Resenha: Imagine Dragons – Smoke + Mirrors

Lançamento: 17/02/2015
Gênero: Pop Rock, Rock
Gravadora: Interscope Records
Produtores: Alex da Kid e Imagine Dragons.

Imagine Dragons é uma banda americana de Las Vegas, Nevada, formada pelo vocalista Dan Reynolds, o guitarrista Wayne “Wing” Sermon, o baixista Ben McKee e o baterista Daniel Platzman. Eles ganharam reconhecimento na indústria na sequência do lançamento do seu primeiro álbum de estúdio, “Night Visions”, e, consequentemente, do sucesso dos singles “It’s Time” e “Radioactive”. Gravado durante 2014, no estúdio caseiro da banda, “Smoke + Mirrors” é o título do segundo álbum de estúdio deles. Foi auto-produzido pelos membros da banda, juntamente com o produtor inglês Alexander Grant, conhecido por seu apelido Alex da Kid. Em sua semana de lançamento estreou em #1 na Billboard 200 dos Estados Unidos, com vendas de 172 mil cópias. Em 2012, com o “Night Visions”, a banda provou que um registro poderia ser um enorme sucesso mesmo sem depender de letras sobre sexo, drogas e outros conteúdos para atrair atenção. Além disso, mostraram que são uma banda excepcionalmente poderosa ao vivo, capazes de transcender a natureza, muitas vezes, estofadas de suas produções de estúdio. Em uma entrevista para a Rolling Stone, Reynolds afirmou que o sucessor do “Night Visions” seria diferente e que a banda pretendia lançar um álbum mais despojado.

Ele ainda acrescentou que “nós abraçamos um monte de influências de hip-hop com o Night Visions, mas acho que o próximo álbum será mais orientado para o rock”. “Smoke + Mirrors” é um registro mais ousado que seu antecessor, ele consegue captar tudo sobre uma banda que adquiriu um sucesso repentino e inesperado. Suas músicas são recheadas de boas ideias, colisões sonoras estranhas e ritmos sólidos. O seu processo criativo começou a ser feito antes mesmo da conclusão da era “Night Visions”. Desde o início da tour do álbum em 2012, a banda já estava escrevendo novos materiais para o projeto que resultou no “Smoke + Mirrors”. É um registro que também tentou atrair novos ouvintes e melhorar o status ruim que a banda tem perante a crítica especializada. Isto acabou tornando o disco em um nítido esforço em querer agradar todo tipo de público. Portanto, muito neste álbum acabou transformando-se em algo estranho de se ouvir, no entanto, não se pode deixar de admirar a ambição da banda. “Smoke + Mirrors” abre com a canção “Shots”, terceiro single oficial do álbum. Uma música que pode soar estranha de início, visto que é um pouco diferente das músicas que o Imagine Dragons está acostumado a lançar, mas é definitivamente notável.

Aqui, os vocais de Dan Reynolds estão leves, apesar do conteúdo lírico escuro, enquanto a guitarra de Wayne Sermon adiciona uma boa textura. Foi totalmente produzida e escrita por todos os quatro membros, que optaram pela utilização de pesados sintetizadores em sua composição. É uma faixa com elementos de rock, mas que passa longe de ser especificamente do gênero. “Shots” é fortemente influenciada pela década de 1980, enquanto ainda brinca com diferentes sons. De início, ela traz um pouco do lado industrial da banda, ao manter um período introdutório com uma nota alta, picos de guitarra e um sintetizador pesado. Enquanto isso, Dan Reynolds entra com seus incríveis vocais e um pedido de desculpas: “Me desculpe por tudo / Oh, tudo que eu fiz”. Baseado em uma melodia otimista, é interessante ver Reynolds mergulhar em letras preenchidas por remorso e honestidade. “Me desculpe por tudo, oh tudo que eu fiz / A partir do segundo que nasci / Parece que eu tinha uma arma carregada / E então eu atiro, atiro, atiro em tudo que eu amei / Oh, eu atiro, atiro, atiro através de cada coisa que eu amava”, ele canta.

