Resenha: Kanye West – The Life of Pablo

Lançamento: 14/02/2016
Gênero: Hip-Hop
Gravadora: GOOD Music / Def Jam Recordings / Roc-A-Fella
Produtores: Kanye West, Mike Dean, Noah Goldstein, Charlie Heat, Metro Boomin, Rick Rubin, DJDS e Hudson Mohawke.

Kanye West é um gênio e louco na mesma proporção. Ele é uma figura pública desconcertante, porém, um artista excepcionalmente talentoso e criativo. Muitos podem tentar se convencer do contrário, mas é inegável que West possui uma genialidade e capacidade artística acima da média. O seu sétimo álbum de estúdio, “The Life of Pablo”, é um exemplo brilhante disso. O disco foi lançado em 14 de fevereiro de 2016 e produzido com ajuda de uma variedade de produtores, escritores e vocalistas convidados. O álbum foi lançado inicialmente como produto exclusivo do serviço de streaming Tidal, após uma série de atrasos em sua finalização. Mais tarde, uma versão atualizada foi lançada em outros serviços de streaming, como Spotify e Apple Music. Em 12 de abril de 2016, o registro estreou no número #1 da Billboard 200 e tornou-se o seu sétimo disco consecutivo a atingir tal marca. O título do projeto é audacioso e faz comparações entre Kanye West e Pablo Picasso. É um álbum de hip-hop poderoso e expressivo, com letras pessoais e auto-conscientes, que giram em torno de fé e tentam descrever as lutas na vida do rapper.

Não é tão coeso quanto seus discos anteriores e as transições entre algumas músicas são desordenadas. As letras são profundamente pessoais, mas, muitas vezes, ficam em segundo plano perante a incrível produção. Com exceção desses pequenos contratempos, “The Life of Pablo” é incrível e outro registro notável de Kanye West. O álbum começa com “Ultralight Beam”, uma maravilhosa balada hip-hop e gospel, em parceria com The-Dream, Kelly Price, Kirk Franklin e Chance the Rapper. É possivelmente uma das melhores canções do álbum, um retrocesso que aponta para a sonoridade dos seus primeiros trabalhos. Liricamente, é uma canção sobre a fé de Kanye West em Deus. The-Dream abre a faixa com vocais de inspiração gospel, cantando: “Nós não queremos que tenha demônios em casa, Deus / Sim, querido / Queremos o senhor e é isso”. Kanye West o acompanha e também se manifesta, dizendo: “Nós em um ultra feixe de luz / Este é um sonho Deus / Isto é tudo”. Um esplêndido coral gospel auxilia o rapper e dá à música uma atmosfera angelical magnífica. O poderoso refrão e os pesados tambores também dão um ótimo suporte para os vocais.

Chance the Rapper é um dos maiores destaques da música, uma vez que fornece um verso fantástico. Ele é muito talentoso e aproveitou a oportunidade para enaltecer o seu ídolo: “Eu conheci Kanye West, eu nunca vou falhar”. “Father Stretch My Hands Pt. 1”, produzida pelo talentoso Metro Boomin, aparece na sequência. Aqui, temos um instrumental intrincado, uma batida progressiva e versos adicionais de Kid Cudi. A faixa inicia de forma bastante explícita, com Kanye West mandando uma indireta sugestiva para Amber Rose, sua ex-namorada. O rapper reflete sobre relacionamentos do passado e atuais, uma vez que fala sobre seu casamento com Kim Kardashian nas últimas linhas. Kid Cudi também destaca-se ao oferecer um gancho bastante interessante. Sonoramente, a faixa utiliza artifícios similares ao de algumas canções do álbum “808’s & Heartbreak”. “Pt. 2”, continuação da faixa anterior, é ainda melhor. Essa canção apresenta um ritmo diferente, embora não se afaste do caminho desenvolvido pela primeira parte. Aqui, Kanye West fala sobre o relacionamento com o seu pai, a morte de sua mãe e o acidente de carro que sofreu. O rapper revelou que seu pai foi a maior fonte de inspiração para essa música.

