Resenha: Kelly Clarkson – Piece by Piece

Lançamento: 27/02/2015
Gênero: Eletropop, Synthpop, Pop, EDM
Gravadora: RCA Records
Produtores: Chris DeStefano, Jason Halbert, Greg Kurstin, Eric Olson e Jesse Shatkin.

Para suceder o álbum natalino “Wrapped in Red”, Kelly Clarkson lançou em fevereiro de 2015 o disco “Piece by Piece”, o sétimo de sua carreira. Esse é o seu último trabalho sob o contrato de gravação que conseguiu após vencer a primeira temporada do American Idol em 2002. Lançado quatro anos após o “Stronger”, seu último disco de ineditas, “Piece by Piece” vê Clarkson se reunindo com colaboradores frequentes, tais como Greg Kurstin, Jesse Shatkin, Jason Halbert, Eric Olsan e Chris DeStefano. A gravidez foi uma de suas principais inspirações para as composições do álbum, enquanto reuniu material de outros compositores como Sia Furler, Matthew Koma, Bonnie McKee, David Jost, MoZella e Ryland Blackinton. Inspirado pela produção do “Wrapped In Red”, o álbum também possui vários arranjos orquestrados por Joseph Trapanese. É um projeto ilustrado como um material conceitual que tenta contar uma história única, usando temas como desgosto amoroso, lutas pessoais, paz e emponderamento. Sonoramente, suas canções consistem em gêneros como eletropop, synthpop, pop orquestral, power pop e música eletrônica, fugindo um pouco do pop rock predominante de seus álbuns anteriores.

Comercialmente, “Piece by Piece” tornou-se o seu terceiro álbum a estrear no topo da Billboard 200 americana, com vendas de 97 mil cópias na primeira semana. Entretanto, tem tudo para se tornar o seu álbum com o menor número de vendas em território norte-americano, visto que até o momento vendeu somente 153 mil cópias. Kelly Clarkson é uma cantora verdadeiramente talentosa que, constantemente, recebe elogios por sua forte e versátil voz. Sua versatilidade como cantora, inclusive, é algo intrínseco ao seu sucesso duradouro. Neste trabalho vemos uma Clarkson abandonando, em grande parte, o espetado pop-rock que muito esteve presente nos seus álbuns anteriores. Isto aconteceu em favor de arranjos mid-tempos e inspirações EDM, uma escolha para tentar ser menos convencional. A faixa que abre o álbum é “Heartbeat Song”, primeiro single lançado em 12 de janeiro de 2015. Foi produzida por Greg Kurstin, enquanto Mitch Allan, Kara DioGuardi, Jason Evigan e Audra Mae foram os responsáveis pela escrita. Liricamente, a música fala sobre uma pessoa que restaura a fé de alguém através do amor. Sonoramente, “Heartbeat Song” é uma faixa synthpop up-tempo que começa com o refrão, uma sacudida na melodia e ritmos deslocando-se várias vezes antes de, finalmente, estabelecer-se em seu pulso firme.

É uma canção muito radiofônica, com uma boa bateria, guitarras e toques de sintetizadores típico dos anos 80. Juntando isso, aos vocais fortes e confiantes de Kelly Clarkson, foi possível a criação de uma boa canção. Agora com 32 anos e mãe, percebe-se que a cantora voltou com uma sonoridade de uma artista revigorada. Ela ainda foi capaz de entregar um vocal robusto, que transmite confiança e é habilmente utilizado. Embora não seja uma reinvenção, a música é uma mudança bem-vinda para um lead single de Kelly Clarkson. A sua letra emana uma vibração muito positiva, uma canção realmente feliz e animada. “Been so long I forgot how / To turn it up up up up all night long”, assim ela canta no refrão. Depois de tantas músicas de desgosto que Clarkson lançou no passado, “Heartbeat Song” prova que ela pode mostrar às pessoas que mesmo após uma série de mágoas, ainda pode vir a felicidade. Uma das poucas críticas negativas que observei foi o fato de sua sonoridade, embora seja boa, ser muito semelhante a de outras canções pop. Seu talento vocal é inquestionável e resistiu ao teste do tempo, mas é inegável que “Heartbeat Song” é o tipo de música que qualquer outra cantora interpretaria.

Definitivamente, não é o seu melhor single, mas é muito cativante e ótimo para cantar junto, especialmente, o refrão. O synthpop “Invincible”, por sua vez, foi lançado como segundo single e é uma ótima combinação das habilidades de composição de Sia Furler e o impressionante alcance vocal de Clarkson. Nesta mid-tempo sua voz está ainda mais forte e soulful, enquanto atinge notas bem altas próximo do seu final. Aqui, a cantora retorna a uma fórmula muito utilizada em suas baladas, território do qual seus vocais costumam brilhar. Apesar do seu excesso de produção é uma canção muito poderosa, movida por fortes tambores, bateria elétrica e lindas cordas. O refrão é preenchido por grande nuances e acrobacias vocais de Clarkson, ao passo que resume sua mensagem: “Agora, sou invencível / Não, não sou mais uma garotinha medrosa / É, sou invencível / Do que eu estava fugindo? / Eu estava me escondendo do mundo / Eu estava com tanto medo, me sentia tão insegura / Agora, sou invencível”. A letra é realmente outra grande vantagem da música, pois transmite um forte pensamento e demonstra um pouco da vulnerabilidade da cantora. Por conta disto, liricamente falando, é um número que lembra a força de “Stronger (What Doesn’t Kill You)”, seu último single a atingir o topo da Billboard Hot 100.

