Review: Kelly Clarkson – Piece by Piece (2015)

Lançamento: 27/02/2015
Gênero: Pop, Electropop, Synthpop, EDM
Gravadora: RCA Records
Produtores: Chris DeStefano, Jason Halbert, Greg Kurstin, Eric Olson e Jesse Shatkin.

Independentemente de suas falhas, “Piece By Piece” possui suas canções de destaque e pode ser considerado um bom álbum. É  outro material que maximiza a poderosa voz da Kelly Clarkson.

Para suceder o álbum natalino “Wrapped in Red” (2013), Kelly Clarkson lançou em fevereiro de 2015 o disco “Piece by Piece”. Esse é o seu último trabalho sob o contrato de gravação que conseguiu após vencer a primeira temporada do American Idol em 2002. Lançado quatro anos após o “Stronger” (2011), seu último disco de inéditas, “Piece by Piece” vê Clarkson se reunindo com colaboradores frequentes, tais como Greg Kurstin, Jesse Shatkin, Jason Halbert, Eric Olsan e Chris DeStefano. A gravidez foi uma de suas principais inspirações para as composições do álbum, enquanto reuniu material de outros compositores como Sia Furler, Matthew Koma, Bonnie McKee, David Jost, MoZella e Ryland Blackinton. Inspirado pela produção do “Wrapped In Red” (2013), o álbum também possui vários arranjos orquestrados por Joseph Trapanese. É um projeto ilustrado como um material conceitual que tenta contar uma história única, usando temas como desgosto amoroso, lutas pessoais, paz e emponderamento. Sonoramente, suas canções consistem em gêneros como electropop, synthpop, pop orquestral, power-pop e música eletrônica, fugindo um pouco do pop-rock predominante de seus álbuns anteriores.

Comercialmente, “Piece by Piece” tornou-se o seu terceiro álbum a estrear no topo da Billboard 200, com vendas de 97 mil cópias na primeira semana. Kelly Clarkson é uma cantora verdadeiramente talentosa que, constantemente, recebe elogios por sua forte voz. Sua versatilidade como cantora é algo intrínseco ao seu sucesso duradouro. Neste trabalho, vemos uma Clarkson abandonando, em grande parte, o espetado pop-rock que muito esteve presente nos seus materiais. Isto aconteceu em favor de arranjos mid-tempos e inspirações EDM, uma escolha para tentar ser menos convencional. A faixa que abre o álbum é “Heartbeat Song”, o primeiro single lançado em 12 de janeiro de 2015. Foi produzida por Greg Kurstin, enquanto Mitch Allan, Kara DioGuardi, Jason Evigan e Audra Mae foram os responsáveis pela escrita. Liricamente, a música fala sobre uma pessoa que restaura a fé de alguém através do amor. Sonoramente, “Heartbeat Song” é uma faixa synthpop up-tempo que começa com o refrão, uma sacudida na melodia e ritmos deslocando-se várias vezes antes de, finalmente, estabelecer-se em seu pulso firme.

É uma canção radiofônica com uma boa bateria, guitarras e toques de sintetizadores típico dos anos 80. Juntando isso, aos fortes vocais de Kelly Clarkson, foi possível a criação de uma boa canção. Agora com 32 anos e mãe, percebe-se que a cantora voltou com uma sonoridade de uma artista revigorada. Ela ainda foi capaz de entregar um vocal robusto que transmite confiança e é habilmente utilizado. Embora não seja uma reinvenção, a música é uma mudança bem-vinda para um lead single da Kelly Clarkson. As letras emanam uma vibração muito positiva, feliz e animada. “Essa é a música das batidas do meu coração e eu vou tocá-la / Já faz tanto tempo que esqueci como / Aumentá-la a noite toda”, ela canta no refrão. Depois de tantas músicas de desgosto que Clarkson lançou no passado, “Heartbeat Song” prova que ela pode mostrar às pessoas que mesmo após uma série de mágoas, ainda pode vir a felicidade. Uma das poucas críticas negativas que observei foi o fato de sua sonoridade ser muito semelhante a de outras canções pop. Seu talento vocal é inquestionável e resistiu ao teste do tempo, mas é inegável que “Heartbeat Song” é o tipo de música que qualquer outra cantora interpretaria.

