Resenha: Kendrick Lamar – DAMN.

Lançamento: 14/04/2017
Gênero: Hip-Hop, Rap, Trap
Gravadora: Top Dawg / Aftermath Entertainment / Interscope Records
Produtores: Anthony “Top Dawg” Tiffith, Dr. Dre, 9th Wonder, The Alchemist, Bekon, BadBadNotGood, Cardo, DJ Dahi, Greg Kurstin, James Blake, Kuk Harrell, Mike Will Made It, Mike Hector, Pluss, Ricci Riera, Sounwave, Steve Lacy, Terrace Martin, Tae Beast, Teddy Walton e Yung Exclusive.

Socialmente consciente e de grande qualidade, a discografia de Kendrick Lamar se destaca facilmente em meio ao vazio que rodeia o hip-hop contemporâneo. “Good Kid, M.A.A.D City” (2012) é atmosférico e autobiográfico, enquanto “To Pimp a Butterfly” (2015) é possivelmente o álbum mais importante do século XXI, tanto que foi colocado na biblioteca de Harvard. Mesmo os seus projetos experimentais, como “untitled unmastered.”, ganharam aclamação universal. O mais recente álbum de Kendrick Lamar não é diferente, “DAMN.” é uma visão madura e sonicamente diversa. Esse novo registro vê o rapper se mover numa direção completamente nova. Lamar possui a grande habilidade de criar um som diferente a cada novo LP. Na superfície, “DAMN.” é um álbum de hip-hop tradicionalmente excepcional. Sintetizadores, batidas e sintonização automática substituem a estética maximalista de jazz-rap dos seus projetos anteriores. No núcleo desse álbum há uma sensação de vulnerabilidade, anteriormente ausente nos discos dele. Desde o álbum “Good Kid, M.A.A.D City” (2012), Kendrick Lamar vem sendo considerado o maior rapper vivo. E, ao contrário de muitos de seus contemporâneos, não é Lamar que dá a ele esse rótulo. Uma das primeiras coisas que notamos em “DAMN.” é o título de suas músicas. Apenas uma palavra em letras maiúscula seguidas de um ponto final. Elas são capítulos que falam sobre sua vida nos últimos anos.

Provavelmente, um dos momentos mais discutidos no álbum seja a amostragem de uma notícia, onde Geraldo Rivera criticou a performance de Lamar no BET Awards de 2015. Mais uma vez, as letras do rapper são hipnotizantes e conceitualmente diferentes. Elas parecem um verdadeiro diário de sua vida. Entre os temas principais, encontramos reflexões religiosas e a cultura do hip-hop. Aqui, Lamar continua oferecendo o mesmo som narrativo que percorreu os seus álbuns anteriores, tentando gerenciar sua espiritualidade, medo e inseguranças. Certamente, “DAMN.” não é tão ambicioso quanto “To Pimp a Buttlerfly”, mas, sem dúvida, é muito mais coeso e forte que o seu último projeto, “untitled unmastered.” (2016). De muitas maneiras, este é o seu álbum mais sombrio e auto-isolado até o momento. Sonicamente, “DAMN” é uma saída radical de qualquer coisa que Lamar já fez antes. Em vez de aprofundar-se no jazz-rap com guitarras e progressões funky, ou explorar algo inteiramente novo e experimental, o álbum se enquadra dentro de uma paisagem sonora comercial e mainstream. Um fato que certamente o ajudou a se tornar rapidamente o álbum mais vendido de Kendrick Lamar. A introdução do álbum, “BLOOD.”, retrata um visual crítico de uma mulher cega que, supostamente, procura algo que perdeu. Lamar oferece sua ajuda, mas a mulher se volta e diz que ele perdeu a vida.

É uma maneira dolorosa de apresentar esse registro apropriadamente intitulado. Esta situação pode ser uma metáfora para o sistema de justiça americano injusto que aprisiona homens negros como ele, uma ideia que ele apresentou anteriormente no “To Pimp a Butterfly”. Pode-se dizer que o sistema de justiça “cego” prende injustamente as minorias nos Estados Unidos e, finalmente, cria um ciclo de encarceramento e brutalidade. Dito isto, podemos afirmar que “DAMN.” é o álbum mais crítico de Kendrick Lamar. É um projeto premeditado e não apenas uma coleção de canções aleatórias e cronologicamente organizadas. Definitivamente, existe uma narrativa lírica e um conceito por trás das 14 faixas do álbum. Neste registro, parece que Lamar está olhando no espelho e enfrentando quem ele realmente é e quem se tornou dentro da indústria do hip-hop. A segunda faixa, “DNA.”, é uma fatia impetuosa, bombástica e perfeita de hip-hop produzida por Mike Will Made It. Uma canção distorcida, com fluxo mais agressivo, batidas trap e chimbais em expansão. Ademais, uma amostra de “Gimme Some Ganja” (Rick James) é jogada criativamente na mistura. A próxima faixa, “YAH.”, tonifica as coisas com letras mordazes em cima de uma batida gelada, sintetizadores e vocais mais relaxados. “Eu sou um israelita, não me chame mais de preto / Essa palavra é apenas uma cor, não são mais fatos”, Lamar cospe, enquanto guitarras invertidas surgem por trás.

