Review: Katy Perry – Witness (2017)

Lançamento: 09/06/2017
Gênero: Pop, Electropop
Gravadora: Capitol Records
Produtores: Max Martin, Katy Perry, Ali Payami, Shellback, Oscar Holter, Duke Dumont, Noah Passovoy, PJ Sledge, Hot Chip, Jack Garratt, Mike Will Made It, Jeff Bhasker e Illangelo.

Katy Perry ainda tem um talento para músicas que rapidamente se infiltram na consciência do ouvinte. “Witness” prova que ela é uma pop star mais interessante do que ela própria acredita.

Desde a sua estreia no mainstream em 2008, Katy Perry conseguiu uma série de importantes marcos musicais. Ela possui o show do Super Bowl mais assistido da história e é a primeira pessoa a atingir a marca de 100 milhões de seguidores no Twitter. Com o maravilhoso “Teenage Dream” (2010), Perry quebrou uma série de recordes e igualou-se a Michael Jackson, ao colocar cinco singles de um mesmo álbum no topo da Billboard Hot 100. Com o “PRISM” (2013), a cantora apresentou-se como uma mulher adulta e mesclou sua fé com um pop contagiante. Muitos dos seus maiores hits, como “Firework” e “Roar”, são músicas de auto-capacitação que atingem um grande número de pessoas. Com auxílio de Max Martin e Dr. Luke, Perry dominou as rádios mais do que qualquer outra pessoa nos primeiros anos dessa década. No ano passado, ela gravou a canção oficial dos Jogos Olímpicos do Rio e apoiou Hillary Clinton na disputa pela presidência dos Estados Unidos. Posteriormente, em 09 de junho de 2017, Katy Perry lançou o seu quarto álbum de estúdio, intitulado “Witness”. O altamente esperado disco apresenta quinze faixas e reflete sobre as mudanças em sua vida e no mundo. Depois do lançamento do “PRISM” (2013) há quatro anos, Perry sofreu algumas transformações. Ela anunciou que seu novo álbum apresentaria um “pop proposital”, após o choque do resultado das eleições americanas. Até esse ponto, sua música sempre foi muito comercial, então muitos ficaram interessados por essa nova fase.

O lead-single, “Chained to the Rhythm”, com Skip Marley, foi inspirado e escrito justamente alguns dias depois que Donald Trump foi eleito presidente. Uma canção enganosamente alegre que na verdade fala sobre uma sociedade complacente e resignada. Provavelmente, um dos maiores desafios para Katy Perry, uma estrela pop mundialmente bem-sucedida, era sair de sua zona de conforto. “Teenage Dream” (2010) foi um sucesso sem precedentes e causou um enorme e substancial impacto na história da música pop. Entre singles e álbuns, ela já possui vendas estimadas em 126 milhões no mundo todo. Certamente, ela é uma das cantoras mais populares e bem-sucedidas de sua geração. Portanto, fica o desafio: ela seria capaz de apresentar algo mais maduro, inovador ou coeso? “Witness” possui um som muito mais unificador do que seus antecessores. Desta vez, Perry fornece um registro mais consistente e maduro do que nunca. Ao lado de seus produtores, ela apresenta faixas mid-tempo, sons eletrônicos e uma grande utilização do piano. Em quase uma hora de duração, “Witness” explora um som dançante e mais compacto, enquanto é cheio de baladas de auto-capacitação. Para esse registro, ela se juntou com seu colaborador de longa data, Max Martin, bem como Ali Payami, Shellback, Duke Dumont, Purity Ring, Hot Chip, Mike Will Made It, DJ Mustard, Jeff Bhasker e Illangelo. Aparentemente, ela mostrou um maior interesse em expandir seu som ao trabalhar com novos produtores.

A capa do “Witness”, um tanto quanto surpreendente, não é a única coisa diferente sobre o retorno de Katy Perry. O som parece combinar com o novo corte de cabelo, mas a nova direção sonora pode afetar sua popularidade. A lista de colaboradores é suficiente para animar qualquer ouvinte. Há um tema claramente eletrônico em todo o repertório, com alguns recursos sendo utilizados. “Witness” não é um registro ruim, mas é um tanto quanto diferente. Por mais onipresente que seja Max Martin, alguns refrões não se apresentam da maneira que costumavam ser no “Teenage Dream” (2010) e “PRISM” (2013). Da mesma forma, alguns produtores parecem estar envolvidos de uma maneira errada. Hot Chip, por exemplo, está presente nos bastidores da balada “Into Me You See” – mas por que colaborar com um grupo tão dinâmico e dançante em algo tão morno? O mesmo questionamento pode ser feito para a presença de DJ Mustard, famoso pelos bangers poderosos, na balada “Save as Draft”. Na minha opinião, Katy deveria ter aproveitado e extraído melhor o talento dos seus colaboradores. Ademais, “Witness” sofre de um problema que atrapalhou o “PRISM” (2013), ou seja, a falta de coesão. Fora isto, é um álbum que realmente tem o seu valor e muitas faixas de qualidade. E é exatamente por isto que eu não entendo toda a negatividade que ultimamente está em torno da Katy Perry.