No dia do lançamento do álbum, West disse através do Twitter: “Eu chorei escrevendo isso. Eu amo meu pai”. “Pt. 2” também apresenta amostras e um verso adicional de “Panda”, atual hit do rapper Desiinger. Ele é o mais recente contratado da GOOD Music, gravadora de Kanye West. A batida de “Panda” começa por volta de 39 segundos e é incrivelmente sólida e grudenta. Curiosamente, tanto o fluxo quanto o estilo de Desiigner é surpreendentemente parecidos com a sonoridade de Future. O primeiro single do álbum, “Famous”, gerou bastante polêmica assim que foi divulgada. A letra é controversa e faz referências sugestivas a cantora Taylor Swift. Todos devem se lembrar do episódio que aconteceu no Video Music Awards de 2009, quando Kanye West interrompeu o discurso da cantora. A disputa entre eles vem desde aquele dia, embora ambos não parecem ter qualquer problema um com o outro. Tudo parece ser apenas publicidade, uma vez que em 2015, no palco da mesma premiação, os dois compartilharam elogios e se abraçaram em público. Em sua primeira linha, West recita: “Para os parceiros do Sul que me conhecem melhor / Acho que Taylor e eu ainda vamos transar / Por quê? Eu fiz esta vadia ficar famosa”.

Kanye West

Não é novidade que o rapper costuma ser controverso em seus versos. E aqui, em “Famous”, ele está no seu pico mais arrogante. O comentário dirigido à Taylor Swift é bem desnecessário e misógino, mas, felizmente, isto não mancha a incrível qualidade desta música. O restante do conteúdo lírico é bastante simples, pois West apenas recita comentários sobre ser famoso. O que realmente chama atenção em “Famous” é sua perfeita colagem sonora. Há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo nesta música, porém, de uma forma excepcional. A canção contém amostras de “Do What You Gotta Do”, interpretado por Nina Simone, “Bam Bam” da DJ Sister Nancy e “Mi Sono Svegliato E… Ho Chiuso Gli Occhi” da banda Il Rovescio della Medaglia. O gancho principal é fornecido lindamente por Rihanna, enquanto o rapper Swizz Beatz bate em cima das amostras de “Bam Bam”. O sample do dancehall de Sister Nancy é uma das partes mais cativantes, visto que acaba servindo como uma acabamento ideal para a música. A produção faz o ouvinte lembrar das influências old-school de West, assim como Swizz Beatz colabora com o seu fluxo clássico.

“Famous” começa com os vocais onipresentes de Rihanna, que canta: “Cara, eu entendo como deve ser / Meio difícil amar uma garota como eu / Eu só queria que você soubesse”. Ela performa sobre um órgão de igreja profano, que dá à música uma sensação gospel formidável. Em seguida, temos uma quebra instrumental, onde Kanye West entra em ação. Apesar de suas controvérsias, “Famous” é definitivamente uma música extraordinária. Na faixa “Feedback”, West ostenta o seu dinheiro, carreira, origens e aborda os seus inimigos. Kanye West é alguém que realmente não se importa com as opiniões a seu respeito, sejam elas positivas ou negativas. Poucos artistas falam e se expõem tão abertamente como o rapper. “Vocês ouviram falar sobre a boa notícia? / Vocês dormiram em mim, hein? Teve uma boa soneca? / Acorde, mano, acorde / Nós lutamos para conseguir este papel”, ele recita no gancho principal. No segundo verso, West faz comparações com Pablo Escobar (referência direta com o título do álbum). O instrumental desta canção é interessante e exibe, logo de início, um som construído a partir do retorno de um microfone. Isto soa como uma reminiscência narcótica do disco “Yeezus”.

A composição geral é baseada em cordas isoladas, um sintetizador agudo e uma batida rítmica. A sexta faixa, “Low Lights” possui pouco mais de dois minutos e é, basicamente, uma introdução estendida para a faixa seguinte. Ela contém apenas palavras faladas, além de um piano e um baixo sintetizado. “Headlighs”, por sua vez, apresenta Young Thug nos vocais e uma sonoridade que nos remete aos álbuns “Graduation” e “808’s & Heartbreak”. Os sintetizadores, os graves profundos e o alto uso de auto-tune, fazem esses álbuns virem na nossa cabeça. Com Young Thug comandando a parte melódica, o rapper afirma que ele só quer fazer um grande trabalho. “Diga meu amor, estou de volta na cidade” canta West. Belas cordas, fortes estalar de dedos, piano, tambores e um baixo distorcido, adicionam algum encanto. Em um dos versos, o rapper menciona Ray J e ostenta o seu poder na cultura pop: “Eu aposto, eu e Ray J seríamos amigos / Se nós não amássemos a mesma puta / Sim, ele poderia ter atingido pela primeira vez / O único problema é que eu sou rico / 21 Grammys, família superstar / Nós, os novos Jacksons, eu sou tudo sobre essa ação”. Kanye West convida novamente Desiigner para participar da faixa “Freestyle 4”. Outra canção que não soaria fora do lugar se estivesse presente na tracklist do álbum “Yeezus”.