Mais tarde, na soulful “PRIDE.” ele lamenta que “promessas são quebradas e mais ressentimentos vem à vida, barreiras raciais fazem pouco de você e eu”. Enquanto “ELEMENT.” tem um tom mais escuro e acordes de piano, a bossa-nova “FEEL.” evoca a imagem da imoralidade em meio a sombrios e solitários sintetizadores. “LOYALTY.”, produzida por DJ Dahi e Sounwave, por sua vez, apresenta a cantora Rihanna. Uma música de hip-hop e R&B incrivelmente atraente com um grande senso de diversão. Rihanna fez um excelente trabalho ao comandar o refrão com os seus vocais encantadores, enquanto Lamar cospe suas rimas. Curiosamente, “LOYALTY.” contém amostras de “24K Magic” de Bruno Mars. O primeiro single, “HUMBLE.”, fala sobre ter dinheiro e ainda ser humilde, como o próprio título sugere. Sua batida não é tão colorida quanto o jogo de palavras de Kendrick Lamar, mas é viciante o suficiente. O rapper aborda tudo por aqui, desde a riqueza até a positividade. Musicalmente, “HUMBLE.” é bastante simples, com cordas de piano e handclaps fornecendo a base principal. As batidas eletrônicas são muito bem combinadas com a camada repetitiva de piano. Embora Lamar sempre teve uma preferência por batidas mais escuras e lentas, aqui ele preferiu seguir por outro caminho. Em “HUMBLE.” ele elimina as amostras de soul e funky, em favor de um som trap também produzido por Mike Will Made It.

A batida geral da música é incrivelmente mínima, porém, tem muita energia quando misturada ao fluxo de Lamar. Algo interessante nessa música é que você não ouve ele se vangloriando completamente sobre as coisas que conseguiu. Ele chega a mencionar um acidente vascular cerebral e as imperfeições das mulheres. Aparentemente, Kendrick quer que outros rappers sejam mais humildes e sempre se lembrem de quem eles eram antes da fama. A simplicidade do refrão (“Baixa a bola / Calma aí, vagabundo seja humilde”) é o que faz a canção se tornar diferente. É direto ao ponto. Outras letras em “HUMBLE.” inclui: “Eu tô cansado pra caralho desse monte de Photoshop (…) / Me mostra alguma coisa de verdade, tipo uma bunda com estrias”. Aqui, ele questiona abertamente as normas da sociedade referente a beleza. Posteriormente, a cativante “LOVE.” faz Kendrick Lamar escavar uma batida que poderia ter sido tomada diretamente de “Hotline Bling” de Drake. Aqui, os bons sons de Zacari se misturam bem ao fluxo sintonizado de Lamar. O resultado é extremamente atrativo e, talvez pela primeira vez na carreira do rapper, genuinamente romântico. “LOVE.” basicamente possui o refrão mais doce que ele já criou, graças em parte ao vocal de Zacari. Em outras palavras, é a mais sincera balada radio-friendly da discografia de Kendrick Lamar.

Além de Rihanna e Zacari, o outro único recurso em “DAMN.” é a banda U2, um inesperado convidado especial. Dada a abordagem complexa e multifacetada de Lamar, podemos entender o porquê ele quis incluir uma das maiores bandas da história no seu álbum. “XXX.” é essencialmente duas músicas em apenas uma. A primeira metade, um ataque implacável contra o assassino do único filho de um amigo, dá lugar a uma acusação mordaz da violenta cultura que existe nos Estados Unidos. É uma colaboração controversa e devidamente política. Os primeiros dois minutos e meio são o clássico de Kendrick, e quando os irlandeses aparecem você se surpreende, porque soa muito melhor do que você esperaria. O instrumental da canção consegue chegar aos vocais de Bono através de sons funky, enormes tambores, sintetizadores iminentes e sirenes de polícia. “Mas a América é honesta ou nos aquecemos no pecado?”, pergunta Lamar, enquanto lamenta a ascensão da direita branca nos Estados Unidos. Canções como “FEAR.” são uma análise de sua riqueza e uma afirmação de seu título como “o maior rapper vivo”. Aqui, ele lida com o seu passado e revisita sua infância nas ruas de Compton. Sobre uma produção de West Coast hip-hop e blues, cortesia de The Alchemist, Kendrick Lamar dirige o ouvinte para uma jornada de ansiedade e medo. “O meu maior medo foi julgado”, ele revela.

“Como eles me olham e refletem sobre mim, minha família, minha cidade”. “GOD.” possui um título auto-explicativo. Uma canção fortemente sintetizada, onde Kendrick Lamar se deixa celebrar seu sucesso ao invés de tentar reforça-lo. Ele é e sempre foi um talentoso contador de histórias, e essa habilidade está em plena exibição na faixa final. “DUCKWORTH.” é um conto do qual Lamar entrega com a máxima de precisão e detalhes. Musicalmente, abre na forma de uma balada vintage antes de ser interrompida por Kendrick e uma batida de hip hop. Semi-autobiográfico, “DUCKWORTH.” fala sobre uma discussão entre o pai de Lamar e o jovem Anthony Tiffith (fundador da Top Dawg Entertainment). Íntimo e instrospectivo, Kendrick Lamar criou uma outra obra-prima com esse álbum. Ele permanece sem medo de mostrar sua vulnerabilidade ao embalar o “DAMN.” com muita emoção e auto-reflexão. Depois de quatro álbuns incríveis, é cada vez mais fácil classificar Kendrick Lamar como um dos melhores rappers de todos os tempos. Suas habilidades técnicas, visão artística e constante reinvenção, o coloca muito acima dos demais artistas de hip-hop da atualidade. “DAMN.” pode não ser o seu disco mais poderoso, esse título ainda pertence ao “To Pimp a Butterfly”, mas certamente é um dos mais impressionantes do século XXI. Equilibrando sua introspecção profunda com um interessante apelo pop, ele simplesmente criou outro projeto excepcional. Em outras palavras, “DAMN.” é mais um capítulo brilhante na história do maior rapper vivo.

Favorite Tracks: “DNA.”, “HUMBLE.” e “LOYALTY. (feat. Rihanna)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.