Muitos estão a criticando por seguir uma nova direção artística e agindo de forma estranha. Mas, se você realmente a acompanhou nos últimos nove anos, vai saber que ela sempre foi diferente e singular. Por que as pessoas estão criticando-a por mudar, sendo que antes exigiam exatamente isto dela? Para o seu quarto álbum de estúdio, Katy Perry experimentou um som pop mais consistente e experimental, e consequentemente afastou-se do bubblegum-pop que muitas pessoas achavam previsível. Portanto, mais uma vez, eu indago: por que as pessoas agora estão reclamando dela estar tão diferente? A faixa-título, “Witness”, é um dos momentos mais surpreendentes e astutos do repertório. Uma balada onde ela confessa: “Nós estamos apenas procurando conexão / Sim, todos nós queremos ser vistos / Estou à procura de alguém que fale a minha língua / Alguém para seguir essa viagem comigo / Posso ter uma testemunha?. É a introdução perfeita para o álbum. Inicialmente, ela começa com vocais descontraídos emparelhados com alguns instrumentos e uma grande ênfase no piano. À medida que o refrão aparece, a música encaixa-se no seu som de assinatura, com uma voz restrita, mas inegavelmente poderosa.”Witness” tem um som progressivo e diferente do pop tradicional. Sua maturidade inesperada é intercalada com um humor confiante e melancólico, além de vibrações da música dance dos anos 90. Em seguida, o álbum mergulha diretamente no dance-pop da ridiculamente viciante “Hey Hey Hey”.

Um hino feminista e de auto-capacitação, com letras como: “Porque eu sou feminina e macia / Mas ainda sou a chefe / Com um batom vermelho, mas ainda tão bruta / Marilyn Monroe em um caminhão monstro”. Os versos são embalados por algumas boas rimas que certamente vão grudar na sua cabeça. A instrumentação e batidas do refrão são semelhantes à dos versos, mas a base realmente adiciona um toque extra. Katy Perry usa o auto-tune de uma forma interessante, não para melhorar sua voz, mas para aprimorar a sensação eletrônica. “Roulette” é instantaneamente uma das favoritas dos fãs – uma canção excepcional com uma mistura perfeita de teclado, bateria e influências dos anos 80. Durante os versos, ela canta de forma retida, enquanto o refrão explode da melhor forma possível. Co-escrita com a ajuda de Max Martin, a cantora mergulha numa produção atmosférica, escura, poderosa e dramática. No terceiro e último refrão, Katy Perry canta com vocais ainda maiores e desinibidos, e enfatiza sua mensagem de liberdade. A próxima faixa, “Swish Swish”, com Nicki Minaj, foi produzida por Duke Dumont e lançada como single em 19 de maio de 2017. Uma canção house com amostras de “Star 69” de Fatboy Slim que, por sua vez, usa sample de “I Get Deep” de Roland Clark. É uma música divertida e com uma batida incrivelmente fascinante. Dessa vez, ela utiliza uma instrumentação EDM pesada no refrão e um piano no pré-refrão.

Os vocais mais restritos fazem maravilhas e é tudo muito bem executado. Além disso, o verso de Nicki Minaj, alternado entre o rap e o canto, é muito consistente. “Swish, swish, bish / Another one in the basket / Can’t touch this / Another one in the casket” – o refrão ficará instantaneamente preso na sua cabeça. Liricamente, é uma faixa de auto-empenho direcionada aos haters, embora rumores disseram ser uma resposta à “Bad Blood” de Taylor Swift. Mesmo começando com algumas linhas amadoras, “Déjà Vu” também pode ser considerado um grande momento do álbum. É outra canção sombria que usa uma batida house e uma elegante linha de baixo. Aqui, Perry canta letras mais pessoais sobre um envolvimento romântico. Liricamente, ouvimos a cantora explicando como tal relacionamento ainda está atormentando-a: “Porque todos os dias são iguais / É a definição de insanidade / Acho que estamos vivendo em loop / Déjà vu, déjà vu, déjà vu, déjà vu”. O refrão não é explosivo ou grande, mas é cativante e vocalmente interessante. Não há dúvidas que ela quebrou o molde algumas vezes neste álbum, como podemos perceber em “Power”. Produzida por Jack Garratt, é uma faixa musicalmente audaciosa e muito vigorosa. Uma música que confronta a misoginia com referências à própria vida da Katy Perry. Ela começa de forma melancólica – quebrada pela contundente bateria – e depois desenvolvida por confiantes vocais.

