Resenha: Iggy Pop – Post Pop Depression

Lançamento: 18/03/2016
Gênero: Art Rock, Garage Rock, Hard Rock
Gravadora: Loma Vista Recordings
Produtor: Josh Homme.

Em 18 de março de 2016, Iggy Pop lançou o seu décimo sétimo álbum de estúdio, sob o título “Post Pop Depression”. Produzido por Josh Homme da banda Queens of the Stone Age, o álbum foi gravado secretamente e conta com a participação especial de Dean Fertita (Queens of the Stone Age) e Matt Helders (Arctic Monkeys). Iggy Pop foi o vocalista da influente banda The Stooges, da qual em 2010 foi introduzida no Hall da Fama do Rock. Os Stooges são amplamente considerados como peça fundamental na ascensão do punk rock, bem como uma banda influente de rock alternativo e heavy metal. Iggy também é muito popular como solista, abrangendo uma série de gêneros musicais ao longo de sua carreira, como rock, hard rock, new wave, jazz e blues. Em seu mais novo álbum, ele tenta revisitar seus momentos nos anos 1970, através da boa produção de Josh Homme. O registro em si não é tão ameaçador como o nome sugere, mas, ao longo de 9 canções, o gigante do rock apresenta um repertório coeso, introspectivo e com suas típicas excentricidades. No decorrer do disco, temos letras peculiares e uma forte instrumentação, com incríveis riffs de guitarra, notáveis linhas de baixo e percussões bem sólidas. Enquanto o trabalho solo de Iggy sempre foi diferente do seu trabalho com os Strooges, “Post Pop Depression” pode não parecer tão forte à primeira escuta. Ele não é tão intenso como o “Beat ‘Em Up”, não possui o brilho do “Brick by Brick”, assim como não é tão jazzy como “Avenue B” e “Préliminaires”. Entretanto, ainda é um álbum de qualidade, invocativo, espirituoso e muito interessante. Aparentemente, a inspiração para a faixa de abertura, “Break into Your Heart”, veio a partir dos pensamentos de Josh Homme perante Iggy Pop.

Ideias concebidas do ponto de vista de Homme sobre os altos e baixos da carreira de Iggy. A letra dessa canção define o tom para o restante do álbum. No melhor estilo Iggy Pop, a letra é sincera, honesta e direta ao ponto. “O tempo é tão apertado, está se fechando”, ele declara ao retornar para um estado lírico que lembra os Strooges. “Break into Your Heart” é um grande começo para o álbum, uma vez que fornece fortes riffs de guitarra e bons vocais. A batida e melodia ajudam a deixar o cantor no centro das atenções, enquanto os backing vocals apoiam a mensagem das letras. O primeiro single “Gardenia” é, sem dúvida, uma das melhores músicas de todo o registro. É uma canção que presta uma homenagem a uma mulher. Aqui, Iggy Pop descreve, de maneira atrevida, seu desejo sexual por uma prostituta: “Gardênia / Onde está você, esta noite ? / As ruas eram sua casa”. Mais uma vez, o grande catalisador da música foi Josh Homme. Ele forneceu uma ótima produção e ainda contribuiu com uma harmonização vocal durante o refrão. As guitarras e os tambores desta música inclinam-se para o rock alternativo, enquanto o baixo dá à música uma carga de profundidade. A linha de baixo, em particular, desempenha um grande papel na composição de “Gardenia”. O charme vocal de Iggy Pop, que lembra David Bowie, e a produção de Homme fizeram desta faixa a mais cativante do disco. Seguindo o fluxo jovial da faixa anterior, “American Valhalla” apresenta a angústia dos problemas e conflitos de Iggy Pop. Liricamente, não deixa de ser uma música triste. “A morte é a pílula que é difícil de engolir / Tem alguém aí? / Quem eu tenho que matar? / Eu não sou o homem com tudo / Eu não tenho nada, mas meu nome”, ele canta aqui.

