Resenha: K. Michelle – Anybody Wanna Buy a Heart?

Lançamento: 09/12/2014
Gênero: R&B, Soul
Gravadora: Atlantic Records
Produtores: Lil Ronnie, Andrew “Pop” Wansel, Warren “Oak” Felder, Shea Taylor, Eric Hudson, Andrew “Hitdrew” Clifton e Jesse “Corparal” Wilson.

Após sair da gravadora Jive Records e participar, no verão de 2012, do reality show VH1 Love & Hip Hop: Atlanta, a cantora K. Michelle conseguiu um novo contrato com a gravadora Atlantic Records. Em dezembro de 2014, ela lançou o seu segundo álbum de estúdio, “Anybody Wanna Buy a Heart?”, como sucessor do “Rebellious Soul”. Mais tarde, ela juntou-se com Keyshia Cole em uma turnê conjunta, como forma de divulgação do álbum e do seu novo reality show (K. Michelle: My Life). “Anybody Wanna Buy a Heart?” definitivamente superou o seu disco de estreia, mas, igualmente o mesmo, traz um repertório que mistura estilos contemporâneos e clássicos. K. Michelle faz um R&B e soul que lembra os trabalhos de Mary J. Blige, enquanto em suas letras demonstra ser uma mulher que não tem medo de dizer o que está em sua mente. Ela lutou durante alguns anos para ganhar forças na indústria musical, tanto que já passou por duas gravadoras.

Suas canções soam vividas e, aqui, ela tenta diferentes tons, desde o dramático retrô-soul até elementos de country. O disco soa como se a cantora tentasse descobrir e expandir sua base musical para além do já temido “adult R&B”. Ela é uma artista ousada, a começar pela capa do disco, aparentemente artística. Além disso, recentemente, chegou a postar uma foto com um buquê de rosas entre suas nádegas que certamente chamou atenção de seus fãs do sexo masculino. Mas o fato é que K. Michelle é uma cantora incrível e ficou evidente que evoluiu e cresceu artisticamente desde o seu último trabalho. O disco traz uma conexão profunda e vocais que fluem sem grandes esforços. Isto, adicionado a ótima produção, foram pontos eficazes para a entrega de um bom material. “Anybody Wanna Buy a Heart?” é caracteristicamente desafiante para ela, nascida como Kimberly Michelle Pate, pois a mesma possui créditos como compositora em todas as suas doze faixas.

A faixa de abertura é a canção “Judge Me”, uma dose perfeita de drama, sustentada por um arranjo musical impressionante e fascinantes vocais. Na letra a cantora proclama que só Deus pode julgá-la. “Julga-me, me julgar tudo que você quer / Eu sou apenas humano, e eu estou perfeitamente imperfeito”, ela canta. Aqui, o piano foi um forte componente na entrega do tom da música, enquanto sua produção é carregada por um ritmo jazzy e uma batida deslumbrante. “Judge Me” exemplifica muitos momentos do álbum, uma sonoridade do passado que, ao mesmo tempo, consegue oferecer um som fresco e moderno. “Love ‘Em All”, primeiro single, é uma das melhores do repertório, pois é extremamente bem interpretada por Michelle. Nessa faixa, ela canta sobre ser a destruidora de corações, sugerindo que está invertendo o papel estereotipado do homem. Foi entregue de forma bem cativante sob licks de guitarra elétrica e uma ótima bateria.

K. Michelle (1)

Os tambores de “Going Under” são um destaque à parte, uma música up-tempo que discute a necessidade de Michelle estar apaixonada sem soar muito extravagante. Em vez de cantar sobre relacionamentos do passado, ela concentra-se em paixões futuras. “Going Under” consegue manter o ritmo forte das faixas anteriores, com algumas letras derivadas de uma das canções mais amadas do hip hop, “The Message” de Grandmaster Flash and the Furious Five. “Cry” aborda um tema muito datado e, de nenhuma maneira, K. Michelle consegue fazê-lo soar interessante. Ela expressa que vai tratar alguém, dentro de um relacionamento, da mesma forma que a tratam. Basicamente, ela sugere que vai ser vingativa: “Você foi chorar, você foi me pagar em lágrimas / Você foi chorar, você me deve por todos esses anos”. Por outro lado, musicalmente, “Cry” consegue soar agradável, pois é uma balada melódica que mostra o bom alcance vocal de Michelle.

