Resenha: James Blake – The Colour in Anything

Lançamento: 06/05/2016
Gênero: Eletrônica, R&B, Soul, Pop
Gravadora: Polydor Records
Produtores: James Blake, Rick Rubin e Justin Vernon.

O cantor inglês James Blake construiu sua reputação na música através de grandes produções eletrônicas, influenciadas pelo dubstep. Seus dois primeiros álbuns, “James Blake” e “Overgrown”, apresentaram canções emotivas e foram muito elogiados pela crítica. A música de Blake tem raízes em vários gêneros, algo que contribuiu para o seu crescimento artístico. Ele faz um som eletrônico verdadeiramente ambicioso e atmosférico. Depois de colaborar com Beyoncé no álbum “Lemonade”, Blake nos presenteou com uma obra intitulada “The Colour In Anything”. Esse disco é gigante, pois possui 76 minutos de duração e um total de 17 faixas. Nesse novo projeto, Blake continua transcendendo sua música por um caminho firme e cheios de histórias. Os sons do disco são amplos e surpreendentemente melancólicos. As emoções evocadas por cada canção é impressionante. Colaborar com Rick Rubin em várias faixas, fez Blake criar uma paisagem sonora ainda mais minimalista que o habitual. Como na maioria de suas canções, ele continua personificando suas faixas com sintetizadores. É um álbum bastante emocional, mas que exige uma empatia para ser melhor apreciado. Suas faixas possuem um tom sombrio, vocais angelicais e suaves melodias. Letras intimistas, autenticidade e um coração triste, são peças que expressam sua força como compositor. Sua escrita trabalha em cima de paisagens sonoras abstratas, a fim de prender sua atenção. É um álbum muito mais ambicioso e romântico que seus antecessores. Mas abre de forma familiar através de um belo falsete na faixa “Radio Silence”. Essa música é construída sob um refrão bastante sugestivo: “Mas no meu coração / Há um silêncio de rádio acontecendo”

É o primeiro indício de um registro mais maduro e pessoal. A canção dispõe de teclas suaves de piano e uma batida ameaçadora. As harmonias são mais convencionais, no entanto, a maior parte dos seus elementos são facilmente reconhecíveis. Blake continua lidando com temas como isolamento, desgosto e confusão, dos quais são transmitidos através de frases enigmáticas, como ouvimos em “Points”. Uma canção que se move de forma enquitante, sobre camadas vocais que repetem incansavelmente: “No longer her, no longer, no longer her, no longer”. “Love Me in Whatever Way”, por sua vez, é uma balada de piano vazia, com batidas eletrônicas e maravilhosos vocais gospel. Enquanto isso, “Timeless” é construída a partir de um teclado e sincopadas batidas de tambores. Ela ainda oferece um clímax ruidoso e sintetizadores texturizados. “Timeless” não apresenta qualquer efeito de transição, tudo é construído naturalmente através de um arpejo viciante de sintetizador. Em outros momentos, temos alguns métodos padronizados, como a balada de piano “f.o.r.e.v.e.r”. É um dos destaques líricos do registro: “Notei que ainda posso andar como fantasma nas ruas / Notei o quão lento as asas de abelha assassina são / E quão maravilhosa, quão maravilhosa / Quão maravilhosa você é”É uma peça emocionalmente envolvente, onde ele esconde sua solidão atrás do piano. “Durante a sua ausência, não havia nada para ver / Há um espelho no meu quarto que nunca usei / Enquanto você estava fora, eu comecei a te amar / Oh, te amar”, ele canta dolorosamente. Nesta faixa, os acordes de piano assumem uma posição angelical por baixo de sua voz. O seu desenvolvimento sente-se inevitavelmente romantizado e sutil. 

