Resenha: Kid Cudi – Passion, Pain & Demon Slayin’

Lançamento: 16/12/2016
Gênero: Hip-Hop
Gravadora: Republic Records
Produtores: Kid Cudi, Anthony Kilhoffer, A+, Dot da Genius, Idle Kid, J Gramm, Mike Dean, Mike Will Made It, Plain Pat e Pharrell Williams.

“Passion, Pain & Demon Slayin'”, o sexto álbum de estúdio de Kid Cudi, marca o regresso do artista à cena do hip-hop após uma incursão no rock alternativo em seu último disco, “Speedin’ Bullet 2 Heaven”. Composto por quatro partes e 19 faixas no total, é certamente um dos seus projetos mais bem produzidos. Uma vez que enfrentou lutas contra o abuso de drogas e saúde mental, Kid Cudi mergulhou num território complexo e muito pessoal. Ele explora principalmente temas como fracasso, amor e confiança. Para um artista tão influente, foi desconfortável ver Kid Cudi lançando um álbum tão amador quanto “Speedin’ Bullet 2 Heaven”. Felizmente, ele retornou ao hip-hop melódico de forma promissora com o refrescante “Passion, Pain & Demon Slayin'”. Nesse álbum percebemos que Cudi voltou a ser quem ele era. O antigo estilo dos seus discos também possuíam falhas, como o lirismo pobre. Além disso, Cudi sempre atormenta seus álbuns com longos tempos de execução. “Passion, Pain & Demon Slayin'” também sofre desse mal, pois possui mais de 90 minutos de duração. O rapper sempre falou sobre depressão e ansiedade, assuntos realmente pessoais e profundos. Entretanto, foram poucas as vezes que ele fez isso de forma particularmente poética e interessante.

Enquanto as letras de Cudi não mantém um grande nível, sua produção e paisagens sonoras chamam atenção. Nesse álbum, Kid Cudi e Mike Dean lidam com a maior parte da produção e, consequentemente, atingiram um nível bem satisfatório. Sintetizadores e grande efeitos compõem a maioria do repertório. O primeiro ato do disco, intitulado “Tuned”, mostra Cudi exorcizando seus demônios pessoais de depressão e tristeza. O rapper lida com a escuridão em torno de sua vida, enquanto expressa sua esperança para o futuro. Aqui, ele estabelece um tom melancólico nas primeiras faixas. Este tom é mais evidente nas faixas “Releaser” e “By Design”, com participação de André 3000 (creditado como André Benjamin). Os versos de André 3000 se fundem facilmente com o piano, mas a voz distinta de Kid Cudi ocupa um lugar central. O gancho atrativo de André 3000, combinado com os tambores de aço e sintetizadores, torna a música a mais memorável do ato “Tuned”. O segundo ato, “Prophecy”, ainda fica imerso na escuridão, mas começa a mostrar alguma luz no fim do túnel. Aqui, o som fica mais introspectivo e psicodélico. O grande destaque desse ato é a faixa “Rose Golden”, que apresenta vocais de Willow Smith. Os dois cantam sobre temas de poder, independência e fé em si mesmo.

A boa manipulação da melodia por Smith ajuda a tornar a faixa num grande esforço. Travi$ Scott faz uma aparição sólida em “Baptized in Fire”, uma faixa que poderia até estar presente nos discos “Man on the Moon: The End of Day” e “Man on the Moon II: The Legend of Mr. Rager”. A segunda parte do projeto é concluída pelas faixas “Flight at First Sight / Advanced”, com Pharrell Williams, e “Does It”. O terceiro ato do álbum, “Niveaux de l’Amour”, é onde o rapper está mais pessoal e experimental. Nessa parte do registro, temos alguns momentos duráveis, como “Dance 4 Eternity” e “Distant Fantasies”. Apesar de ser arrastada, “Wounds” mostra Kid Cudi tentando soar bastante apaixonado. Da mesma forma, durante “Mature Nature” o rapper geme palavras como “heaven” e “again” sobre uma seção de cordas e uma linha de baixo descontraída. O registro é concluído pelo ato “It’s Bright and Heaven Is Warm”, onde André 3000 faz sua segunda aparição na faixa “The Guide”. Essa canção se distingue das demais por conta dos passos rítmicos e linha de sintetizador sinuosa. É nesse quarto e último ato que Kid Cudi rompe a escuridão das faixas anteriores. Ainda assim, o rapper não abandona sua marca registrada de qualidade experimental. “Cosmic Warrior”, por exemplo, é liricamente e instrumentalmente psicodélica.

Seu ponto negativo é que, muitas vezes, fica sobrecarregada por conta dos muitos elementos que a compõe. “Surfin'”, última faixa do álbum, é um momento comemorativo que contém baixo, trompas e um forte batida. Aqui, o rapper envolve as coisas com alegria e em boa forma. É um final adequado para o disco, pois encontra Cudi lidando com seus demônios, porém, também encontrando esperança para conquistas futuras. Aqueles dispostos a investir tempo com um álbum conceitual, será recompensado com reflexões sombrias e introspectivas. Por outro lado, aquele ouvinte que não tem paciência para escutar um álbum com quase 1 hora e meia de duração, eu aconselho a procurar apenas os momentos mais acessíveis do álbum. Dito isto, “Passion, Pain & Demon Slayin'” tem potencial para marcar uma nova era para Kid Cudi. Enquanto ele não possui uma direção clara ou efeito memorável, é pungente e interessante. Sem dúvida, é um registro muito mais coeso e agradável que seu disco antecessor. Uma de suas falhas inclui o fato das músicas não diferenciarem-se tanto uma das outras, já que Kid Cudi não oferece qualquer mudança em sua cadência sonora. É um registro um pouco desarrumado, mas com certeza um dos melhores que o rapper fez em anos. Como um todo, o sexto álbum de estúdio de Kid Cudi mostra um caminho para uma nova transformação artística e temática.

Favorite Tracks: “By Design (feat. André Benjamin)”, “Rose Golden (feat. Willow Smith) e “Baptized in Fire (feat. Travi$ Scott)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.