Resenha: J Dilla – The Diary

Lançamento: 15/04/2016
Gênero: Hip-Hop
Gravadora: Mass Appeal Records
Produtores: J Dilla, Madlib, Pete Rock, Bink, House Shoes, Hi-Tek, Nottz, Waajeed, Supa Dave West e Karriem Riggins.

Já passou uma década desde a morte de J Dilla, que com apenas 32 anos, sofreu uma parada cardíaca, decorrente de uma doença sanguínea rara, três dias depois do lançamento do seu último álbum “Donuts”. Desde então, vários lançamentos póstumos têm lembrado o mundo sobre o legado criado pelo pioneiro do hip-hop de Detroit. Ele não era apenas um grande rapper, mas também um produtor musical incrível. Seu mais recente LP, “The Diary”, é um dos projetos arquivados, programado inicialmente para ser lançado em 2002 através da MCA Records. Esse álbum estava há muito tempo perdido e fazia parte de um lote de materiais não emitidos por Dilla. Quatorze anos depois, o registro finalmente viu a luz do dia. Muitos nomes póstumos ganharam maior status de lenda com o passar dos anos. Com um dos produtores mais celebrados da história do hip-hop não foi diferente. O legado de J Dilla cresceu muito valorizado graças às suas batidas, fitas e fluxo aparentemente interminável.

Desde que sua carreira emergiu em meados dos anos 1990, J Dilla trabalhou com grandes nomes, tais como A Tribe Called Quest, Busta Rhymes, De La Soul, Erykah Badu, The Roots e Common. Seus lançamentos póstumis anteriores, “Jay Stay Paid” (2009) e “Dillatronic” (2015), eram editados com instrumentais inéditos. Por outro lado, “The Diary” apresenta performances vocais de Dilla e participações de artistas como Snoop Dogg, Bilal, Frank n Dank, Nottz, Boogie, Kenny Wray e Kokane. As sessões de gravação do álbum ocorreram entre setembro de 2001 e abril de 2002. “The Diary” foi lançado, especialmente, graças ao empenho do rapper Nas, que colaborou para liberá-lo através do seu próprio selo, a Mass Appeal Records. Liricamente, o registro é um pouco propenso a clichês do hip-hop, mas muitas vezes é resultado dos seus colaboradores. Entretanto, uma das maiores jóias líricas do repertório é justamente a primeira faixa, “The Introduction”.

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É uma canção valente e confiante, que define perfeitamente o tom para o LP. Sonoramente, é uma peça eletrônica, com teclados, ritmo trepidado, batidas aceleradas, sintetizadores hipnóticos e um baixo pesado. “The Anthem”, com Frank n Dank, é uma faixa mais descontraída, embora possua alguns sons estranhos sobre ela. Seu fluxo é vistoso, furtivo e as batidas de tambor permitem-lhe mostrar mais dos seus vocais. Essa harmoniosa colaboração entre Jay Dee e Frank n Dank foi muito bem trabalhada, tanto que praticamente nos leva de volta para o ano de 2002. Produzida pelo próprio Dilla, a canção fala sobre os talentos que ele tinha. A próxima faixa, “Fight Club”, com os convidados Nottz e Boogie, é um retrocesso que soa semelhante a algo que Eminem ou Jay-Z faria. É mais pensativa e séria, com um baixo sincopado e batidas ocasionais a conduzindo. Aqui há também uma verificação do álbum “The Shining” (2006), dividido em duas partes: “The Shining, Pt. 1 (Diamonds)” e “The Shining, Pt. 2 (Ice)”.

