Resenha: Jeezy – Seen It All: The Autobiography

Lançamento: 02/09/2014
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: Def Jam Recordings / CTE World
Produtores: Black Metaphor, Cardo, Childish Major, Deejaycyfer, Don Cannon, Drumma Boy, Frank Dukes, Hollywood Hot Sauce, Johnny Juliano, Kenoe, Lyle LeDuff, Mike Will Made It, No I.D., Trakmatik e Will-A-Fool.

O rapper americano Young Jeezy (nome artístico de Jay Wayne Jenkins) lançou em setembro de 2014 o seu sétimo álbum de estúdio, sob o título “Seen It All: The Autobiography”. Nascido em Atlanta, Georgia, Jeezy está atualmente com 37 anos e, para quem não sabe, embarcou em sua carreira musical no ano de 2001, como Lil J, com o lançamento do disco “Thuggin’ Under the Influence (T.U.I.)”. Mais tarde, em 2005, se juntou ao grupo Boyz n da Hood e também lançou o seu álbum de estreia solo por uma grande gravadora, intitulado “Let’s Get It: Thug Motivation 101”. Naquela época, o single “Soul Survivor” que apresentava o cantor Akon, tornou-se o seu primeiro top 10 nos Estados Unidos. Seus álbuns posteriores, “The Inspiration” (2006) e “The Recession” (2008) também foram comercialmente bem sucedidos e venderam 1,200,000 e 1,010,000 de cópias, respectivamente. “Seen It All: The Autobiography” foi lançado através da Def Jam e do seu próprio rótulo, a CTE World. A sua confecção ficou a cargo de vários produtores do hip hop sulista, como Drumma Boy, Mike Will Made It e Childish Major.

Enquanto entre os convidados especiais temos os rappers Jay-Z, Future, Rick Ross, The Game, Lil Boosie, August Alsina e Akon. Bom, não há nenhuma voz mais evocativa dentro do rap gangsta do sul, do que o chiado sonoro provocado por Young Jeezy. Sua voz é crua, grave, consistente e certamente sempre foi uma de suas maiores forças. Outro ponto forte a seu favor é o ótimo ouvido e a boa percepção musical para batidas, enquanto as mensagens por trás de suas músicas são mais profundas do que possam parecer à primeira vista. Em uma época onde surge cada vez mais rappers talentosos, Jeezy poderia enfrentar uma ameaça com esse álbum, por talvez soar ultrapassado. No entanto, aconteceu o contrário, Jeezy apareceu revigorado e lançou um disco que mergulha nas novas tendências estilísticas do rap. Seja qual for a razão, “Seen It All: The Autobiography” sacode com vários desafios estabelecidos por ele e o encontra com uma nova inspiração, contando histórias tão convincentes que parecem ser tiradas de fatos reais.

Esse registro mostra o rapper como sempre foi, confiante no que faz e com uma entrega vocal intacta. Juntamente com produtores de elite do sul, a abordagem dele nesse álbum está mais madura e a profundidade de sua música facilmente relacionável. “Seen It All: The Autobiography” é definitivamente uma oferta sólida e onde percebemos que Jeezy narra sua ascensão com a acuidade de um homem mais sábio e uma escrita mais nítida. Você deve ter notado que Jeezy retirou o “Young” do seu nome ao lançar este disco, algo compreensível para um cara de 37 anos que está, atualmente, em uma fase mais madura de sua carreira. Ele está, a propósito, consiliando sua carreia de rapper com o cargo de vice-presidente da gravadora Atlantic Records. Introduções sempre foram um dos pontos altos dos discos do Jeezy e, quanto se trata da primeira faixa, o rapper demonstra exatamente, com grande precisão, como definir o humor para todo o projeto. A introdução do “Seen It All”, por exemplo, chamada “1/4 Block” é uma música que, como esperado, mostra ao ouvinte exatamente o que esperar do restante do projeto.

