Resenha: Keith Urban – Ripcord

Lançamento: 06/05/2016
Gênero: Country
Gravadora: Capitol Nashville
Produtores: Jeff Bhasker, Busbee, Nathan Chapman, Nitzan Kaikov, Dann Huff, Tyler Johnson, Johnny Price, Nile Rodgers, Keith Urban e Greg Wells.

Quando trata-se de artistas masculinos na música country, o australiano Keith Urban é um dos mais conhecidos. Ele começou sua carreira no início dos anos 90 e teve um certo avanço na carreira com o seu terceiro auto-intitulado álbum. Desde então, ele conseguiu uma série de canções número #1 no chart country da Billboard. Recentemente, o cantor lançou o seu oitavo álbum de estúdio, intitulado “Ripcord”. Segundo o próprio, é o seu disco mais experimental até a presente data. Ele realmente está certo. Apesar do “Fuse” empurrar suas fronteiras para além da música country, é esse novo álbum que vai ainda mais longe. “Ripcord” faz o jurado do American Idol pisar em territórios, muitas vezes, criticados pelos mais fãs mais tradicionalistas do country. Para esse disco, Urban trabalhou com novos escritores e produtores, incluindo Jeff Bhasker, Greg Wells e Nile Rodgers, bem como colaboradores de longa data, tais como Shane McAnally e Nathan Chapman.

Essa equipe permitiu que ele expandisse mais o seu som e misturasse diferentes estilos musicais. Consequentemente, “Ripcord” é um disco diversificado e experimental, que sinaliza uma mudança sonora. Este registro é mais orientado para o mainstream, com uso de sintetizadores e ritmos pop infundidos. Para ser sincero, nem seria justo definir o estilo desse álbum apenas como “country”. Tanto que há uma grande variedade de influências e gêneros entre as 13 faixas. O álbum abre com “Gone Tomorrow (Here Today)”, uma canção guiada por um forte riff de banjo. Mais tarde, o banjo também é acompanhado por sintetizadores, guitarras, baixo e bateria eletrônica. É uma faixa animada com uma boa melodia, a cerca de aproveitar a vida. Enquanto “Gone Tomorrow (Here Today)” é introduzida pelo banjo, loops de bateria são onipresentes no “Ripcord”.

O primeiro single do álbum, “John Cougar, John Deere, John 3:16”, foi co-produzida por Keith Urban ao lado de Dann Huff. Urban construiu sua carreira como um vocalista que entrega canções cativantes e com grandes habilidades na guitarra, mas dessa vez, seu maior foco foi o baixo. “John Cougar, John Deere, John 3:16” começa com uma forte batida de tambor, enquanto uma linha de baixo é intercalada na mistura. A batida não-country é o maior motor e o que mais impulsiona a música. Sua produção é mais simples, orgânica, com graves profundos e com o baixo dando uma forte sensação funky para a composição geral. Igualmente a singles como “Somewhere In My Car” e “We Were Us”, a música não tem uma unidade ou vitalidade, mas o seu ritmo e melodia conseguem se manter atraentes o tempo todo. Além disso, a maneira como Urban modulou os acordes finais deixou a pista ainda mais interessante.

Ao acelerar o ritmo da bateria eletrônica, depois da ponte, ele também deixou claro que a música é muito mais pop do que country. Puxando um estilo vocal reminiscente de Rob Thomas, o cantor neo-zelandês e australiano se mantém ocasional e se expressa de diferentes maneiras nesta faixa. Liricamente, a canção é mais uma daquelas onde ouvimos um rol de metáforas para descrever a si mesmo. Na lista de Keith Urban, inclui grandes comparações como “Eu sou um jantar de televisão em uma bandeja / Tentando descobrir a roda da fortuna” e “Eu sou John Wayne, Superman, Califórnia”. Não é o caso dessas, mas admito que algumas das outras metáforas são realmente interessantes. “E eu sou uma criança de uma liberdade no banco de trás / Batizado por rock and roll / Marilyn Monroe e do Jardim do Éden / Nunca crescem, nunca envelhecem”, ele canta no carismático refrão.

Keith Urban

“Apenas um outro rebelde na grande abertos / Na alameda dos sonhos despedaçados / E eu aprendi tudo o que eu precisava saber / De John Cougar, John Deere, João 3:16”. Tanto o refrão, quanto a ponte e o título da música, fazem referências a João 3:16, um versículo da Bíblia que diz que se alguém acredita em Deus e Jesus Cristo viverá eternamente. Aparentemente, Shane McAnally, Ross Copperman e Josh Osborne trouxeram o seu melhor para a escrita desta canção. Nesse álbum, temos várias faixas bastante cativantes, como o nostálgico single “Wasted Time”. Uma canção com grande apelo radio-friendly, porém, com letras clichês e conceito pobre. Urban deixa sua zona de conforto, a fim de entregar uma música country-pop. Na verdade, “Wasted Time” é muito mais pop, apesar de conter alguns riffs no banjo. Sua batida, sintetizador e refrão são infecciosos, divertidos e grudam com facilidade na cabeça.