Imagine Dragons

O refrão é absolutamente viciante, praticamente um flashback dos anos 80, apoiado por sintetizadores, teclados e uma batida constante de bateria. Em sincronia com a música, o lirismo mostra uma profundidade, com foco na superação de adversidades pessoais e viver a vida cheia de arrependimentos. Por conta do seu ritmo fenomenal e vocais brilhantes eu, particularmente, considero “Shots” a melhor coisa presente neste álbum. Eu admito que eu realmente não gostei quando ouvi “Gold”, segunda faixa, pela primeira vez. Ela desacelera um pouco o ritmo imposto por “Shots” e parece ser uma música mais conflituosa. Uma canção sobre as lutas para tornar-se famoso e rico (“Primeiro vem a benção / De tudo o que você sonhou / Mas aí vêm as maldições / De diamantes e anéis”). Uma pequena indicação de que talvez Reynolds e seus companheiros não tiveram momentos fáceis para chegar ao estrelado e reconhecimento mundial. Sonoramente, “Gold” é quase uma sequela de “Radioactive” e acaba trazendo abruptamente de volta seus sons industriais. O seu início possui efeitos interessantes e um toque agradável, e, ao todo, incorpora rap e assobios sobre os gigantescos e usuais tambores da banda.

A melodia é meio sincopada e propositalmente enganosa, enquanto emocionalmente dinâmica e cantada por vocais com um efeito incomum, que a fizeram soar grande e atraente. A terceira faixa, “Smoke and Mirrors”, desacelera consideravelmente o ritmo do álbum, pois é ainda mais lenta e sentimental, além de assombrosamente bela. Os seus vocais conseguem criar uma atmosfera e um verdadeiro cenário de balada emocional. Os dois modos definidos nas duas primeiras faixas aparecem juntos aqui. Ela é igualmente estranha musicalmente, graças aos seus sintetizadores e influências eletrônicas. Essa parece ser uma direção óbvia para a banda, ou seja, criar novos estilos, mas mantendo o seu antigo. “Smoke and Mirrors” realmente tem uma certa profundidade e ainda oferece uma das melhores melodias do álbum. Em alguns momentos ela simplesmente explode, por alguns segundos, em energia e ruídos, mas o seu sentimento geral é de uma canção bastante suave. O refrão é, basicamente, uma mistura de suaves falsetes e uma raiva contida. Em seguida, temos um inesperado rock alternativo apresentado sob o título “I’m So Sorry”. Uma brincadeira barulhenta e com um valor de produção mais pesado, algo bem diferente do que costumamos ouvir do Imagine Dragons.

É um dos números mais fortes do álbum, ás vezes doce e delicada, mas, no geral, uma música vibrante, distintiva e cheia de atitude. A guitarra de Wayne está deliciosamente suja e oferece um riff bluesy que, em alguns momentos, nos faz lembrar do The Black Keys e alt-J. “A vida não é sempre como você pensa que é / Vire a cabeça por um segundo e o jogo muda”, esse é alguns dos conselhos que a música transmite. Eles correram alguns riscos aqui, mas é uma faixa que mantém o álbum interessante e evita que ele pareça uma mera continuação do “Night Visions”. É uma canção mais fiel às suas raízes rock e, mesmo que não seja um grande êxito, deu ao álbum uma cadência e direção que tanto necessita. Sua única desvantagem é o seu interlúdio sentimental no piano, mas isso é restaurado logo depois. O primeiro single, “I Bet My Life”, aparece em seguida e captura toda a essência das faixas mais bem sucedidas que fizeram a banda famosa. Inspirada pelo gospel, é uma música cheia de pesar e tristeza, tudo impulsionado por bons riffs e pela voz poderosa de Reynolds. O refrão poderoso e a fusão entre gospel, folk, pop e rock, cantando estridentemente e combinado com as letras sobre Dan Reynolds, que fixa o seu relacionamento com seus pais, fizeram desta uma faixa bem sólida.

Muito diferente das outras faixas do álbum temos “Polaroid”, um número mais triste e cheio de aflição, mas que ainda mantém algum senso de esperança. O seu ritmo é lento, constante e calmante, algo fixado pelo baixo ao fundo. Embora não seja um destaque, possui a vantagem de ter uma batida muito cativante e uma bela melodia. “Friction”, sétima faixa, oferece uma fusão de estilos muito interessante, para se dizer o mínimo. É uma música centrada em torno de instrumentos de cordas orientais, onde ouvimos Imagine Dragons em seu mais agressivo e inclusivo, embora ainda impressionante. Eu realmente não sei o que a banda pretendia alcançar com esta canção, mas parece que buscaram influências em vários territórios. É uma atraente mistura de sons que realmente chama a atenção. Os seus tambores são muito poderosos e, juntamente com as escalas orientais e os vocais explosivos, constroem toda a natureza da música. Depois da tempestade em “Friction”, o álbum tenta brincar com nossas emoções durante a faixa “It Comes Back to You”. Uma música profunda e escura tematicamente, mas com uma melodia leve, falsetes edificantes e sobretons otimistas.

