Resenha: Justin Bieber – Purpose

Lançamento: 13/11/2015
Gênero: R&B, EDM, Pop
Gravadora: Def Jam Recordings / School Boy Records
Produtores: Justin Bieber, MdL, Jason “Poo Bear” Boyd, The Mogul, Diplo, Skrillex, Benny Blanco, Blood, Axident, The Audibles, Soundz, Ian Kirkpatrick, Gladius, Big Taste, Maejor, Nico Stadi, Steve James, Jeremy Snyder, Josh Abraham, Oligee, D.K. The Punisher, Gudwin e Stadi.

Já se passaram quatro anos e várias controvérsias envolvendo Justin Bieber, desde que ele liberou o seu terceiro álbum de estúdio. “Believe” foi, na época, um trabalho relativamente maduro para uma estrela recém-adolescente como Justin Bieber. No entanto, desde então, o nome dele tornou-se manchado por inúmeras histórias geradas por conta do seu comportamento imprudente. Seja por ameaçar paparazzi, cuspir em suas fãs, por dirigir com excesso de velocidade, enfim, suas ações não passaram despercebidas e levou sua reputação para baixo. Mas quando Bieber ressurgiu em 2015 com “Where Are Ü Now”, ao lado de Skrillex e Diplo, as pessoas ficaram chocadas. Foi surpreendente ele reaparecer na indústria da música com uma canção de qualidade e diferenciada. Um tempo longe dos holofotes, portanto, acabou fazendo um favor para sua imagem e, consequentemente, fez ele aperfeiçoar seu som. A partir do momento que esta canção EDM/trap foi lançada, o público voltou a ter interesse por seu trabalho e acabou ficando ansioso para o lançamento do seu quarto álbum de estúdio, chamado de “Purpose”. O disco veio a ser lançado em 13 de novembro de 2015 e estreou em #1 lugar nos Estados Unidos, ao vender incríveis 522 mil cópias na primeira semana.

O álbum foi precedido pelo lançamento de “What Do You Mean?”, canção que deu a Justin Bieber o seu primeiro single número #1 na Billboard Hot 100, e “Sorry”, outro incontestável hit. Com “Purpose”, Bieber é reflexivo e cheio de remorsos, enquanto ainda possui um grande controle na produção criativa dele. Esse é um dos motivos pelo qual as pessoas têm, recentemente, o aceito de forma mais aberta do que nunca. Sonoramente, é um álbum de R&B e EDM que dá um passo a frente na direção artística certa. “Purpose” abre com uma faixa que possui pouco mais de dois minutos, intitulada “Mark My Words”. Essa é uma das três canções do álbum, do qual Justin confirmou ser sobre sua ex-namorada Selena Gomez. Apesar de ser curta, é uma balada suave, doce e incrivelmente honesta, que define o tom temático de todo o álbum. “Guarde minhas palavras, isso é tudo que tenho”, canta Bieber na maior parte da música. Embora os “no, no, no’s” no fundo sejam um pouco irritantes, os produtores conseguiram deixar seus vocais bem poderosos. É uma canção que, definitivamente, não vale a pena ser single, mas serve como uma boa introdução para o restante do repertório.

“Minha vida é um filme e todos estão assistindo”, sussurra Justin na faixa “I’ll Show You”. Enquanto a maioria das canções do registro são sobre amor, esssa faixa é um lamento sobre viver a vida no centro das atenções. Embora seja esquisito ouvir Bieber, um milionário, falar sobre como a vida não é fácil, há algo de comovente em suas palavras que restauram um senso de humanidade em torno dele. A letra pode não soar tão honesta, mas, essa falha é compensada pela ótima produção. Graças as poderosas batidas e sintetizadores atmosféricos encomendados por Skrillex, essa canção não passa despercebida. Escrita por Bieber, Jason Boyd e Mason Levy, o primeiro single “What Do You Mean?” é uma música pop e EDM, com fortes influências de tropical house. A sua produção contém em sua instrumentação o uso de flauta, cordas de piano, sintetizadores e baixo. É uma música que segue os passos de “Where Are Ü Now”, por conta da entrega vocal louvável de Bieber e da produção de inspiração tropical. Impulsionada pela batida de um relógio tiquetaqueando no fundo, a letra da música mostra o cantor se esforçando para descobrir exatamente o motivo que fez sua garota querer terminar um relacionamento.

