Resenha: Kelela – Take Me Apart

Lançamento: 06/10/2017
Gênero: Eletro-R&B, R&B Alternativo, Eletrônica
Gravadora: Warp
Produtores: Kelela, Ariel Rechtshaid, Jam City, Arca, Bok Bok, Dubbel Dutch, Kingdom, Kwes, Asma Maroof, Mocky, Aaron David Ross, Al Shux, Loric Sih, Terror Danjah e Nick Weiss.

Kelela Mizanekristos, nascida em Washington D.C., mudou de cidades algumas vezes antes de parar em Los Angeles. Durante sua passagem pela cidade californiana, ela estudou, cantou jazz pela noite, participou de uma banda e recebeu conselhos do grupo Little Dragon. Kelela já percorreu um longo caminho, antes de encontrar sua direção, conseguir um contrato de gravação e lançar o seu álbum de estreia. Ela é uma artista de R&B alternativo e música eletrônica incrivelmente talentosa. Kelela costuma fornecer faixas escuras e temperamentais com foco no amor, sexo e relacionamentos. Tudo isso tecido sobre uma paisagem sonora obscura, única e rica. Suas canções exploram a vulnerabilidade de se entregar para outra pessoa e criam momentos de libertação sexual. Colaboradores como Jam City, Arca e Bok Bok auxiliaram diretamente na construção de algumas músicas pouco convencionais. Em suma, “Take Me Apart” é um registro adulto com sons auto-harmonizados e alguns ecos semelhantes aos trabalhos de FKA twigs. A maravilhosa primeira faixa, “Frontline”, apareceu na coluna Best New Track dois meses atrás. Uma canção que apresenta o vocal de Kelela deslizando sobre uma bela produção de R&B. É um número com elementos de trap, em vez do típico dance que a cantora costuma fornecer. Uma canção nebulosa e desafiante, com um refrão sincopado e verdadeiramente marcante: “Chore e fale sobre isso, querido / Mas não seja inútil”. Construída sobre ondas esparsas, batidas trap subjacentes e um poderoso vocal, é uma música incrivelmente atrativa.

Embora as letras de Kelela tenham fundamentado o seu trabalho num território R&B familiar sobre amor e perda, sua música sempre empurrou os seus limites artísticos. Para “Frontline”, ela juntou-se a Jam City a fim de desenhar lutas inspiradas em batidas densas e sintetizadores cintilantes. Ao longo de 5 minutos e meio, as melodias permanecem dinâmicas e a voz de Kelela igualmente flexível. Em entrevistas, ela falou que este álbum é uma celebração da feminilidade negra nos EUA, consequentemente “Frontline” mostra a sua verdade através da música. Em contraste com a faixa anterior, “Waitin” é muito mais calorosa e dançante, principalmente devido aos sintetizadores oitentistas e sons disco. Depois de apresentar uma canção fria como “Frontline”, Kelela tenta atrair o seu parceiro através de notas sorridentes e um sulco infeccioso. A faixa-título, “Take Me Apart”, fala sobre um novo amor, apresenta sintetizadores mais rápidos e algumas influências dos anos 90. É uma canção sexy, com tambores cheios de vida e ótimos vocais em falsete. Em “Jupiter”, um interlúdio pensativo e emocional, Kelela canta poeticamente: “Há muita coisa acontecendo / Encontre uma luz de uma cor legal”. Ao lado de detalhes temáticos, como barulhos de chuva, esta faixa mostra uma incrível destreza lírica e produção singular. A balada “Better” apresenta vocais ainda mais emocionais, enquanto é sobreposta por sintetizadores minimalistas. Aqui, a cantora pinta a imagem de uma reconciliação com um ex-namorado. “Eu não fiz você melhor?”, ela pergunta tristemente. O primeiro single, “LMK”, que significa “Let Me Know”, é uma faixa eletro-R&B com camadas inspiradas pelo dancehall.

Possui um refrão simples, vocais hipnóticos e uma produção impressionante como cortesia do produtor Jam City. A sedutora “Truth Dare” contém uma instrumentação mínima formada por sintetizador e bateria, alguns vocais de fundo e belas harmonias. Há momentos em que a bateria repousa e deixa Kelela preencher todo o espaço da música. A sua voz angelical soa ainda melhor durante a suave “S.O.S.”, enquanto “Blue Light” e “Onanon” nos trazem The Weeknd à mente. Duas canções pop escuras e exuberantes com uma profundidade emocional inconfundível. “Estou no caminho agora / Prometo que não demorarei / Baby, mantenha a luz azul acesa”, ela canta em “Blue Light”. Em seguida, arranjos de cordas definem o humor da faixa “Turn to Dust”. As cordas e todo instrumental crescem continuamente, mas depois caem como verdadeiras ondas sonoras. Por fim, a última faixa, “Altadena”, é um número de capacitação dedicado a todas mulheres negras. Musicalmente, a beleza desta peça está em sua complexidade. “Take Me Apart” é um registro emocional, pungente, vulnerável e imensamente sedutor. A meticulosidade e minimalismo de Kelela criam um enredo poderoso e comovente, que a faz distinguir-se de seus contemporâneos. Sua paisagem sonora é justificada por batidas eletrônicas, sintetizadores em potencial e uma extraordinária sonoridade R&B. Cada faixa possui uma força própria, embora o álbum deva ser experimentado por completo. Kelela Mizanekristos pode ser relativamente desconhecida para o público mainstream, mas ela definitivamente não deveria ser.

Favorite Tracks: “Frontline”, “Waitin” e “LMK”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.