Na maior parte, temos uma porção de espessos sintetizadores e acordes jazzísticos auxiliando-a. Enquanto isso, no refrão ela aparece no topo de alguns teclados e poderosos tambores, para dizer: “Porque eu sou uma deusa e você sabe disso”. Nessa frase, ela soa absolutamente convincente. “Mind Maze” é a primeira faixa do álbum produzida pelo duo Purity Ring, uma canção sobre a imensa confusão criada na sua mente quando você está sob pressão. É uma música estranhamente simplista, onde a emoção das letras acabam sendo perdidas no meio da produção. Certamente, é a faixa mais obscura e sombria do álbum, graças às melodias, o piano e os sintetizadores distorcidos. Em determinados momentos, Perry usa auto-tune em algumas notas para aprimorar a música e encaixar-se na batida. Apesar do uso exagerado, o auto-tune proporciona um novo som em meio às batidas. “Miss You More”, outra faixa produzida por Purity Ring, é um favorito instantâneo. Uma balada maravilhosa e temática, aparentemente inspirada por seu relacionamento com John Mayer. “Miss You More” mostra que a ideia de perder alguém é muito mais forte do que o vínculo amoroso entre eles. As letras são incrivelmente emocionais, a entrega crua e genuína, os vocais frágeis e emotivos, e a produção esplêndida. Tudo aqui foi feito para evocar efetivamente o sentimento de perda, enquanto recorda de alguns bons momentos.

Dito isto, a música possui um efeito crescente com grande ênfase no perfeito piano e na bateria. O piano cumpre eficientemente a produção eletrônica e abre caminho para seus vocais poderosos. Com realce do piano e encaixes ao fundo, Katy Perry canta: “Eu sinto sua falta mais do que eu te amei”. Como uma música mais lenta e sombria, “Miss You More” é muito bem produzida e polida. O grande primeiro single, “Chained to the Rhythm”, foi co-escrito pela Sia e produzido por Max Martin. Esta música não é algo que já ouvimos anteriormente da Katy Perry, mas ainda soa intrinsecamente como ela. “Chained to the Rhythm” faz uma mistura atraente de música disco e reggae num mar de agitação, batidas up-tempo e uma mensagem decididamente política. “Tão confortável, estamos vivendo em uma bolha, bolha / Tão confortável, não podemos ver o problema, problema”, ela canta. A letra é sobre a sociedade em geral, que muitas vezes parece acorrentada numa rotina diária. Consequentemente, essa mesma sociedade não vê às injustiças em sua volta, uma vez que fica “presa” em sua própria bolha. A letra pode ​​parecer estranha no início, mas depois de você prestar mais atenção, começa a perceber o quanto é inteligente. Inicialmente, parece uma canção pop inofensiva, mas na verdade possui um conteúdo muito consciente. A canção em si possui uma sensação disco relaxada e um verso adicional de Skip Marley, neto do lendário Bob Marley.

Seu verso é interessante, liricamente inteligente e melodicamente agradável. Skip Marley realmente dá uma força extra ao sentimento geral da canção, inclusive auxiliando no final acapela da mesma. Cheia de harmonias e uma poderosa melodia, a canção tem um fluxo contínuo que não deixa o ouvinte desanimar. É dirigida por uma linha de baixo viciante e uma produção quase impecável. O excelente pré-refrão, com o som funk de uma guitarra, e o agitado refrão, são pontos cruciais da música. “Então coloque / Seus óculos de lentes rosadas / E comece a festa”, ela canta aqui. “Chained to the Rhythm” é uma canção cativante e nostálgica com uma produção eletrônica, ritmo ligeiramente descontraído e definitivamente oitentista. Produzida por Mike Will Made-It, “Tsunami” começa com sons de ondas batendo na costa e gaivotas chilreando. É uma música hipnotizante, com uma série de referência à vida marinha: “Então querido, venha e dê um mergulho comigo / Me agite até que eu fique ondulada / Não tenha medo de mergulhar nas profundezas / E começar um tsunami”. Pode não ser uma das minhas canções favoritas do LP, mas os cantos sussurrantes, o ritmo contagioso, a batida em potencial e o baixo pesado merecem atenção. A polarizante “Bon Appétit”, com Migos, foi lançada como segundo single em 28 de abril de 2017. Com uma premissa básica, Katy Perry oferece uma performance vocal sensual e, de alguma forma, obsoleta durante os versos.