Young Jeezy

Aqui, Jeezy recebeu uma batida insana de Childish Major e começa sua autobiografia como um garoto que cresceu vendendo drogas para ganhar a vida. O rapper relembra os seus primeiros anos da adolescência, quando ele fantasiava em ficar rico e possuir um Benz, como mencionado na linha: “All the while fantasizing, visualizing, comin’ through in a Benz with a dimepiece”. A canção, corajosa e ameaçadora, é realmente sobre acontecimentos reais das ruas. Com Childish Major na batida mais uma vez, temos a faixa “What You Say”, onde Jeezy quer colocar um pensamento em sua cabeça: “Eu ainda sou o rei do bloco”. Ele já tem 37 anos de idade e 10 anos de carreira, mas nada mudou na forma como aborda a música e conta suas histórias. Com Jeezy flexionando o seu fluxo mais do que nunca, essa dinâmica canção é uma daquelas que descrevem o rapper perfeitamente em pouco mais de 3 minutos. Em “Black Eskimo”, terceira faixa, Jeezy introduz ao ouvinte o seu recém criado alter-ego, o Esquimó Preto. Com essa música, a segunda com menor duração, ele mostra que é um artista de elite ao rimar sobre uma escura e ligeira batida.

A faixa seguinte, “Enough”, é um hino motivacional que consegue entregar uma mensagem ao ouvinte. Com esta canção, o rapper motiva as pessoas a realmente trabalharem duro para poderem ter o que quer. A estrutura do seu instrumental, muito boa por sinal, é quase um reminiscência do disco “Let’s Get It: Thug Motivation 101” e da mixtape “Trap or Die”. A faixa cinco, “Holy Ghost”, lida com arrependimento e perdão e é, certamente, uma das melhores músicas da carreira de Jeezy. É uma música que combina as melhores qualidades do rapper com um tema realmente autobiográfico. Produzida por Don Cannon, Lyle LeDuff e Frank Dukes, “Holy Ghost” é instrospectiva, obscura, possui uma batida e instrumental viciantes, e é onde a história construída nas quatro faixas anteriores começa a tomar forma. Na letra, Jeezy tenta mostrar para muitas pessoas que a vida de uma celebridade nem sempre é tão boa quanto as pessoas pensam. Ele fala sobre a sua transição das ruas para o mundo da música e do entretenimento, provando que isso foi uma jogada ousada da sua parte.

A linha, “Sim, eu estou falando com você / Onde foi que nós erramos? / Porque eu não tenho a menor idéia”, é direcionada ao seu ex-parceiro Freddie Gibbs, que deixou de ser membro da CTE World em 2012. Depois de obter um lado emocional e simpático na faixa anterior, Jeezy rapidamente pula para uma música mais agressiva, chamada “Me OK”. Aqui o rapper recita em voz alta, orgulhosamente em cima de um baixo nervoso e uma pesada batida encomendada por Drumma Boy. É claramente uma canção de assinatura de Jeezy, com letras repletas de ostentação, drogas e tráfico. “Eu não como, durmo ou merda nenhuma sem a minha pistola filho da puta”, ele irozina durante o último verso. É uma faixa poderosa que realmente vale a pena algumas repetições. “Espero que a minha convicção não ofenda ninguém / Eu posso dar uma foda / O que você pensa sobre mim”, diz Jeezy em praticamente um só fôlego na faixa “4 Zones”. Se você é familiarizado com as músicas dele, sabe que o mesmo não costuma utilizar auto-tune em suas produções. Logo, poderá estranhar “4 Zones”, que utiliza esse artifício em excesso.

Com Mike Will Made It fornecendo um cenário incrível para as rimas do rapper, ele não recua ao mergulhar em um gancho com auto-tune pesado. Apesar de ser uma música diferente para os padrões do rapper, eu gostei facilmente desta faixa, ela é muito contagiosa e cativante. Em “Been Getting Money” Jeezy recruta o Akon para ajudar em suas declarações. Essa era talvez uma das canções mais esperadas antes do lançamento do álbum, por causa da colaboração deles em “Soul Survivor”, que acabou tornando-se o maior hit de Jeezy. Entretanto, logo que foi liberada caiu aquém das expectativas dos seus fãs, devido a estrutura ultrapassada. Embora Akon ainda possa cantar igualmente a época que estava em seu auge, as letras e a sonoridade dessa música não parecem modernas. Por mais que o Akon tenha a capacidade de sempre colocar algum verso cativante em suas canções, aqui seus ganchos ficaram extremamente obsoletos. Felizmente, logo em seguida, Jeezy continua sua autobiografia com a faixa “Fuck the World”, uma das faixas mais surpreendentes do álbum.

