Resenha: Kesha – Rainbow

Lançamento: 11/08/2017
Gênero: Pop, Synthpop
Gravadora: Kemosabe Records / RCA Records
Produtores: Kesha, Bordy Brown, Rogét Chahayed, Stuart Crichton, Ben Folds, Ryan Lewis, Nate Mercereau, Rick Nowels, Andrew Pearson, Ricky Reed e Pebe Sebert.

“Rainbow”, o primeiro álbum da Kesha desde 2013, é uma coleção de músicas cuja criação aconteceu quando ela estava em reabilitação. No decorrer de quatro anos, a cantora passou por uma longa batalha judicial contra seu ex-produtor Dr. Luke, por acusação de agressão sexual e abuso emocional. Sem dúvida, sua vida pessoal ficou em mais evidência do que o seu mundo artístico. Quando Kesha surgiu na cena musical em 2009, ela rapidamente tornou-se conhecida por conta de músicas divertidas como “Tik Tok”, “Your Love is My Drug” e “We R Who We R”. Entretanto, nos últimos anos, suas experiências foram traumáticas, uma vez que sua carreira ficou amarrada numa disputa contra Dr. Luke. Em julho de 2017, Kesha finalmente lançou uma música nova. O primeiro single do “Rainbow”, intitulado “Praying”, mostrou que ela é uma vocalista mais capaz do que os outros pensam. Às vezes, ela parece gutural e frustrada, mas com tons de raiva surpreendentemente eficazes. É uma música que ninguém esperava ouvir da Kesha e é o que, provavelmente, causará uma reviravolta em sua carreira. Sem dúvida, ela fez um retorno triunfante com “Praying” e todo o álbum “Rainbow”. Kesha ainda trabalha sob o rótulo que começou, porém, desta vez ela está com mais liberdade criativa para trabalhar. E isto é facilmente perceptível em todo o disco, uma declaração sobre os direitos das mulheres e toda vida pessoal da cantora. Como você poderia esperar, “Rainbow” é um álbum reflexivo, orgânico, terapêutico, introspectivo, emponderador e honesto.

Composto por baladas contemplativas, faixas rock, pop e country, “Rainbow” mistura todas as influências musicais de Kesha. Há letras verdadeiramente significativas escondidas atrás de alguma doce melodia, guitarra ou banjo country. Ao contrário de seus discos anteriores, “Rainbow” é o trabalho de uma artista mais preocupada em fazer arte do que sucesso nos charts. É como se nós estivéssemos ouvindo-a pela primeira vez, livre e capaz de se expressar verdadeiramente como artista. A primeira faixa, “Bastards”, é uma boa representação do que todo o álbum possui. Embora explícita e com a sua atitude conhecida, é uma balada despojada que troca as batidas dançantes do passado em prol de uma abordagem acústica. “Let ‘Em Talk” é uma inesperada colaboração com a banda Eagles of Death Metal. Influenciada pela era grunge dos anos 90, esta canção possui frenéticas guitarras que combinam incrivelmente bem com a energia dos vocais. O primeiro single promocional, “Woman”, é um provável destaque do álbum. Uma canção feminista com uma produção influenciada pelo soul, funk e jazz. Liricamente, é uma faixa irritada inspirada pelos comentários de Donald Trump sobre as mulheres durante o início de sua eleição presidencial. As trompas jazzísticas de The Dap-Kings Horns fornecem um ambiente ideal para o forte desempenho vocal de Kesha. “Eu sou um mulherão da porra, meu bem, isso mesmo / Eu não preciso de homem pra ficar me segurando / Eu sou um mulherão da porra, meu bem, isso aí / Estou apenas me divertindo com minhas amigas aqui esta noite / Eu sou do caralho”, ela canta explicitamente no refrão.

A balada mid-tempo “Hymn” é uma faixa synthpop dedicada àqueles que sentem-se presos e insuficientes. Aqui, ela foca na auto-aceitação: “Um hino para quem não tem hino / Não precisa de perdão / Porque se há um paraíso / Não ligo se entraremos lá”. Como mencionado, “Praying” foi o single de retorno da cantora. Uma resposta direta para Dr. Luke e o abuso que sofreu em suas mãos: “Bem, você quase me fez de tola / Me disse que eu não era nada sem você / Ah, mas depois de tudo que você fez / Posso te agradecer por quão forte eu me tornei”. É provavelmente o momento mais melancólico, emocionante e angustiante de sua carreira. Uma declaração poderosa sobre crescimento e sobrevivência. Os vocais estão excepcionalmente vulneráveis e puxam suas lágrimas sobre belas teclas de piano. A sexta faixa, “Learn to Let Go”, é uma canção onde ela se liberta do seu passado e demônios interiores enquanto decide viver melhor. É outra faixa inspiradora, lindamente otimista, com versos rápidos e sons pop-rock. Em seguida, Kesha compartilha sua visão sobre o amor na adorável “Finding You”. Um número curto e simplista com foco na apaixonada performance vocal da cantora. Desta vez, ela é acompanhada apenas por uma guitarra acústica e alguns tambores. A faixa-título, “Rainbow”, é outra canção sensível que destaca sua recente caminhada. Kesha se mostra resiliente e canta sobre recuperar a luz depois de se perder por estradas sombrias. Escrita enquanto Kesha estava na reabilitação, a música detalha sua jornada pessoal através do que aconteceu nos últimos anos.

Uma balada convincente composta por poderosas cordas, notas altas e letras de capacitação. Influenciada pelo country, “Hunt You Down” é um desvio sonoro incrivelmente atraente que apresenta melodias otimistas e vocais carismáticos. Inesperadamente country, Kesha parece estar num gênero muito confortável e familiar. Enquanto “Boogie Feet”, outra faixa com a banda Eagles of Death Metal, merece aplausos pela produção e entrega vocal, “Boots” é uma busca sombria pelo amor. “Eu estou andando no ar, chutando meus blues / Tudo pára quando estou com você / Então deslize aqui, me diga a verdade / Eu sei que você me ama vestindo nada além de suas botas”, ela admite aqui. Na próxima faixa, “Old Flames (Can’t Hold a Candle to You)”, Kesha é acompanhada pela lenda do country Dolly Parton. É um cover da clássica canção de Parton, onde Kesha permanece fiel ao número original. “Godzilla”, por sua vez, é uma atraente e inofensiva balada acústica, que brilha mesmo sendo um breve momento. A última faixa, chamada “Spaceship”, possui letras sombrias, vulneráveis e estranhamente esperançosas. Apoiada por uma produção bluegrass, Kesha tenta encontrar respostas falando sobre a morte. “Rainbow” é o registro mais forte da Kesha até o momento. No seu corpo de trabalho podemos apreciar experimentos de jazz, country, rock e blues. É um álbum dinâmico, feminista, emocional, inspirador e vulnerável que melhora a cada escuta. Pode não ser coeso e estilisticamente linear, mas, de alguma forma, encaixa-se perfeitamente à sua estética desordenada. Kesha ainda pode estar tentando encontrar sua própria identidade, mas conseguiu fazer um ótimo trabalho.

Favorite Tracks: “Bastards”, “Hymn” e “Praying”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.