Resenha: Hozier – Hozier

Lançamento: 19/09/2014
Gênero: Blues, Soul, R&B, Folk, Indie Rock
Gravadora: Island Records
Produtores: Rob Kirwan.

O músico irlandês Andrew Hozier-Byrne, conhecido apenas por Hozier, lançou em setembro de 2014 o seu primeiro álbum de estúdio. O auto-intitulado disco foi precedido pelo hit “Take Me to Church”, que atingiu o top 10 nos principais mercados mundiais. Ele começou uma licenciatura em música no Trinity College, em Dublin, mas desistiu no primeiro ano, a fim de gravar demos para a Universal Music. Antes do lançamento do seu primeiro disco, ele havia lançado dois EPs: “Take Me to Church” (2013) e “From Eden” (2014). O álbum homônimo contém algumas faixas dos EPs e um total de treze canções. Até março de 2015, o disco já vendeu cerca de 510 mil cópias apenas nos Estados Unidos. Hozier possui uma grande voz, madura e capaz de alcançar altas escalas de profundidade e obscuridade. Com esse projeto, ele trabalhou nas profundezas da compreensão humana, apoiado por fortes coros, arranjos gospel e ásperos riffs de guitarra. Nesse incrível álbum de estreia, temos uma combinação rica de blues, R&B, soul e folk. Sua sonoridade é sombria, mas entregue com sinceridade e uma maturidade poética.

Redenções, amor, reflexões e gritos de guerra, são alguns dos principais temas presentes nas letras. Como resultado, vemos o irlandês sendo um retrato autêntico de um artista com alma e espiritualidade. Além de ser abençoado com uma voz sedutora, ele aparentemente possui um estilo caótico que flertou muito bem com a ótima escrita do material. A música de Hozier possui uma substância, ele bate diretamente em questões da realidade e envolve o ouvinte com suas letras pungentes. O clipe de “Take Me to Church” teve um grande impacto, acabou viralizando no YouTube e consequentemente ajudou a colocar Hozier nos holofotes. O vídeo tenta socializar as pessoas quanto aos direitos dos homossexuais e faz referências às perseguições que a comunidade LGBT sofre na Rússia. Musicalmente, é uma canção de blues-rock, maravilhosa obscura, com infusão gospel e versos iniciais que ditam o tom do álbum: “Minha amada tem humor / Ela dá aquela risadinha no funeral / Ela sabe que todos desaprovam / Eu devia ter venerado ela mais cedo”.

Hozier

Mas o ápice da música acontece no esplêndido refrão, onde Hozier exibe o seu dinâmico alcance vocal: “Me leve à igreja / Louvarei como um cão no santuário de suas mentiras (…)”. Em “Angel of Small Death and the Codeine Scene” Hozier parte em uma tensa viagem, com palmas, bateria e cordas arranhadas de guitarra durante o refrão. Diferente da versão apresentada em 2013, aqui a música veio com camadas de guitarra e uma batida de bateria, que muda a sensação da música e recebe um novo sopro de vida. “Jackie and Wilson” é um faixa retrô tonificada de R&B, apoiado por um potente coro e harmonias angelicais. É realmente uma canção divertida, desde a melodia lúdica até as doces letras autobiográficas. O estilo musical, a origem irlandesa e o cabelo desgrenhado de Hozier parece uma reminiscência de Van Morrison, que possui coincidentemente uma faixa intitulada “Jackie Wilson Said”. A faixa seguinte, “Someone New”, é uma das melhores e mais descontraídas do disco, um fantástico soul vintage otimista.

