos religiosos, que poderiam ser evitados. Pois em certos momentos, ficou parecendo que estavam ali para chamar atenção e gerar polêmicas desnecessárias. Dito isto, o álbum possui pouquíssimas falhas, entre elas, a falta de uma música tão grande quanto “Bad Romance” ou “Poker Face”, uma certa confusão em sua ordem e o uso repetitivo de algumas batidas e versos. O repertório, como um todo, é centrado em torno de Lady Gaga e possui energia suficiente para fazer qualquer público sentir-se atraído por sua sonoridade. Suas músicas conseguem transmitir emoção e nuances encantadoras, que ressoam fortemente e bem aos ouvidos. “Born This Way” pode não ter sido o registro histórico que parecia ou deveria ser. Mas é um esforço sólido, decente e com várias músicas e melodias cativantes. Com certeza foi um ótimo passo adiante em sua carreira e uma excelente contribuição para sua excelente discografia.

76

Favorite Tracks: “Marry the Night”, Born This Way”, “Scheiße”, “Yoü And I” e “The Edge of Glory”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.