Resenha: Joey Bada$$ – B4.DA.$$

Lançamento: 20/01/2015
Gênero: Hip Hop, Rap
Gravadora: Cinematic Music Group / Relentless Records / Pro Era
Produtores: ASTR, Basquiat, Chuck Strangers, DJ Premier, Freddie Joachim, Hit-Boy, J Dilla, Joey Badass, Kirk Knight, Lee Bannon, The Roots, Samiyam e Statik Selektah.

Jo-Vaughn Virginie Scott, mais conhecido pelo seu nome artístico Joey Badass (estilizado como Joey Bada$$), é um rapper americano de 20 anos. Segundo Joey, ele começou a escrever suas próprias poesias e canções aos 11 anos de idade. Cresceu em Bed-Stuy, um bairro de Brooklyn, New York, é co-fundador do coletivo de hip hop Pro Era e já lançou um total de cinco mixtapes. Foi o primeiro membro de sua família caribenha a nascer nos Estados Unidos. Sua mãe é da ilha de St. Lucia (Caribe), enquanto seu pai é jamaicano. O seu primeiro álbum de estúdio chama-se “B4.DA.$$” (pronuncia Before Da Money) e foi lançado em 20 de janeiro desse ano. O mesmo estreou na 5ª posição da parada de álbuns da Billboard, ao vender 53,9 mil unidades em sua primeira semana. Joey Bada$$ chamou muito atenção do mundo do hip hop em meados de 2012, quando lançou sua ótima mixtape “1999”. Na sequência de mais algumas mixtapes, finalmente o jovem rapper do Brooklyn lançou o seu disco de estreia. É um álbum muito mais maduro do que qualquer coisa que ele tenha feito antes, com um grandeza iminente percebida logo na primeira escuta. Seu jogo de palavras continua a ser uma peça fundamental de sua abordagem, mas aqui ele é ainda mais pessoal do que nas mixtapes, pois aborda com clareza as realidades de um jovem negro na América.

Joey tem um ótimo fluxo, boas rimas e é introspectivo em grande parte do repertório. Suas letras podem não ser progressistas, mas são afiadas e as batidas do álbum são claramente influenciadas pelo hip hop dos anos 1990. Esse álbum soa exatamente como alguns clássicos dessa década, além de ser incrivelmente rica em seu som. Apresentando batidas de uma boa lista de produtores, incluindo DJ Premier, Hit-Boy e The Roots, “B4.DA.$$” é um material incrivelmente forte, uma coleção densa de 15 faixas em quase 1 horas de duração. Joey Bada$$ pode não ter o dom de Kendrick Lamar para lirismo ou narrativa, mas o seu trabalho nesse disco é admirável para uma voz tão jovem, amarrada juntamente com uma série de metáforas complexas, forte amostras de jazz e intrusivas batidas old-school. A faixa de abertura, “Save the Children”, rapidamente define o tom lírico do álbum. Statik Selektah foi o responsável pela refrescante batida, que começa com uma multidão cantando o nome de Joey Bada$$. Ele a propósito produziu quatro faixas no total, que vão desde lúdicas até melancólicas.

Em seguida, temos um interlúdio chamado “Greenbax”, de 48 segundos que antecede a terceira faixa “Paper Trail$”. Produzida por DJ Premier, essa canção apresentada uma reflexão sobre a importância do dinheiro e os problemas que ele traz. Este não é um tema ou ideia nova, mas a energia juvenil apresentada por Joey eleva a música a letra igualmente. Seu tom clássico e atmosfera urbana, assim como a batida, são muito agradáveis. Uma das faixas mais criativas liricamente chama-se “Piece of Mind”, uma canção sonhadora com um triste conteúdo. Aqui, Joey rima sobre a prisão de um amigo, ao passo que reflete sobre como a vida pode ser incerta. O que vende a música é a genuínca incerteza de Joey a respeito sobre onde ele está. Apesar de ter uma carreira promissora no rap, ele realmente acredita que sua vida é imprevisível. O primeiro single do álbum, “Big Dusty”, é emblemático e totalmente influenciado pelo rap dos anos 90. “Conheça os manos nas ruas que aquecem buscar para mim, liberação e aperto (…) / Merda, é como tirar doce de bebês / Todos esses rappers são apenas um bando de Now and Laters” ele observa. No geral, o conteúdo lírico desta faixa discute a importância de sua infância no Brooklyn e das raízes caribenhas de sua família.