Kelly Clarkson

A terceira faixa, intitulada “Someone”, foi escrita por Matthew Koma e produzida por Greg Kurstin. Influenciada pela música trance, essa é uma balada ambivalente sobre um relacionamento que terminou, onde a cantora menciona um falso pedido de desculpas, ao mesmo tempo que deseja que seu ex-namorado encontre alguém para amar no futuro (“Mas eu espero que você possa encontrar / Alguém por quem chorar / Alguém por quem tentar / Alguém para transformar seus caminhos tortuosos na estrada / Alguém por quem lutar / Alguém por quem morrer / Alguém cujo braços vão te abraçar forte o suficiente para ser, a razão pela qual você respira”). É, basicamente, uma doce despedida de Kelly Clarkson para um relacionamento que simplesmente não engrenou. A emoção expressa por ela é bastante eficaz, enquanto a letra e melodia são ressonantes e poderosas. A produção também é interessante, conduzida por linhas de sintetizador e um pano de fundo EDM muito bem executado. A próxima faixa, “Take You High”, é algo muito diferente do que estamos costumados a escutar da cantora. Ela realmente não tem nada de Kelly Clarkson, do começo ao fim. E seu som, inclusive, foi descrito pelo produtor Jesse Shatkin como “um banger eletrônico”.

A sua produção é muito espantosa, desde sua vibração oitentista até a combinação inusitada de EDM e gospel. Curiosamente, o refrão quase não contém letras, Clarkson constrói todo o drama da música através dos versos e do pré-refrão. Inicialmente, “Take You High” é uma canção muito celestial e edificante, com doces cordas e uma voz angelical de Kelly Clarkson. É uma faixa muito apaixonada, onde a cantora diz ao seu amante que eles não devem ter medo dos sentimentos que estão por vir. Mas, em seguida, acontece uma súbita mudança durante o eufórico refrão, que é constituído por um mar de sintetizadores, batidas eletrônicas e sons distorcidos. A quinta faixa, “Piece by Piece”, é a música mais pessoal e uma das mais bem escritas de sua carreira, por isso não é a toa que dá título ao álbum. Kelly escreveu “Piece by Piece” depois que teve uma conversa com sua irmã mais velha. A canção trata-se do seu pai e de sua infância conturbada. Os pais delas se divorciaram quando Kelly tinha apenas 6 anos, enquanto nunca tiveram um bom relacionamento com seu pai. Ele as deixou e não fez parte de suas vidas, tanto que a cantora documentou os efeitos disto na canção “Because of You” de 2004.

O resto da história de “Piece by Piece” tem uma mensagem muito positiva e comovente, pois o bom e amoroso marido de Clarkson mudou seu ponto de vista sobre os homens. Ele a fez pensar que nem todos os pais são ruins como o dela. O refrão final da música resume completamente isto: “Peça por peça, eu cai longe da árvore / Eu jamais a deixaria como você me deixou / Ela jamais terá que questionar seu valor / Pois, diferente de você, eu a colocarei em primeiro lugar / Ele nunca fugirá / Ele nunca partirá seu coração / Ele cuidará das coisas / Ele a amará / Cada parte dela / Ele restaurou minha fé / De que um homem pode ser bom / E um pai deve ser incrível”. O sentimento bonito das letras é acompanhado por belas harmonias, uma forte linha de tambor e uma agradável melodia. Talvez você não saiba, mas a faixa “Run Run Run”, colaboração de Clarkson com John Legend, é na verdade um cover de uma recente faixa da banda Tokio Hotel. A versão de Clarkson foi produzida por Jason Halbert com escrita adicional de Tim James e Antonina Armato do duo Rock Mafia. “Run Run Run” é uma balada de R&B/soul, que faz com que o álbum fique lento, dramático e melancólico. É uma música bastante minimalista, com um piano sombrio e vocais emocionais a impulsionando em sua maior parte.

