Resenha: Kelis – Food

Lançamento: 18/04/2014
Gênero: Eletrônica, Soul
Gravadora: Ninja Tune Records
Produtores: Dave Sitek.

A cantora americana Kelis lançou o seu sexto álbum de estúdio em 2014, sob o título “Food”, o seu primeiro trabalho sob a gravadora Ninja Tune Records. Após se desligar da Jive Records em 2007, Kelis assinou contrato com a Interscope e will.i.am Music Group em 2009. Através dessa etiqueta, ela lançou seu quinto álbum de estúdio, “Flesh Tone”, onde vimos a cantora experimentar a dance music. Em 2011, ela começou a divulgar e trabalhar com o “Flesh Tone”, no entanto, deixou a Interscope e assinou contrato com a Federal Prism, antes de assinar oficialmente com o selo britânico independente, Ninja Tune. Após várias trocas de gravadoras, Kelis estava pronta para conquistar o público com o disco “Food”. Um registro eletrônico e soul, com um estilo diversificado, que incorpora o funk, afro-beat, R&B e neo-soul. As canções apresentam buzinas crepitantes, acordes de guitarras, chiados eletrônicos e vocais sussurrados e abafados. “Food” foi visto como um retorno de Kelis à música, sendo escrito por ela ao lado de Dave Andrew Sitek (membro do TV on the Radio) e Todd Simon.

A produção ficou inteiramente à cargo de Sitek, e ainda apresenta performances do grupo brasileiro CSS e da americana Priscilla Ahn como convidados. No meio tempo entre o “Food” e o seu último disco, Kelis apareceu na faixa “Bounce” de Calvin Harris, que fez muito sucesso no Reino Unido. País do qual foi a sua melhor estreia com o disco “Food”, atingindo a vigésima posição na semana de lançamento. Esse álbum chega em uma direção inesperada, um registro conceitual baseado em metáforas com comidas. O grande passatempo sobre consumo pode parecer enigmático à primeira vista, mas Kelis forneceu um poderoso material liberado com coração, alma e mente. O conceito com alimentos assume vários significados, mas o tema “comidas” seria melhor apropriado e descrito como “consumo”. Nós consumimos recursos, espaço e outras pessoas em nossas vidas. Se isso é algo bom ou ruim não importa tanto, mas o que a cantora quis passar foi em como as pessoas consomem o mundo ao seu redor, seja através de memórias, experiências ou estilos de vida.

A entrega vocal de Kelis está sublime, seu estilo soulful é muito parecido com o trabalho da falecida cantora Aaliyah. A maioria das canções são cantadas em um tom baixo, sensual, mas ocasionalmente, Kelis também encanta com seu incrível soprano. Os arranjos possuem um forte sabor R&B, que contribuíram efetivamente para a produção energética e dançante do disco. “Tasty” foi o álbum que ajudou a solidificar sua carreira como artista, enquanto uma canção chamada “Milkshake” foi a que lhe rendeu os maiores elogios dentro da indústria. E agora, depois de 11 anos, Kelis ainda conseguiu se sobressair, entregando mais um ótimo registro com um total de 13 faixas. O filho de quatro anos de Kelis, Knight Jones, é quem introduz a primeira faixa – “Hey guys! Are you hungry? My mom made food” – ele foi uma boa inspiração para “Breakfast”, uma música muito alegre.

Kelis

Batidas simples introduzem os vocais de marca regitrada de Kelis, que depois são usados escondidos atrás de grandes batidas, uma vibe oitentista e graves profundos. “Jerk Ribs”, lançada como primeiro single, é um dos grandes destaques do disco. Essa é igualmente bem sucedida em seu som como a primeira faixa, mergulhando em elementos familiares, como os destemidos funky e afrobeat. Com o seu refrão crescente, apresentado através de riffs e buzinas enormes, a canção imediatamente define o ritmo para o álbum. Liricamente, a letra concentra-se em contar histórias pessoais de Kelis, com versos como: “When I was a girl my daddy was the world / He played the notes and keys / He said to put the melody in everything”. A terceira faixa, “Forever Be”, é talvez a música mais simples do repertório. Trompas e cordas, em cima de uma linha de sintetizador, e o vocal triunfante de Kelis proporcionam um dos refrões mais resistentes do álbum.

