Resenha: Jay-Z – 4:44

Lançamento: 30/06/2017
Gênero: Hip-Hop
Gravadora: Roc Nation
Produtores: Jay-Z, No I.D., James Blake e Dominic Maker.

Apenas 36 minutos foi o tempo que Jay-Z precisou para apresentar o seu novo disco. “4:44” é um estudo introspectivo sobre o que tornou Jay-Z numa das maiores figuras do rap. Provavelmente, esse é o primeiro álbum do rapper contado na perspectiva de Shawn Corey Carter. A imprensa negativa em torno de Jay-Z após o lançamento do “Lemonade” de Beyoncé, o descreveu como um homem infiel e pouco confiável. Consequentemente, “4:44” é mais vulnerável e inclui respostas sobre a sua suposta infidelidade. O álbum foi produzido exclusivamente por No I.D., com quem Jay-Z já colaborou anteriormente. “4:44” não tem bangers e termina com menos de 40 minutos. É um álbum com muitas camadas e mensagens em seu núcleo, algo que o coloca entre os grandes da discografia de Jay-Z. Pode-se dizer que este registro é tudo aquilo que o “Magna Carta Holy Grail” (2013) não foi. No I.D. proporcionou um pano de fundo ideal para este momento da carreira do rapper. Felizmente, não há tentativas forçadas de seguir por tendências de mercado. Liricamente, “4:44” fala sobre traição, família, luxúria e riqueza de uma forma bem genuína. Cada canção oferece alguma mensagem importante, sem diminuir o seu valor de repetição.

A primeira faixa, “Kill Jay Z”, mostra o rapper destruindo o seu ego, a fim de concentrar-se na honestidade. Esta canção fala sobre o tiro que ele deu em seu irmão, a briga com Kanye West, o esfaqueamento de Lance Rivera e a briga no elevador com Solange Knowles. Além das diss sutis direcionadas à Kanye West e Future, é uma faixa estruturada sobre um brilhante instrumental. Em “The Story of O.J.”, a faixa mais conhecida do álbum até então, Jay-Z diz: “Eu não sou preto, sou O.J. / Okay”. Esta linha refere-se à frase que O. J. Simpson pronunciou enquanto estava condenado. Shawn Carter acredita que isto foi dito na tentativa de separar-se do que mídia concebia como “cultura negra”. Em cima de amostras vocais e leves teclas de piano, “The Story of O.J.” fala sobre a desigualdade racial nos Estados Unidos. Como todos sabemos, Jay-Z nunca escondeu sua aversão pelo governo e polícia, algo provado anteriormente em “99 Problems”. A faixa-título, “4:44”, é a canção que todos esperávamos de Jay-Z após o lançamento do disco “Lemonade”. É uma declaração amorosa e pedido de desculpas para a sua esposa, Beyoncé. No seu último álbum, entre outras coisas, Beyoncé o acusou de ser infiel. Independente do adultério ter sido real ou não, essa música foi requerida por Jay-Z.

Aqui, ele tenta explicar o seu lado da história, além de admitir e pedir desculpas por seus erros. O grande sentimento de honestidade desta música e de todo o álbum coloca Jay-Z num novo patamar. Em “Family Feud”, com a própria Beyoncé, ele fala sobre aqueles que preferem o hip-hop old-school e tradicional, em vez do rap da atualidade. “Ninguém ganha quando a família briga”, ele diz, referindo-se à luta pelo poder de ambos os lados. Enquanto “Bam”, com Damian Marley (o filho mais novo de Bob Marley), tem grandes vibrações reggae, “Marcy Me” possui um gancho atraente, ótimas letras e uma brilhante produção. É uma canção nostálgica onde Jay-Z relembra sobre seus dias nas Marcy Houses do Brooklyn. Mais tarde, em “Moonlight”, ele contradiz a mensagem exposta em “Family Feud”. Jay-Z decide usa alguns clichês da nova onda do hip-hop, mesmo utilizando sample de Fu-Gee-La (The Fugees). Mesmo sendo um dos homens negros mais ricos e bem-sucedidos do mundo, ele consegue enxergar a luta que os negros americanos enfrentam. Jay-Z usa o recente fiasco no Oscar para mostrar isso: “Você ficou preso em La La Land / Mesmo quando ganhamos, nós perderemos / Vocês conseguem os mesmos truques / Eu não sei quem é quem”.

A última faixa, “Legacy”, possui uma adorável introdução com a sua filha, Blue Ivy Carter. Liricamente, é uma das canções mais fortes do álbum, afinal Jay-Z quer que todos conheçam o legado de sua família. Enquanto muitos acreditam que o mais importante é ter sucesso, Jay-Z explica que o seu legado é a família. Na linha de abertura Blue Ivy pergunta: “Papai, o que é uma vontade?”. Na sequência, Jay-Z deixa claro que o importante para ele é a sua família. No geral, “4:44” é um registro que Jay-Z precisava fazer e usar como uma terapia de seus verdadeiros pensamentos. Para ele, ser tão emocional e cru, mesmo mantendo um fluxo impecável, é algo surpreendente. Ao escutar todo o álbum pela primeira vez, nem parece ser do mesmo homem que criou “The Blueprint” (2001) ou “The Black Album” (2003). Em outras palavras, “4:44” é o seu registro mais honesto e vulnerável. Shawn Carter fala sobre o seu legado, ego e o futuro de sua família ao longo de dez ótimas faixas. Não há dúvidas de que Jay-Z sempre será um dos grandes do hip-hop. Suas conquistas no mundo da música e outros empreendimentos são extraordinárias. Acumular uma fortuna estimada em quase 1 bilhão de dólares é uma conquista para poucos.

Favorite Tracks: “The Story of O.J.”, “4:44” e “Legacy”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.