Resenha: Future – EVOL

Lançamento: 06/02/2016
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: Epic Records
Produtores: Future, Metro Boomin, Southside, The Weeknd, Ben Billion$, Schife Karbeen, TM88, DaHeala, DJ Spinz, MP808 e $K.

Em janeiro de 2016, o rapper Future lançou uma mixtape surpresa que foi muito bem recebida pela crítica. Em seguida, apenas duas semanas depois, ele liberou o seu quarto álbum de estúdio, intitulado “EVOL”. Sucessor do disco “DS2”, esse é o primeiro trabalho do rapper sob o contrato com a Apple Music. O registro, lançado em 06 de fevereiro, tem 11 faixas e traz um Future ainda mais confiante. O rapper de Atlanta apresenta novas inflexões de sua voz, além de boas rimas e sons palpáveis. “EVOL” vê Future obtendo novas abordagens musicais, mesmo que seja em pequenas proporções. O álbum adiciona algo à sua evolução gradual como artista, enquanto sua entrega vocal está mais musculosa do que antes. Em todo o disco, o rapper fala sobre tudo que é contrário ao amor, ou seja, contos de orgias, drogas, festas, noitadas e depravações insensíveis. Sonoramente, ele apresenta camadas de batidas exuberantes e o seu murmúrio de assinatura. A sensação de melancolia, que permeia pela maioria dos seus trabalhos anteriores, também marca presença. Entretanto, as letras afiadas e, muitas vezes, espirituosas, são colocadas de lado no “EVOL”. Apesar das músicas seguirem um mesmo padrão, podemos encontrar muita coisa interessante na maioria delas. Em grande parte do repertório, é a voz de Future e as poderosas batidas que chamam atenção. Produtores como Metro Boomin, Southside e Ben Billion$ são os principais responsáveis pela produção delas. Essas batidas são obscuras e fazem o álbum exalar uma experiência auditiva muito interessante.

“EVOL” pode seguir a mesma estrutura de outros álbuns do gênero, mas, felizmente, consegue se destacar por conta de suas batidas fantásticas e voz melódica auto-sintonizada de Future. “Ain’t No Time”, faixa de abertura, apresenta um fluxo sujo e um título coeso com os seus projetos mais recentes. Aqui, Future entrega um rap habitual, porém, em uma velocidade mais robusta. Musicalmente, a faixa apresenta uma linha de baixo poderosa, sintetizadores gelados e fortes tambores. A voz do rapper é um recurso a parte que adiciona uma textura hipnótica ao instrumental. O gancho principal é repetitivo e vê Future dizendo a todos que “não há tempo”. A vulgaridade está em um ponto bastante alto na segunda faixa do registro “In Her Mouth”. Aqui, o rapper apresenta um refrão explícito que inicialmente diz: “Eu estou tentando foder a senhora em sua boca”. Liricamente pode não ser uma das melhores faixas do registro, mas, por outro lado, possui um ritmo extremamente grudento. As batidas são sólidas, o fluxo poderoso e o refrão exala uma boa influência soulful. Em “Maybach”, Future fala sobre o seu estilo de vida luxuoso e apresenta uma canção que não soaria fora do lugar se estive na tracklist do “DS2”. Ele soa repetitivo em algumas rimas, entretanto, sua abordagem e batida são incríveis. Seu fluxo está impressionante, pois ele mantém a mesma melodia por toda a sua duração e faz pouquíssimas pausas para respirar. Na quarta faixa, “Xanny Family”, ouvimos Future fazer mais algumas referências a drogas.

Liricamente, ele soa completamente derrotado por este estilo de vida. Por este motivo, o rapper está em seu fluxo mais robótico, assim como sua voz soa anestesiada. É uma das faixas de maior potencial do repertório, mas, em vez de soar suave, emite um ambiente ameaçador. A batida e os sintetizadores soam sinistros, enquanto a melodia, esculpida por Metro Boomin, é drenada a partir deles. Seu conteúdo lírico pode não ser profundo ou moralmente fundamentado, mas não deixa de ser um entretenimento. “Lil Haiti Baby” é um pouco diferente do que estamos acostumados a ouvir de Future, mas é uma das melhores faixas do álbum. Possui um ritmo mais lento do que o habitual e alguns instrumentos inesperados em sua composição. Aqui, Future faz algumas coisas novas com a sua voz, incluindo alguns gritos. É uma música vulnerável, onde ele oferece um clima desolador sobre o uso de drogas. “Despejo as pílulas para baixo, eu sinto minha cabeça explodindo / Role uma libra de droga, eu tenho que continuar fumando”, ele rima. Através da letra, ele tenta mostrar a sua relação com substâncias ilícitas que provocam tanto dor quanto prazer. Toda a frustração do rapper com este tema é finalmente demonstrada nesta peça central. Vocalmente, em “Lil Haiti Baby”, vemos Future ficar cada vez mais irado conforme progride. É uma música caótica, sem uma estrutura definida, onde ele exibe várias vezes o uso do seu registro vocal mais superior. “Sim, eu estou no tempo selvagem mano / Eu estou no tempo selvagem”, Future canta na faixa “Photo Copied”.

