Resenha: Ingrid Michaelson – Lights Out

Lançamento: 15/04/2014
Gênero: Indie Pop
Gravadora: Mom + Pop Music
Produtores: Ingrid Michaelson, Trent Dabbs, Barry Dean, Kevin May, Mick Lynch, Mat Kearney, Brian Lee, Adam Pallin, Ian Axel e Chad Vaccarino.

“Lights Out” é o disco mais recente da americana Ingrid Michaelson, lançado em abril de 2014 e composto por 14 faixas. É o seu sexto álbum de estúdio, lançado de forma independente sob distribuição exclusiva da gravadora Mom + Pop Music. “Lights Out” estreou em #5 na parada Billboard 200 dos Estados Unidos, vendendo 37 mil cópias em sua primeira semana. Para quem não a conhece, Michaelson é descendente de suecos, seu pai, Carl Michaelson é compositor e sua mãe, Elizabeth Egbert foi uma escultora. Começou a tocar piano aos 4 anos de idade e é graduada em teatro pela Binghamton University, enquanto sua voz é profunda e soulful. Nesse disco, ela experimentou muitas coisas, desde o synthpop, até o funk e baladas no piano. Costuma sempre mudar sua abordagem ao escrever suas músicas, auxiliada neste álbum por 10 co-autores. Ela consegue escrever canções cativantes e sensíveis, mas evita ficar atolada em superproduções.

Especialmente aqui, no “Lights Out”, sua voz está soando mais cheia de sentimento e alma, trazendo consigo um repertório mais aventureiro. Suas letras falam sobre amores perdidos e novos relacionamentos, enquanto a produção é bem polida. Ingrid Michaelson é uma artista muito independente, no sentido de continuar sempre a frente da própria carreira, lançando músicas em seu próprio selo, com apenas orientação da equipe de gestão que a descobriu em 2006. Ela tem a boa reputação de fornecer álbuns consistentemente sólidos, como por exemplo, os “Girls and Boys” e o “Be OK”. O “Lights Out”, por sua vez, é um passo mais dramático e um pouco fora de sua zona de conforto, algo já perceptível pela arte da capa. É sonoramente o seu trabalho mais mainstream, até à data, lançado em um momento que está vivenciando um relacionamento feliz com seu marido, o cantor e compositor Greg Laswell, e seus filhos.

Ao longo do repertório ouvimos músicas inteligentes, cativantes, batidas ressoantes, melodias pop refinadas e o vocal impressionante da cantora. Não é sempre que um álbum é capaz de cobrir uma gama de características e ainda alcançar a coerência como um todo, mas cada faixa no “Lights Out” faz isso com precisão. “O ano passado foi um dos mais desafiadores da minha vida. Este álbum é um reflexo de tudo isso. É sobre o que está sendo empurrado para os seus limites e procurando ajuda de algo diferente de si mesmo”, disse a cantora à respeito do material. “É sobre deixar ir e estar tudo bem com isso, simplesmente aceitar”, finalizou. O disco também conta com algumas boas colaborações com outros artistas, como seu marido Greg Laswell, Trent Dabs, Mat Kearney, A Great Big World e Storyman. O álbum começa com o tom otimista da faixa “Home”, uma bela canção sobre onde o coração se sente seguro e confortado. É um forte número pop, melódico e uma ótima introdução para as habilidades vocais da cantora.

Ingrid Michaelson

A contagiante “Girls Chase Boys” foi lançada como primeiro single, canção co-escrita com Dabbs e Dean. É uma das melhores e mais comerciais faixas do disco, construída por uma melodia doce e saltitante e apresentando um significado mais profundo do que aparenta. A sua primeira linha já entrega instrumentais animados e tanto sua ponte como o refrão, são bastante cativantes. O vídeo da música é uma homenagem a “Simply Irresistible” de Robert Palmer, um amálgama de homens e mulheres maquiados e com roupas coloridas dançando sensualmente. Na terceira faixa, “Wonderful Unknown”, Michaelson faz um dueto com o seu marido e frequente colaborador Greg Laswell. Ele emprestou o seu barítono encorpado para cumprimentar, com eficiência, os seus tons suaves. Eles se envolveram de uma maneira verdadeiramente muito bonita nessa canção.

É uma música cheia de uma felicidade doméstica, com pequenos detalhes que ajudaram a pintar um retrato de um casal realmente feliz. Sonoramente, Ingrid Michaelson conduz a música com seu soprano introspectivo e com uma melodia melancólica, que por muitas vezes permeia o seu habitual repertório. O ritmo decola, novamente, com a faixa “You Got Me” em colaboração com o duo Storyman (Kevin May e Mick Lynch). É um funky bem divertido e alegre, com um instrumental construído por banjo. “Warpath” é ainda melhor que “You Got Me”, uma música pop-rock sólida, radiofônica e impulsionada por palmas, que apesar de ser liricamente simples, é rica musicalmente. Sua introdução, feita com vocais acapela, funcionou bem, sua capacidade em misturar vocais crus com aplausos é o seu maior atrativo. “Handsome Hands” tem uma melodia obscura e evocativa, logo no início ela já começa assustadora, e depois fornece sons de trompas e até de trombeta. Não é uma das melhores faixas, entretanto, consegue destacar o alcance do dinâmico vocal de Michaelson.

