Resenha: Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly

Lançamento: 13/03/2015
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: Interscope Records
Produtores: Dr. Dre, Anthony “Top Dawg” Tiffith, Terrace Martin, Boi-1da, Dave Free, Flying Lotus, KOZ, Knxwledge, 1500 or Nothin’, LoveDragon, Tommy Black, Rahki, Flippa, Sounwave, Tae Beast, Taz Arnold, The Antydote, Thundercat, Pharrell Williams e Whoarei.

O fenômeno do hip-hop Kendrick Lamar lançou em 15 de março de 2015 o seu terceiro álbum de estúdio, intitulado “To Pimp a Butterfly”. Universalmente aclamado, esse foi o seu primeiro disco após o também aclamado “Good Kid, M.A.A.D City” de 2012. Para esse projeto o rapper colaborou com uma série de nomes, alguns dos quais são grandes na indústria em termos de produção. Para aqueles que não ainda são familiarizados, Kendrick Lamar é um rapper de Compton, Califórnia, vencedor de 7 Grammy Awards. Embora ele tenha ganhado atenção com a sua quarta mixtape, “Overly Dedicated”, foi com o seu segundo álbum de estúdio, “Good Kid, M.A.A.D City”, que ele chegou à fama. Um disco amplamente elogiado e descrito como um clássico moderno, que narra uma parte da vida de Lamar enquanto crescia em Compton. Desde o seu lançamento em 2012, Lamar manteve-se relevante na indústria e colaborou em um série de singles de outros artistas. “To Pimp a Butterfly” veio a ser lançado ano passado e foi extremamente aguardado pelos fãs de hip-hop. Um material meticulosamente bem trabalhado, que apresenta um conteúdo lírico politicamente carregado e uma produção musical incrível. Musicalmente, além do rap e hip-hop, o disco incorpora bons elementos de jazz e funky. Ao longo de suas letras e poesias, Kendrick apresenta um auto-retrato de uma emoção crua, descrevendo realizações, inconsistências e falhas de caráter. É um registro maduro, reflexivo e que demonstra um grande crescimento por parte de Kendrick Lamar. Entre as variadas mensagens, o álbum faz apelos subjacentes referente a empoderamento negro, hipocrisia social e tentações da fama.

Tanto musicalmente quanto liricamente, “To Pimp a Butterfly” é surpreendentemente inovador e criativo. Ele ultrapassa qualquer limite imposto por uma convencional narrativa na música popular. O álbum começa bem forte com a faixa “Wesley’s Theory”, canção fortemente influenciada pelo funky. Em uma entrevista para a Rolling Stone, Lamar havia revelado o quão influente o funky dos anos 70 foi para a sonoridade geral do álbum. E, aqui na faixa de abertura, isto é bastante nítido. Como esperado, nesta pista temos uma boa batida e um fluxo narcótico, que acompanham em perfeita concomitância a história contada. Aqui, ele também aproveita para explicar, através das letras, o conceito por trás do título e capa do álbum. Inicialmente, a canção começa com leves sons de um toca-discos e um canto distante que, gradualmente, fica mais alto e claro, de “Every Nigga is a Star” do cantor jamaicano de soul Boris Gardiner. Oscilações de guitarra funky e interessantes jingles juntam-se ao canto hipnótico, enquanto mergulham profundamente na arquitetura P-Funk do colaborador George Clinton. O baixista Thundercat também aparece como contribuinte da faixa, enquanto Dr. Dre entrega vocais adicionais através de uma mensagem de voz. Ele oferece sabedoria para Kendrick ao alertá-lo das dificuldades de se manter o sucesso adquirido (“Mas lembre-se, qualquer um pode obtê-lo / A parte mais difícil é mantê-lo, filho da puta”). O interlúdio “For Free?” aparece em seguida e, rapidamente, traz a primeira pitada de jazz para o registro. O saxofone, piano e o baixo impostos por uma banda orquestral, transmitem uma sensação jazzy, vintage e otimista muito boa.

