Review: Kylie Minogue – Body Language (2003)

“Body Language” possui melodias um pouco confusas, mas seu ritmo eletro-funk é sexy, ridiculamente agradável e irresistível.

Lançado em 10 de novembro de 2003, “Body Language” foi o nono álbum de estúdio da Kylie Minogue. Ele veio em sequência do enorme sucesso comercial do “Fever” (2001), que gerou o grande hit de sua carreira, “Can’t Get You Out of My Head”. Para a criação deste álbum, Minogue recorreu a um grupo bem diversificado de escritores e produtores, entre eles Cathy Dennis, Dan Carey, Emiliana Torrini, Johnny Douglas e Mantronix. Influenciado por obras dos anos 80 e artistas como Prince, “Body Language” difere um pouco de seus álbuns anteriores e explora gêneros como synth-pop, R&B e hip-hop. A maioria das canções contém referências da década de 80 e liricamente aborda temas como diversão, paquera e sexo. Terminou por gerar um total de três singles, “Slow”, “Red Blooded Woman” e “Chocolate”. Na época, muitos elogiaram Minogue pela experimentação de novos gêneros e produção global. Embora não tenha obtido o mesmo sucesso dos seus antecessores, “Light Years” (2000) e “Fever” (2001), que foram responsáveis por cimentar Kylie Minogue como uma das principais popstars do mundo, o “Body Language” conseguiu um bom desempenho em mercados como Reino Unido e Austrália. No geral, o registro mistura música dance e pop, que simplesmente faz você querer relaxar e dançar. Tal como acontece com a maioria das músicas pop, as letras não tiram o foco, mas há algumas boas escritas presentes aqui. É um trabalho elegante, retrô e com uma excelente energia, que opta por expandir os seus horizontes.

Possui elementos do eletroclash – gênero que funde o new-wave com o techno e electropop – synth-pop dos anos 80 e até mesmo uma pitada de hip-hop. “Body Language”, ao contrário do “Fever” (2001), é menos imediato e mais experimental, não é coincidência que é preenchido por referências oitentistas e rica em synth-pop e disco da mesma década. Foi um movimento astuto ao mergulhar em uma maré de batidas eletro e dance retirados dos anos 80. Também é um álbum cheio de sons techno robóticos, batidas rígidas e sintetizadores exprimidos. O objetivo pareceu construir um novo e forte modelo para Kylie Minogue, a fim de exceder as expectativas vindas do grande sucesso do “Fever” (2001). Mas, por fim, o “Body Language” não foi um salto artístico enorme em sua carreira, mas sim uma dilatação do seu som e estilo. O primeiro single, “Slow”, é uma grande canção disco – embora seja necessário escutá-la várias vezes para acostumar-se e perceber o quão é boa. É apropriadamente intitulada e começa com uma introdução mínima de sintetizador, terminando por ser uma fusão electropop com disco minimalista. No geral, é uma música que possui vocais sexy que acumulam-se, mas sem realmente decolarem. É sedutor quando Kylie Minogue canta: “Soube que você estaria aqui hoje a noite / Então eu coloquei meu melhor vestido / Menino, eu estava tão certa”. Com alguns sintetizadores e guitarras funky, “Still Standing” aparece em seguida sobre um som disco e dance que lembra o Prince e Daft Punk.

Entretanto, mesmo sendo bem trabalhada, não está entre as melhores faixas do repertório. “Secret (Take You Home)” contém uma experimentação onde ela tenta um rap distorcido sobre uma simples pancada de EDM. Uma mudança de ritmo acontece no pop adocicado de “Promises”, uma das faixas mais cativantes do registro. Produzida por Curtis Mantronix, o ritmo desacelera enquanto várias camadas são adicionadas aos vocais. A letra sobre promessas quebradas é extremamente simplista, mas combinou perfeitamente com a melodia do refrão. A introdução de “Sweet Music” soa como uma canção do Michael Jackson, especialmente por causa das fortes batidas impulsionadas pelo baixo pegajoso. Aqui, Kylie Minogue demonstra sua maestria para duplos sentidos: “Então coloque suas vibrações na minha batida / E nós deixaremos assim”. Lançada como segundo single, “Red Blooded Woman” mistura uma sonoridade oitentista com batidas de hip-hop – uma música irresistível que conta a história de uma mulher que se envolve em relações perigosas e sempre acaba emocionalmente abalada. O viciante e cativante refrão é certamente a melhor parte da músicaEm “Chocolate”, encontramos Minogue adotando um sussurro gracioso através de uma brisa funky e estalar de dedos. Liricamente, é repleta de insinuações que comparam seu vício em amor com chocolate e doces. “Obsession”, por sua vez, é uma canção influenciada pelo R&B que fala sobre a necessidade de amar pelas razões erradas.

“Você não precisa de amor / É uma questão de obsessão / Tão apegado a seu próprio reflexo / Você quer alguém / Como uma possessão pessoal / Para brilhar luz na sua perfeição”, ela canta. Apesar do refrão clichê, é uma música bem dançante e infecciosa. “I Feel For You” possui um fluxo agradável e faz referência direta a era disco, graças aos riffs de guitarra e teclado saltitante. Uma canção quase atemporal que poderia facilmente ter feito sucesso na década de 80. “Someday” é outra música influenciada pelo R&B que, em alguns momentos, evoca uma grande melancolia. Entretanto, tanto os versos quanto a melodia são ligeiramente esquecíveis. Em contrapartida, “Loving Days” é uma das minhas faixas favoritas do álbum. Sua introdução orquestral, vocais e efeitos sonoros são interessantes e combinam perfeitamente. A última peça do repertório é uma contribuição sem brilho de Cathy Dennis em “After Dark” – o mesmo compositor e produtor de “Can’t Get You Out of My Head”. Ela possui vocais sexy acompanhados por um ritmo funky, mas que soam muito familiares e deslocados. “Body Language” não é um registro surpreendente, visto que é carente de algo realmente marcante. No entanto, é agradável e um álbum surpreendentemente coeso. A devoção de Minogue ao processo e vontade de experimentar algo novo, mesmo que seja dentro dos seus limites, é um fator admirável. “Body Language” foi um álbum essencial para a sua carreira que reafirmou na época a sua reputação como diva pop, ícone do público gay e estrela da música dance.

  • 62%
    SCORE - 62%
62%

Favorite Tracks:

“Slow” / “Red Blooded Woman” / “Loving Days”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.