Seu R&B-retrô aparece em “Floyd”, uma música que oferece versos como – “It’s not that I’m ungrateful / I’m just a little bored / Sure I’m self-sufficient, blah, blah, independent / Truthfully I got some space / I want that man to fill it” – isso nos faz pensar como se sente uma mãe solteira à procura de um homem (o seu ex-marido é o rapper Nas). A sensual “Runnin'” fala sobre como Kelis tornou-se uma corredora para escapar da fama (“I became a runner to escape the fame / I still don’t wanna play / a lion will never change“). Essa balada mid-tempo mostra como o tipo de voz de Kelis pode ser ainda mais incrível, durante momentos movidos pela dor e honestidade. “Hooch” é uma das faixas mais descontraídas, com o seu ritmo, o baixo sincopado e riffs combinando perfeitamente com o vocal rouco de Kelis. “Cobbler”, por sua vez, flutua através de um funk sólido, quase uma esquete de James Brown.

Mais uma vez, não há referências a alimentos, ficou evidente que ela canta para um cara que a deixou contente, “ooh baby / you got this feeling like a holiday”. “Cobbler” consegue ser o tipo de música que distrai facilmente, começando pela gravação em português cheia de risos, protagonizada pelo grupo Cansei de Ser Sexy (CSS). A oitava canção, “Bless the Telephone”, é um cover originalmente gravado por Labi Siffre, cantor britânico de folk e soul. Conduzida por uma guitarra acústica, “Bless the Telephone” tornou-se ainda mais doce e sincera nos vocais de Kelis e Sal Masekela, que a interpretou em dueto com a cantora. “Give me what I want, give me what I need”, ela canta em “Friday Fish Fry”. “I’m begging you please, I’m down on my knees”, será se é uma receita incrível de peixe frito?

O seu refrão sexy surge como um delírio eufórico, apresentado com uma eletricidade carnal. É, provavelmente, sua canção mais sexy desde a inesquecível “Bossy”. O seu ritmo cai em algum lugar entre o rockabilly e o blues-rock, uma música realmente contagiante e auto-confiante. “Change” começa com uma perseguidora e instantaneamente dramática batida, que logo transborda com interlúdios de influência espanhola e um poderoso refrão (“You can’t escape the grips of desire”). É o desempenho mais teatral de Kelis, representando um raro momento em que o registro recebe algo emotivo e reflexivo. O segundo single, “Rumble”, é outro destaque, impulsionado principalmente pelos acordes de piano. É uma canção para sentir-se bem, mas as letras apontam para uma relação tumultuada com um ex.

Kelis

São as referências mais óbvias presentes no álbum, que apontam para o seu casamento com Nas. A faixa seguinte, “Biscuits n’ Gravy”, é cheia de letras esperançosas e de auto-afirmação que empurram sua voz rouca à gama de seus limites (“Been given a morning / by this time tomorrow I’ll be brand new”). É conduzida apenas por Kelis e um piano, mas depois também floresce em um colapso de trombetas estridentes. Kelis termina o disco com uma nota celeste, “Dreamer” flutua sobre um soul futurista, letras poéticas e suspiros ofegantes. Seus arranjos são instrumentalmente bem vivos, uma canção que é apenas mais um tempero que a cantora oferece ao ouvinte. “Dreamer” traz um foco temporal, como Kelis rumina sobre os sonhos que representam a soma de experiências de uma pessoa, aspirações e estilos de vida atuais.

“Food” é definitivamente um registro incrível, isto é certo, suas músicas estão realmente deliciosas. A mudança de sonoridade nesse álbum, se comparado ao seu antecessor, conseguiu trazer um impacto emocional, graças ao bom apoio de Sitek, que já trabalhou com Yeah Yeah Yeahs e Santigold. Sexto álbum de Kelis pega todos os seus vários gêneros e traz eles juntos em uma mistura maravilhosa, que soa tão clássico como sutilmente experimental. O seu vocal é forte, a profundidade de sua roquidão é encantadora e cresce ainda mais rica com o tempo. É um álbum decente, construído sobre instrumentação ao vivo, que sente-se como um pleno olhar sobre a vida, os prazeres e dores de Kelis, algo que seus antigos registros ainda não haviam realmente entregue.

Quando alguém como ela, que tem estado em grande movimento nos últimos anos, encontra descanso em vibes e melodias como as que estão presentes aqui, se torna ainda mais instigante e apreciativo de se ouvir. E num certo sentido, este álbum parece ser um esforço para distanciar-se de seu trabalho anterior, uma demonstração do quanto ela amadureceu e ficou novamente em contato com a vida real. “Food” foi liberado em sua nova gravadora Ninja Tune, que é conhecido por colocar na indústria atos de música eletrônica-indie, sons experimentais e aventureiros. Logo, “Food” parece ser de fato “uma coisa real” totalmente gratificante, enraizado por sons clássicos e focado em rituais cotidianos da vida, como simplesmente comer.

75

Favorite Tracks: “Breakfast”, “Jerk Ribs”, “Runnin'” e “Hooch”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.