O produtor Terrace Martin, filho de um baterista de jazz, lida com a produção, bem como é apoiado pelo pianista Robert Glasper. O fluxo de Kendrick Lamar é acelerado, bem como apoiado por poesia falada e frases repetitivas. As letras não são tão compreensivas, mas percebemos que possui um senso de auto-respeito. Embora frases com temática sexual, como “This dick ain’t free” (tradução para “Este pau não é livre”), seja repetida várias vezes ao longo da canção, este interlúdio é definitivamente bem-sucedido. A terceira faixa, “Kinga Kunta”, é uma das minhas favoritas do álbum, principalmente por causa da forte batida e do pesado baixo funky. Ela me lembra algumas canções de rap dos anos 80 e ainda apresenta uma forte influência do hip-hop da Costa Oeste e do G-Funk. Quando o ritmo começar a ganhar força, com adição de mais instrumentos, ela fica ainda melhor. O produtor Mark “Sounwave” Spears ajudou a deixar “Kinga Kunta” ainda mais atraente ao adicionar amostras pertubadoras de “Get Nekkid” (Mausberg), elementos de “The Payback” (James Brown), interpolações de “We Want the Funk” (Ahmad Lewis) e algumas letras de “Smooth Criminal” (Michael Jackson). Liricamente, aqui temos um personagem, Rei Kunta, chateado com as pessoas que estão sentadas no seu trono. Lamar começa com um discurso retórico, abordando todos os outros rappers que tentaram tomar seu lugar, enquanto passou dois anos longe da indústria. O título é uma referência ao escravo rebelde Kunta Kinte, personagem base retratado no principal romance de Alex Haley, “Roots”.

“Onde você estava enquanto eu caminhava? / Agora eu mando no jogo, o mundo todo fala, Rei Kunta / Todos querem cortar as pernas dele, Kunta / Homem negro não assume as perdas”, ele rima durante o refrão. Semelhante a Kunta, Kendrick sente que está sendo acorrentado e paralisado por outros rappers da indústria, algo resultante da sua ausência no centro das atenções. Além disso, ele também fala sobre alguns rappers que possuem “escritores fantasmas” na indústria musical. “Institutionalized”, quarta faixa, é uma canção que soa como uma dos seus primeiros álbuns, mas que ainda segue o estilo funky predominante por aqui. Produzido por Rahki e Tommy Black, a faixa conta uma história frustrada de Compton, alternando entre personagens para representar determinadas lutas. Quando Lamar fecha seu primeiro verso, ele introduz o ótimo neo-soul de Bilal, que canta o refrão: “Merdas não mudam até você se levantar e lavar a sua bunda”. Essa estranha frase é cantada a partir da perspectiva da avó de Lamar. Snoop Dogg, em seguida, introduz o verso final e afirma explicitamente: “Você pode levar seu filho para fora da capa / mas você não pode tirar o capuz mano”. No geral, nessa faixa, Kendrick fala sobre sua educação e como a mentalidade que ele desenvolveu na infância transcendeu para a sua vida adulta de fama repentina. Anna Wise, que colaborou no álbum “Good Kid, M.A.A.D City”, também contribui nos vocais e dá um toque feminino para a música. Assim como a faixa anterior, “These Walls” também apresenta Bilal e Anna Wise, além do baixista Thundercat. É uma canção narcótica, onde Kendrick Lamar oferece insinuações sexuais cimentadas através de versos poéticos.

Ele apresenta uma metáfora complexa ao comparar implicitamente paredes literais com as paredes da vagina de uma mulher. O rapper usa essa base para explorar contrastes do sexo, luxúria, emoções e fama repentina. Aqui, ele também justapõe o conceito de paredes vaginais com as paredes da prisão do homem que matou um dos seus melhores amigos de infância. As letras são muito mais profundas e complexas do que possam parecer. Todos os três versos são incríveis, enquanto o significado por trás de cada um é demasiado curioso. O estalar de dedos, o maravilhoso riff de saxofone e o piano, bem como os gemidos femininos e a sensualidade dos vocais, fazem de “These Walls” uma das produções mais fortes do registro. A faixa seguinte, “u”, é uma das mais obscuras canções encontradas no “To Pimp a Butterfly”. “Foi uma das canções mais difíceis que tive de escrever”, disse Kendrick Lamar a Rolling Stone. “Há alguns momentos muito escuros lá dentro. Toda a minha insegurança, egoísmo e decepções”. Essa é a canção oposta a otimista “i”, penúltima faixa do álbum e vencedora de dois prêmios Grammy. “u” coloca Kendrick gritando em um quarto de hotel, embriagado e considerando o suicídio. É uma música muito deprimente e emocional, com uma letra dolorosa e onde o rapper está no seu momento mais vulnerável. A sensação de desgraça, juntamente com uma atmosfera escura, paira sobre esta canção. Aqui, muitas vezes ouvindo ele dizer “Amar você é complicado”, um sentimento que podemos ouvi-lo gritar em meio a lágrimas nos olhos. Um saxofone jazzy, uma pausa onde o serviço de limpeza bate na porta do hotel, harmonias de fundo, tilintar de garrafas de cerveja e alguns ruídos, complementam os lamentos agudos da canção.