Como um single extremamente comercial, ela funciona perfeitamente, porém, não vai além disso. Enquanto isso, “Habit of You” certamente foi inspirada por sua esposa, Nicole Kidman. É uma canção mais lenta, com uma veia no R&B, onde ele gasta o seu tempo falando sobre ficar a noite toda com sua esposa. Seu título é bastante inspirador e, no geral, é uma música muito bonita. É guiada principalmente pela guitarra de Urban, à medida que ele apresenta belos vocais. A ponte é intercalada por um piano, enquanto a melodia geral é um charme a parte. A próxima faixa, “Sun Don’t Let Me Down”, apresenta o rapper Pitbull e o lendário produtor Nile Rodgers na guitarra. Dificilmente você imaginaria esperar ouvir Pitbull em um álbum de música country, mas isso acontece. Essa é uma verdadeira música pop e funky, com um distorcido riff de guitarra no refrão.

Além da exótica linha de guitarra, temos um banjo circulando durante os versos. É uma música muito divertida e acessível, embora a inclusão de Pitbull seja um pouco inútil. Nile Rodgers, por outro lado, realmente torna a música incrível, graças a seus licks de guitarra funky por toda parte. Você pode ter esquecido, mas Rodgers é um dos principais responsáveis pelo sucesso de “Get Lucky” de Daft Punk e Pharrell Williams. Em “Gettin’ in the Way” o cantor fala sobre a atração entre um casal que não gosta de se despedir no final do dia. A canção começa um pouco calma e lenta, porém, em seguida, pega um embalo com a chegada do refrão. Diferente da faixa anterior, não é um novo território para Keith Urban. Seus vocais e instrumentação acrescentam algum charme, entretanto, no geral, é uma música um pouco entediante e estereotipada. “Blue Ain’t Your Color” é outro número que começa mais lento e dramático, no entanto, é muito mais atraente.

Keith Urban

Ela foi escrita por um grupo muito talentoso de escritores, que inclui a jovem Grammy-Winner Hillary Lindsey. Aqui, encontramos o cantor no bar tentando consolar uma mulher com o coração partido. “Você não precisa esse cara / É tão preto e branco / Ele está roubando seu trovão / Baby, azul não é sua cor”, ele canta. “Blue Ain’t Your Color” tem uma paisagem sonora muito old-school, reminiscente de algumas canções do final da década de 1950. A despojada guitarra bluesy é o principal e mais belo instrumento utilizado. A oitava faixa, “The Fighter”, é uma colaboração de Keith Urban com Carrie Underwood. Produzida por Busbee, a canção apresenta uma batida dance pesada e um sintetizador muito agradável. Inesperadamente, a canção não possui qualquer indício de ser country. Além disso, não é uma balada sentimental como poderíamos esperar de um dueto entre os dois, é um número alegre e divertido.

Urban pode não estar deixando o gênero country de lado, mas aqui ele mergulhou com abundância na música pop. Liricamente, a faixa fala sobre esquecer as mágoas do passado e proteger o seu novo amor: “E se eu cair / Eu não vou deixar você cair / E se eu chorar / Eu prometo que nunca mais vou fazer você chorar”. Uma seção de cordas e floreios de guitarra acústica, introduzem a balada “Break On Me”. É uma canção muito segura, que está no espectro mais lento e comovente do registro. Ela foi escrita por Ross Copperman e Jon Nite, e lançada como segundo single do álbum em 23 de outubro de 2015. É uma balada encantadora, com nuances vocais muito agradáveis. A entrega mais discreta de Keith Urban, por sua vez, a deixou ainda mais bela e acessível. “Boy Gets a Truck” é típico número country crescente, onde Urban conta uma história de um garoto. Ele detalha a vida de um menino que cresceu e atingiu a idade para poder dirigir um caminhão.

Parece meio brega e forçado, mas o cantor tenta abordar grandes momentos da vida. É música country na sua forma mais pura, tanto que parece um sequela de “Cop Car” do disco “Fuse”. A música é muito inteligente com as palavras e acaba contando uma verdadeira história. A forma como Urban inicia cada frase do refrão com a última palavra da linha anterior, é um pouco irritante, porém, a música possui poucas falhas. O resto do álbum segue com a faixa “Your Body”, um suave número mid-tempo conduzido pelo baixo. Produzida e escrita por Urban e Busbee, essa canção é um tanto quanto embaraçosa. Sua letra não é das melhores, uma vez que causa um pouco de constrangimento (“E tudo no mundo é certo / Estrelas se alinham sempre que o meu corpo / Está tocando seu corpo”). Em contrapartida, “That Could Still Be Us” é uma balada no piano que descreve as dores de um amor perdido.

Essa música mostra mais da capacidade de Keith Urban em emocionar. É uma canção emotiva, onde ele se entrega melhor vocalmente. A última faixa, “Worry ‘Bout Nothin'”, é surpreendentemente exagerada de tal forma que a sua voz é totalmente ofuscada. A produção geral é muito alta, barulhenta e claramente auto-sintonizada. “Ripcord” é rico em variedade e recheado com alguns hits em potencial. É um álbum que precisar ser escutado várias vezes, para você realmente começar a gostar dele. A mudança de direção sonora é impactante de início, mas, depois de audição mais aprofundada, você começa a admirar. Como mencionado, tem hits em potencial, tanto que várias músicas poderiam ser lançadas como single. Muitos fãs podem preferir o country tradicional e o Keith Urban de antes, porém, ele está claramente tentando se reinventar. Apesar da mistura de gêneros, “Ripcord” é um disco muito divertido e agradável.

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Favorite Tracks: “John Cougar, John Deere, John 3:16”, “Wasted Time”, “Sun Don’t Let Me Down (feat. Nile Rodgers & Pitbull)”, “Blue Ain’t Your Color” e “Break On Me”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.