A letra é sombria, sinistra e dramática, mas colocada sob uma ranhura bastante otimista. A seção rítmica e os riffs de guitarra desta música são mais sutis que o esperado, no entanto, formam um bom acabamento para o conteúdo lírico. Musicalmente, “In the Lobby” é uma das poucas faixas que fornecem um agitado balanço. De acordo com Josh Homme, esta canção foi um dos momentos mais colaborativos entre ele e Iggy Pop. É uma música que pode ser interpretada como algo que realmente esperamos do frontman dos Strooges. “Eu espero que eu não esteja perdendo minha vida esta noite”, ele canta de forma paranoica. “In the Lobby” mantém tudo muito interessante, antes de pavimentar o caminho para a faixa “Sunday”. Essa é a peça central do repertório e uma das melhores do álbum. Possui mais de seis minutos de duração e apresenta alguns dos mais nervosos riffs de Josh Homme. Também é impulsionada por uma linha de baixo padrão, fortes tambores, toques orquestrais, letras obscuras e diferentes vocais de apoio. Aqui, Iggy Pop analisa os perigos de envelhecer e as coisas inevitáveis que vêm a partir disso. Ele admite sentir medo e ansiedade perante isto: “Pego em sonhos desembaraçados um dia / Onde eu não tenho que provar / Envelhecer e, finalmente, domingo, uma tarde de domingo / Eu tenho tudo, e então e agora?”. “Sunday” começa tipicamente como uma canção de hard-rock, mas, em seguida, apresenta algo inesperado. A música começa com guitarras pontiagudas e vocais assombrosos e, posteriormente, exibe uma ranhura orquestral que altera a sua direção. A fusão do barítono de Iggy com o belo refrão orquestral funcionou perfeitamente bem. No fim, a faixa termina com cordas e trompas crescentes, que simbolizam a agonia conflitante da letra.

É uma mudança sonora inesperada e experimental, porém, muito bem-vinda. É a última coisa que você esperaria ouvir neste álbum, mas funcionou de uma forma incrível. “Vulture”, por sua vez, é uma canção acústica muito mais crua. Aparentemente, Iggy Pop apenas jogou a música no estúdio da forma como escreveu e criou, ou seja, sem grandes artifícios. É conduzida principalmente por uma guitarra acústica, enquanto o restante da banda construiu o som em torno disto. A faixa utiliza abutre como metáfora para falar sobre a morte: “Ao lado da estrada / Seu mal hálito / Cheira como a morte (…) / Abutre espera / Por uma vida para terminar”. Há alguns backing vocals que ajudam a dar um tom agonizante e teatral para ela, entretanto, no geral, é uma canção demasiadamente estranha e não tão bem sucedida como o esperado. Escrita e gravada antes da morte de David Bowie, “German Days” relembra os tempos que Iggy Pop passou em Berlin gravando os álbuns “Lust for Life” e “The Idiot” com o seu querido amigo. A canção começa muito bem através de riffs de guitarra hard-rock que nos remetem ao Led Zeppelin. Entretanto, conforme progride, perde um pouco o sentido de direção e acaba decepcionando. A letra faz menções ao Papa Bento XVI, fast-food alemães, champanhe gelado e bares clandestinos. Ela possui momentos de sentimentalismo e nostalgia, porém, faz o disco perder o impulso após vir na sequência de “Vulture”. A penúltima faixa, “Chocolate Drops”, é uma visão sobre a natureza superficial da fama e sucesso. “Quando você chegar ao fundo / Você está perto do topo / A merda se transforma em gotas de chocolate”, Iggy canta no refrão. Entre todas as faixas do álbum, essa é uma das mais influenciadas musicalmente por Josh Homme.

Ele fundiu excelentes acordes de piano com potentes riffs de guitarra, enquanto Iggy Pop acrescentou as letras. É um belo exemplo da faceta colaborativa existente no “Post Pop Depression”. As harmonias vocais e alguns toques de sinos, por sua vez, foram os complementos ideais para atmosfera sombria da música. “Paraguay”, faixa com mais de seis minutos de duração, fecha o álbum de forma brilhante. Guiada por guitarras espanholas, ótimos tambores e um ritmo balanceado, a canção vê Iggy Pop estabelecendo um cenário para o Paraguai. Basicamente, o cantor demonstra a sua vontade em renunciar uma vida de sucesso, a fim de viver em paz na América do Sul. “Sim, eu estou falando com você / Eu vou ir para o Paraguai / Para viver em um composto sob as árvores / Com servos e guarda-costas que me amam / Livre de críticas / Livre de maneiras e costumes”, ele proclama. Antes do lançamento, Iggy Pop sugeriu que este seria o seu último álbum. Se isto for realmente verdade, pode-se dizer que ele fechou sua discografia com um nota alta. “Post Pop Depression” é um registro incrível. O produtor Josh Homme utilizou os seus melhores métodos para criar este álbum. É um disco de hard-rock e art-rock de fácil digestão, que exala a honestidade brutal de Iggy Pop da melhor maneira. Assim como o “Blackstar” de David Bowie, este registro tem um tom depressivo e exibe algumas emoções reais. Durante todo o repertório, Pop reflete de forma sincera sobre sua vida pessoal e carreira. Também é uma representação musical de tudo que ele apresentou em seus lançamentos solo. O álbum é curto, com apenas 42 minutos de duração e 9 faixas, e feito à moda antiga. Como um todo, é um registro coeso que atinge níveis elevados durante as primeiras canções.

75

Favorite Tracks: “Break into Your Heart”, “Gardenia”, “In the Lobby”, “Sunday” e “Paraguay”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.