Abrindo com um riff adorável, o tique-taque ao fundo e uma melodia otimista, Justin se pergunta: “O que você quer dizer? / Quando acena com a cabeça sim, mas quer dizer não / O que você quer dizer? / Quando fala para eu não me mexer / Mas diz para eu ir embora”. O cativante e sincero refrão da música é o ponto alto da mesma. “What Do You Mean?” também é vagamente reminiscente da onipresente “Cheerleader” do cantor OMI, inesperado hit do verão de 2015 no hemisfério norte. Outro ponto muito interessante é a flauta e o sintetizador que evocam instantaneamente um som tropical e dá uma vibração otimista para a canção. Vocalmente, Justin soa relaxado, confiante, polido e entrega um desempenho bem equilibrado. “Sorry”, segundo single, é uma música de dancehall e tropical house, com contagiantes batidas EDM e eletrizantes riffs, que compartilha da mesma vibe do single anterior. Liricamente, é um apelo para uma chance de pedir desculpas a uma ex-namorada não identificada. É uma canção cativante, que tem tudo que você poderia querer de uma música pop atual, mas sem possuir uma melodia estereotipada. É quase embaraçoso dizer isso, mas esse ano Justin Bieber, realmente, está provando ser capaz de esculpir um som interessante.

Justin Bieber

“Sorry” segue os mesmos passos de “Where Are Ü Now” e “What Do You Mean?”, com uma estrutura e batida semelhante, mas oferecendo algo fresco e original por conta própria. Tanto Skrillex quanto Diplo devem ter inspirado Justin Bieber a seguir por essa sonoridade tropical, na mesma medida que ele reinventou seu estilo. A música é introduzida apenas pela voz sussurrante de Bieber e uma batida de tambor sem cortes. Mais tarde, ele canta em um dos versos: “É muito tarde para pedir desculpas agora? / Pois estou com saudades de você e não só do seu corpo”. No geral, liricamente, a música é muito forte. Embora não seja uma obra-prima poética, é honesta e de alguma forma transmite uma sensação de realidade. O ritmo durante os versos tem uma ligeira e adequada atmosfera tropical em torno dele, enquanto os vocais soam maduros e convincentes. Nas partes onde ele confessa que está arrependido, sua entrega chega a ser até emotiva. O refrão, por outro lado, é muito curto e simples, mas não deixa de ser bastante viciante. Por ser simples, ele é fácil de cantar junto, porém, pelo mesmo motivo, carece de profundidade. É formado por repetidos “sorry”, enquanto alguns “yeahs” são jogados na mesma medida.

Sem dúvida, uma das maiores surpresas do álbum é a quinta faixa “Love Yourself”, canção co-escrita por Ed Sheeran e produzida por Benny Blanco. É tão interessante que ganhou uma enorme popularidade ao ser lançada, inicialmente, como single promocional. Ao falar com Ryan Seacrest, Bieber disse que “Love Yourself” é “definitivamente sobre alguém do meu passado”. Essa música é realmente grandiosa, tanto que serve como uma prova de que Justin Bieber se esforçou no trabalho desse novo álbum. É uma canção pop-acústica conduzida por um belo riff de guitarra, que passa longe de qualquer produção genérica. A guitarra, que cria a melodia principal, dá a música um sentimento acústico adorável, mesmo sendo escassa em sua espinha dorsal. As letras, por sua vez, são cheias de brincadeiras e onde Bieber está em seu pico mais lírico. Ele fala sobre um relacionamento fracassado e tenta dizer a si mesmo que determinada garota não é boa para ele. “Minha mãe não gosta de você, e ela gosta de todo mundo”, ele canta durante o pré-refrão. Essa linha, em especial, é a melhor de toda a música. Isso porque é tanto hilária quanto sarcástica, ao passo que seu tom também está muito agradável aqui.

