Resenha: Jessie Ware – Tough Love

Lançamento: 13/10/2014
Gênero: Soul, R&B, Pop
Gravadora: Island Records / Interscope Records
Produtores: BenZel, James Ford, Dave Okumu, Emile Haynie, Julio Bashmore e Ninteeen85.

A cantora britânica Jessie Ware lançou o seu segundo disco, “Tough Love”, em outubro de 2014 através da Island Records e Interscope Records. O seu primeiro álbum, “Devotion” de 2012, foi praticamente uma crônica sobre assuntos dolorosos de seu coração e o “Tough Love” mantém uma abordagem parecida no decorrer de suas 11 faixas. Há uma sutiliza na expressão da dor e confusão que ela experimentou no amor, uma continuação dos temas que definiram sua impressionante estreia. A ascensão de Jessie Ware, ao longo dos últimos anos, tem sido impressionante para dizer o mínimo. Poucas cantoras dinamizam tão bem essa nova onda do R&B, e Jessie Ware é uma delas. Isso é ancorado pela presença de sua voz ressonante, que consegue preencher espaços entre linhas delicadas de piano e mínimos elementos eletrônicos. Ela possui um vocal arrebatador e soulful, que a permitiu fornecer uma coleção impressionante de baladas modernas de R&B.

Já em segundo álbum, Ware demonstra que em apenas dois anos, foi possível ganhar uma confiança extraordinária. “Tough Love” não é exatamente uma tentativa de reinventar o seu som, mas sim, uma continuação do que Ware já havia começado com o “Devotion”. Juntando-se com produtores como Benny Blanco e Ben Ash (BenZel), esse segundo lançamento inclui colaborações de alto perfil, com faixas escritas juntamente com Miguel, Ed Sheeran e Dev Hynes. “Tough Love” mostra uma artista que ainda está explorarando e desenvolvendo o seu som, a partir do ponto onde parou. As faixas são de curta duração, com a maioria possuindo dois versos e pontes rápidas, além de uma influência oitentista, simplicidade nos sintetizadores e um conteúdo lírico pesado. Como o antecessor, é cheio de boas músicas pop, entregues de forma consistente e sútil. Visão musical de Ware gira em torno da genuína experimentação, quando se trata de sons que não aparecem tão frequentemente no atual cenário pop.

Jessie Ware

E raramente um artista pop, de grandes gravadoras, soam tão bem como Ware, especialmente, ao evitar as armadilhas de algumas sonoridades sonolentas e cansativas. A música de Ware soa verdadeiramente emocionante, ela é uma vocalista talentosa e texturizada na medida certa para o pop e o soul. E além disso, ela consegue ser instantaneamente agradável por causa de seu senso de equilíbrio. Mas apesar de toda a sua vulnerabilidade, “Tough Love” é tenaz, cheio de R&B/soul e com uma abundância de vitrines para a sutileza vocal de Ware. Ao longo das 11 faixas, na verdade, sua voz não faz muito, entretanto, o que consegue transmitir dentro dos seus limites auto-impostos é totalmente emocionalmente e convincente. Sonoramente, também, está cheio de sussurros e canções discretas sobre anseios românticos. É suave, requintado e sofisticado, a começar pela faixa-título, que fornece em seu tom distante uma entrega vocal ofegante. “When your heart becomes a million different pieces”, lamenta Ware. “That’s when you won’t be able to recognize this feeling”, uma ótima introdução para um álbum tão preocupado com o amor fora de alcance.

Ela canta com sua delicada e sedutora voz, ao long de um riff cintilante e batidas esparsas. Cantada sobre tambores contundentes e licks de guitarra, temos a faixa “You & I (Forever)”, onde Ware pede calma para a intimidade. Essa foi co-escrita por Miguel, uma canção elegante, luxuosamente suave e com alguns momentos de melancolia impulsionados por sintetizadores. A entrega em “Cruel” é suave e fria, assim como nas duas primeiras faixas, auxiliada por tambores rotativas e aplausos. Esse pop nebuloso ajuda a provar que Ware gosta de promover a variedade em suas canções. O seu arranjo de cordas e os sintetizadores oscilantes navegam em um som verdadeiramente crossover. Na balada “Say You Love Me”, Jessie Ware precisa e exige receber as mesmas emoções que seu namorado recebe dela. “I want to feel burning flames / When you say my name”, ela canta. “Say You Love Me” foi co-escrita por Ed Sheeran e, definitivamente, contém uma grande carga de emoção e sentimentos.