Joey Bada$$

As rimas vertiginosas de Bada$$ são executadas sobre um instrumental sombrio e um piano jazzy, que recordam o auge do hip hop de New York na década de 1990. Enquanto isso, seu fluxo em “Hazeus View” se move com uma entonação mais relaxada e canalizado por elementos de reggae. É outra canção que serve como lembrete de que Joey pode transformar qualquer linha em um gancho viável e memorável. “Tudo fresco como no estado de espírito (…) / Desviar os corruptos com o intelecto / Eu falo demais, o gabarito é até que ele se levantou (…) / Sua mente dividida e alma elevada / Mas ainda me sinto tão preso no sistema solar”, ele cospe no último verso. “Like Me”, sétima faixa, é autobiográfica, introspectiva e apresenta tanto BJ the Chicago Kid, como também a produção póstuma de J. Dilla (com co-produção de The Roots). Essa música é realmente uma das mais fortes do registro, proporcionando mais uma prova de que a qualidade de Joey pertence ao seu barítono rouco e a capacidade de capturar uma essência. O jazz inspirado da canção encontra Bada$$ falando sobre o estresse de ser ambicioso e de onde ele é.

As letras definitivamente não mergulham tão profundo quando pretendem, porém são legais: “Minha mente se encanta quando o tempo alterna / No oceano de estrelas é difícil encontrar óculos de proteção”. Por sua vez, expandindo seus anos de consistência, BJ the Chicago Kid oferece ainda outra característica vocal apropriada para a música, desta vez redirecionando linhas bem melódicas. Estruturalmente, o álbum ainda tem um grande alcance, prenunciando amostragens de vários tipos. Ele mostra que Joey Bada$$ tem capacidade de misturar o contemporâneo com o clássico e ainda soar bom. Na faixa seguinte, “Belly of the Beast”, por exemplo, temos como principal foco um reggae obscuro produzido por Hit-Boy. Além disso, ela ainda apresenta o cantor jamaicano Chronixx e funciona como um passeio pelas raízes caribenhas de Joey. A faixa seguinte, “No. 99”, soa como uma tentativa de ser uma versão mais ameaçadora de “Scenario” do grupo A Tribe Called Quest, por causa da programação de sua bateria. Seu baixo, que surge logo na abertura, é incrível e infeccioso, enquanto a voz estabelecida por Bada$$ equilibra-se notavelmente entre o político e o lúdico.

Aqui, o rapper direciona sua energia para criticar a violência policial e sua ameaça à vida dos negros. Você percebe que Joey ganha confiança conforme o registro se desenvolve, tornando-se mais focado e com um fluxo mais ágil. “Christ Conscious” foi o segundo single oficial, uma canção com rimas agressivas e um estilo excêntrico que tece uma narrativa sobre religião. O tom do álbum é semelhante ao de suas mixtapes, Joey não tentou algo diferente, mas continuou a fazer algo bom para ele. E isto é notado no tom jazzístico e instrumental obscuro de “Christ Conscious”. Entre as diversas referências a Nas e 2Pac escondidas dentro do jogo de palavras desse disco, a mais flagrante é assistida na música “On & On”. Aqui, ouvimos Joey professando, ao lado de Maverick Sabre e Dymeond Lewis, o quando está sentindo falta do seu querido amigo e membro da Pro Era, Capital STEEZ, que faleceu no final de 2012. “Eu acho que há realmente um paraíso para nós hip hoppers / Eu realmente sinto falta do meu parceiro / Mas eu sei que ele está com Big Poppa, 2Pacs (…) / E isso é um grande trocadilho / Saiba que eu vou acompanhá-lo / Quando minha hora chegar, mas a história apenas começou, então”, ele recita.

