Review: Kanye West – The Life of Pablo (2016)

Um senso de humor maluco anima o “The Life of Pablo”, além de uma energia livre e contagiosa. De alguma forma, parece seu álbum mais trabalhoso e inacabado – mesmo quando o Kanye West está indo por direções desconfortáveis, sua música parece viva.

Kanye West é um gênio e louco na mesma proporção. Ele é uma figura pública desconcertante, mas um artista excepcionalmente talentoso e criativo. Muitos podem tentar se convencer do contrário, mas é inegável que West possui uma genialidade e capacidade artística acima da média. O seu sétimo álbum de estúdio, “The Life of Pablo”, é um exemplo brilhante disso. Ele foi lançado inicialmente como produto exclusivo do serviço de streaming Tidal, após uma série de atrasos em sua finalização. Mais tarde, uma versão atualizada foi lançada em outras plataformas como Spotify e Apple Music. O título é audacioso e faz comparações entre Kanye West e Pablo Picasso. É um álbum de hip-hop expressivo com letras auto-conscientes que giram em torno de fé e tentam descrever as lutas em sua vida. Não é tão coeso quanto seus discos anteriores e as transições entre algumas músicas são um pouco desordenadas. As letras são profundamente pessoais, mas muitas vezes ficam em segundo plano perante a incrível produção. Com exceção de pequenos contratempos, “The Life of Pablo” é magistral e outro registro notável do Kanye West. O álbum começa com “Ultralight Beam”, uma maravilhosa balada de hip-hop e gospel, em parceria com The-Dream, Kelly Price, Kirk Franklin e Chance the Rapper. É possivelmente a melhor canção do álbum, um retrocesso que aponta para a sonoridade dos seus primeiros trabalhos. Liricamente, fala sobre a fé do Kanye West em Deus.

The-Dream abre com vocais de inspiração gospel, cantando: “Nós não queremos que tenha demônios em casa, Deus / Sim, querido / Queremos o senhor e é isso”. West o acompanha e também se manifesta, dizendo: “Nós em um ultra feixe de luz / Este é um sonho Deus / Isto é tudo”. Um esplêndido coral gospel o auxilia e dá à música uma atmosfera angelical magnífica. O poderoso refrão e os pesados tambores também dão um ótimo suporte para os vocais. Chance the Rapper é um dos maiores destaques da música, uma vez que fornece um verso fantástico. Ele também aproveitou a oportunidade para enaltecer o seu ídolo: “Eu conheci Kanye West, eu nunca vou falhar”. Em “Father Stretch My Hands Pt. 1”, temos um instrumental intrincado, batidas progressivas e versos adicionais do Kid Cudi. Ela começa de forma explícita com Kanye West mandando uma indireta sugestiva para Amber Rose, sua ex-namorada. O rapper reflete sobre relacionamentos do passado e atuais, uma vez que fala sobre seu casamento com Kim Kardashian nas últimas linhas. Sonoramente, a música utiliza artifícios similares ao do “808’s & Heartbreak” (2008). Sua continuação, intitulada “Pt. 2”, é ainda melhor. Ela apresenta um ritmo diferente, embora não se afaste do caminho desenvolvido pela primeira parte. Kanye West fala sobre o relacionamento com o seu pai, a morte de sua mãe e o acidente de carro que sofreu. Ele revelou que seu pai foi a maior fonte de inspiração para essa música. No dia do lançamento do álbum, West disse através do Twitter: “Eu chorei escrevendo isso. Eu amo meu pai”.

“Pt. 2” também apresenta amostras e um verso adicional de “Panda”, atual hit do rapper Desiinger. A batida de “Panda” começa por volta de 39 segundos e é incrivelmente sólida. Curiosamente, o fluxo do Desiigner é surpreendentemente parecido com o estilo do Future. O primeiro single do álbum, “Famous”, gerou bastante polêmica assim que foi divulgado. As letras são controversas e fazem referências sugestivas a Taylor Swift. Todos devem se lembrar do episódio que aconteceu no Video Music Awards de 2009, quando Kanye West interrompeu o seu discurso. A disputa entre eles se arrasta desde aquele dia, embora ambos não parecem ter qualquer problema um com o outro. Tudo parece ser apenas publicidade, uma vez que em 2015, no palco da mesma premiação, os dois compartilharam elogios e se abraçaram em público. Em sua primeira linha, ele recita: “Para os parceiros do Sul que me conhecem melhor / Acho que Taylor e eu ainda vamos transar / Por quê? Eu fiz esta vadia ficar famosa”. Não é novidade que o rapper costuma ser controverso. Mas em “Famous”, ele está no seu pico mais arrogante. O comentário dirigido à Taylor Swift é bem desnecessário e misógino, mas felizmente isto não mancha a incrível qualidade desta música. O restante do conteúdo lírico é bastante simples, pois ele apenas cospe comentários sobre ser famoso. O que realmente chama atenção em “Famous” é sua perfeita colagem sonora. Há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas de forma excepcional.