O synthpop “Invincible”, por sua vez, foi lançado como segundo single e é uma ótima combinação das habilidades de composição de Sia Furler e o impressionante alcance vocal de Clarkson. Nesta mid-tempo sua voz está ainda mais forte e soulful, enquanto atinge notas bem altas próximo do seu final. Aqui, a cantora retorna a uma fórmula muito utilizada em suas baladas, território do qual seus vocais costumam brilhar. Apesar do seu excesso de produção, é uma canção poderosa movida por fortes tambores, bateria elétrica e lindas cordas de violino. O refrão é preenchido por grande nuances e acrobacias vocais, ao passo que resume seus pensamentos: “Agora, sou invencível / Não, não sou mais uma garotinha medrosa / É, sou invencível / Do que eu estava fugindo? / Eu estava me escondendo do mundo / Eu estava com tanto medo, me sentia tão insegura / Agora, sou invencível”A letra é outra grande vantagem da música, pois transmite uma forte mensagem e demonstra um pouco da vulnerabilidade da cantora. Liricamente falando, é um número que lembra a força de “Stronger (What Doesn’t Kill You)”, seu último single a atingir o topo da Billboard Hot 100.

A terceira faixa, intitulada “Someone”, foi escrita por Matthew Koma e produzida por Greg Kurstin. Influenciada pela música trance, essa é uma balada ambivalente sobre um relacionamento que terminou. Aqui, Clarkson menciona um falso pedido de desculpas, ao mesmo tempo que deseja que seu ex-namorado encontre alguém para amar no futuro. “Mas eu espero que você possa encontrar / Alguém por quem chorar / Alguém por quem tentar (…) / Alguém por quem lutar / Alguém por quem morrer / Alguém cujo braços vão te abraçar forte o suficiente para ser, a razão pela qual você respira”, ela canta. É basicamente uma doce despedida de Kelly Clarkson para um relacionamento que simplesmente não engrenou. A emoção expressa por ela é bastante eficaz, enquanto a letra e melodia são ressonantes e poderosas. A produção também é interessante, uma vez que é conduzida por linhas de sintetizador e um pano de fundo EDM muito bem executado. A próxima faixa, “Take You High”, é algo muito diferente do que estamos costumados a ouvir da cantora. É uma canção que realmente não tem nada de Kelly Clarkson. Seu som foi descrito pelo produtor Jesse Shatkin como “um banger eletrônico”.

A produção é muito espantosa, desde a vibração oitentista até a combinação inusitada de EDM e gospel. Curiosamente, o refrão quase não contém letras, Clarkson constrói todo o drama da música através dos versos e do pré-refrão. Inicialmente, “Take You High” é uma canção muito celestial e edificante, com doces cordas e vocais angelicais. É uma faixa apaixonada onde a cantora diz ao seu amante que eles não devem ter medo dos sentimentos que estão por vir.  Mas, em seguida, acontece uma súbita mudança durante o eufórico refrão, que é constituído por um mar de sintetizadores, batidas eletrônicas e sons distorcidos. A quinta faixa, “Piece by Piece”, é a música mais pessoal e uma das mais bem escritas de sua carreira, por isso não é a toa que dá título ao álbum. Kelly escreveu “Piece by Piece” depois que teve uma conversa com sua irmã mais velha. A canção trata-se do seu pai e de sua infância conturbada. Os pais delas se divorciaram quando ela tinha apenas 6 anos, enquanto nunca teve um bom relacionamento com seu pai. Ele as deixou e não fez parte de suas vidas, tanto que a cantora documentou os efeitos disto na canção “Because of You” de 2004. 

O resto da história de “Piece by Piece” tem uma mensagem muito positiva e comovente, pois o bom e amoroso marido de Clarkson mudou seu ponto de vista sobre os homens. Ele a fez pensar que nem todos os pais são ruins como o dela. O refrão final da música resume isto: “Ele nunca fugirá / Ele nunca partirá seu coração / Ele cuidará das coisas / Ele a amará / Cada parte dela / Ele restaurou minha fé / De que um homem pode ser bom / E um pai deve ser incrível”. O sentimento bonito das letras é acompanhado por belas harmonias, fortes linhas de tambor e melodias encantadoras. Talvez você não saiba, mas a faixa “Run Run Run”, colaboração da Kelly Clarkson com John Legend, é na verdade um cover de uma recente faixa da banda Tokio Hotel. A sua versão foi produzida por Jason Halbert com escrita adicional de Tim James e Antonina Armato do duo Rock Mafia. “Run Run Run” é uma balada de R&B e soul, que faz com que o repertório fique dramático e melancólico. É uma música bastante minimalista com um piano sombrio e vocais emocionais a impulsionando em sua maior parte. É uma balada de amor conflituosa onde os dois artistas mostram alguma química vocal e compartilham as mesmas ideias em termos de fraseado e entrega.