Kelly Clarkson

É uma balada de amor conflituosa, onde os dois artistas mostram alguma química vocal e compartilham as mesmas ideias em termos de fraseado e entrega. Após o segundo refrão, a música ainda oferece uma colisão de tambores e guitarra, e faz ambos cantarem em meio a um tumulto. É uma grande música, entretanto, depois de algumas escutas, ela se transforma em um número do qual eu tenho a tendência de pular quando ouço determinado álbum. A próxima faixa, “I Had a Dream”, é uma canção muito agradável que tem como objetivo inspirar sua geração a ser engajada e ter uma voz sobre as coisas do mundo ao seu redor. “Eu sonhei que nós éramos mais / Uma geração de se admirar / Escrevendo incêndios com as nossas palavras / Em vez de fumaça inútil que borra”, ela canta. “I Had a Dream” é uma mid-tempo bastante atraente, que possui um ritmo interessante e um refrão muito cativante. As camadas vocais presentes nesta faixa ainda trazem a qualidade natual e encantadora do tom vocal de Clarkson. Um número realmente adorável e muito bem posicionado na tracklist. “Let Your Tears Fall” é outra canção pop co-escrita por Sia e produzida por Greg Kurstin. Essa faixa possui um título encorajador, assim como “Invincible”, mas, desta vez, é direcionado para outras pessoas.

Kelly canta para alguns amigos que estão sofrendo, dizendo que não importa o que aconteça, ela estará lá para ajudá-los (“Diga-me todos os seus segredos, compartilhe sua dor / Confesse tudo para mim, não importa seu nome / Eu não julgarei, e eu vou te ajudar a passar por isso / Deixe suas lágrimas caírem”). Composições e vocais caminham lado a lado nesta doce canção, na mesma medida que Clarkson apresenta outro desempenho vocal convincente. “Tightrope”, nona faixa, é uma balada dramática que alivia a dor da letra de uma forma delicada. Ela é toda executada com o apoio de um simples piano, enquanto seu tom e inspiração são tristes e emocionais. Os vocais dela conseguem transmitir todo o sentimento da música e é realmente uma balada bem trabalhada. No entanto, para ser sincero, eu também a achei um pouco chata e monótoma. A melodia é muito sem graça, enfadonha e cansativa. Entre todas as baladas do registro é, talvez, a única esquecível. “War Paint”, faixa seguinte, expressa uma mensagem bastante comum em canções de amor: retire a máscara e seja quem você realmente é. É uma canção techno-pop, up-tempo, com uma batida EDM de fundo e uma energia semelhante a do disco “Breakaway”.

No entanto, parece uma faixa inacabada e com lacunas na produção. Definitivamente, não é uma das faixas mais memoráveis do “Piece by Piece”. É impressionante como o bom ritmo do álbum cai conforme chegamos na oitava faixa. A energética “Dance with Me”, por sua vez, começa bem através de uma boa introdução eletrônica e alguns riffs de guitarra. A música explora algo novo para Kelly Clarkson, por conta da sua vibe alegre e positiva, que fala sobre soltar-se e apenas dançar. Conforme avança, ela assume uma vibração oitentista e transforma-se em um dance-pop totalmente despreocupado. Porém, apesar do ótimo início, a música perde um pouco da sua diversão depois de sua metade. Isto porque o refrão é muito, muito repetitivo, e a música, no geral, é longa demais para suportar isto. Barulhos de um rádio dão início adequadamente a penúltima faixa, “Nostalgic”. É um synthpop muito divertido que encaixa-se perfeitamente ao seu título, visto que possui uma sensação de nostalgia, um toque retrô e influências oitentistas. É um número muito up-tempo e refrescante, que surge logo após a sequência de músicas insatisfatórias do álbum. O seu ritmo, guitarra e bateria pulsante, fazem uma combinação que, certamente, leva o ouvinte no tempo para a década de 1980. Possui um som típico da Kelly Clarkson, tanto que poderia se encaixar em qualquer um dos seus álbuns.

A edição padrão do álbum fecha com “Good Goes the Bye”, enquanto a versão de luxo ainda oferece mais três faixas bônus para o ouvinte. Essa é outra canção synthpop mid-tempo, destacada pelos vocais tranquilos de Kelly Clarkson. As letras são interessantes, mas, no geral, é uma faixa um pouco sem graça em comparação com o resto do álbum. É otimista, tem uma produção cativante, mas não fornece um final impactante para o “Piece by Piece”. É difícil acreditar, mas já fazem 13 anos que a Kelly Clarkson venceu o American Idol. E de lá para cá, ela não fez nada além de provar que foi totalmente merecedora dessa conquista. “Piece by Piece” não é perfeito, mas é uma adição muito interessante para o seu catálogo. Ele mostra uma Clarkson mais madura, uma mulher mais determinada e decidida, que consegue emparelhar muito bem sua incrível voz. Independentemente dos seus erros, “Piece By Piece” tem suas canções de destaques e pode ser considerado um bom álbum. E mesmo em seus momentos mais banais, consegue prender a atenção do ouvinte graças aos seus vocais. A melhor parte dele é que soa como se fosse uma mistura da nova e velha Kelly Clarkson. Ele mostra uma cantora experimentando um novo som e fazendo o que realmente quer fazer. É um projeto que consegue exibir toda confiança de uma profissional experiente.

64

Favorite Tracks: “Heartbeat Song”, “Invincible”, “Take You High”, “Piece By Piece” e “I Had a Dream”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.