Possui uma extensão sonora composta somente por batidas e sua voz inconfundível, cuja melodia e versos melismáticos, são uma clara reminiscência das composições de Sheeran. Provavelmente, foi uma tentativa de Ware invadir o mainstream, em favor de uma grande balada pop. “Sweetest Song” gira em torno de um R&B irresistível e sintetizadores espaçosos, sendo produzida por Dave Okumu, produtor onipresente no “Devotion”. A guitarra e a percussão submersa emanam uma escuridão, enquanto uma repetição melancólica aparece junto (“I could hear your song forever / You’re the sweetest, sweetest song”). “Kind of… Sometimes… Maybe” é um pequeno passo em falso no álbum, uma música insossa e com uma estrutura frouxa, que aparece na metade do repertório. É uma balada com influência hip hop e escrita, novamente, com auxílio do cantor de R&B Miguel. No seu decorrer, temos Jessie Ware tentando seduzir sobre linhas de guitarra e uma valsa pesada, enquanto vozes de homens sussurram doces palavras entre os versos.

Jessie Ware

Co-escrita pelo cantor Dev Hynes e produzida por James Ford, “Want Your Feeling” é, com certeza, um dos maiores destaques do disco. Uma faixa disco-soul envolvente, que fala sobre relacionamentos inseguros e se encaixa perfeitamente ao vocal de Ware. Na balada dramática “Pieces”, encontramos a cantora em pedaços, após mais um fim de relacionamento. A música permite que ela ofereça uma potência vocal e grandes melodias (“I had to shatter to pieces / You made me reveal myself, reveal myself”). A peculiar “Keep On Lying”, é comovente e ganha vida conforme é jogada sobre a boa batida. O seu instrumental ao fundo também é agradável e Ware está bem exuberante sobre discretas harmonias vocais. “Champagne Kisses” é, particularmente, uma das minhas canções favoritas do álbum, pois possui uma grande potência melódica. “Who’s fault is this that I’m crazy about you?”, ela pergunta aqui. Ware explora o lado lúdico do amor, em “Champagne Kisses”, com alegria e diversão, enquanto uma edificante batida nos leva em direção ao crescente refrão. As guitarras cintilantes, as melodias crescentes e o refrão em falsete são encantadores.

“Desire” encerra o álbum, uma balada exclusivamente minimalista e com fortes batidas. Na letra Jessie Ware mostra um sincero sentimento de saudade do seu homem: “Am I seeing / Am I feeling now / That I want you/ That I need you…”. “Tough Love” é um álbum que se revela aos poucos, com uma postura sedutora em sua essência. Uma das poucas mudanças entre o “Devotion” e esse disco aconteceu nos bastidores. Em seu primeiro álbum, Ware trabalhou principalmente com Dave Okumu e Julio Bashmore, enquanto aqui, ela focou em uma sonoridade mais pop, com ajuda de produtores como Benny Blanco (Katy Perry / Maroon 5). Liricamente, “Tough Love” poderia ser muito mais forte, embora seja seguro dizer, que Ware esteve confiante em sua arte com base no som e emoção. É um registro sobre o fascínio de amores complicados, bem como o que faz valer a pena dentro de uma relação. Não é um excelente disco, mas é evidente que, em sua maior parte, é uma coleção de canções seguras que transpiram a confiança de uma artista sem pressões. Por fim, esse registro ofereceu uma ampla oportunidade para o desenvolvendo técnico de Jessie Ware e, se a confiança em seu talento continuar a progredir, poderemos esperar dela algo ainda melhor no futuro.

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Favorite Tracks: “You & I (Forever)”, “Cruel”, “Say You Love Me”, “Want Your Feeling” e “Champagne Kisses”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.