Resenha: Jazmine Sullivan – Reality Show

Lançamento: 13/01/2015
Gênero: R&B
Gravadora: RCA Records
Produtores: Anthony Bell, JayFrance, Da Internz, DJ Dahi, Chuck Harmony, Salaam Remi e Key Wane.

Natural da Filadélfia, Pensilvânia, Jazmine Sullivan é uma cantora de R&B que estreou no cenário musical com a canção “Need U Bad”, produzida por Missy Elliott. Atualmente com 28 anos, ela cita Changing Faces, Kim Burrell, Lauryn Hill e Dorinda Clark Cole como suas principais influências musicais. Nos seus trabalhos podemos ouvir além do R&B, elementos de reggae, pop, jazz, neo soul e doo-wop. Normalmente, Sullivan fica entre produções modernas e um som oitentista que lhe dá uma sonoridade bem old-school. Seus vocais são robustos, enquanto ainda possui uma surpreendente versatilidade, considerando a espessura do seu tom. No início desse ano, ela lançou o seu terceiro álbum de estúdio, sob o título “Reality Show”. O mesmo possui um total de 11 faixas e foi lançado através da gravadora RCA Records. Sullivan gravou o álbum, seu primeiro em cinco anos, durante um hiato na indústria musical e trabalhou com os produtores Anthony Bell, Salaam Remi e Key Wane. Comercialmente, “Reality Show” estreou e atingiu o número #12 da Billboard 200, vendendo pouco mais de 30 mil cópias em sua primeira semana.

Durante o processo de gravação do álbum, ela passou tanto tempo revisando-o, que os produtores tiveram que forçá-la a lançar o mesmo para evitar uma liberação atrasada. Isso só contribui para mostrar o quão Jazmine é perfeccionista na composição de suas canções. Logo na primeira escuta no álbum, você pode perceber o quanto ela amadureceu e se aperfeiçoou artisticamente. Como mencionado, sua voz é extremamente consistente, mas, além disso, possui uma textura cativante e é cheia de agradáveis nuances. Ela é uma cantora que tem confiança total em sua voz, o que é comprovado por todo o registro. Suas habilidades de composição também estão visualmente mais fortes desta vez, Sullivan já provou ter um grande e especial talento para melodias e escrita. Liricamente, o álbum é sobre separação, porém, o seu tema principal não é o amor, e sim o respeito. Suas emoções estão bem transparentes com relação a isso, ao passo que a produção é muito limpa e radio-friendly. “Reality Show” já começa em alta com a faixa “Dumb”, primeiro single, que caracteriza seu companheiro nativo da Filadélfia, o rapper Meek Mill. Com um som estrondoso e influenciado pelo hip hop, essa canção é carregada por uma batida versátil que marcha por toda sua extensão.

Nessa pista encontramos temas como deslealdade e histórias contadas a partir da perspectiva de personas diferentes. A faixa seguinte, “Mascara”, é ainda mais incrível e polida que a anterior. Uma canção belíssima, com vocais envolventes e uma batida minimalista que desliza perfeitamente durante pouco mais de 4 minutos. Aqueles que procuram um contexto realista para a vida vaidosa das estrelas femininas da televisão estará ouvindo a música certa. Jazmine não tem nenhum problema em mostrar vários lados de sua realidade, suas canções funcionam tão bem porque ela permite que o ouvinte experimente de tudo. “Mascara” abre com a linha: “Sim, meu cabelo e minha bunda são falsos, mas e daí?”, e mantém as coisas cantando no refrão: “Então eu nunca saio de casa sem passar maquiagem / Eu guardo meu rímel no meu bolso se eu estiver indo para o supermercado / Pois você nunca sabe quem está te observando / Então eu tenho que estar pronta, eu tenho que estar pronta”. A literalidade desta faixa parece simplista, mas a mensagem é maior, pois mostra as inseguranças das mulheres perante a aparência física. Elas sempre estão preocupadas com o que as pessoas vão pensar ao seu respeito.

Jazmie Sullivan

Em seguida, “Brand New”, prefaciado pelo chamado de uma trombeta, surge com um som influenciado pelo jazz e o hip hop. É mais uma canção que faz Jazmine Sullivan expandir seu alcance musical e mostrar o quanto é uma compositora afiada. Há um nível de profundidade se estendendo por esta faixa, ao passo que a cantora exibe, de certa forma grosseira, suas mais sinceras emoções. O conteúdo lírico realmente oferece uma influência moderna, porém, sobre uma batida nostálgica. Aqui, ela explica como as mulheres sonham com uma vida melhor ao lado do seu parceiro. Já em “Silver Lining”, Jazmine está olhando para frente, apesar das adversidades e contratempos que a vida possa trazer. Sobre uma produção vintage, ela explora diferentes facetas de sua voz, muitas vezes no seu registro mais baixo. A produção melódica de Key Wane segue de forma estelar, oferecendo uma viciante batida contemporânea que lembra algumas faixas do álbum “Love Me Back” de 2010.

