Resenha: Gucci Mane – Mr. Davis

Lançamento: 13/10/2017
Gênero: Hip-Hop, Trap
Gravadora: GUWOP / 1017 Records / Atlantic Records
Produtores: Gucci Mane, Ben Billions, Cardiak, Chris Bosh, Cubeatz, Danja, Detail, DY, Frost, Hitmaka, Honorable C.N.O.T.E., Key Wane, Metro Boomin, Mike Will Made It, Murda Beatz, Myles Harris, Nav, OG Parker, Rex Kudo, Rico Love, Southside, TM88 e Zaytoven.

O pioneiro da música trap, Gucci Mane, lançou recentemente o seu décimo primeiro álbum de estúdio. Desta vez, ele tem mais a dizer sobre sua vida após sair da prisão. O nativo de Atlanta, de 37 anos, não atingiu o pico de sua carreira até 2016, ano do qual conseguiu pela primeira vez o #1 lugar na Billboard Hot 100. O seu novo álbum, “Mr. Davis”, é certamente um material mais confessional e detalhado. A lado de uma série de convidados, incluindo Nicki Minaj, Chris Brown, Migos, The Weeknd, A$AP Rocky, Big Sean, Ty Dolla $ign, Schoolboy Q e Slim Jxmmi, Gucci Mane fala sobre drogas e perda de controle de sua saúde mental. A carreira de Radric Delantic Davis influenciou o hip-hop, uma vez que ele é um dos pioneiros do gênero trap. Ele tem sido uma grande força no hip-hop por mais de quinze anos e, como de costume, manteve-se ocupado em 2017. Pouco depois de lançar a ótima mixtape “Droptopwop” (2017), com Metro Boomin, ele divulgou o álbum Mr. Davis. Este LP é mais parecido com “The Return of East Atlanta Santa” (2016), com observações sobre a sua conta bancária, mulheres, venda de drogas e referências ao passado. Ele decidiu que esse seria o momento certo para lançar um álbum como “Mr. Davis”, onde ele reflete sobre o “velho Gucci” e o “novo Gucci”. Ele é um rapper reverenciado na comunidade do hip-hop, uma vez que foi um dos responsáveis por levar Atlanta ao topo do gênero. Gucci Mane ajudou a desenvolver e popularizar o trap com seus fluxos mal-humorados, letras relacionadas com drogas e crimes, e tambores mascarados com múltiplos sintetizadores.

“Mr. Davis” mostra que o rapper possui uma grande paleta sonora à sua disposição. Entretanto, Gucci também luta para se afastar do seu fluxo testado no tempo, o que impede de cuspir versos de maior qualidade. O lirismo nunca foi o seu ponto mais forte. O esforço que ele coloca na escrita nem sempre está a altura da produção. Felizmente, Gucci é beneficiado pelo surpreendente número de produtores que gostam de trabalhar com ele. O álbum apresenta a produção de alguns dos melhores nomes do momento, incluindo Metro Boomin, Southside, Mike Will Made It e Zaytoven. Apesar de pecar pela longa duração e falta de progressão, “Mr. Davis” é um álbum bastante consistente. O repertório abre com “Work in Progress”, uma pequena apresentação de dois minutos produzida por Murda Beatz, onde ele diz: “Perdi meu pai no ano passado, nem chorei / Porque é tão difícil de derramar uma lágrima, ele nem tentou”. Gucci é transparente desde o início e transmite uma sensação autobiográfica. O single “I Get the Bag”, com Migos, é um testemunho da evolução do hip-hop sulista. Inicialmente lançado como single promocional, esta faixa pode ser considerada uma das melhores coisas que Gucci Mane criou depois que saiu da prisão. Um número trap cativante com interpolações de “Slippery”, single colaborativo entre os mesmos rappers. Produzida por Mike Will Made It, “Stunting Ain’t Nuthin” é uma ótima colaboração entre Gucci Mane, Slim Jxmmi e Young Dolph.

Enquanto Slim Jxmmi mostra que não é o elo mais fraco do Rae Sremmurd, Young Dolph destaca-se com o seu fluxo desenfreado. A sólida “Curve” é um dos destaques notáveis do repertório, principalmente por causa da participação de The Weeknd e batida incrivelmente escura e nervosa. “Enormous”, com Ty Dolla $ign, é outra grande jam para ele adicionar na sua extensa discografia. Uma canção espetacularmente infecciosa, mesmo sem comprometer a onda trap de Gucci Mane. Enquanto “Members Only” foi feita para as ruas (“Ludacris / Eu vendi droga, sim, era lucrativo”), “We Ride” detalha a experiência de Gucci com uma mulher que sempre esteve ao lado dele. Aqui, o rapper mostra que também é capaz de atenuar o trap. Com apoio da voz sensual da cantora Monica, que também é nativo de Atlanta, o rapper dá aos ouvintes uma peça mais refinada e suave. “É como o novo Gucci falando com o velho Gucci”, ele diz aqui. Embora sejam repetitivos, os vocais de Monica definem o humor e tom desta canção. “Changed”, com Big Sean, é muito óbvia e básica, embora o instrumental seja decente. Em contrapartida, “Tone It Down” é uma colaboração sólida entre Gucci Mane e Chris Brown. Lançada como segundo single do álbum, esta faixa foi divulgada um mês depois dele lançar a mixtape “Droptopwop”. Uma canção de hip-hop e R&B conduzida por uma flauta semelhante ao instrumental de “Portland” do Drake. Depois de cuspir sobre a batida excêntrica de “Money Piling”, Gucci Mane fica atrevido e ignorante na faixa “Jumped Out the Whip”.

Enquanto “Lil Story”, com ScHoolboy Q, e “Make Love”, com Nicki Minaj, deixam muito a desejar, a penúltima faixa, “Miss My Woe”, mostra Gucci refletindo sobre o quanto mudou desde que saiu da prisão. Certamente, é uma das faixas mais introspectivas do registro. O desempenho vocal de Rico Love ao longo do piano define perfeitamente o clima da canção. Gucci Mane reserva todo o segundo verso para falar sobre as estrelas de Atlanta: “Ninguém nunca manteve real comigo como Shawty Lo / Em ATL, sua memória nunca o deixará ir / Eu estou segurando as noites atrasadas no estúdio / E cada chamada, cada show e todos os vídeos / RIP para Slim Dunk, nós sentimos sua falta, Mario / Nós tentamos seguir em frente, mas ainda dói embora / Nós tentamos nos juntar, mas não vai funcionar / Porque você é a peça mais importante do quebra-cabeça / Eu estava na minha cela, quando eu ouvi as notícias sobre Bankroll”. Suas decisões passadas ainda o deixam aflito, enquanto ele homenageia o seu amigo Shawty Lo, que faleceu num acidente de carro em setembro de 2016. Apesar de ser inferior ao experimental “The Return of East Atlanta Santa” (2016), este projeto é imensamente agradável. Um registro bem financiado e o mais próximo de um verdadeiro álbum conceitual de Gucci Mane. É interessante saber que mesmo depois de onze álbuns e várias mixtapes, o estilo de Gucci Mane nunca mudou drasticamente. Ele permaneceu num território relativamente seguro, mas, considerando a abordagem que ele tomou no “Mr. Davis”, poderemos nos surpreender com o seu próximo LP.

Favorite Tracks: “I Get the Bag (feat. Migos)”, “Curve (feat. The Weeknd)” e “Miss My Woe (feat. Rico Love)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.