Uma progressão de acordes, levemente distorcidos, introduzem o tema principal de amor e conflitos da faixa, onde ele reconhece: “Então eu me apaixono um pouquinho / Todos os dias por alguém diferente”. O seu refrão é cativante e vai ficar instantaneamente em sua cabeça por dias. O recurso incrível dessa música é a sua simplicidade, que é tanto moderada quanto atraente. Enquanto isso, em “To Be Alone” Hozier sensualmente prega que: “É uma sensação boa, menina, é bom / Para ficar sozinho com você”. Nessa faixa, ele retorna para o blues, com licks de guitarra e vocais de apoio simplesmente incríveis. “From Eden” possui algumas semelhanças com “Take Me to Church” e, igualmente a mesma, possui melodias brilhantes e edificantes. O seu tema é bastante obscuro, com Hozier afirmando que a canção foi escrita a partir da perspectiva do diabo olhando para algo inocente e puro, da qual ele não pode resistir ou corromper. Hozier tentou brilhantemente comparar seu inocente amor com o jardim do Éden, em um blues/rock otimista e adorável.

Na canção de ninar folk “In a Week”, ele promete algo à uma moça, através do doce abraço de uma morte compartilhada: “Dois cadáveres estávamos, dois cadáveres que vi / E eles nos encontrar em uma semana / Quando o clima fica quente / Após os insetos fizeram a sua reivindicação / Eu estaria em casa com você, eu estaria em casa com você”. Outra música mais escura, que fala sobre a morte e vê Hozier cantando do seu túmulo, enquanto os insetos se alimentam de sua carne. Essa faixa é cantada em dueto com a também irlandesa Karen Cowley. E, por incrível que pareça, Hozier conseguiu transformar um assunto macabro em algo bonito, em parte por causa das belas melodias e harmonias celestiais. “Sedated”, lançada como segundo single, é um blues, com influência soul, que traz letras sobre decadência pessoal. É outra ótima canção, apoiada principalmente por um belo piano, melodias gospel e um maravilhoso refrão. “Work Song”, destaque do EP “From Eden”, é uma das faixas mais emocionais do registro, um número lento que chega disfarçado como uma balada de amor.

Hozier

As batidas gospel e as constantes palmas definem o tom para a canção, que tornou-se uma vitrine perfeita para a rica e ressonante voz de Hozier. Os acordes de violão, apoiados por vocais femininos em “Like Real People Do”, ficaram tão belos quanto as letras. Esses singelos acordes e o vocal inocente, complementaram muito bem a simplicidade desta despretensiosa canção. O único equívoco aqui foram alguns efeitos que não ficaram bem colocados sobre a gravação. Eles acabaram reduzindo significativamente a intimidade da música e impedindo o ouvinte de conectar-se totalmente com o crueza da voz de Hozier. Assim como a faixa anterior, “It Will Come Back” é menos politicamente carregada e aborda uma gama de emoções que acompanham relacionamentos amorosos. Essa é bastante dinâmica, começa bem tranquila e altera o seu volume durante o refrão. “Foreigner’s God” é uma faixa que mostra a capacidade de Hozier para se jogar em uma variedade de estilos musicais. Essa é um pouco diferente das demais canções encontradas no álbum.

Ela lembra, em muitos pontos, a cantora Adele, porém, com uma borda ainda mais soulful. “Cherry Wine” encerra o repertório, uma faixa acústica e intimista, onde o cantor finalmente ganha sua procurada redenção (“O sangue é raro e doce como o vinho cereja”). Ilustra um relacionamento com o apoio de ressonantes riffs de guitarra acústica. No geral, apesar de ser um pouco extenso, esse álbum é uma estreia extremamente forte, imponente, convincente e quase sem falhas. A verdadeira força por trás da composição do álbum é encontrada na simplicidade de cada canção. Hozier conseguiu compilar treze belas faixas e apresentar uma majestosa interpretação vocal em cada uma delas. Sua voz consegue mergulhar em profundezas cavernosas e, embora seja um registro substancial, é surpreendentemente acessível. A sua maturidade discreta, para alguém de 25 anos, em seu disco de estreia, poderia servir como inspiração para outros jovens compositores. Por fim, só posso ressaltar que este registro é uma estreia corajosa, feita por um cara incrivelmente talentoso.

78

Favorite Tracks: “Take Me to Church”, “Jackie and Wilson”, “Someone New”, “From Eden” e “Sedated”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.