Resenha: Joni Mitchell – Blue

Lançamento: 22/06/1971
Gênero: Folk Rock
Gravadora: Reprise Records
Produtor: Joni Mitchell.

“Blue”, o quarto álbum de Joni Mitchell, foi lançado em 1971 para alto elogio da crítica. Este disco possui arranjos escassos que inclinam-se fortemente para o gênero folk, com Mitchell tocando guitarra acústica e piano. Inicialmente, a canadense pretendia prosseguir uma carreira na arte em vez da música, mas ficou desiludida e então tentou várias vezes uma carreira como cantora folk. Mitchell decidiu viajar por um ano e concentrar-se apenas na escrita e pintura. Durante este tempo, ela fez um longo passeio pela Europa que acabou tornando-se a grande inspiração para o “Blue”. Após a gravação no início de 1971, uma versão original do álbum foi programada para março, porém, Mitchell decidiu substituir duas músicas de última hora, atrasando o lançamento do álbum para junho do mesmo ano. Escrever este álbum durante sua viagem pela Europa em 1970, acabou tornando-se a grande inspiração dos temas. É um disco incrivelmente honesto, com a felicidade, tristeza e outras emoções genuínas sendo revestidas em poesia.

Sua voz retrata tudo e, as canções lideradas pelo piano, mostram Joni Mitchell sendo uma futura inspiração para cantoras com Kate Bush e Tori Amos. “Blue” é um verdadeiro confessionário para a cantora, por isso merece cada elogio dado a ele. Mesmo se esse fosse o único álbum de Joni Mitchell, certamente, a sua indução ao Rock and Roll Hall of Fame já estaria assegurada. Foi através do “Blue” que a honestidade de Mitchell ficou completamente exposta. No decorrer de dez faixas e quase 36 minutos de duração, ela derrama sua alma sobre perfeitas composições. Tão genuinamente, Mitchell compartilha de forma mágica todos os acontecimentos de sua viagem. Assim como muitos artistas populares, ela retrata sua vivência, relacionamentos e os altos e baixos da vida. “Blue” é um álbum enganosamente complexo, acompanhado pela guitarra, piano e, ocasionalmente, baixo e percussão. Possui um contraste musical espetacular que encaixa-se perfeitamente ao canto e lirismo de Mitchell.

É um disco natural e atraente que mantém uma estética experimental e acústica. A maneira como cada emoção é apresentada soa simplesmente deslumbrante. E, apesar da natureza sombria de grande parte do repertório, tudo é muito envolvente. Joni Mitchell nunca teve medo de expor suas falhas e ser uma artista vulnerável. Sua música sempre assumiu uma natureza confessional e genuína. Falando sobre amor, arrependimento, tristeza e perda, as dez faixas do “Blue” expõem emoções que só poderiam ter vindo de alguma experiência verdadeiramente pessoal. Em outras palavras, a narrativa e vocal de Mitchell possuem uma qualidade discreta, porém, excepcionalmente bonita e atraente. A primeira faixa, “All I Want”, passa por alguns acordes de guitarra acústica antes de entrar no primeiro verso. Possui uma grande melodia e define o tom para o resto do álbum, graças a entrega vocal de Mitchell. A balada de piano “My Old Man” mantém o seu humor completamente intacto.

Provavelmente, foi escrita sobre o antigo interesse amoroso da cantora, Graham Nash. Sua voz está absurdamente forte e variada nesta canção. O atmosférico piano, às vezes, parece arrancar lágrimas dos seus olhos. Músicas como “Little Green” e “River” têm melodias incrivelmente reconfortantes e edificantes. “Little Green” foi originalmente escrita em 1967, possui instrumentos muito discretos e uma qualidade fabulosamente etérea, enquanto as letras parecem um poema. “River”, por sua vez, é uma balada de piano solo apresentada sob a perspectiva de uma pessoa com saudades do frio. Letras poéticas e inventivas reforçam a metáfora que a cantora tenta retratar. O folk-rock “Carey” é bastante alegre e exala originalidade em sua instrumentação. Possui uma melodia otimista e arranjos mais ricos do que a maioria do repertório. Naturalmente sintonizada, esta canção possui um refrão cativante e vocais muito distintos. Desta vez, a voz de Mitchell foi acompanhada pelo baixo de Stephen Stills e uma ligeira percussão de Russ Kunkel.

Assim como “My Old Man”, a faixa-título, “Blue”, possui instrumentos atmosféricos que quase trazem lágrimas aos olhos. Uma balada incrivelmente bonita com vocais apaixonados por toda parte. Em seguida, “California” apresenta um lindo violão de aço juntamente com o som folk, a fim de criar uma sensação mais alegre. Esta faixa apresenta-se de forma acústica sobre dinâmicas improvisações líricas. Muito narrativa, elegante e crua, a letra baseia-se na saudade de sua casa enquanto viajava pela França. Em “The Flight Tonight”, o violão acrescenta uma tensão e melancolismo. Também possui uma sensação acústica, porém, mais escura e nebulosa. A instrumentação mais variada funcionou brilhantemente bem. As linhas enganosamente simples do violão acompanham o variado vocal de Joni Mitchell e as letras sobre arrependimentos. “A Case of You” é outra bela faixa acústica, com letras espetacularmente sinceras e uma qualidade quase hipnótica. Há melodias bem reformuladas por toda parte, além de um vocal expressivo e inspirador.

O álbum é concluído com “The Last Time I Saw Richard”, uma canção que detalha o seu primeiro casamento. Uma deprimente balada de piano, com lindos vocais e letras que documentam o breve casamento de Joni Mitchell com Chuck Mitchell em meados da década de 60. Aqui, dolorosos gemidos são colocados sobre linhas sombrias de piano e exalam uma sensação escura e reveladora. Os instrumentais são perfeitamente equilibrados e envolventes, enquanto os vocais ricos e eloquentes. Esta música foi a conclusão perfeita para o álbum. A partir do “Blue”, Joni Mitchell iniciou um pico criativo em sua carreira. É considerado o seu disco mais influente e inspirador. Tanto que ele parece tão marcante hoje como o dia em que foi lançado, a quatro décadas atrás. Mas há um motivo pelo qual o álbum envelheceu tão bem: ele simplesmente não possui falhas. É difícil descrever sua magia quando a instrumentação é tão simples. Em outras palavras, “Blue” é a forma mais pura do talento de Joni Mitchell, por isso é tão perfeito!

Favorite Tracks: “Little Green”, “Carey” e “California”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.