A canção contém amostras de “Do What You Gotta Do”, interpretado por Nina Simone, “Bam Bam” da DJ Sister Nancy e “Mi Sono Svegliato E… Ho Chiuso Gli Occhi” da banda Il Rovescio della Medaglia. O gancho principal é fornecido lindamente pela Rihanna, enquanto o Swizz Beatz bate em cima das amostras de “Bam Bam”. O sample do dancehall de Sister Nancy é uma das partes mais cativantes, visto que acaba servindo como acabamento ideal para a música. A produção faz o ouvinte lembrar das influências old-school do Kanye West, assim como Swizz Beatz colabora com o seu fluxo clássico. “Famous” começa com os vocais onipresentes da Rihanna, cantando: “Cara, eu entendo como deve ser / Meio difícil amar uma garota como eu / Eu só queria que você soubesse”. Ela performa sobre um órgão de igreja profano, que dá à música uma sensação gospel formidável. Em seguida, temos uma quebra instrumental, onde Kanye West entra em ação. Apesar de suas controvérsias, “Famous” é definitivamente uma música extraordinária. Em “Feedback”, ele ostenta o seu dinheiro, carreira, origens e aborda os seus inimigos. West é alguém que realmente não se importa com as opiniões a seu respeito, sejam elas positivas ou negativas. Poucos artistas falam e se expõem tão abertamente como ele. “Ei, vocês todos ouviram sobre as boas notícias? / Vocês dormiram em mim, hein? Teve uma boa soneca? / Acorde, mano, acorda / Nós lutamos para conseguir este papel”, ele recita no gancho principal.

No segundo verso, West faz comparações com Pablo Escobar – referência direta com o título do álbum. O instrumental é interessante e exibe um som construído a partir do retorno de um microfone. Isto soa como uma reminiscência narcótica do “Yeezus” (2013). A composição é baseada em cordas isoladas, sintetizadores agudos e batidas rítmicas. “Low Lights” possui pouco mais de 2 minutos e é, basicamente, uma introdução estendida para a faixa seguinte. Ela contém apenas palavras faladas, além de um piano e baixo sintetizado. “Highlighs”, por sua vez, apresenta Young Thug nos vocais e uma sonoridade que nos remete aos álbuns “Graduation” (2007) e “808’s & Heartbreak” (2008). Os sintetizadores, os graves profundos e o alto uso de auto-tune, fazem esses álbuns virem à mente. Com Young Thug comandando a parte melódica, o rapper afirma que ele só quer fazer um grande trabalho. “Diga meu amor, estou de volta na cidade”, ele canta. Belas cordas, fortes estalar de dedos, piano, tambores e um baixo distorcido adicionam algum encanto. Em um dos versos, o rapper menciona Ray J e ostenta o seu poder na cultura pop: “Eu aposto que eu e Ray J seríamos amigos / Se nós não amassemos a mesma puta / Sim, ele pode ter atingido-a primeiro / O único problema é que eu sou rico / 21 Grammys, família super estrela / Nós os novos Jacksons, eu sou tudo sobre essa ação”. Kanye West convida novamente Desiigner para participar de “Freestyle 4” – outra canção que não soaria fora do lugar se estivesse presente no “Yeezus” (2013).

Possui uma estética escura, uma batida ameaçadora e alguns rosnados. Essa faixa serve como lembrete do lado obscuro e sinistro do Kanye West. Seu ambiente é aterrorizante e mistura elementos industriais com letras explícitas. Ele fala sobre seus conflitos internos e descreve o quão está fora de controle. A canção também apresenta sample de “Human”, canção do Goldfrapp. A produção do DJ escocês Hudson Mohawke e a amostra de “Humam” acrescentam algumas boas harmonias. Quando chegamos na metade do álbum temos um interlúdio de 44 segundos, intitulado “I Love Kanye”. Uma canção acapela onde encontramos Kanye West refletindo sobre si mesmo. Ele se mostra auto-consciente ao demonstrar seu amor-próprio e descrever a opinião que o público tem sobre ele. Seu título é tão satírico que, após a última linha, o próprio West solta uma risada. Segundo o rapper, foi por causa de “Waves” que o álbum teve que ser inicialmente adiado. Ela estava fora da tracklist final, mas por insistência de Chance the Rapper, ele resolveu inclui-la de última hora. E Chance the Rapper estava certo, porque é uma canção que realmente mereceu o seu lugar no repertório. “Waves” acena para o R&B, em especial por causa dos vocais sólidos do Chris Brown. Seu instrumental é incrivelmente exuberante, glorioso e angelical – a grande atração da música. Enquanto isso, ambos artistas entregam metáforas para descrever suas carreiras: “Ondas não morrem / Me deixe ficar aqui por enquanto / Não preciso possuir isso / Sem mentiras”.