Em “#HoodLove” Jazmine Sullivan ostenta uma hashtag no título e mostra outro vislumbre da dedicação ao seu companheiro na letra. É uma música de R&B fresca, quase cinematográfica, onde a cantora mostra lealdade em um relacionamento, dizendo com convicção que faz qualquer coisa para ter seu namorado. “E ele nem sempre tem razão / Mas ele é o ideal para mim”, ela canta no último verso.  Na segunda metade do álbum Sullivan se reencontra com seu lado mais classicista, a começar pela luxuosa faixa “Let It Burn”. Parecendo ter sido inspirada por Babyface, esta canção é soulful, mais suave em sua linguagem e mostra mais um pouco da versatilidade vocal da cantora. Ela continua a afirmar-se através da combinação de letras fortes e vocais angustiantes, como por exemplo, no prudente refrão: “Sinta esse fogo, apenas deixe queimar / Não há como escapar quando é a sua vez”. “Veins” mantém o bom nível do repertório apresentando um pouco mais do seu talento para compor e a incrível capacidade de entregar-se vocalmente.

Jazmine Sullivan

Há uma qualidade hipnótica nesta canção, apoiada por ornamentos como o melisma, um auto-controle e um ritmo furtivo ao fundo. Aqui, Sullivan compara seu amor insaciável com a dependência de drogas e, embora não seja um conceito novo, é bem executado por ela. O segundo single, “Forever Don’t Last”, é certamente um dos destaques do “Reality Show”. Uma canção com riffs acústicos, vibrante e uma das mais distintas de todo o repertório. Jazmine Sullivan leva esta música de uma forma angustiante, que a propósito serviu como um retrato do caso de amor destrutivo que parou sua carreira há cinco anos. “Eu tinha grandes esperanças em nós, querido / Como se eu estivesse drogada por nós, querido”, ela canta logo no primeiro verso. A nona faixa, “Stupid Girl”, é diferente de tudo que podemos encontrar na discografia da cantora. Essa música vai ainda mais para trás na linha do tempo da música popular, totalmente vintage e inspirada por uma sonoridade que se ouvia na década de 1950. Outra faixa brilhante que ainda possui um agitado refrão comandado por uma boa dose de bateria.

Em seguida, temos a maior surpresa encontrada aqui, a faixa “Stanley”, produzida por Da Internz. É uma canção neo-disco contagianete, com seqüenciadores, baixo e inspirada pelo funky dos anos 1970. Aqui, Jazmine lamenta uma vida de dona de casa e a ausência da falta de atenção do personagem-título para com você (“E eu tenho a limpeza dessa maldita casa durante todo o dia e noite / Mas você não me dá nenhuma atenção Stanley / Eu estou precisando de sua atenção baby”). Na faixa de encerramento,“Masterpiece (Mona Lisa)” Jazmine Sullivan volta o seu foco para suas próprias questões de auto-estima. É sem dúvida uma das melhores canções encontradas aqui, que apesar de não ser necessariamente a canção preeminente do álbum, é realmente a mais bem planejada. Uma balada, produzida por Anthony Bell, que apresenta seus vocais de uma forma mais rouca e astuta. “Cada parte de mim é a visão de um retrato / Da Mona, da Mona Lisa / Cada parte de mim é bonita / E eu finalmente vejo que sou uma obra de arte / Uma obra-prima”, ela canta no refrão. Simples, mas contundente, esta faixa certamente serve como um hino edificante para qualquer mulher.

Reality Show, seu primeiro álbum em cinco anos, apresenta uma Jazmine Sullivan cheia de equilíbrio e humor, com uma abordagem sonora distinta, mas totalmente focada na sensibilidade do R&B contemporâneo. O seu desempenho continua magistral e a todo momento sua voz aparece no centro dos holofotes. Todo o registro é sicronizado sonoramente, com a capacidade vocal de Sullivan mantendo toda a dinâmica em volta dele. “Reality Show” explora temas de autenticidade através de vários ângulos: amor, vida, dor, etc. Com este material, Sullivan forneceu um álbum que excede as expectativas em composição e produção. Este projeto serve como um lembrete pessoal de que esta é a sua vida e história, incluindo as falhas, o sucesso, os altos e baixos. A maioria dos grandes cantores usam a voz como veículo para a sua catarse emocional ou domínio técnico. Mas além de fazer isto, Jazmine Sullivan também manipula seu som para dar vida a diferentes personalidade e atitudes, abrindo um caminho para si mesma e saindo de sua zona de conforto. Sua versatilidade musical e seus personagens cuidadosamente criados, fazem dela uma das artistas mais cativantes da atual safra do R&B.

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Favorite Tracks: “Mascara”, “Brand New”, “Silver Lining”, “Let It Burn”, “Forever Don’t Last” e “Masterpiece (Mona Lisa)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.