Imagine Dragons

Sua construção é lenta, enquanto a ótima bateria de Daniel Platzman mantém o seu movimento. É uma pausa bem-vinda para o repertório, após números mais agitados. Liricamente, é uma posição diferente sobre toda a ideia de fama, muito parecida com “Gold”. Reynolds canta sobre suas viagens à terapia para encontrar-se artisticamente e como ele pode se libertar de algumas coisas que a fama repentina lhe trouxe. “Sabiás e anéis de diamante / Eu tinha pensado em coisas maiores”, ele canta tentando resumir essa ideia, ao passo que transmite uma mensagem interessante. A nona faixa chama-se “Dream”, canção da qual inicia quase acusticamente e dá total destaque aos vocais. É uma música bem melancólica, um apelo para ser deixando em paz e evitar o mundo real. Começa suave e lenta, com Reynolds sussurrando sobre acordes de piano, mas, posteriormente, oferece vocais a plenos pulmões no forte refrão. A música ainda tem acompanhamento de violino e uma forte batida, mas a coisa toda cheira a angústia adolescente, sentimento muito semelhante ao da faixa-título. “Eu não quero problemas”, Reynolds proclama em “Trouble”, décima faixa. Essa é uma música de alta energia e uma das mais edificantes do álbum.

É, em sua essência, uma música country, mas em diferentes proporções. É muito energética e possui um instrumental sobrecarregado, que faz outra fusão de estilos e oferece um ritmo bastante rápido. É uma canção bacana, porém, não é uma das minhas favoritas no álbum. A décima primeira faixa, intitulada “Summer”, me chamou muito atenção logo de cara por conta da sua linha de baixo. Ben McKee realmente fez um ótimo trabalho aqui. É uma canção relaxante e com um senso de mistério em sua volta, algo que mantém a melodia mais suave e otimista. Ela possui uma verdadeira suavidade de uma noite de verão, contemplado pelo refrão melódico e os belos falsetes de Reynolds. “Hopeless Opus”, por sua vez, combina sons incomuns, para criar um efeito que é tanto agridoce quanto animador. Ela começa com sentimentos mais escassos, mas contendo uma série de efeitos diferentes que direcionam os vocais. O refrão é incrível e, definitivamente, um dos mais cativantes de todo o registro. Além disso, a música ainda oferece um fabuloso solo de guitarra, pontos para o guitarrista Wayne.

A última e canção mais longa do álbum, com pouco mais de 6 minutos, chama-se “The Fall”. Aqui, Reynolds descreve como se sente sozinho, embora a música também faça uma ideia de justiça. Ela começa incrivelmente leve e arejada, quase como se fosse uma mistura de diferentes carrilhões, conforme direciona-se para os instrumentos de percussão. Ela se sobressai principalmente por conta do ecos dos grandes tambores e do refrão adocicado. Toda a faixa é uma bela mistura de vários sons e efeitos amarrados, que acabam por fazer o álbum terminar com uma nota muito suave. Honestamente, “Smoke + Mirrors” foi uma agradável surpresa. Na primeira audição eu não gostei tanto quanto gosto do “Night Visions”, mas após mais algumas escutas e uma inspeção detalhada de cada música, eu acho que é, inclusive, superior ao mesmo. “Night Visions” é melhor em seu som, mas a maioria das canções do “Smoke + Mirrors” demonstram sinais de algo a mais. Portanto, mesmo este álbum não sendo uma obra-prima ou um projeto inovador é, sem dúvida, ótimo de se escutar. Assim, é exatamente o que poderíamos esperar do Imagine Dragons, um bom álbum, porém, sem nada de novo ou muito arriscado.

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Favorite Tracks: “Shots”, “I’m So Sorry”, “I Bet My Life”, “Friction” e “Hopeless Opus”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.