É outra canção promissora com uma batida que lembra algumas faixas do álbum “DS2”. Na letra, o rapper menciona sobre o quão longe chegou na indústria e aproveita para disparar algumas indiretas para sua ex-noiva Ciara. Os arpejos de sintetizadores, juntamente com a bateria, criaram uma mistura incrivelmente ressonante. A velocidade com a qual Future aborda as letras também é outro ponto notável. A sétima faixa, apropriadamente intitulada “Seven Rings”, é um verdadeiro banger. É realmente uma boa canção, mas que peca pela reciclagem nas batidas e linhas repetidas. Os seus tambores são bem energéticos, porém, a forma como são conduzidos soa muito parecido com as faixas anteriores. Liricamente, o rapper demonstra todo o orgulho por seus grandes projetos já lançados. Enquanto isso, “Lie to Me” é uma canção melódica que acaba oferecendo algo mais variado. Inclusive, ela começa de uma maneira tipicamente diferente da maioria das músicas do Future. Embora em alguns momentos sua voz seja coberta pela produção, esta canção consegue oferecer algo de novo para o álbum. A composição é estruturada com sintetizadores, tambores, seu gorjeio de assinatura e auto-tune em excesso. Seu conteúdo lírico consegue caracterizar momentos de reflexão, conforme os versos: “Eu tenho demasiados problemas / Alguns estão saindo na internet / Garota dizendo que perdeu você / É tarde demais para um retorno / Eu tive que viver com essa coroa na minha cabeça / Eu não tenho nenhum arrependimento, eu não tenho arrependimentos (…) / Sentindo-se neste jogo e estou aprendendo minha lição / Aceitando o ódio quando ele está vindo”.

Produzida por Southside, “Program” faz diversas referências a tráficos de drogas em sua letra. É uma canção sólida, mas que poderia ser melhor trabalhada. Sua batida é muito básica, assim como o fluxo é repetitivo e preguiçoso. As rimas também são bem fracas, até mesmo para os padrões do rapper. Nem mesmo os instrumentos fornecidos pelos produtores foram capazes de adicionar alguma profundidade. O grande destaque do álbum é nada menos que o primeiro single “Low Life”. Essa faixa permite o disco ter o seu único convidado vocal, o cantor The Weeknd. O verso cantado pelo canadense ajudou a dar um apelo pop para o repertório de Future. Aqui, a sua voz flutua perfeitamente bem e, a forma como foi utilizada, ajudou a dar um ótimo pano de fundo para a música. Foi realmente inteligente da parte de Future e seus produtores adicionarem The Weeknd a esta música. Ele tem um vocal soulful muito suave, atraente e de alta qualidade. Em consequência, fez um grande trabalho ao equilibrar seus vocais sensuais com a entrega profunda de Future. O rapper, por sua vez, acrescenta a sua própria força à canção, graças a emissão de um fluxo bem cativante. Aqui, portanto, encontramos bons recursos na produção, um ótimo convidado e um Future sem remorsos. Liricamente, os dois artistas falam sobre suas vidas libidinosas. Ou seja, em muitos aspectos é uma música que resume a depravação de Future e The Weeknd. A criação desta pista ficou à cargo, mais uma vez, de Metro Boomin, Ben Billion$ e DaHeala.

A produção mais lenta, espaçosa e misteriosa de Boomin e companhia, ficou bastante interessante. Aparentemente, quando ele opta por algo mais variado, consegue se sair muito bem. O uso contínuo da bateria, de efeitos vocais e sonoros, sintetizadores ambientes e piano, resultou em algo verdadeiramente atraente. Na faixa de encerramento, “Fly Shit Only”, Future ostenta uma produção que realmente mostra alguns sinais de progressão. Embora não seja uma canção forte liricamente, a produção geral é um destaque. Novamente, o rapper demonstra sua vontade em tentar algo de diferente. A canção exibe uma batida mais melódica, camadas vocais em excesso e um refrão grudento que prova que nem sempre a repetição é algo negativo. Além de fortes batidas de tambores, “Fly Shit Only” faz uso de uma guitarra que dá uma lufada de ar fresco no som de Future. Ela faz a canção tornar-se algo mais diversificado do que o normal. Future é um artista que conseguiu lançar uma grande quantidade de músicas em um curto espaço de tempo. Desde outubro de 2014, ele lançou quatro mixtapes, dois álbuns de estúdio e um disco colaborativo com Drake. “EVOL”, por exemplo, foi divulgado apenas sete meses depois do “DS2”, seu antecessor. Lançar tanto material em tão pouco tempo, certamente é difícil manter-se inventivo. Embora não seja tão aperfeiçoado como “DS2”, “EVOL” pode ser considerado um trabalho bom o suficiente para fazer parte de sua discografia. Pois, a maioria do seu repertório consegue captar uma atmosfera e abordagem interessante. Consequentemente, esse álbum é um bom projeto de transição para o rapper.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.