Após o segundo refrão, a música oferece uma colisão de tambores e guitarras, e faz ambos cantarem em meio a um tumulto. Entretanto, depois de algumas escutas, ela transforma-se num faixa da qual eu tenho a tendência de pular quando ouço determinado álbum. A próxima faixa, “I Had a Dream”, é bastante agradável e tem como objetivo inspirar sua geração a ser engajada e ter voz sobre as coisas ao seu redor. “Eu sonhei que nós éramos mais uma geração de se admirar / Escrevendo incêndios com as nossas palavras / Em vez de fumaça inútil que borra”, ela canta. “I Had a Dream” é uma mid-tempo atraente que possui um ritmo interessante e refrão bastante cativante. As camadas vocais presentes nesta faixa trazem a qualidade natural e encantadora do tom vocal de Clarkson. Um número realmente adorável e muito bem posicionado na tracklist. “Let Your Tears Fall” é outra canção pop co-escrita por Sia e produzida por Greg Kurstin. Essa faixa contém um título encorajador, assim como “Invincible”, porém, desta vez, é direcionada para outras pessoas. Kelly canta para alguns amigos que estão sofrendo, dizendo que não importa o que aconteça, ela estará lá para ajudá-los.

Composições e vocais caminham lado a lado nesta doce canção, na mesma medida que Clarkson apresenta outro desempenho vocal convincente. “Tightrope” é uma balada dramática que alivia a dor das letras de forma delicada. Ela é toda executada com o apoio de um simples piano, enquanto seu tom e inspiração são tristes e emocionais. Os vocais conseguem transmitir todo o sentimento da música, no entanto, para ser honesto, também é um pouco chata e monótona. A melodia é muito enfadonha e cansativa, por isso é, provavelmente, a única balada esquecível do registro. A próxima faixa, “War Paint”, expressa uma mensagem comum em canções de amor: retire a máscara e seja quem você realmente é. Uma canção techno-pop com uma batida EDM de fundo e energia semelhante a do disco “Breakaway” (2004). Entretanto, parece uma faixa inacabada e com lacunas na produção. Definitivamente, não é uma das músicas mais memoráveis do “Piece by Piece”. É impressionante como o bom ritmo do álbum cai conforme chegamos na oitava faixa. A energética “Dance with Me”, por sua vez, começa bem através da boa introdução eletrônica e alguns riffs de guitarra.

Essa música explora algo novo para Kelly Clarkson, por conta da vibe positiva que fala sobre soltar-se e apenas dançar. Conforme avança, ela assume uma vibração oitentista e transforma-se em um dance-pop totalmente despreocupado. Porém, apesar do ótimo início, essa canção perde um pouco da diversão depois da primeira metade. Isto porque o refrão é muito, muito repetitivo, e a música no geral é longa demais para suportar isto. Barulhos de um rádio dão início adequadamente a penúltima faixa, chamada “Nostalgic”. É um synthpop divertido que encaixa-se perfeitamente ao título, uma vez que possui uma sensação de nostalgia, toques retrô e influências oitentistas. É um número muito up-tempo e refrescante que surge logo após uma sequência de músicas insatisfatórias. O ritmo, guitarra e bateria pulsante fazem uma combinação que certamente leva o ouvinte de volta para a década de 80. Ademais, possui um típico som da Kelly Clarkson, tanto que poderia se encaixar em qualquer um dos seus álbuns. A edição padrão do registro encerra com “Good Goes the Bye”, enquanto a versão deluxe contém mais três faixas bônus.

Essa é outra canção synthpop que se destaca pelos tranquilos vocais de Kelly Clarkson. As letras são interessantes, ma no geral é uma faixa um pouco sem graça em comparação com o restante do repertório. É otimista e possui uma produção cativante, porém, não fornece um final impactante para o “Piece by Piece”. É difícil acreditar, mas já fazem 13 anos desde que a Kelly Clarkson venceu o American Idol. E de lá para cá, ela não fez nada além de provar que foi totalmente merecedora dessa conquista. “Piece by Piece” não é perfeito, mas é uma adição interessante para o seu catálogo. Ele mostra uma Clarkson mais madura, determinada e decidida, que consegue emparelhar muito bem sua voz. Independentemente dos seus erros, “Piece By Piece” tem suas canções de destaque e pode ser considerado um bom álbum. E, mesmo em seus momentos mais banais, consegue prender a atenção do ouvinte graças aos vocais. A melhor parte dele é que soa como se fosse uma mistura da nova e velha Kelly Clarkson. Ele a mostra experimentando novos sons e fazendo o que realmente quer fazer. Em última análise, é um projeto que consegue exibir toda confiança de uma profissional experiente!

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.