Resenha: iamamiwhoami – Blue

Lançamento: 07/11/2014
Gênero: Synthpop, Pop
Gravadora: To Who It May Concern
Produtores: Claes Björklund.

iamamiwhoami, projeto áudio-visual de música eletrônica liderado pela sueca Jonna Lee em colaboração com o produtor Claes Björklund, lançou em novembro de 2014 o seu terceiro álbum de estúdio. Entre os colaboradores do projeto, também temos o diretor de fotografia John Strandh e o cenógrafo Agustín Moreaux. Para esse terceiro álbum, iamamiwhoami também colaborou com o designer Mathieu Mirano. Seus vídeos, em particulares, foram fundamentais para o projeto ganhar notoriedade, alavancando a sua popularidade ao tornarem virais no YouTube. “BLUE” foi anunciado em 08 de julho de 2014 através de um trailer e, no mesmo dia, foi disponibilizado para pré-venda na etiqueta oficial de Lee, a To Who It May Concern.

É produzido, musicalmente, por Claes Björklund e visualmente dirigido por WAVE, projeto coletivo sueco formado por Lee, John Strandh e Agustín Moreaux. Os seus videoclipes são bastante surreais, às vezes sexuais e, outras, pesados. Inicialmente, o nome do projeto por si só, incitou várias pessoas à tentarem descobrir quem estava por trás do surrealismo synthpop apresentado. Os primeiros palpites dos internautas é que se tratava de algum empreendimento de Björk, Goldfrapp ou talvez da cantora Lady Gaga. No entanto, não demorou muito tempo para todos descobrirem que tratava-se de um projeto áudio-visual criado por Jonna Lee em colaboração com Claes Björklund.

Em janeiro de 2014, quando o vídeo de “Fountain” foi liberado, todos começaram a cogitar que iamamiwhoami estava se preparando para mergulhar no mainstream, enfraquecendo sua estranheza e optando por uma sonoridade mais acessível, a fim de expandir seu alcance musical. Por fim, todas essas hipóteses se confirmaram, porque o “BLUE” é o trabalho mais pop e cativante de iamamiwhoami. É um fascinante álbum, composto de dez faixas e repleto de grandes números pop. Possui um tom muito mais brilhante e expansivo do que seus antecessores, porém, com as mesmas peças visuais deslumbrantes. Assim como o “Kin” foi uma coleção mais coesa e acessível do que o “Bounty”, essa terceiro projeto é mais simplificado e não precisava de tantas promoções artísticas para causar um impacto emocional ao público. Beyoncé pode ter trazido o álbum visual para a massa, mas é o projeto iamamiwhoami, de Joanne Lee, o discreto veterano deste conceito.

iamamiwhoami

A faixa de abertura, “Fountain”, é uma canção repleta de ritmos distorcidos e uma estrutura mantida com o baixo, batidas persistentes e boas linhas de arejados sintetizadores. Possui, talvez, a melodia mais simples de Lee e sua equipe de colaboradores, enquanto os vocais estão fascinantes e encantadores. Os graves riffs em execução na faixa “Hunting for Pearls” traz o duo para o território dançante, tornando o seu som mais up-tempo do que realmente é. O seu vídeo, com cenas de Lee mergulhando, tenta mostrar uma liberdade que apenas a água pode permitir. A experimental e euforia meditativa de “Vista” abraça uma estética mais otimista, porém, ainda mantendo um senso de tranquilidade nos vocais. É gratificante ouvir como os acordes de sintetizadores complementam a voz de Lee nesta faixa.

“Deixe os outros nos esquecerem / Estamos chegando ao fundo disso”, ela canta na faixa “Tap Your Glass”. Seu toque está no lado mais suave do disco. Ele apresenta uma estética mais elegante, através de um vocal calmo e flutuante. Musicalmente, é acariciado por uma sonoridade eletrônica e sintetizadores cintilantes. “Blue Blue” é outra boa faixa que exibe perfeitamente os vocais sobrenaturais de Jonna Lee. Enquanto isso, “Thin” coloca sua voz sobre uma distante percussão, que a diferencia de qualquer outra coisa presente aqui. Tranquilos sintetizadores são introduzidos ao fundo, sobreposto por um coral de vozes que misturam-se com a voz de Lee. Cada canção do repertório consegue ter uma identidade, um fluxo distinto, que capta uma emoção própria. “Chasing Kites”, por exemplo, abraça um poder sutil e rastejante que parece vir do mar. Sua brilhante melodia é um dos momentos mais imediatamente envolventes do registro.

iamamiwhoami

É uma música bem estruturada e impecavelmente executada, que parece não ter sequer uma nota fora do lugar. Quase todas as músicas possuem mais de 5 minutos de duração, com exceção de “Ripple”. Uma faixa frenética e esquizofrênica, que ficou bem aquém do potencial das outras canções. Sua produção é meio irregular e transmite uma sensação desconexa e turbulenta. Por outro lado, “The Last Dancer” está entre as faixas mais marcantes do “BLUE”. É um número equilibrado e uma confiante viagem em águas pouco conhecidas pela dupla. Tudo começa soando enigmático e pode ser otimista ou deprimente, dependendo do seu ponto de vista. O refrão contém versos como: “Olhe para as estrelas no céu de inverno / Tudo irá sangrar hoje à noite / Que belo dia para morrer”, cabendo à você interpretar como uma desistência da própria vida ou uma gratidão por ter realizado todos os seus desejos.

“Shadowshow”, faixa de encerramento, lembra a sonoridade do ABBA, em especial, o disco “The Visitors”. É uma canção sedutora, que combinou as harmonias mágicas do ABBA, com melodias sinuosas e a assinatura do iamamiwhoami. Os fãs do duo não precisam se preocupar com relação a este trabalho mais “pop”. No que diz respeito ao som, muito do que o iamamiwhoami fazia permaneceu intacto, embora projetado de uma maneira diferente. Através dos vocais misteriosos de Jonna Lee, letras e instrumentação expressiva, foi possível criar um material de respeito. Um registro interessante, agradável e um passo ousado na direção certa. Têm uma acessibilidade maior, mas sem perder o senso de inovação.

iamamiwhoami sempre foi um projeto que favorece um manto de escuridão, mistério e, ligeiramente, macabro sobre qualquer outro traje. Neste último trabalho, vemos uma Jonna Lee saindo das sombras e indo para um território mais leve e edificante. As explorações lacrimejantes do “BLUE” demonstram uma nova e intrigante faceta para o projeto. Um álbum generoso em sua beleza, uma experiência onde eles demonstraram, mais uma vez, exatamente o que prometeram. O som do álbum é decididamente “aquático” e “frio”, com sintetizadores que se propagam como a água e brilham como gelo. Como mostrado nos vídeos, os visuais são mais leves e carregam canções mais atraentes para o grande público. Como um todo, “BLUE” oferece um tom consistente e assombra tanto quanto deslumbra.

74

Favorite Tracks: “Fountain”, “Hunting for Pearls”, “Vista”, “Tap Your Glass” e “Chasing Kites”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.