A balada “How Do You Know” é muito comovente, onde o simples reconhecimento do risco de entrar em um relacionamento soa torturante (“Eu prefiro ser frio do que embrulhada em amor”). Novamente, ela fornece bons vocais e notáveis nuances, que foram acentuados por um belo piano. Em “Hard to Do” temos um balanço onde a cantora negocia o arrependimento de uma separação, transmite uma imagem erótica (“Meia arrastão e sobretudo / Embaixo, é uma bomba”) e segue com um desafio: “O que você vai fazer / Quando eu colocar aquela coisa bonita em você?”. A letra aparenta ser muito superficial, entretanto, um coração partido pode fazer qualquer um ficar meio louco. Embora seja deprimente, a faixa “Maybe I Should Call” é um dos grandes destaques do repertório. Fala sobre estar presa a um ex-namorado que já tem uma outra família. É realmente uma música bem confessional e direta ao ponto.

K. Michelle

Esse cara é o ator Idris Elba, curiosamente a grande inspiração para grande parte deste álbum e primeira canção escrita por ela quando ambos se separaram. O refrão e suas contagiantes batidas são o ápice da música. O seu trabalho em “Something About the Night” também foi excelente, pois alivia o ambiente pesado da última faixa com um sensual funky soulful típico dos anos 70. É uma música que consegue ilustrar sua diversidade sonora como artista. A canção abre com cordas pesadas antes de se transformar em uma cativante pista de discoteca. “Miss You, Goodbye”, por sua vez, é puxada para os anos 80, com um piano elétrico distorcido e uma batida e refrão simples, que são desenvolvidos em conjunto com os ótimos vocais de Michelle. Na letra, a cantora discute sua relação de amor e ódio por seu ex, e mostra que algumas pessoas acabam sempre fazendo parte de sua vida.

Os seis minutos de “Build a Man” são por causa de sua grande introdução que, em seguida, se transforma em um soul na qual Michelle desvaneia sobre a criação do homem perfeito. Na balada de piano intitulada “Drake Would Love Me”, a cantora faz um movimento bem criativo ao citar canções memoráveis do rapper Drake, como “Best I Ever Had”, “Make Me Proud”, “The Motto” e “Worst Behavior”. K. Michelle afirma que Drake seria o tipo de homem que a trataria da maneira certa (“Nunca quebre suas promessas / Eu seria o melhor que ele já teve / Ele estaria em seu melhor comportamento / Ele me faria tão orgulhoso / Drake me amaria”). A maior surpresa do disco é “God I Get It”, porque é uma música com influências country. Ela escolheu a canção certa para concluir no álbum, pois é profundamente pessoal e tranquila como o início do repertório. Os banjos aparecem do nada para acompanhar seus vocais nessa oração aberta, onde a cantora admite que constantemente comete os mesmos erros.

Há uma sinceridade e auto-análise realista presente neste álbum, que eclipsa o drama inevitável que envolveu a vida pessoal e pública de K. Michelle. O talento vocal dela é inegável, enquanto sua sutileza, sensibilidade e introspectividade foram notáveis. Movimentos ousados dos quais cruzaram em harmonia com um repertório musical equilibrado. É um alívio saber que ainda existe muitos cantores, como Michelle, que estão determinados a manter o R&B tradicional vivo. Sua música no “Anybody Wanna Buy a Heart?” conseguiu, em alguns momentos, ser divertida para um álbum tematicamente sério. Ela realmente derramou o seu coração e alma em suas composições, mostrando que progrediu a partir de seu primeiro esforço. Ela cresceu e ficou ainda melhor, agora está soando como uma mulher confiante e no controle de sua carreira.

70

Favorite Tracks: “Judge Me”, “Love ‘Em All”, “Going Under”, “Maybe I Should Call” e “God I Get It”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.