Joey Badass

É uma canção comovente, liricamente gelada, que flui com bons versos e oferecendo um refrão elegantemente concebido. A maneira como Joey opera é bem ambiciosa, ligando seus temas ao forte hip hop de raíz. Os fantasmas de 2Pac e B.I.G., o legado de Jay-Z e Nas, enfim, todos permanecem em sua mente. Joey Bada$$ também está no seu melhor quando se volta para dentro, explorando os seus mais diversos sentimentos. A excelente “Escape 120”, com o rapper Raury, por exemplo, é uma ambiciosa canção que fornece um clima de hip hop clássico, uma incrível paisagem sonora e um fascinante controle vocal do rapper. Fora de sua zona de conforto, Joey abraça uma impressionante linha de baixo, uma colagem de sons mais graves e encontra maneiras mais frescas para se expressar. No refrão, ele descreve a música como “uma ode ao pior dos meus dias”, ligando isto a poderosa melancolia que a mesma transmite. A química entre Joey e o produtor Chuck Strangers, seu companheiro e membro da Pro Era, é sempre notável. Além de “Escape 120”, eles colaboraram na maravilhosa, triste e reflexiva “Black Beetles”. A música mergulha no pensamento interior de Joey, abordando sua educação, a morte do seu amigo Capital STEEZ e a realidade do rap para um artista jovem como ele.

Aqui, ele rima: “Não é construído elos fraco, impulsionado pelo ego / A visão de uma águia, ver a visão no meu povo / Quantas vidas eles vão tomar hoje? Nós não somos iguais / Outro mundo onde é sequela de um prequel do fim do mundo / Este não é o mundo que pensei que era quando estava na pré-escola”. “Black Beetles” é certamente uma das peças mais comoventes do registro, mostrando mais uma vez a capacidade de Joey Bada$$ para a melancolia. Nesta faixa encontramos o elemento humano, que transmite personalidade e emoção em cima de rimas e batidas narcóticas. A triunfante “O.C.B.”, por sua vez, traz uma nota alta e arrogante, enquanto o disco aproxima do seu fim. Suas rimas são frenéticas, assim como o jogo de palavras, na mesma qualidade que o piano jazzístico e o sax adicionam uma elegância à ela. A última faixa do álbum, “Curry Chicken”, produzida por Statik Selektah, é uma ode à sua mãe e a canção mais soulful encontrada aqui. Novamente no seu lado mais pessoal, o rapper fala sobre a falta da comida caseira de sua mãe e, claro, referências às suas raízes caribenhas. A intimidade desta faixa, a batida e sua colocação no final do álbum é francamente um pano de fundo acolhedor. “B4.DA.$$”, resumidamente, é uma extensão ainda melhor do que suas aclamadas mixtapes “1999” e “Summer Knights”.

No geral, é o projeto mais sólido e polido que o jovem MC colocou para fora até à data. O fluxo dos seus raps podem não variar muito de uma música para outra, mas o trabalho global dele continua a ser notável a todo instante. Além disso, “B4.DA.$$” estabelece-o como um artista que olha para o passado em busca de inspiração, para assim desenvolver sua própria abordagem individual em meio a todos os sons antigos. No seu melhor, o registro parece ser conscientemente elaborado para ser uma introdução da carreira de Joey, um intérprete capaz de redirecionar sons clássicos em direção a uma sonoridade moderna. “B4.DA.$$” têm suas falhas, como algumas letras e batidas confusas, mas ainda assim mostra um Joey mais aberto e introspectivo, onde fãs poderão ver um lado diferente de um dos mais promissores rappers recém-chegados de New York. Com B4.DA.$$, Joey finalmente fez jus às expectativas que foram lançados sobre ele, entregando uma estréia confiante, mergulhada na história do hip-hop e, simultaneamente, envolvida com o clima cultural atual. É um álbum que deve ser visto como uma enorme plataforma para que ele progrida ainda mais como artista.

71

Favorite Tracks: “Big Dusty”, “Like Me (feat. BJ the Chicago Kid)”, “No. 99”, “On & On (feat. Maverick Sabre & Dymeond Lewis)”, “Escape 120 (feat. Raury)” e “Black Beetles”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.