Investindo em um lado mais sombrio e perturbado, Kanye West nos apresenta “FML” – uma abreviação para “Fuck My Life”, mas também usada para “For My Lady”, como podemos ouvir no primeiro verso. Dessa vez, ele tenta refletir sobre o relacionamento com sua esposa Kim Kardashian. West fala sobre as dificuldades que enfrenta para dar o seu melhor para esposa e filhos – ele está realmente vulnerável e auto-destrutivo enquanto é acompanhado por The Weeknd nos vocais. Ele combina com a estética e atmosfera da música, e colabora eficazmente durante o devastador refrão. A canção é guiada por uma produção minimalista e um singelo piano. “Real Friends”, com Ty Dolla $ign, foi a primeira música disponível em versão de estúdio e, aparentemente, não sofreu nenhuma alteração significativa. Uma canção introspectiva e confessional construída em torno de um piano melancólico e batidas pesadas. Liricamente, é sobre a luta para manter um bom relacionamento com os amigos e familiares. “Amigos verdadeiros / Eu acho que tenho o que mereço, não tenho?”, ele se pergunta. Sonoramente, possui amostras de “Friends” do grupo Whodini, assim como retorna às raízes musicais do próprio Kanye West. “Wolves” foi lançada em 2015 com vocais da Sia, mas a versão final traz a participação de Frank Ocean. Produzida por Cashmere Cat, ela continua explorando os temas religiosos do Kanye West. Aqui, o rapper se equipara com José fazendo comparações de sua esposa e filhos com Maria e Jesus.

Entre outros temas, “Wolves” aborda o medo, amor, vício e a depressão. Ela é entregue com a ajuda de um baixo sinistro e vocais de apoio de alta-frequência. “Siiiiiiiiilver Surffffeeeeer Intermission” é um simples interlúdio onde ele apresenta uma conversa por telefone entre os rappers Max B e French Montana. “30 Hours”, uma faixa clássica e old-school, se refere à longa viagem feita de Chicago para Los Angeles de carro. No início da década de 2000, Kanye West se mudou para Los Angeles a fim de gravar o seu primeiro álbum. Além do sample de “Answers Me” de Arthur Russell, a canção possui assistência do Drake na escrita e créditos vocais do André 3000. Sua produção é espetacular, uma música ritmada com fortes tambores e fluxo excelente. Em “No More Parties In LA”, temos dois dos melhores rappers da atualidade juntos: Kanye West e Kendrick Lamar. Dois gênios rimando em linha reta, sem parar, por volta de 6 minutos. Uma faixa energética e inspiradora com um jogo de palavras notável. Os rappers, que moram em Los Angeles, trocam histórias entre si sobre a Cidade dos Anjos. O verso do Kendrick Lamar é inteligente e irônico, mas foi Kanye West que surpreendentemente roubou os holofotes. Ele entregou um dos seus melhores fluxos dois últimos anos. Originalmente lançada na véspera de ano novo, como presente para os fãs, “Facts” vê Kanye West em uma diss track para a Nike. A primeira versão da música foi produzida por Metro Boomin e Southside, enquanto a versão do álbum contém vocais e produção regravadas por Charlie Heat.

Graças a mudança na batida e instrumental, West encontrou uma plataforma para entregar um fluxo entusiasmado. “Fade” é um número muito interessante, mas não parece adequada para encerrar um álbum como “The Life of Pablo”. Em cima de batidas retrô, há vocais de Ty Dolla $ign e Post Malone. Não é uma música ruim por qualquer meio, pelo contrário, é cativante e divertida. Mas a inclusão do Ty Dolla $ign, por exemplo, foi um pouco confusa e desnecessária. Enquanto Kanye West não faz rap nesta música, Post Malone e Ty Dolla $ign tentam se encarregar de assumir esse desafio. “Fade” é construída em cima de uma linha de baixo vibrante e elementos de house. Além disso, possui amostras de duas canções: “(I Know) I’m Losing You” dos Temptations e “Deep Inside” de Hardrive. Embora ambas músicas sejam de diferentes épocas, se misturaram perfeitamente. Quando a batida entra em ação, “Fade” se transforma em algo mágico. As letras são uma tentativa de manter um amor que está desaparecendo. Enquanto o álbum passou por três mudanças no título, “The Life of Pablo” é provavelmente o nome mais adequado. De certo modo, é um resumo sobre a carreira do Kanye West. É raro um artista se reinventar tão constantemente como ele. “The Life of Pablo” contém um pouco da alma de cada um dos seus álbuns anteriores. Desde a intensidade do “Late Registration” (2005) até a experimentação do “Yeezus” (2013). Pode não ser coeso como o perfeito “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” (2010), mas em sua maior parte, é muito convincente e poderoso!

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Favorite Tracks:

“Ultralight Beam” / “Famous” / “Waves”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.