Young Jeezy

Com August Alsina cantando o refrão melódico ao lado de um profundo e lento ritmo, essa música conseguiu criar uma grande diversidade para o repertório. A guitarra infundida no instrumental, fornecida por No I.D., dá um grande pano de fundo para a mudança no andamento do refrão e versos. O vocal de Alsina ficou bastante decente, pois colocou o tema da canção em frente de uma forma simples e direta. Na faixa-título, “Seen It All”, Jeezy é sábio e triunfante, assim como seu convidado, o Jay-Z. Aqui, vemos o rapper de Atlanta em sua melhor forma cuspindo em cima de uma canção com tudo que podemos esperar do gênero hip hop. A produção exótica do Cardo ficou em perfeita sintonia com as rimas de dois ex-traficantes famosos refletindo sobre seu passado. O rosnado minimalista de Jeezy ficou perfeitamente bem com a batida mais melódica e encima deste conceito, enquanto Jay-Z fornece um dos seus melhores versos dos últimos anos. Nesse quadro, “Seen It All” é facilmente uma das melhores músicas do registro.

Com apenas 1 minuto e meio de comprimento, a faixa “Win Is a Win” traz Jeezy cuspindo emocionalmente sobre um descontraído instrumental trabalhado por Black Metaphor. “Espero que minhas palavras inspirem, falo como um verdadeiro líder / O primeiro a admitir mais de dois monolugares da vida”, ele rima na medida que se mostra um pouco mais pensativo. A linha de encerramento, “Viva real ou morra tentando, ainda é uma vitória mano”, é igualmente poderosa. “Beautiful” encontra o rapper rimando ao lado de The Game e Rick Ross, mais uma vez em cima de uma batida encomendada por Black Metaphor. A canção tem seis minutos de duração e é onde os rappers falam sobre suas vidas luxuosas. Embora as letras não tenham nada de especial e a colaboração não seja algo inusitado, o seu instrumental é chamativo e consegue agradar. “Seen It All: The Autobiography” não mostra Jeezy evoluindo para qualquer coisa que ele já não tenha feito antes, mas faz cristalizar ainda mais o seu lugar dentro do mundo do hip-hop/rap. Ele, ao lado de T.I. e Gucci Mane, foi um dos primeiros artistas que percebeu que o trap poderia ser algo comercialmente lucrativo dentro do hip-hop, um plano que Rick Ross e outros rappers seguiram para chegarem a seu próprio estrelato.

A sua música continua visceral como sempre e aqui neste registro não foi diferente. A este respeito, o álbum é uma forma de nos lembrarmos do poder de Jeezy, assim como é uma releitura honesta e autobiográfica de sua vida. A sua composição, desta vez, é muito mais pessoal, e dá uma nova vida as ideias que ele tem usado ao longo dos últimos anos. A produção é outro ponto forte neste LP, algo praticamente sem erros. Ele possui produtores que variam de Mike Will Made It a Black Metaphor e Cardo. Assim como os sons estão todos frescos e com um estilo excêntrico, provando que Jeezy ainda tem um ouvido afiado para grandes instrumentais. Agora, é certo dizer que “Seen It All” é um álbum melhor do que “The Recession”? Com certeza não. É melhor do que o “Let’s Get It: Thug Motivation 101”? Muito menos, especialmente devido ao fato do “TM101” ter sido um dos primeiros discos de trap percebido dentro do mainstream. Mas embora o “Seen It All” não seja tão forte quanto os lançamentos de Jeezy quando estava no auge de sua carreira, é inegavelmente um álbum diversificado que deve ter agradado os grandes fãs de rap.

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Favorite Tracks: “Enough”, “Holy Ghost”, “4 Zones”, “Fuck the World (feat. August Alsina)” e “Seen It All (feat. JAY Z)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.