Resenha: Gwen Stefani – This Is What the Truth Feels Like

Lançamento: 18/03/2016
Gênero: Pop, R&B, Dancehall, Reggae
Gravadora: Interscope Records
Produtores: Tim Blacksmith, Danny D, Teal Douville, Mike Green, Greg Kurstin, Mattman & Robin, J.R. Rotem e Stargate.

Depois de dez anos, Gwen Stefani finalmente lançou um novo álbum solo. Divulgado em 18 de março de 2016, “This Is What the Truth Feels Like” é o terceiro álbum de estúdio da cantora. Stefani é dona de hits peculiares, canções verdadeiramente únicas e cativantes no seu próprio jeito. Ela começou sua carreira como vocalista do No Doubt, onde conseguiu grandes êxitos e sucesso comercial. Mas foi com o seu material solo que Gwen Stefani tornou-se uma verdadeira popstar e mostrou o quanto é versátil. Ao lançar o disco “Love. Angel. Music. Baby.” ela trocou o ska-punk do No Doubt por um som mais pop e R&B. Foi através das batidas do Neptunes em “Hollaback Girl”, que ela ganhou destaque no cenário pop. Em 2012, chegou a lançar um novo disco com o No Doubt, entretanto, não conseguiu qualquer impacto. Seu mais novo álbum, “This Is What the Truth Feels Like”, é um registro agradável, familiar e talvez o mais radio-friendly de sua carreira. Liricamente, é um material que reflete tudo que Stefani passou em sua vida pessoal nos últimos anos. Nesse meio tempo, ela se divorciou de Gavin Rossdale, com quem foi casada durante 13 anos, e começou a namorar o cantor Blake Shelton.

Em sua maioria, as doze canções do repertório abordam o fim do seu casamento e o início de um novo relacionamento. Ela fala sobre seus sentimentos, dor, traição, mágoas, amor e recomeços. Em comparação com o poderoso “Love. Angel. Music. Baby.”, este disco é mais cru e vulnerável. Entretanto, não é um projeto tão bom e completo como ele. Pois, embora tenha canções cativantes, possui algumas faixas aquém do esperado. Apesar do título, a faixa de abertura, “Misery”, é um número bastante otimista, onde Stefani supera a dor de um antigo relacionamento e cria expectativas por uma vida de felicidade. Com ajuda dos escritores Justin Tranter e Julia Michaels, a cantora compara o amor às drogas: “Você é como drogas / Você é como drogas para mim / Estou completamente afim de você”. Produzida por Mattman & Robin, “Misery” é uma faixa eletropop mid-tempo, que começa minimalista ao redor de palmas e uma linha de baixo. O desempenho vocal de Stefani é ligeiramente vulnerável, enquanto lembra algumas canções do álbum “Tragic Kindgom”.

O refrão cresce de forma potente e cativante, enquanto a música ganha mais apoio da percussão durante o segundo verso. A segunda faixa, “You’re My Favorite”, continua a explorar o tema amoroso, onde Gwen Stefani expressa o interesse por seu atual romance. “A maneira como você me beijava não era típica / Leva-me para fora do meu corpo, algo espiritual”, ela canta aqui. É uma canção bastante simples, a começar por blips modernos e um sintetizador cintilante. Ela possui um sulco refrigerado, pisa no território trap e faz uso de algumas batidas borbulhantes. Em resumo, é uma faixa açucarada, com uma melodia sensual e letras bastante sinceras. Em “Where Would I Be?” temos uma mistura irresistível do som solo de Gwen Stefani com o doce ska do No Doubt. Aqui, mais uma vez, a cantora elogia o seu atual interesse amoroso, perguntando-o onde ela estaria sem o seu amor: “Onde eu estaria garoto, se você não me amasse garoto? / Se você não me amasse garoto?”. Liricamente, ela se transforma em uma verdadeira e ingênua adolescente apaixonada.

Assim como em seus discos anteriores, Stefani brinca com o reggae nesta encantadora canção. A borda reggae de “Where Would I Be?” é combinada com o pop, ska e hip-hop, a fim de criar uma das melhores faixas do registro. É, sem dúvida, uma das minhas favoritas do álbum. A sua batida, definitivamente, não soaria fora do lugar se estivesse presente em algum disco do No Doubt. O seu refrão, por exemplo, transporta imediatamente o ouvinte de volta ao tempo. Enquanto isso, a ponte resgata o hip-hop das primeiras músicas solo da cantora, como “Hollaback Girl”, “Orange County Girl” e “Now That You Got It”. É uma música mid-tempo saltitante, sincopada, sólida e com um ótimo fluxo. Lançada como segundo single, o retrô-pop “Make Me Like You” também foi escrito por Gwen ao lado de Justin Tranter, Julia Michaels e os produtores Mattman & Robin. Alguns ouvintes podem achar que a pura felicidade e natureza otimista desse single seja bastante surpreendente, considerando os últimos acontecimentos na vida pessoal de Stefani. É uma canção disco-pop otimista, que utiliza guitarras, linhas de baixo funky e uma progressão de tambor em sua composição.