Ambas faixas possuem uma produção incrível e combinam perfeitamente com o resto do catálogo de J Dilla. “The Shining, Pt. 1 (Diamonds)” é mais edificante, vibrante e orientada para a nova escola do hip-hop de Nova York. O refrão, cantado por Kenny Wray, é infeccioso, triunfante e cheio de alma. Aparentemente, Dilla parece dedicar a música para uma mulher que amava muito. “The Shining, Pt. 2 (Ice)”, por outro lado, é mais temperamental e oldschool. Sua vibe é totalmente diferente, principalmente pela condução de um baixo áspero. “Trucks”, sexta faixa, possui amostras estranhamente brilhantes de “Cars” de Gary Numan. A familiar melodia de “Cars” é manipulada com o intuito de combinar com Dilla, enquanto os vocais mantém o ritmo a fundo. Em seguida, “Gangsta Boogie” mostra sua capacidade de mudar o fluxo dinamicamente ao lado de Snoop Dogg e Kokane. É um número funky, com um bassline esmagador e certamente um dos destaques do álbum.

O baixo a la Costa Oeste e Snoop Dogg adicionam um sabor distintamente descolado e descontraído para a canção. A faixa seguinte, “Drive Me Wild”, é bastante dinâmica por conta das multi-camadas, órgãos, guitarras, harmonias vocais e sintetizadores. Além disso, o teclado ainda dá uma vibração estranha e distinta para a mesma. “Give Them What They Want”, por sua vez, possui um título auto-explicativo. Jay Dee nos lembra o quanto o hip-hop dos anos 90 foi épico. Do início ao fim, essa música apresenta um hip-hop liso e clássico. Ela tem um teclado nervoso, palmas e fortes tambores que fariam qualquer multidão pular. Há rosnados nesta faixa semelhantes a algo que você ouviria de DMX no final dos anos 1990. “The Creep (The O)” tem tilintar de percussões, teclados e vocais infantis ao fundo. Sua batida é, para dizer o mínimo, incrivelmente intrigante. Posteriormente, temos a faixa “The Ex”, com ótimos vocais do cantor Bilal. Essa canção conta uma história real e íntima a respeito de um amor perdido de Jay Dee.

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Os vocais de Bilal adicionam um tom soulful e vibração jazzy a esta faixa. O desempenho de ambos artistas apontam para uma fusão clássica de soul e hip-hop, algo que dominou a década de 1990. A cativante “So Far” apresenta um fluxo edificante de Jay Dee sobre uma batida de Supa Dave West. Aqui, teclados, harmonias vocais e um cenário soulful contemplam letras com fortes significados. Lançada originalmente em 2001, “Fuck the Police” faz uma aparição bem-vinda no álbum. É uma resposta para sua história de ter sido radicalmente censurado pela polícia de Detroit. Mesmo lançada há 15 anos, essa canção ainda permanece tão relevante quanto era naquela época. Essa pista auto-produzida possui uma excepcional quebra de tambores logo no início. Seu sentimento geral, além da excelente quebra introdutória, é derivada de uma fatia original de alguns trabalhos de J Dilla. A faixa-título, “The Diary”, encerra o álbum com uma percussão cintilante e cheia de alma. Apesar da curta duração, é uma canção pungente e radiante.

De um modo geral, “The Diary” é um álbum muito sólido e refrescante. Graças a produtores como J Dilla, que hoje existem tantos sons, estilos e sub-gêneros no hip-hop. Ele é certamente um dos mais influente produtores de hip-hop que já conhecemos. A diversidade nos instrumentais e estilos vocais das faixas demonstram o quanto Jay Dee estava à frente de seus concorrentes. Mesmo depois de dez anos de sua morte, o cara ainda prova o quanto era talentoso. Com o passar dos anos sua reputação como um dos caras mais ousados do hip-hop só aumentou. “Donuts” permanecerá para sempre como sua despedida do mundo, porém, “The Diary” serve como um olhar para sua vida quando estava no auge da carreira. Foi um presente para todos os fãs de hip-hop. J Dilla foi um gigante e esse disco póstumo é mais uma manifestação do seu legado e talento.

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Favorite Tracks: “The Introduction”, “The Shining Pt. 1 (Diamonds) [feat. Kenny Wray]”, “Gangsta Boogie (feat. Snoop Dogg & Kokane)”, “So Far” e “Fuck the Police”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.