O single “Alright”, sétima faixa, é o acompanhamento perfeito para a canção anterior. O objetivo desta música para Kendrick Lamar é o de tentar convencer-se de que, apesar de todos os problemas pessoais indicados em “u”, ele vai ficar bem. Toda a dor da letra de “u” é deslocada pelo rapper e transformada em uma energia completamente otimista em “Alright”. Rapidamente, a canção começa com uma voz alta e muito forte cantando que tudo vai ficar bem. Também acompanhada por um saxofone, essa canção festiva e esperançosa apresenta vocais sem créditos do co-produtor Pharrell Williams durante o refrão. Inspirada por uma viagem de Kendrick Lamar à África do Sul, local onde testemunhou problemas sociais de várias pessoas, a música começa com letras como: “Por toda a minha vida eu tenho que lutar, mano / Toda a minha vida / Tempos difíceis como Deus / Alucinações como: “Deus! ” / Nazareth, estou fodido / Mano você está fodido / Mas se Deus está por nós então tudo tem que ficar bem”. Mesmo com as dificuldades, o rapper é capaz de ver o lado bom das coisas e tenta espalhar uma mensagem edificante e positiva. Aqui, ele também explora as tentações do diabo, introduzindo o personagem “Lucy” como uma metáfora para Lúcifer. Sonoramente, a grande batida imposta por Pharrell e Sounwave, além do cativante gancho radio-friendly, foram peças chaves para complementar o rap desta potente faixa de hip-hop infundida pelo jazz. A oitava faixa é o interlúdio “For Sale?”, canção que apresenta um conceito de tentação. Ela é contada a partir do ponto de vista de Lucy tentando seduzir Kendrick Lamar.

Ele faz uma alusão a Lúcifer ao mencioná-lo em várias linhas, enquanto aponta os aspectos negativos de uma carreira no hip-hop. Kendrick cospe versos que enumeram as muitas coisas que Lúcifer iria lhe oferecer para que caia na tentação. Sonoramente, “For Sale?” inicia com Kendrick tomando fôlego e respirando ofegante, enquanto é acompanhado por seus habituais vocalistas: Bilal, Taz Arnold e SZA. É uma canção sonhadora, com sinos eletrônicos, piano, saxofone e uma vibe ensolarada. Knxwledge, um beatmaker de Los Angeles, foi o responsável por produzir, ao lado de Taz Arnold, a faixa “Momma”. Um neo-soul influenciado pelo hip-hop da Costa Oeste e conduzido por uma amostra da canção “Wishful Thinkin'” de Sly and the Family Stone. Bilal fornece, novamente, alguns vocais como contraponto, assim como Lalah Hathaway auxilia com suaves tons de apoio. “Momma” tem uma batida bem sólida e fala sobre voltar às suas raízes. Kendrick centra-se na ideia de voltar para casa, que diz respeito à sua residência em Compton com sua mãe. Ele descreve essa viagem em sua própria mente, a partir de um olhar de gratidão com o quão longe ele chegou na busca por seu sonho: “Este sentimento é incomparável / Este sentimento é trazido a você pela adrenalina e o bom rap (…) / Graças a Deus pelo rap, eu diria que isso me levou a placa / Mas o que é melhor do que isso? / O fato de ele me trouxe de volta para casa”. Na politicamente carregada, “Hoods Politics”, Lamar justapõe a política do governo federal e a política da hierarquia social em seu bairro em Compton.

Ele percebe que há muitas coisas para se preocupar, porque pessoas estão morrendo muito jovens devido à violência das gangues. Ele ainda acrescenta que, muitas vezes, o governo faz coisas até piores que as gangues de ruas. Kendrick argumenta que grupos políticos afetam os americanos de várias formas, ao contrário das pessoas pobres de seu bairro. Lamar também aproveita para atacar a hipocrisia, tanto da crítica quanto do consumidor: “Críticos querem mencionar que eles perdem quando o hip-hop está fazendo rap / Filho da puta se você faz, então Killer Mike seria platina”. A introdução de “Hood Politics” é uma das peças mais interessantes do álbum. No fundo, você pode ouvir um dedilhar de guitarra e uma bateria simples que, posteriormente, são precedidos por uma batida estranhamente saltitante. Influenciada por amostras do cantor indie-rock Sufjan Stevens, a batida fornece um cenário perfeito para os versos de Kendrick Lamar. Em “How Much a Dollar Cost”, o rapper conta uma história que envolve uma interação entre ele e um homem sem-teto. Durante o diálogo entre o homem e Kendrick, o mendigo pede um dólar a ele. Isto leva para a questão filosófica do título de quanto realmente custa um dólar. Kendrick, pensando que o homem iria gastar com álcool ou outra droga, não dá o dinheiro. Porém, o homem revela que ele, na verdade, é uma imagem de Deus. O pedido de um dólar foi um teste para o rapper, para ver se ele realmente se preocupa com os pobres. “Ele me olhou e disse, “Sei a verdade, vou te libertar (…) / De Nazaré, e eu vou te dizer exatamente quanto custa um dolár / O preço ter um lugar no céu / Abrace sua perda, Eu sou Deus”, ele recita.

