Resenha: Jake Bugg – On My One

Lançamento: 17/06/2016
Gênero: Indie Rock, Indie Folk, Folk Rock
Gravadora: Virigin EMI Records / Island Records
Produtores: Jake Bugg e Jacknife Lee.

Jake Bugg foi muito elogiado nos últimos anos por sua musicalidade, que é bastante avançada e madura para a sua idade. Depois da reviravolta e sucesso dos seus dois primeiros álbuns, Bugg tomou a decisão de dedicar-se um ano para a gravação do seu terceiro disco. Com “On My One”, uma forma usual para se dizer “on my own”, Bugg entrega outro cativante registro. O prodígio musical de Nottingham, Inglaterra, tem atualmente 22 anos e é muito elogiado por conta da eficácia de sua voz. Sua voz nasal, consagrada por músicas como “Lightning Bolt”, “Two Fingers” e “What Doesn’t Kill You”, é incrivelmente atraente. Dessa vez, Jake Bugg esteve muito mais envolvido na produção do álbum. Quando trata-se de artistas solo na indústria da música, os terceiros álbuns costumam ser vistos como uma realização, uma vez que o artista já definiu um padrão com o primeiro álbum e mostrou estabilidade com o segundo.

Por esse motivo, o terceiro álbum de qualquer artista é, muitas vezes, visto como um obstáculo. Ele exige originalidade em combinação com a familiaridade dos discos anteriores. Além disso, é mais difícil para os músicos manterem o interesse de seus fãs. “On My One” foi quase inteiramente composto e auto-produzido por Jake Bugg, com exceção de três músicas. Um variado disco indie-rock e indie-folk com um total de 11 canções. A faixa-título, “On My One”, abre o repertório tentando capturar o espírito do álbum como um todo. Ela é sustentada por uma guitarra acústica solitária, enquanto Bugg expressa suas lutas. Possui um toque mais sombrio e não deixa de ser uma canção bem atmosférica. Em seguida, o primeiro single, “Gimme the Love”, mostra mais de suas habilidades vocais.

Ele possui um ar refrescante que vai além do seu folk usual, além de uma entrega a la Kasabian. Um número new wave, com influências Madchester, com uma bateria poderosa, riffs de guitarra de alta energia e um ritmo acelerado. O risco tomado aqui, que vai além de sua zona de conforto, é o mais ambicioso até à data. O refrão da bela “Love, Hope and Misery” pode não ser um dos momentos mais líricos de Jake Bugg, entretanto, está entre as linhas melódicas mais fortes de todo o álbum. Mais uma vez, seus vocais estão surpreendentemente adoráveis. Uma trilha sonora romântica e agridoce, com um toque de soul aliado à adoração de Bugg pelo blues. Na composição geral, temos riffs de guitarra que acumulam-se até uma completa orquestra. Embora o LP seja muito bom, há algumas faixas sem brilho por aqui, incluindo “The Love We’re Hoping For”.

Ao tentar canalizar Neil Young, o cantor mostra mais um pouco do seu canto e narração nessa faixa sombria. Ao lado de sua guitarra acústica, Bugg retorna o ouvinte ao sentimento de desesperança retratada na faixa de abertura. “On My One” é, certamente, muito mais diversificado e imprevisível do que seus dois discos anteriores. Existe uma boa distribuição entre folk, rock e blues com ritmos pop por aqui. Durante “Put Out the Fire” o astro inglês brinca como um habitual artista indie-folk. Nesta canção ele retorna ao seu som clássico, enquanto mescla elementos country e canaliza, simultaneamente, uma vibe Bob Dylan dos anos 60. “Put Out the Fire” tem a seriedade e coragem de suas melhores canções e um forte trabalho na guitarra acústica. Outras emoções são encontradas na balada “Never Wanna Dance”, sexta faixa do repertório.

É uma canção infundida de R&B, onde ele expressa alguns conflitos internos de ficar com alguém a quem ele inevitavelmente poderia magoar. No refrão ele detalha esse pensamento, com letras como: “Porque você não precisa de um cara como eu que nunca quer dançar”. Novamente, Bugg oferece um ritmo suave e tom vocal aveludado, ao lado de um exuberante solo de trompa na ponte. A energética “Bitter Salt” acelera as coisas com sua ansiosa batida de tambor e estridentes guitarras elétricas. É uma música que apresenta uma instrumentação correspondente com a intensidade das letras. Apesar da voz de Jake Bugg soar profundamente folk, muito diferente de sua voz cotidiana, ele aborda um novo estilo de cantar em “Ain’t No Rhyme”. Para um cantor tão bem adaptado ao indie-folk, o estilo vocal adotado aqui não encaixa-se tão bem.

jake-bugg

O ritmo silenciado de hip-hop e o rap exposto pelo cantor, infelizmente, não é convincente. A única coisa eficaz desta canção é o conjunto de guitarras blues-rock e a sólida bateria. Logo em seguida, Jake surge com uma melodia country completamente moderna em “Livin’ Up Country”. O cantor mostra suas habilidades de saltar com facilidade entre diversos gêneros musicais. Embora “Livin’ Up Country” seja infundida com blues e, em menor escala, pelo folk, é uma música country. Consequentemente, Jake Bugg consegue soar mais eclético e deixar o ouvinte mais atento. Os vocais do cantor estão mais uma vez dolorosos na melancólica balada “All That”. Mesmo que a simplicidade dessa música seja parecida com a da faixa-título, ela possui uma atitude oposta. É uma lenta, abatida e solitária canção conduzida por sua guitarra acústica. Jake Bugg retoma o controle de suas emoções na faixa final “Hold on You”.

Liricamente, o cantor tenta transformar seus arrependimentos em passos para futuro. É uma canção blues bastante apropriada para encerrar o repertório. Em toda a sua superfície, “On My One” não deixa de ser um álbum coeso. Ainda mais impressionante é o fato de Bugg ter escrito, produzido e executado a grande maioria do repertório. No geral, o cantor experimentou o prazer de produzir e conhecer novos gêneros. Com esse terceiro álbum, ele conseguiu mostrar que não tem medo de correr riscos e sair de sua zona de conforto. Uma das poucas decepções do álbum são algumas letras. Em grande parte, Jake Bugg apenas comenta desajeitadamente sobre a cultura juvenil, viagens ou alguma determinada garota. Em última análise, saliento que “On My One” é um disco muito agradável. Ademais, o talento, voz e musicalidade de Jake Bugg sempre pareceu muito grande para sua idade.

69

Favorite Tracks: “Gimme the Love”, “Love, Hope and Misery” e “Put out the Fire”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.