Resenha: J. Cole – 4 Your Eyez Only

Lançamento: 09/12/2016
Gênero: Hip-Hop, Jazz Rap, Trap
Gravadora: Dreamville Records / Roc Nation / Interscope Records
Produtores: J. Cole, Ibrahim Hamad, Elite, BLVK, Boi-1da, Cardiak, Chargaux, Childish Major, Deputy, Elijah Scarlett, Frank Dukes, Nate Fox, Nate Jones, Nico Segal, Peter Cottontale, Ron Gilmore, Steve Lacy, Theo Croker, Velous e Vinylz.

Quando J. Cole lançou o disco “2014 Forest Hills Drive” sem praticamente nenhuma promoção, o projeto teve que ter algo especial e a música falar por si só. “2014 Forest Hills Drive” foi certificado por platina dupla nos Estados Unidos e acabou superando todas as expetativas de J. Cole. Com o seu disco mais recente, “4 Your Eyez Only”, o rapper de Carolina do Norte tentou reutilizar a fórmula que fez do seu álbum anterior tão bem sucedido. Ele utilizou os mesmo ingredientes: lançou de surpresa e sem quaisquer convidados especiais. O título do álbum é inspirado por uma das maiores influências de Cole, o falecido rapper 2Pac. O título é claramente baseado no disco “All Eyez on Me”, que curiosamente também é o quarto álbum de estúdio de 2Pac. Em comparação com “2014 Forest Hills Drive”, esse novo álbum não apresenta tantos ganchos memoráveis ou fluxos versáteis. Por este motivo, em alguns momentos “4 Your Eyez Only” torna-se um pouco maçante e menos enérgico.

As letras de J. Cole são maduras e elegantes, enquanto o conceito por trás do projeto é baseado em um amigo do rapper que faleceu. Não há dúvidas de que o álbum toca em duras verdades sobre saúde mental e preconceito racial. O ouvinte pode claramente ouvir a dor, frustração e desespero de J. Cole durante parte do repertório. Ao contrário de seus álbuns do passado, Cole compilou neste trabalho uma longa história sobre a injustiça que os afro-americanos enfrentam na sociedade. “Derramamento de sangue transformou a cidade em um campo de batalha, eu chamo de veneno, você chama isso de real”, Cole fala em “Change”, antes de narrar os momentos finais da vida de James McMillan Jr., cuja vida foi interrompida aos 22 anos de idade. A fragilidade da vida, particularmente a dos jovens negros que são abatidos pela violência, molda a frustração e o desespero que permeia o álbum. O registro começa com “For Whom the Bell Tolls”, onde Cole diferencia a seriedade deste álbum em comparação com seus discos anteriores.

A instrumentação gospel, acompanhada por letras que lidam com tendências suicidas, reflete um homem exausto à beira de desistir de tudo. O baixo de “Immortal” é muito bem combinado com a voz sutil e produção texturizada de Frank Dukes e Cardiak. A abordagem agressiva e entusiasta de J. Cole, por sua vez, consegue deixar a música mais diversa. “Deja Vu”, produzida por Vinylz e Boi-1da, oferece boas batidas de bateria, um gancho cativante e um potencial radio-friendly. Mesmo inclinando-se para algo mais comercial, J. Cole não sacrifica sua autenticidade nesta música. A sutileza, produção, violinos e performance vocal de Cole em “She’s Mine Pt. 1” chamam bastante atenção. O seu esforço, confiança e reflexiva introspecção resultaram em algo muito agradável. “Neighbors”, baseada em uma história real sobre a polícia sendo chamada para a casa de Cole no início de 2016, tem um potencial para single. Enquanto o funky “Foldin Clothes”, com seu baixo groovy e ótima percussão, também é algo facilmente acessível.

A penúltima faixa, “She’s Mine Pt. 2”, é ambiciosa, minimalista e serve como uma explicação da complexa história que percorre o álbum. Embora a faixa-título, “4 Your Eyez Only”, não seja uma das minhas favoritas do álbum, ela menciona problemas pertinentes e atuais, como o aspecto racial do encarceramento em massa. “Eu tento encontrar emprego mesmo se estiver limpando banheiros / Mas esses crimes estão fazendo a vida mais difícil / Resistindo à tentação de correr e roubar uma carteira”, J. Cole diz aqui. A produção desta canção de 8 minutos é de primeira classe e o lirismo muito descritivo e emocionante. “4 Your Eyez Only” pode ser considerado um ótimo acompanhamento para “2014 Forest Hills Drive”, mesmo sendo inferior ao mesmo. Sua narrativa é uma clara crítica ao sistema de justiça americano. É um álbum bastante lírico, musical e bem administrado. J. Cole mostra que álbuns de hip-hop podem facilmente exibir profundidade lírica e destreza.

Favorite Tracks: “Immortal”, “Deja Vu” e “Neighbors”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.