Mais tarde, ele canta durante o refrão: “E se você acha que eu ainda estou apegado a algo / Você deveria começar a amar a si mesma”. Um testemunho de como ele nunca mais vai querer voltar a ficar com essa garota. Como a maioria das canções que Ed Sheeran põe o dedo, “Love Yourself” realmente possui letras inteligentes. Além disso, Sheeran também contribui com os vocais, fazendo a segunda voz durante o pré-refrão e refrão. Suave, calma e edificante, a música também chama atenção pelos bons vocais de Justin Bieber. Essa balada acústica realmente é um diferencial que podemos encontrar no “Purpose”. Qualquer disco precisa de um contraste de emoções e “Love Yourself” parece ser um vislumbre adequado disso. Ela é uma parte do material confessional que você pode encontrar por aqui. Esse pista também mostra o quão versátil Justin Bieber pode ser, após lançá-la como single em sequência de duas canções dançantes como “What Do You Mean?” e “Sorry”. A faixa seguinte chama-se “Company”, uma das que exemplifica a maturidade recém-descoberta de Justin Bieber como artista. Neste ponto, o cantor muda as engrenagens EDM do álbum para oferecer o som R&B explorado em trabalhos anteriores.

Batidas percussivas inspiradas nos anos 80, sintetizadores lisos, tambores e graves profundos, ditam o ritmo da canção. Enquanto isso, na letra ele tenta convencer uma garota a ter uma conexão não comprometedora, cantando: “Você não precisa ser meu amor para me chamar de baby / Nunca estive por aí sem pressão, não é tão sério assim / Nós podemos continuar sendo a companhia um do outro”. Enquanto isso, “No Pressure” é uma joia R&B muito mais lenta que a faixa anterior, que realmente nos leva para uma montanha russa emocional. Sua grudenta melodia se sobressai na maior parte, enquanto a instrumentação consiste em rígidas batidas, uma guitarra acústica e abanadores percussivos. Liricamente, Justin Bieber está tentando reconquistar uma pessoa da qual ele está esperando pacientemente para tê-la de volta, sem qualquer pressão. “Você não precisa se decidir / Você não precisa se decidir agora / Agora, sem pressa, sem pressão”, ele canta no refrão. É uma canção de amor casual, da qual poderíamos esperar nessa nova fase madura de Bieber. É uma slow jam descontraída e vocalmente forte, onde Justin elegantemente atinge notas mais altas. Embora apareça no momento certo, Big Sean soa preguiçoso aqui e ainda inclui uma menção sem sentido a Yoko Ono.

“No Sense”, faixa oito, tem uma vibe muito atraente e diferente do restante do álbum, mas não chega a ser uma das minhas favoritas. Semelhante a “No Pressure” em alguns aspectos, ela é uma canção lenta e ritmicamente sexy. Além de contar com um verso adicional do rapper Travis $cott, é o mais próximo do hip-hop que podemos encontrar no “Purpose”. Sua batida pesada e urbana é um dos seus maiores atrativos, enquanto ainda faz uso de alguns recursos distorcidos. Nesta canção, Bieber vai para falsetes e descreve tudo que não faz sentido para ele dentro de uma relação (“Quando você vai embora, oh fica tão vazio / E o amor não faz sentido quando está vazio”). Travis $cott entra em sintonia, mas oferece um rap bem automático e passa, ligeiramente, despercebido. Produzida por Skrillex e Ian Kirkpatrick, “The Feeling” é um dos destaques do álbum para mim. A iniciante e queridinha Halsey, chegou para dar um novo ar para o registro. Ela é a primeira voz feminina do álbum e é, realmente, uma colaboração muito interessante. Depois de colaborar com Nicki Minaj há um tempo, dessa vez Justin Bieber é auxiliado por Halsey em algo mais discreto, porém, instantaneamente cativante. “The Feeling” é uma música poderosa, com um bom conteúdo lírico e um refrão esmagador.

Justin Bieber

É uma canção que representa o melhor do que este álbum pode oferecer. A cantora emprestou sua doce voz para o refrão que, igualmente fiel ao título da música, evoca grandes cargas de sentimentos. O refrão é, facilmente, a melhor parte. Toda a expectativa sobre a música é suprida durante as batidas do refrão, pois são cheias de percussão acústica, bateria eletrônica, sintetizadores e floreios eletrônicos. “Estou apaixonado por você? Estou apaixonado por você? / Ou estou apaixonado pelo sentimento? / Tentando achar a verdade, tentando achar a verdade / Às vezes o coração é enganador”, ela canta. “Life Is Worth Living”, por sua vez, é uma bela balada com uma letra muito bonita. Nessa faixa é apenas a voz de Justin Bieber e um piano, algo que ajuda na conexão de sua mensagem. Aqui, Bieber fala profundamente sobre sua jornada pessoal: “Quando eu pensei que tinha acabado / Deus enviou um anjo para nos ajudar / Ele nos deu direção, nos mostrou como fazer isso durar / Por essa longa jornada pela frente”. O refrão também deixa seu lirismo ainda mais genuíno: “A vida vale a pena ser vivida, por isso, viva mais um dia / O significado do perdão é que / As pessoas cometem erros / Não significa que você tem que desistir”.