Ela é cercada por uma batida potente e sedutora, e guiada por uma progressão suave. Inspirada por um som EDM da década de 90, é uma canção dance-pop e trap com letras que apresentam duplos sentidos sexuais envolvendo comida. Com um título em francês, “Bon Appétit” oferece harmonias hipnóticas e sintetizadores otimistas. A produção possui um ritmo cuidadoso que explode completamente no segundo refrão. Infelizmente, a melodia e a entrega vocal não seguem o mesmo exemplo. Não há uma progressão melódica no refrão, o que torna a música bastante plana e repetitiva. Supostamente inspirada pela perda chocante de Hillary Clinton na eleição presidencial de 2016, “Bigger Than Me” encontra Katy Perry refletindo de forma negativa. É uma canção contagiante e uma auto-reflexão de encontrar o propósito de sua vida, ao passar por testes emocionais. É uma das faixas mais catchy, visto que oferece peculiaridades vocais, uma batida influenciada pelo dancehall e boa inspiração eletrônica. Seguindo os passos de Britney Spears, Perry usa referências tecnológicas para expressar sua frustração em “Save as Draft”. É sobre como ela quer conversar com seu amante sobre seus problemas, mas, por estar muito nervosa, não consegue dizer nada. Ela canta sobre um piano e batidas silenciosos, enquanto captura um olhar moderno sobre as rupturas e as más decisões.

No geral, é uma música sombria com uma instrumentação pesada muito agradável de se ouvir. A penúltima faixa, “Pendulum”, é certamente uma das minhas favoritas do repertório. Outra canção sobre o auto-empoderamento que leva a cantora de volta para os seus dias gospel. Um número imensamente vibrante e certamente uma das mais bem produzidas. Essa música tem um tom de elevação que nos leva à novas alturas com suas letras otimistas. Uma balada mid-tempo estimulante que se apoia fortemente num coro gospel. Produzida por Jeff Bhasker e Illangelo, é uma canção com elementos funky e disco, que faz um uso eficiente do piano e baixo. Por fim, o álbum encerra com “Into Me You See”, uma delicada balada de piano que mostra Katy Perry examinando seus relacionamentos e como chegou ao ponto em que está agora. Ela revela que encontrou alguém para derrubar a barreira que construiu ao redor de si mesma. Embora ela coloque um constrangedor “abre-te sésamo” no meio do refrão, a faixa não deixa de ser emocional e vulnerável. Mesmo que haja poucas evidências eletrônicas da banda Hot Chip em “Into Me You See”, sua melancolia, produção requintada e direção mais suave são adoráveis. Em suma, o “Witness” causou sentimentos mistos nos ouvintes. Ele sofre de expectativas iniciais elevadas e a dificuldade de combinar várias influências musicais.

Certamente, o seu maior problema é a falta de coesão para juntar todas as ideias. Além disso, não possui os grandes refrões que impulsionaram seus maiores hits. Por este motivo, ao ouvir todo o álbum, não podemos deixar de nos perguntar por que Katy Perry, uma das maiores estrelas pop do mundo, evitou os refrões maravilhosos do “Teenage Dream” (2010) e “PRISM (2013). “Witness” pode não ser o álbum que os fãs esperavam depois de um intervalo de quatro anos, mas há muita coisa para aproveitar dentro dele. Em primeiro lugar, Katy merece aplausos por tentar empurrar seus limites em termos de som, mesmo que algumas músicas não deixem uma impressão duradoura. Através do “Witness” o ouvinte tem a oportunidade de conhecer a nova perspectiva de uma mulher que ouvimos há anos. É uma coleção arrojada e polida de canções experimentais que a vê tentando evoluir como artista. É o seu trabalho mais forte? Certamente não. Mas há bons momentos para fazer deste álbum uma experiência auditiva interessante. Sonoramente, é o seu projeto mais maduro, incrivelmente pensativo e rico em profundidade. O seu trabalho vocal elegante combinado com a instrumentação incrivelmente pungente, é eficaz e seduz com facilidade. “Witness” pode não ser o material que todos aguardavam ansiosamente, mas mostra um crescimento e uma nova perspectiva da Katy Perry.

  • 70%
    SCORE - 70%
70%

Favorite Tracks:

“Witness” / “Roulette” / “Chained to the Rhythm (feat. Skip Marley)”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.