Resenha: Kygo – Cloud Nine

Lançamento: 13/05/2016
Gênero: Tropical House, Deep House
Gravadora: Sony Music Entertainment / Ultra Music
Produtor: Kyrre Gørvell-Dahll.

Kyrre Gørvell-Dahll, mais conhecido pelo seu nome artístico Kygo, é um DJ norueguês que chamou atenção internacional por seu remix de “I See Fire” de Ed Sheeran. A faixa foi tocada mais de 48 milhões de vezes no SoundCloud, bem como atingiu 60 milhões de visualizações no YouTube. Posteriormente, Kygo conseguiu ainda mais sucesso com a canção “Firestone”, que já tem mais de 340 milhões de visualizações no YouTube. Lançado em 13 de maio de 2016 pela Sony Music, “Cloud Nine” é o seu primeiro álbum de estúdio. Após a excitação inicial fornecida por seu remix de “I See Fire” e o sucesso de “Firestone”, muitos estavam ansiosos para ouvir seu disco de estreia. Mesmo liberando canções originais desde 2013, somente agora o DJ norueguês, amplamente considerado um dos pioneiros do tropical-house, conseguiu lançar seu debut álbum.

Para melhor esclarecer, tropical-house é um subgênero da música house, com raízes fincadas no deep-house e dancehall. Enquanto o deep-house tem uma vibe escura, o tropical-house é mais eufórico, relaxante e down-tempo. É um gênero musical que faz uso de instrumentos mais variados, como flauta e marimba, além dos sintetizadores padrões e habituais. “Cloud Nine” é, portanto, o seu primeiro álbum completo composto de canções originais. Metade do repertório, com um total de 55 minutos de duração, foi liberado ao longo do ano passado. Com grande talento no piano, Kygo consegue oferecer melodias brilhantes e algumas delas muito infecciosas. Para esse álbum ele teve ajuda de muitos colaboradores, tais como Kodaline, John Legend, Foxes, Labrinth e Julia Michaels.

No geral, o álbum não excede qualquer expectativa, mas é exatamente o que você esperaria após ouvir os singles. É um esforço contínuo do seu som já apresentado, embora as batidas não sejam tão potentes. As letras poderiam ser muito melhores, mas, no geral, não chegam a ser uma decepção. Com músicas de fácil digestão, “Cloud Nine” é um empreendimento que pisa na fronteira entre o tropical-house e o deep-house. Não é uma reinvenção do gênero, porém, é um esforço que pode ser apreciado. O jovem de 25 anos é muito bom em emparelhar seu piano ao lado de vocalistas convidados. Com ganchos suaves no piano, camadas exuberantes de sintetizadores, percussões pegajosas, sons ambientes atmosféricos e uma vibe dançante, “Cloud Nine” é realmente eufórico.

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Não é um álbum que consegue retratar a profundidade esperada para um álbum dessa estatura. Mas, as razões para isso, são exatamente suas letras e fórmulas frenquentemente testadas na house-music. As letras não se sobressaem porque soam bastante juvenis e superficiais. A maioria das canções contém interlúdios e prelúdios dramáticos no piano, camadas de sintetizadores e estruturas down-tempo. Em suma, Kygo utilizou a típica receita para quem quer fazer música house. O álbum apresenta uma grande variedade de convidados, que vão desde cantores de R&B, como John Legend e Labrinth, até vozes singulares, como a de Tom Odell e Steve Garrigan da banda Kodaline. Mostrando no que ele realmente é bom, Kygo começa o álbum com guitarras, sintetizadores, pianos e percussões durante a faixa “Intro”. A segunda canção, “Stole the Show”, é linda e um dos meus números favoritos.

Originalmente destinada a ser uma balada, o tratamento tropical-house a transformou em algo bem diferente. O seu ritmo, conduzido pelo piano, soa muito semelhante à “Firestone”, com Parson James apenas substituindo os vocais de Conrad Sewell. “Fiction” fornece uma mudança de ritmo, graças ao riff de guitarra que guia a melodia principal. Os vocais de Tom Odell são muito eufóricos, mas atendem a melodia fornecida pela guitarra acústica. Apesar de conter letras juvenis, o folktrônica de “Raging”, com Kodaline, não soaria nada fora do lugar se estivesse presente no álbum “Coming Up for Air”. Kygo ganhou maior popularidade, principalmente, por causa do single “Firestone”. Essa canção é a melhor representação do que Kygo tem de melhor para oferecer. É uma cativante canção de deep-house com vocais do cantor australiano Conrad Sewell. Originalmente, seria uma faixa de R&B do australiano, porém, o remix de Kygo popularizou o gênero e tornou a canção um nome familiar.

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Após “Firestone”, não dá para negar que o álbum cai em um território desgastante e repetitivo. “Happy Birthday”, com John Legend, é um número de R&B padrão, com o house de Kygo jogado por cima. Infelizmente, é uma música monótomo que não faz jus ao poder vocal de Legend. Em seguida, temos alguns vocais irritantes de James Vincent McMorrow e letras repetitivas por todo o comprimento de “I’m in Love”. A cantora britânica Foxes faz um bom trabalho na releitura alternativa da faixa “Oasis”. Escrita por Sia, essa canção possui um refrão cantado por ela e versos interpretados por Foxes. Apesar de soar um pouco inacabada, é uma música que utiliza todos os aspectos vocais de Foxes. Mais tarde, RHODES é apresentado na faixa “Not Alone”, outra canção que inclina-se para o R&B. Especificamente na segunda metade do álbum, Kygo não ajuda os vocalistas convidados.

Afinal, as melodias e instrumentais escolhidas por ele são pouco marcantes. “Serious”, com Matt Corby, por exemplo, não possui qualquer carisma e parece uma faixa aleatória com alguma voz anônima. Singles como “Stay”, com Maty Noyes, e “Nothing Left”, com Will Heard, são canções de tropical-house muito cativantes. Ambas músicas são divertidas, porém, destacam a deficiência estrutural do resto do álbum. “Fragile”, com Labrinth, ao menos fornece algo novo, como tons soulful e uma melhor infusão de house. “Carry Me”, com Julia Michaels, por sua vez, possui algumas semelhanças com “Broken Arrows” de Avicii. Felizmente, Kygo foi capaz de usar uma fórmula já testada para produzir algo convincente. Ouça com cuidado e você perceberá suas aparentes semelhanças.

Encerrando o repertório, temos a presença do duo australiano Angus & Julia Stone na faixa “For What It’s Worth”. Igual boa parte do registro, o que realmente falta nessa música é uma maior experimentação e improvisação. Kygo produz um som cativante e tem a boa capacidade de criar singles interessantes. Apesar do subgênero tropical-house depender fortemente de piano e instrumentos tropicais característicos, ele tem uma grande sensibilidade musical. “Cloud Nine” definitivamente tem a sua parcela de canções que podem ser apreciadas num álbum de estréia. Entretanto, tomando como um conjunto, o registro sofre pelo repetitivo uso das mesmas fórmulas. É um LP que simplesmente peca pela falta de variedade. Ademais, algumas faixas soam completamente fora do lugar. Em um mundo onde Kygo quer estabelecer-se como um grande produtor de tropical-house, ele precisa esforçar-se um pouco mais.

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Favorite Tracks: “Stole the Show (feat. Parson James)”, “Firestone (feat. Conrad Sewell)”, “Oasis (feat. Foxes)”, “Not Alone (feat. RHODES)” e “Fragile (feat. Labrinth)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.