Sua produção lembra canções de Florence + the Machine e Kate Bush, além trazer letras melancólicas e dramáticas. Aqui, Ingrid Michaelson lamenta: “When the fallout comes we know the show must go / Please just give to me your handsome hands / Then I really won’t care where my body lands”“Time Machine” é outra faixa bem polida, com tom otimista e um instrumental fantástico. O saxofone faz um trabalho maravilhoso nessa faixa, que junto da guitarra e do piano, foram pontos essenciais para tornar a música atraente. A letra reflete o que ela faria se pudesse voltar no tempo, lamentando um relacionamento com alguém que não valia a pena. Michaelson soa tão bem ao misturar sua voz com vocalistas masculinos, que qualquer música acaba sendo irresistível. O melhor exemplo disso é “One Night Town”, uma colaboração com o cantor de pop-folk Mat Kearney. Ele junta-se a Michaelson para espalhar uma mensagem de viver o presente e desfrutar da sua vida. As suas batidas despreocupadas ofereceram uma nova e divertida perspectiva sobre os dois artistas.

Ingrid Michaelson

Em seguida, a cantora encontra espaço para fazer duas baladas expansivas com Trent Dabbs, as intercambiáveis “Open Hands” e “Ready to Lose”. Ambas as faixas são conduzidas pelo piano, “Open Hands” possui um som mais aberto e lembra algumas outras artistas pop femininas (como Vanessa Carlton e Sarah McLachlan). Os vocais estão no ponto, e a letra é muito poética: “Open hands are hard to hold onto anyway”. Sua voz, quando decola como aqui, transmite uma verdadeira e profunda emoção. A música passa a impressão de que ela está lidando com alguma perda, em questões amorosas. “Ready to Lose”, por sua vez, destaca ainda mais os vocais de Ingrid, seguindo a mesma emoção da faixa anterior (“It’s the heart in you / I know it in my bones / That made me change direction / When I thought better off alone”). Ela fala sobre estar disposta a perder tudo, exceto aquele que ama.

“Stick” está entre minhas favoritas do disco, um número uptempo, com batidas mais fortes, ótimos arranjos e boas harmonias. A bateria eletrônica e as cordas conduzem o som, a música é realmente muito cativante, com a letra falando de uma separação amarga da cantora. A arrebatadora “Afterlife” é outro grande momento do álbum, ostentando um som contagiante, uma batida firme e um emocionante refrão (“We’re gonna live tonight like there’s no tomorrow, ‘cause we’re the afterlife”). É um verdadeiro ode triunfal ao amanhã, com pensamentos de sobrevivência e gritos triunfantes, o refrão definitivamente enfatiza a mensagem dentro das letras. O agridoce e gentil “Over You” é acompanhado pelo duo musical A Great Big World (conhecidos por seu single “Say Something” com Christina Aguilera). Semelhante à “Say Something”, essa música é melancólica, emocional e dirigida pelo piano. Embora seja um número um pouco cansativo, aqui temos a voz de Michaelson complementando muito bem o vocal dos rapazes.

O disco é concluído com a vulnerável e pensativa “Everyone Is Gonna Love Me Now”, um número delicado que começa como uma balada no piano e depois constrói um refrão crescente e constante, sustentado por uns “woah oh”, que serve como clímax da canção. No geral, “Lights Out” é um álbum muito bom, onde Michaelson canta sobre um amplo espectro de emoções. Ela exibe seu crescimento e maturidade como cantora e compositora. É um disco salpicado com algumas faixas notáveis, que poderiam até ser grandes singles, se lançados. Michaelson fez o que ela faz de melhor e, no processo, para mim, pode ser considerado o seu melhor disco até o momento. Este registro é direcionado por sua ambição, no sentido de letras sinceras e excelentes instrumentais. Se Ingrid Michaelson continuar a se concentrar em seus pontos fortes e aperfeiçoar sua arte, ela pode crescer ainda mais como artista. Pois o “Lights Out” é exatamente o tipo de esforço maduro e equilibrado, que poderíamos esperar de uma cantora/compositora como ela. É um material com uma entrada mais que satisfatória em sua sólida discografia, e um dos melhores álbuns pop de 2014.

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Favorite Tracks: “Home”, “Girls Chase Boys”, “Time Machine”, “Stick” e “Afterlife”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.