Na música, vemos Kendrick admitindo seu erro e arrependendo-se na esperança de receber o perdão de Deus. É uma metáfora espiritual escura, que se move hipnoticamente através de detalhes e um encontro com o Criador. Chaves de piano e um pandeiro criam a abertura para essa incrível canção. James Fauntleroy, conhecido por seu trabalho como compositor, fornece boas vibrações R&B e emerge maravilhosos tons angelicais durante o refrão (“Isso é mais para alimentar sua mente / Água, sol e amor, o que você ama / Tudo o que eu preciso, o ar que você respira”). Ronald Isley também faz uma excelente aparição no final e contribui com sua influência soul. “Complexion (A Zulu Love)”, por sua vez, é uma canção com uma mensagem muito importante, que diz que não devemos julgar uns aos outros pela cor da pele. Lamar faz alusão à escravidão nos EUA, enquanto imagina, brevemente, a si mesmo como um escravo colhendo algodão. Para todas as referências ao passado, Lamar decide que ele não tem que deixar a história ditar o futuro. Por isso, tenta educar a sociedade sobre padrões de beleza, mas especificamente o colorismo na comunidade negra. O refrão desta faixa é bem cativante, enquanto a batida é uma das mais interessantes do álbum. A rapper convidada Rhapsody também destaca-se e fala em nome das mulheres. Ela desafia aquelas com baixa auto-estima a ter fé em sua beleza, no seu cabelo crespo, nos quadris cheios de curvas e na pele mais escura. O segundo single oficial do álbum foi “The Blacker the Berry”, faixa que apresenta vocais de Assassin, artista jamaicano de dancehall.

É uma canção racialmente carregada, com letras que celebram a herança afro-americano de Kendrick Lamar. Também contém um significado profundo sobre os perigos da hipocrisia e racismo na sociedade. “The Blacker the Berry” é mais agressiva e incisiva que o restante do repertório, uma música poderosa, com um ritmo incrível e um impressionante gancho de Assassin. Kendrick começou a escrever a música anos atrás, quando viu a notícia da morte de Trayvon Martin, um afro-americano de 17 anos de idade que foi assassinado por um segurança de condomínio. O rapper está realmente irritado nessa canção, ele está legitimamente farto com a sociedade (“Então, por que eu chorei quando Trayvon Martin estava na rua? / Quando traficar me faz matar um preto mais negro que eu? / Hipócrita!”). Suas letras agressivas e impetuosas verbalizam sua raiva reprimida, relativa ao bem-estar atual da comunidade negra. Lamar aborda os ouvintes e convida-os a questionar suas próprias crenças em relação a ele e a cultura negra: “Veio do fundo da humanidade / Meu cabelo é crespo, meu pau é grande, meu nariz é redondo e largo / Você me odeia, não é? / Você odeia o meu povo, o seu plano é terminar minha cultura / Você é mal pra caralho, eu quero que vocês reconheçam que eu sou um macaco orgulhoso / Você vandaliza minha percepção, mas não pode pegar o meu estilo”. Uma das letras mais poderosas do álbum. A produção desta expressiva canção ficou à cargo de Bo1-da, enquanto Lalah Hathaway fornece vocais de apoio. A batida contundente de tambor, o baixo pesado e as palavras mais fortes ainda, completam a força de “The Blacker the Berry”.