Gwen Stefani

Liricamente, a faixa fala sobre encontrar um novo amor, após um relacionamento frustrado. Aparentemente, a letra também foi inspirada por sua atual relação com o cantor Blake Shelton. “Make Me Like You” é sobre seguir em frente depois de um passado ruim, conforme ela declara no verso de abertura: “Eu estava bem antes de te conhecer / Estava destruída, mas bem / Estava perdida e incerta / Mas meu coração ainda era meu / Eu era livre antes de te conhecer / Estava destruída, mas livre / Sozinha por aí, mas agora você é tudo o que vejo”. Mais tarde, ela canta no contagiante refrão: “Por que você tem que me fazer gostar de você? / Sim, não estou acostumada com este sentimento / Por que você tem que me fazer gostar de você? Estou tão brava com você, pois agora sinto sua falta”. O refrão se instala em sua mente logo a partir da primeira escuta, assim como obtém pequenos cânticos e gritos, definidos pela frase “Oh God, thank God I found you”, que o torna ainda mais grudento. Sua produção é polida, retrô, com influências de funky e música eletropop da década de 1980.

Ela mantém a autêntica vibração presente em seus singles do passado, mas também incorporando os mesmo elementos disco de músicas como “Birthday” (Katy Perry), “Sugar” (Maroon 5) e alguns trabalhos de Kylie Minogue. Além disso, a faixa apresenta um riff de guitarra que destaca-se em cima dos charmosos sintetizadores e do empolgante refrão. “Truth”, faixa que deu inspiração para o título do álbum, nos mostra o lado mais cru de Gwen Stefani. Aqui, ela realmente está no seu momento mais vulnerável e emocional. É a primeira faixa do álbum que traz à tona o término do seu casamento com Gavin Rossdale. Ela fala sobre estar se recuperando e agradece o seu novo namorado por tirar sua tristeza: “Mas talvez eu mereça esse garoto / Depois de tudo que eu passei / Como pode tudo isso ser verdade? Juro / Obrigada por me salvar, eu não consigo acreditar”. Esta faixa exibe uma visão mais lírica do seu novo relacionamento com Blake Shelton. “Truth” é uma balada verdadeiramente honesta, auxiliada por uma produção simples e performance vocal emotiva. Alguns sintetizadores e belos riffs de guitarra, fornecem o cenário ideal para a introspecção da letra.

O primeiro single do álbum, “Used to Love You”, também reanima um lirismo que, originalmente, fez a cantora famosa. Tanto em carreira solo quanto como vocalista do No Doubt, Stefani sempre esteve no seu melhor quando coloca sua alma sobre a música. Musicalmente, “Used to Love You” é uma balada synthpop que apresenta apoio de um piano, sintetizadores e contidas batidas. Liricamente, a canção fala sobre um fim de relacionamento, onde a cantora se questiona como amava seu ex. Escrita logo após o divórcio, o seu conteúdo lírico chama atenção por ser vulnerável, enquanto a entrega vocal de Stefani é bastante comovente. Ela, em profundo estado de choque, exprime sua preocupação em versos como: “Nunca pensei que isso fosse acontecer / Preciso absorver isso, você foi embora”. Mais tarde, se pergunta tristemente no refrão: “Eu não sei porque chorei / Mas acho que é porque me lembrei pela primeira vez / Desde que odiei você / Que eu costumava amar você”. Além da produção aceitável, o arranjo do refrão impõe emoções incríveis, enquanto os sibilantes “oh, oh, oh” são peças muito cativantes.

Se você ver apenas a letra poderia esperar uma lenta balada, mas, na verdade, “Used to Love You” é uma mid-tempo com um fluxo otimista e ritmo oscilante. Nesse sentido, a faixa tem uma vibração muito semelhante a de “Cool”, single do álbum “Love. Angel. Music. Baby.”. O produtor J.R. Rotem a criou focando, principalmente, em influências oitentistas e dramáticas teclas de piano. A sétima faixa, “Send Me a Picture”, traz o foco para o seu novo amor e continua a nos dar um vislumbre sobre a sua relação com Blake Shelton. Mas, desta vez, o tema é a distância. Embora ambos não possam estar fisicamente juntos, podem pelo menos enviar uma foto de si. “Me envie uma foto nesse momento / Porque eu estou esperando tanto tempo / Para chegar bem na frente desses olhos”, Gwen canta no refrão. Sonoramente, “Send Me a Picture” é uma faixa mid-tempo que pisa fortemente no território dancehall. É uma canção suave, vocalmente sedutora, com melodias viciantes, vibe tranquila e batidas grudentas.