Embora deslocada na tracklist, esta música, sem quaisquer batidas EDM, é um belo momento e permite Justin mostrar mais do seu alcance vocal. “Where Are Ü Now”, canção que fez Justin Bieber voltar aos holofotes no ano passado, ainda soa bastante fresca. É uma canção sonoramente brilhante que oferece um instrumental, por Skrillex e Diplo, absolutamente magistral. “Where Are Ü Now” é um banger EDM inesperadamente ótimo em quase tudo. Ela é tonificada sobre tudo que já sabemos de Skrillex, que manteve seu dom para a dinâmica musical, mais as tendências incríveis de Diplo, que combinou seu dancehall afiado com uma melodia gloriosa. O duo se reuniu e entregou uma produção assombrosa, que é tanto refrescante quanto extremamente cativante. Não apenas as Beliebers, mas qualquer fã dos gigantes DJs e da cena eletrônica mundial deve ter amado essa música. Durante toda a sua execução você fica totalmente sintonizado, especialmente, graças a maravilhosa batida que possui um sabor único e exótico. Justin Bieber também não decepcionou, pois seus vocais estão bons e acabou fazendo um grande trabalho em conjunto com o Jack Ü.

“Onde está você agora que eu preciso de você?”, ele se pergunta em um tom emocional durante o principal gancho, antes da batida cair. Eu não estava esperando outra canção EDM como “Children”, mas fiquei agradavelmente surpreendido ao escutá-la. Não é uma música bem produzida ou detalhada como “Where Are Ü Now”, mas é, definitivamente, incrível. Esta é a música mais techno dentro do álbum e um dos melhores momentos do mesmo. Sua letra traz um bom significado por trás ao falar sobre a luta por nossa geração. E, ainda assim, é uma canção que pode simplesmente fazer as pessoas dançarem. Justin Bieber ama seus fãs, muitos dos quais são crianças. Esta canção é uma ode à geração do milênio que podem fazer a diferença: “E quanto as crianças? / Olhe para todas as crianças que podemos mudar / E quanto a visão? / Seja um visionário para uma mudança / Nós somos a geração / Quem vai ser o único a lutar por ela? / Somos a inspiração / Você acredita o suficiente para morrer por isso?”. A grande mensagem é definida, sonoramente, por uma melodia melancólica e batidas eurodisco/EDM surpreendentes. A enorme e borbulhante batida em sua borda é aquela que rouba a cena e é, sem dúvida, um dos momentos mais estridentes do álbum.

A faixa-título, “Purpose”, faz jus ao ser nomeada como título do álbum e encerra a versão padrão de forma adequada. Vocais simples e um solitário piano conduzem essa linda balada. É downtempo, dramática em alguns momentos e muito suave. O seu significado também é convincente, Bieber se perdeu, mas, através de Deus, encontrou o seu propósito. No final da música ele faz um discurso e resume toda a sua narrativa. Em 2015 Justin Bieber provou que sua reinvenção musical poderia se tornar um sucesso. Desde que deixou de ter uma personalidade mimada e passar por uma campanha publicitária eficaz, ele conseguiu fazer as pessoas se interessarem novamente por sua música. Com “Purpose” ele começa com faixas como “Mark My Words” e “I’ll Show You” e, em seguida, mostra como cresceu e mudou. Ele também dá aos seus fãs um pouco da introspecção de sua fé. Este é, sem dúvida, o seu melhor álbum até à data. Foi muito inteligente da parte dele em se aventurar por completo na música EDM. Ele realmente provou que pode ser um verdadeiro artista, por ser alguém que sai de sua zona de conforto e experimenta novos sons. Um maior controle e criatividade sobre seu trabalho permitiu-lhe crescer como artista. “Purpose” oferece algo para cada tipo de ouvinte. É, em última análise, um grande álbum e um grande retorno.

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Favorite Tracks: “What Do You Mean?”, “Sorry”, “Love Yourself”, “The Feeling (feat. Halsey)” e “Where Are Ü Now (with Jack Ü)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.