Resenha: J. Cole – 2014 Forest Hills Drive

Lançamento: 09/12/2014
Gênero: Hip Hop, Rap
Gravadora: Roc Nation / Columbia Records
Produtores: J. Cole, Mark Pitts, !llmind, Phonix Beats, Vinylz, Willie B, Pop Wansel, Ron Gilmore, Jproof, Nick Paradise, Dre Charles, Cardiak e CritaCal.

Jermaine Lamarr Cole, mais conhecido por J. Cole, é um rapper e cantor americano de Fayetteville, Carolina do Norte. Para quem não o conhece, ele ganhou reconhecimento em 2007, após o lançamento da sua mixtape “The Come Up”. Logo depois, em 2009, assinou um contrato com a gravadora do rapper Jay-Z, a Roc Nation, e, no final de 2014, lançou o seu terceiro álbum de estúdio, “2014 Forest Hills Drive”. O disco foi produzido, em grande parte, pelo próprio J. Cole junto de outros nomes, tais como Vinylz, Phonix Beats e Willie B. O álbum foi anunciado três semanas antes do seu lançamento, portanto, consequentemente, tinha pouco marketing, nenhum single ou quaisquer promoção. Posteriormente, foi apoiado por dois singles, “Apparently” e “G.O.M.D.”, e estreou em #1 na Billboard 200 dos Estados Unidos, ao vender incríveis 371 mil cópias na primeira semana. Outro fato curioso à respeito do disco é que nenhuma das 13 faixas têm algum convidado especial.

O título do álbum é uma homenagem ao endereço de sua última casa de infância, localizada em Fayetteville, que ele recomprou recentemente. A homenagem serviu como um momento de reflexão da sua história e sucesso atual, ligada a memórias de infância, e interpolando com contos de luxúria, crescimento e gratidão. Nesse trabalho, J. Cole se entregou de uma forma incrível e autêntica, um material com uma carga de profundidade, honestidade e auto-análise, que trouxe uma infinidade de emoções. Cole injetou cordas clássicas, pinceladas de jazz, piano e outros elementos que manteve o repertório fresco, enquanto habilmente aborda temas sérios, como o caso de Ferguson, apropriação cultural e a falta de uma figura paterna. Uma “Intro”, com pouco mais de 2 minutos, abre o álbum. Ele canta sob acordes de piano, o que já passa a impressão de ser um trabalho realmente pessoal. Uma batida suave conduz a faixa “January 28th”, uma das músicas mais interessantes do álbum.

“Qual é o preço da vida de um homem negro?”, ele pergunta na letra. É uma das várias faixas inspiradas por sua missão no caso Ferguson. Aqui, Cole também se compara a Rakim e declara ser um Deus do hip-hop. Na segunda faixa, “Wet Dreamz”, o rapper faz um relato franco a respeito do tempo que perdeu sua virgindade. As batidas de “Wet Dreamz” são ótimas e sua letra funciona bem, porque é algo confessional e relacionável com o público. A boa sequência não pára, pois, logo em seguida, temos a fascinante “03′ Adolescence”. Seu instrumental é exuberante, possui violinos e onde Cole continua sendo vulnerável ao mostrar o crescimento de suas narrações. “A Tale of 2 Citiez” é outra canção habilmente trabalhada, que consegue transmitir o tom de ameaça contido na letra. A batida mais grave, fornecida pelo produtor Vinylz, é sublime e intensa.

J. Cole

“Fire Squad” é uma pista sólida, porém, bem controversa. Também produzida por Vinylz, essa música ganhou repercussão antes mesmo do lançamento do disco, porque J. Cole cita os rappers Eminem, Macklemore e Iggy Azalea em sua letra: “A história se repete e isso é apenas como ela vai / Mesma forma que esses rappers sempre mordem uns aos outros fluxos / A mesma coisa que meu mano Elvis fez com Rock n Roll / Justin Timberlake, Eminem, e depois Macklemore (…) / Assista Iggy ganhar um Grammy, como eu tento abrir um sorriso / Eu só estou brincando, mas todas as boas piadas contêm uma merda verdadeira”. Basicamente, Cole aborda sua frustração com a apropriação da cultura negra. Voltando para uma vibe mais descontraída, temos a ótima faixa “St. Tropez”, onde Cole explora mais dos seus vocais. “G.O.M.D.” (abreviação de “Get Off My Dick”) é uma canção bem instável, onde ele faz um som típico de hip hop.

Em seguida, desviando-se de assuntos polêmicos, temos a faixa “No Role Modelz”. Aqui, Cole explora a diferença entre as mulheres independentes e as que ele ama. A décima faixa, “Hello”, volta para o piano de maneira bastante comovente, onde harmonias apaixonadas se sobressaem. É bem sequenciada musicalmente, conforme ele empurra o seu sofrimento existencial e expõe a ideia de que o que você quer, não é necessariamente o que você precisa. “Apparently”, primeiro single do álbum, é uma faixa com uma ótima instrumentação e produção. Seu arranjo, à base de piano, é muito atraente e na letra ele revela em um tom arrependido, que estava muito ocupado perseguindo mulheres em Nova York para consolar sua triste mãe em Fayetteville. “Love Yourz” é outra agradável canção, com um instrumental mais simples e uma exploração de um dos temas preferidos de J. Cole.

Ele fala sobre a relação do seu status de celebridade com a ameaça da conexão com a sua realidade. O número de encerramento é “Note to Self”, faixa que possui nada menos que 14 minutos de duração. É definitivamente um enchimento, onde a maioria das pessoas, provavelmente, escutarão apenas uma vez por completo. Eu confesso que ainda consegui escutar duas vezes por inteira. “2014 Forest Hills Drive” é um disco pessoal, decente e com um jogada ousada e corajosa. É um álbum experimental e um ótimo sucessor para o disco “Born Sinner” de 2013. Os fãs de Cole, provavelmente, estão satisfeitos com o produto final desse disco, pois é um material de muita qualidade. A sua humanidade é um dos traços mais fortes de sua personalidade, e ele mostrou muito dela durante o repertório do “2014 Forest Hills Drive”. É menos artístico do que aparenta ser, mas é um disco profundo, ambicioso, cheio de determinação e com uma boa engenharia de som.

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Favorite Tracks: “Wet Dreamz”, “03′ Adolescence”, “A Tale of 2 Citiez”, “Hello” e “Apparently”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.