Possui uma estética escura, uma batida ameaçadora e alguns rosnados. Essa faixa serve como um lembrete do lado obscuro e sinistro de Kanye West. Seu ambiente é aterrorizante e mistura elementos industriais com letras explícitas. Aqui, o rapper fala sobre seus conflitos internos e descreve o quão está fora de controle. A canção também apresenta sample de “Human”, canção do duo Goldfrapp. A produção do DJ escocês Hudson Mohawke e a amostra de “Humam” acrescentam algumas boas harmonias. Quando chegamos na metade do álbum temos um interlúdio de 44 segundos, intitulado “I Love Kanye”. Uma canção acapela onde encontramos Kanye West refletindo sobre si mesmo. Ele se mostra auto-consciente ao demonstrar seu amor-próprio e descrever a opinião que o público tem sobre ele. Seu título é tão satírico que, após a última linha, o próprio Kanye West solta uma risada. Segundo o rapper, foi por causa de “Waves”, décima faixa, que o álbum teve que ser adiado em um determinado momento. Ela estava fora da tracklist final, porém, por insistência de Chance the Rapper, Kanye West resolveu inclui-la de última hora.

E Chance the Rapper estava certo, porque é uma canção que realmente mereceu o seu lugar no álbum. “Waves” acena um pouco para o R&B, em especial por causa dos vocais sólidos de Chris Brown. Seu instrumental é exuberante, glorioso e angelical, e a maior atração da música. Enquanto isso, ambos artistas entregam algumas metáforas para descrever suas carreiras: “Ondas não morrem / Me deixe ficar aqui por enquanto / Não preciso possuir isso / Sem mentiras”. Investindo em um lado mais sombrio e perturbado, Kanye West nos apresenta a faixa “FML”. É uma abreviação para “Fuck My Life”, mas também usada para “For My Lady”, como podemos ouvir no primeiro verso. Aqui, o rapper tenta falar sobre o relacionamento com a sua esposa, Kim Kardashian. Ele fala sobre as dificuldades que enfrenta para dar o seu melhor para esposa e filhos. Kanye West está realmente bem vulnerável e auto-destrutivo nesta faixa, enquanto é acompanhado por The Weeknd nos vocais. É uma canção que se sente bem familiar e apropriada para os vocais profundos de The Weeknd. Ele combina muito bem com a estética e atmosfera da música, e colabora eficazmente durante o devastador refrão. A canção é guiada por uma produção minimalista e um singelo piano.

Kanye West

“Real Friends” foi a primeira música do disco a estar disponível em uma versão de estúdio e, aparentemente, não sofreu nenhuma alteração significativa. É uma canção introspectiva e confessional, construída em torno de um piano melancólico e batidas pesadas. Possui uma produção muito boa, bem como a participação do rapper Ty Dolla $ign. Liricamente, é sobre a luta para manter um bom relacionamento com os amigos e familiares. “Amigos verdadeiros / Eu acho que tenho o que mereço, não tenho?”, eles se perguntam no refrão. Sonoramente, a faixa possui amostras de “Friends” de 1984 do grupo Whodini, assim como retorna às raízes musicais do próprio Kanye West. A faixa “Wolves” foi lançada em 2015 com vocais de Sia, no entanto, a versão inclusa no álbum traz a participação de Frank Ocean. Foi uma canção altamente aguardada justamente por trazer Ocean como um recurso. Produzida por Cashmere Cat, a canção continua a explorar os temas religiosos de Kanye West. Aqui, o rapper equipara-se a José e faz comparações de sua esposa e filhos com Maria e Jesus. “Você tem que me deixar saber se / Eu poderia ser seu José / Apenas dizer-lhe coisas reais (…) / Então eu disse: “E se Maria estive no clube? Quando se encontrou com José?”.