Gwen Stefani

A agressiva “Red Flag” foi a primeira música que Gwen Stefani escreveu para o álbum. Nesta faixa, temos as mesmas vibrações de hip-hop presentes nos seus dois primeiros álbuns. É uma canção sarcástica, irônica, experimental e um verdadeiro discuso de raiva contra seu ex-marido. “Olhe para você / Este é o seu castigo”, ela canta aqui. Inicialmente, “Red Flag” começa com violinos obscuros, antes da parte vocal energética tomar o cento das atenções. Influenciada pelo trap, é uma faixa divertida, com fortes batidas e onde Gwen Stefani coloca um pseudo-rap para fora. Embora seja uma oferta caótica interessante e faça a cantora voltar às suas raízes, esta música parece meio incoerente com o restante do álbum. Geralmente, colaborações com outros artistas sempre acontecem, a fim de garantir um potencial hit de rádio. Dessa vez, a equipe de Gwen Stefani escolheu o rapper em ascensão Fetty Wap para participar da canção “Asking 4 It”. É uma parceria bem inusitada e um tanto quanto surpreendente. O rapper tem um fluxo indecifrável e é realmente difícil entender o que ele fala em alguns versos.

Apesar da falta de química entre ambos artistas, “Asking 4 It” é uma canção de trap e hip-hop muito pegajosa e radio-friendly. As poderosas batidas são muito semelhantes as encontradas no álbum de estreia de Fetty Wap. A canção começa com Gwen Stefani perguntando: “Por que você quer ficar com alguém como eu / Oh por que, por que, por que você quer viver / Por que você quer viver de modo imprudente?”. Durante a ponte, Fetty Wap soa entediado e contribui com um verso desconexo e desnecessário. “Naughty”, em seguida, nos traz um grande sentimento de nostalgia, uma vez que explora a mesma sonoridade dos álbuns anteriores de Stefani. É uma oferta interessante que traz de volta o som old-school dos discos “Love.Angel.Music.Baby.” e “The Sweet Escape”. A faixa apresenta uma grande dose de energia e uma atitude selvagem de Stefani. Em seu conteúdo lírico, a cantora brinca com a suposta traição e mal comportamento do seu ex. É outra música sarcástica e intensa, que capta a raiva e dor da sua separação. É uma canção infecciosa em todos os aspectos, que exibe o típico estilo vocal de Gwen. A produção também é meio jazzy, visto que apresenta um riff de piano incongruente.

Isso nos leva para um dos pontos mais interessantes da música: a boa transição e mistura de alguns gêneros musicais. Em “Me Without You” vemos a cantora orgulhosamente se recuperando da dissolução do seu casamento, dizendo que não precisa mais do seu ex-marido em sua vida. É uma música que mostra ela ganhando forças, após o término traumático com Gavin Rossdale. “Não, eu não preciso de você um pouco, nem um pouco / Para mim, eu finalmente admiti”, ela canta. Aqui, vemos ela finalmente tentando ser otimista: “Eu posso amar quem eu quiser / Dizer o que quiser / Fazer o que eu quiser”. “Me Without You” é uma balada de auto-capacitação, guiada por suaves teclas de piano, pulsante batidas, palmas rítmicas e eventuais violinos. A edição padrão do álbum fecha com “Rare”, uma linda canção eletropop com influências folk. É surpreendente como Gwen Stefani encontrou alguém tão especial, após passar por um grande desgosto amoroso. Essa canção vê a cantora expressando como se sente ao lado do seu atual namorado. Com uma produção mínima, essa balada mid-tempo destaca-se por concentrar-se em uma instrumentação mais acústica.

Conduzida por uma suave guitarra e um vocal delicado, “Rare” consegue falar sobre o seu namorado sem soar exagerada (“Você é raro / E eu estou amando cada segundo, você não sabe? / Você é tão bom e nem sequer sabe”) É estranhamente mágica e agridoce. É uma linda canção que combina perfeitamente guitarras acústicas com sintetizadores arejados. Com o álbum “This Is What the Truth Feels Like”, Gwen Stefani conseguiu transformar a sua dor em arte. O repertório é composto, em sua grande maioria, por canções de amor e desgosto amoroso. É uma fusão do antigo e mais novo som de Stefani, tanto em termos líricos quanto na produção. Trabalhar com Justin Tranter e Julia Michaels em todas as faixas, foi uma jogada inteligente. O disco saiu como uma auto-terapia, em grande parte graças a esses dois escritores. “This Is What the Truth Feels Like” é um projeto equilibrado e principalmente honesto. A honestidade foi fundamental para dar um ar de maior qualidade para ele. Conceitualmente e musicalmente, é um material que valeu a pena esperar. Ele é muito mais elegante que seu último disco, “The Sweet Escape”, e mais maduro que o aclamado “Love.Angel.Music.Baby”.

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Favorite Tracks: “Where Would I Be?”, “Make Me Like You”, “Truth”, “Used to Love You” e “Rare”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.