Em seguida, ao ouvir “You Ain’t Gotta Lie (Momma Said)”, você é praticamente levado de volta para o hip-hop da década de 1990. Sob uma melodia fria e uma batida old-school, Kendrick Lamar começa o primeiro verso a partir do ponto de vista de sua mãe. Ele reconhece que voltar a seus antigos caminhos é muito difícil, uma vez que ele foi recompensado com dinheiro e fama. Lamar transmite a ideia de que no seu regresso a Compton, ele tenta não retratar o comportamento estereotipado dos principais artistas de hip-hop. Ele tenta permanecer fiel a si mesmo e não corresponder a uma moda passageira apenas para ser aceito. Lições dadas por sua mãe e questões do passado são revistas pelo rapper durante toda canção. É uma faixa simples, cativante e com um gancho de destaque. Os vocais de apoio também acrescentam muita coisa, assim como a guitarra na batida e os elementos sonoros em sua volta. Quando “i” foi lançada em 2014 como primeiro single, várias pessoas não a curtiram por ser muito extravagante. Mas é, sem dúvida, um dos grandes destaques do “To Pimp a Butterfly”. No entanto, a versão do álbum é diferente da original. É essencialmente uma versão ao vivo da canção, que acabou fazendo sentido dentro do contexto do álbum. Possui mais de 5 minutos de duração e apresenta uma nova introdução estrelada por um locutor não identificado, que prepara uma platéia dizendo: “Nós estamos trazendo ninguém-ninguém-ninguém / Mas o rapper número um no mundo”. Tomando uma abordagem mais otimista, essa canção mostra um estado mental completamente diferente apresentado por ele em “u”.

É como um raio de sol no meio da escuridão sonora da outra faixa. A instrumentação ao vivo, com tambores rítmicos e um riff de guitarra cativante, alivia o ambiente. Uma amostragem da canção “That Lady” do grupo The Isley Brothers, acrescenta um toque especial à vibe otimista e positiva da música. Ao longo de “i”, Kendrick Lamar afirma que, embora haja caos em erupção no mundo e batalhas constantes ocorrendo, “ele ama ele mesmo”. A faixa desprende um ambiente positivo para a juventude, com uma mensagem importante de que devemos amar a nós mesmos. A faixa final do disco é uma grande peça de 12 minutos intitulada “Mortal Man”. Aqui, Lamar estabelece e pondera tudo o que ele desenrolou ao longo do álbum. Perspectivas históricas e modernas são examinadas com o máximo de cuidado, assim como a sua relação com a fama. “Quando a merda bater no ventilador, você ainda será um fã?”, ele pergunta. Kendrick usa esta questão para ramificar-se em temas como liderança, lealdade e incertezas. Ele questiona sua mortalidade através destes tópicos, perguntando se ele poderia ser vítima dos mesmos males que derrubaram seus heróis. O rapper se comparada a líderes do movimento negro, como Nelson Mandela, Moisés, Huey Newton, Martin Luther King Jr., Malcolm X e, até mesmo, Michael Jackson. Ele empurra a mensagem de fortalecimento da mesma forma que estes homens fizeram, e quer saber se não será abandonado por seus fãs e seguidores. Quando a música termina, Kendrick faz um transição para uma entrevista fictícia entre ele e seu ídolo, o falecido rapper Tupac Shakur.

Esta conversa abrange questões vitais, tais como a luta pela fama, a opressão, frustrações da comunidade negra, desigualdade social e o futuro dos negros nos Estados Unidos. Embora seja estranha e emocional, a conversa artisticamente criada entre os dois rappers da Costa Oeste, é um momento gratificante para o hip-hop. Fiquei surpreso com o quão natural a conversa com 2Pac soou, uma vez que só se tornou possível porque Kendrick Lamar pegou emprestado uma entrevista antiga dele de 1994. Para terminar, Kendrick recita outro poema, este explicando o nome e conceito do álbum. Sonoramente, é uma música muito boa. Possui uma batida interessante e cativante, sons jazzy, saxofone, piano e um baixo funky extremamente poderoso. Depois dessa análise faixa-a-faixa do álbum, só posso concluir que “To Pimp a Butterfly” é um dos álbuns de hip-hop mais criativos, inteligentes, desafiantes e memoráveis da história. Este disco é uma verdadeira obra-prima. Quase todas as músicas são surpreendentes por sua conta prórpia. E juntas, elas formam um projeto incrivelmente coeso, complexo e marcante. Artisticamente, Kendrick Lamar foi capaz de fazer um álbum musicalmente e socialmente poderoso. Por causa dos comentários sociais predominantes no disco, Lamar serve como uma verdadeira faísca para o movimento de emponderamento negro. Este álbuim diz ao mundo que os negros estão aqui para ficar e sempre buscarão a igualdade. A metodologia, o talento e o fluxo de Kendrick Lamar, apresentados neste álbum, só pavimentou ainda mais o seu caminho para tornar-se um dos maiores artistas de hip-hop de todos os tempos, juntamente ao lado de Tupac Shakur e The Notorious B.I.G.

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Favorite Tracks: “Kinga Kunta”, “These Walls”, “Alright”, “The Blacker the Berry” e “i”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.