Em seguida, “Put That Away and Talk to Me” mescla algumas das melhores coisas de James Blake. Além disso, oferece um outro lado de sua composição, ao vê-lo usando auto-tune nos vocais e batidas eletrônicas esparsas. A letra e o título sugerem alguma frustração, mas o som nostálgico fornece outros tipos de pensamentos. Seu ambiente digitalizado e distorcido parece uma máquina tentando contar alguma história. Apesar de encaixar-se perfeitamente com a estética do álbum e ter uma boa paisagem sonora, “I Hope My Life (1-800 Mix)” é longa demais e um tanto quanto escassa. Blake tenta evitar a monotonia em grande parte através do refinamento de sua escrita e produção. Esta sofisticação, por exemplo, é evidente em pequenos toques espalhados pela arrebatadora “Waves Know Shores”. Co-escrita por Frank Ocean, “My Willing Heart” dispõe de uma bonita linha de piano, floreios eletrônicos, cordas e harmonias deslumbrantes. É uma música frágil e escura, porém, ainda assim, bastante redentora. Ela desliza em um abismo de alienação, com os vocais de Blake permeando à frente da batida. Enquanto a primeira metade do álbum é um refinamento do estilo de James Blake, a segunda é mais otimista e mostra o quão longe ele está indo como artista. “Choose Me” é uma das melhores composições do álbum, pois ele abandona sua voz habitual em troca de um anseio apaixonado e refrão reconfortante. Sua produção constrói um clímax edificante, sobre sintetizadores cristalinos e uma releitura quase robótica de sua voz. Essa canção forma o centro emocional do álbum, juntamente com “I Need a Forest Fire”. Tanto que a transição entre as duas canções é incrivelmente suave. A faixa dispõe de Justin Vernon do Bon Iver nos vocais, conforme ambos combinam perfeitamente.

É muito bom ouvir dois grandes artistas flertando seus falsetes naturalmente. A voz de Blake é mais emotiva, enquanto a de Vernon é mais suavizada. Eles alternam linhas e também cantam juntos em determinados momentos. O resultado final é de quase uma balada e entregue com uma grande paixão: “Para queimá-lo como cedro / Eu solicito outro sonho / Eu preciso de um incêndio florestal”. O desejo de recomeçar é predominante, mas a dor de deixar o passado para trás, junto com toda mágoa que existe dentro de si, é uma coisa difícil de se fazer. Órgãos são inicialmente apresentados antes de sintetizadores se situarem ao fundo. Ritmicamente calculada, a percussão pulsa juntamente com os vocais. Enquanto isso, “Noise Above Our Heads” é praticamente uma sombria canção de ninar que te perturba com suas letras obscuras. A percussão dessa música é um destaque a parte. A faixa-título, “The Colour In Anything”, por outro lado, é uma atraente balada de piano. Aqui, Blake pergunta o que iria acontecer “se um dia eu acordar e não conseguir encontrar a cor em qualquer coisa”. Essa canção é apresentada com uma grande carga de medo e sensibilidade. À medida que “Two Men Down”, a faixa mais longa do registro, é uma canção de amor incrivelmente reflexiva (“Oh, que dia eu escolhi para você / Para te dizer que eu te amei”), a canção de encerramento, “Meet You in the Maze”, é devastadora em sua composição (“A música não pode ser tudo / Todas essas músicas que vieram antes de você / Eles estiveram uma vez à espera”). É uma música escassa que possui apenas as vozes de Blake e Vernon.

“Modern Soul”, primeiro single lançado antes do álbum, vê Blake declarando: “Eu conheço uma encruzilhada onde eu o vejo”. As primeiras linhas da música podem soar vagas e estranhas, mas prenunciam o significado por trás da música. Sonoramente, “Modern Soul” apresenta uma percussão apertada, um piano poderoso, sirenes em segundo plano e um refrão repetitivo que diz: “I want it to be over, I want it to be over”. Há raros momentos de positividade no álbum, mas a linda “Always” foi escrita em um tom mais otimista. O seu piano é impressionante na simplicidade, algo que deu origem ao sentimento de contentamento e gratidão da música. James Blake surgiu de um movimento dubstep em 2009, mas sua música soul revelou grandes revés dentro dele. Sua música contém redemoinhos estilizados de R&B, vocais gospel e batidas eletrônicas como marca registrada. A falha mais evidente de “The Colour In Anything” é a sua excessiva duração. Durante os 76 minutos, cada faixa é individualmente fantástica, mas não há bruscas variações no ritmo entre elas. Em contrapartida, é quase impossível tirar alguma canção do contexto do álbum, pois cada uma tem algo para mostrar. O disco possui um estado de espírito codificado e empacotado com belas melodias e composições. “The Colour In Anything” é muito mais acolhedor e romântico que o introspectivo “Overgrown”, com várias canções fazendo referências a relacionamentos. É um LP que mergulha na nostalgia e possui uma melancolia dramatizada, que define James Blake como músico. É um projeto muito mais maduro que seus registros anteriores. Além disso, mostra o quanto ele cresceu como compositor. Em suma, é um álbum com uma beleza e sensibilidade raras.

79

Favorite Tracks: “Timeless”, “My Willing Heart”, “Choose Me”, “I Need a Forest Fire (feat. Bon Iver)” e “Modern Soul”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.