“Wolves” explora várias temas, tais como medo, amor, vício e depressão. A música é entregue com a ajuda de um baixo sinistro e vocais de apoio de alta-frequência. “Siiiiiiiiilver Surffffeeeeer Intermission” é um simples interlúdio onde West apresenta uma conversa por telefone entre os rappers Max B e French Montana. Uma faixa clássica e old-school no álbum é “30 Hours”, décima quinta canção do repertório. O título refere-se à longa viagem feita de Chicago para Los Angeles de carro. No início da década de 2000, West se mudou para Los Angeles a fim de gravar o seu primeiro álbum. Além do sample de “Answers Me” de Arthur Russell, a canção possui assistência de Drake na escrita e créditos vocais de André 3000. Sua produção é espetacular, uma de minhas canções favoritas do álbum. É uma música ritmada, com fortes tambores, vocais suaves de fundo e um fluxo excelente de Kanye West. Na faixa “No More Parties In LA” temos dois dos melhores rappers da atualidade juntos: Kanye West e Kendrick Lamar. É a primeira colaboração muito aguardada entre ambos artistas. Dois gênios rimando em linha reta, sem parar, por volta de 6 minutos.

É uma faixa energética e inspiradora, com um jogo de palavras notável. Os rappers, que moram em Los Angeles, trocam histórias entre si sobre a Cidade dos Anjos. O verso de Kendrick Lamar é inteligente e irônico, mas foi Kanye West que surpreendentemente roubou os holofotes. Ele entregou um dos seus melhores fluxos dois últimos anos. Musicalmente, a faixa contém amostragem de “Give Me My Love” de Johnny Guitar Watson. Originalmente lançada na véspera de ano novo, como presente para seus fãs, “Facts” vê Kanye West em uma diss track para a Nike. A primeira versão da música foi produzida por Metro Boomin e Southside, enquanto a versão do álbum contém vocais e produção regravadas por Charlie Heat. Graças a grande mudança na batida e instrumental, Kanye West encontrou uma boa plataforma para entregar um fluxo entusiasmado. A faixa de encerramento, “Fade”, é um número interessante. Entretanto, não parece uma canção adequada para fechar um álbum como “The Life of Pablo”. Em cima de uma batida retrô, temos vocais de Ty Dolla $ign e Post Malone. Não é uma música ruim por qualquer meio, pelo contrário, é um faixa cativante e divertida. Mas, a inclusão de Ty Dolla $ign, por exemplo, foi uma adição um pouco confusa e desnecessária.

Enquanto Kanye West não faz um rap nesta música, Post Malone e Ty Dolla $ign tentam se encarregar de assumir esse desafio. “Fade” é construída em cima de uma linha de baixo vibrante e elementos de house. Além disso, possui amostras de duas canções: “(I Know) I’m Losing You” dos Temptations e “Deep Inside” de Hardrive. Embora essas duas músicas sejam de diferentes épocas, se misturam muito bem juntas. Quando a batida entra em ação, a faixa se transforma em algo mágico. A contribuição auto-sintonizada de Post Malone também foi muito útil. As letras são uma tentativa de manter um amor que está desaparecendo. Enquanto o álbum passou por três mudanças no título, “The Life of Pablo” é provavelmente o nome mais adequado. Pois, em certo sentido, o disco é um resumo sobre a carreira de Kanye West. Liricamente, não é o registro mais forte do rapper, mas não deixa de ser um material de alto nível. Pois é raro um artista reinventar-se tão constantemente como ele. “The Life of Pablo” contém um pouco da alma de cada um dos seis álbuns de estúdio anteriores de Kanye West. Desde a intensidade do “Late Registration” até a experimentação do “Yeezus”. Pode não ser coeso como o perfeito “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, mas, em sua maior parte, é um álbum muito convincente e agradável de se ouvir.

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Favorite Tracks: “Ultralight Beam”, “Famous”, “Waves”, “30 Hours” e “No More Parties In LA”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.

  • Claire Reis

    Obra de arte. Melhor álbum de 2016.

    • Leo

      É um álbum realmente incrível.