Resenha: Frank Ocean – Blonde

Lançamento: 20/08/2016
Gênero: R&B, Soul, Pop Psicodélico, Experimental
Gravadora: Boys Don’t Cry
Produtores: Frank Ocean, 88-Keys, Bob Ludwig, Buddy Ross, Hudson Mohawke, Jamie xx, Mike Dean, Michael Uzowuru, Om’Mas Keith, Pharrell Williams, Rostam Batmanglij, Tyler, the Creator e Vegyn.

O tão aguardado segundo álbum de estúdio de Frank Ocean foi finalmente lançado em 2016. Fazia quatro anos que o cantor americano não lançava um novo material. Ele compensou toda essa demora com um álbum de 17 faixas, intitulado “Blonde”, e um projeto visual chamado “Endless”. Para os fãs de Frank Ocean a espera por esse álbum, certamente, foi algo agravante para se dizer o mínimo. “Blonde” segue o aclamado “channel ORANGE” (2012) com mais riscos em torno de sua visão artística ousada. Esse LP explora cada emoção que Ocean poderia experimentar, com uma intensidade silenciosa e instrumentação aveludada. A abordagem suave do “channel ORANGE” foi traduzida para algo mais pesado e minimalista no “Blonde”. É uma coleção de sons lustrosos e joviais, que mostram a maturação na incrível composição de Ocean. Enquanto o LP anterior exibiu a vasta gama do cantor, “Blonde” é mais concentrado no seu âmbito musical. É um disco mais explorativo, minimalista, complexo e experimental. “Blonde” evoca cenas sonoras, memórias e letras que fazem você realmente flutuar. É um álbum totalmente construído por uma visão artística focada. Uma coleção de músicas intensamente íntimas de um homem incrivelmente criativo e talentoso. Frank Ocean optou por superar as lógicas das estruturas de canções tradicionais, com narrativas que não encaixam-se na forma comum. Ele desenvolveu uma leveza que rasteja sobre o ouvinte, mesmo depois de várias audições.

O clima do álbum é angustiado, mas a paisagem sonora incrivelmente bela e contemplativa. E, mesmo se tivesse circunstâncias mais convencionais, “Blonde” ainda surpreenderia. Suas canções são diferentes, muito incomum para o mercado pop tradicional. A maioria das faixas seguem uma estrutura similar, sem permanecer no mesmo assunto por uma grande parcela de tempo. Portanto, é complicado descrever o tema central do álbum devido à sua profundidade. A atmosfera sonhadora e luxuosa é auxiliada por uma produção exuberante. Algumas canções apresentam nada além da voz de Ocean sobre uma guitarra ou teclado. Cada instrumento ecoa de forma adequada e cria uma impressão duradoura. Ademais, é um álbum muito desafiador e coeso. “Blonde” abre com “Nikes”, primeiro single que teve um vídeo descrito como pornográfico e perturbador, e apresenta uma festa de drogas. Frank Ocean força o público a sentir-se desconfortável. A letra toca no materialismo e questões familiares, além de mostrar a voz de Ocean ao movimento Black Lives Matter, ao homenagear o falecido Trayvon Martin. “Nikes” é soulful, atmosférica e carrega uma mensagem bastante pessoal. Ocean começa com um tom alto e familiar, enquanto canta sob um efeito especial estranho e sintetizador pesado. Como todo o disco, essa canção apresenta uma forte experimentação e mantém uma vibe melancólica e descontraída. A experimental “Nikes” é seguida por uma canção intitulada “Ivy”, que atende todos os requisitos de uma música de Frank Ocean.

Com ausência de uma seção rítmica, “Ivy” é guiada por uma guitarra constante e um grande coro emocional. A narrativa dessa canção é muito palpável, uma vez que sua composição foi cuidadosamente construída. “Pensei estar sonhando / Quando você disse me amar”, Frank canta aqui. Produzido por Pharrell Williams e com vocais de Beyoncé, “Pink + White” é um momento realmente estelar no álbum. Acompanhado por teclados belamente luxuosos e cordas, o cantor explora algumas memórias do passado. É incrível o quanto suave e poderoso o vocal de Frank Ocean pode ser. No primeiro interlúdio do álbum, “Be Yourself”, ouvimos a sua mãe citar algumas palavras de sabedoria sobre o uso de drogas. Indo contra o conselho de sua mãe na esquete anterior, “Solo” pode ser considerada uma ode ao uso de drogas. Essa música possui uma dor igualmente doce e sedutora, com pouco uso de instrumentação. Em seguida, “Skyline To” permite Ocean variar em sua entrega vocal e fazer mais referências à ervas daninhas. Um número cru que se constrói lentamente, com uma baixa percussão e guitarra fornecendo à base. Com características de Kendrick Lamar nos vocais e Tyler, the Creator na produção, “Skyline To” pode ser considerada outro destaque. A próxima faixa, “Self Control”, é uma clássica balada de amor com excelentes vocais de Frank Ocean. Dessa vez, ele oferece um cenário sonoro mágico, com apoio de uma belíssima guitarra acústica e algumas cordas de fundo.

“Good Guy”, um rápido interlúdio, romantiza uma noite que, provavelmente, foi memorável para o cantor. Murmurando sobre um arranjo de teclado simplista, temos uma faixa curta e adorável. É um número bastante ousado, uma vez que explora um pouco de sua bissexualidade. “Nights” reintroduz os tambores de volta ao álbum, detalhando diferentes eventos que aconteceram com Ocean durante a escuridão da noite. É possivelmente a música mais pop no melhor sentido da palavra, tanto que é difícil prestar atenção no lirismo de Ocean. É uma faixa muito melódica, com uma batida distinta, pesada e pegajosa. O próximo interlúdio, “Solo (Reprise)”, oferece um verso absolutamente impressionante de André 3000. É uma faixa que aborda a falta de autenticidade e a escrita fantasma, com linhas como: “Depois de vinte anos / Eu estava com a impressão de que cada um escreveu seu próprio verso / Está voltando diferente / E sim, essa merda me machuca”. De forma intensa e indescritível, “Pretty Sweet” mostra Frank Ocean experimentando e mostrando mais de sua criatividade artística. É realmente difícil saber o que exatamente está sendo detalhado entre os efeitos sonoros dessa música. Em “Facebook Story” o produtor francês Sebastian Akchoté-Bozovi lembra como seu relacionamento desmoronou por causa do Facebook. É um interlúdio confuso, mas se formos olhar para o avanço da era digital e as redes sociais, é normal que tenhamos um tema desse tipo no álbum.

Com quase nenhuma produção, “Facebook Story” é apenas um enchimento narrativo no álbum. “Close to You”, por sua vez, é uma reformulação do cover de “(They Long to Be) Close to You” de Stevie Wonder para a canção do duo The Carpenters. Nos vocais de Frank Ocean temos uma dose de auto-tune e alguns experimentos interessantes. Um dos melhores momentos do álbum, “White Ferrari”, é uma música de marca registrada de Frank Ocean. Um verdadeiro clímax emocional imensamente envolvente, com sulcos românticos e sintetizadores suaves. É mágica do ponto de vista vocal e de produção. Mesmo sem uma seção rítmica, essa canção consegue oferecer uma composição bem forte. Aqui, Ocean mostra sua admiração pelos Beatles, ao injetar amostras de “Here, There and Everywhere” do disco “Revolver”. Em seguida, o cantor faz uma reflexão sobre a realidade na faixa “Seigfried”. De forma apaixonada e poética, Frank faz uma análise detalhada sobre o que realmente importa na vida. Ele faz isso sobre um instrumental delicado e arejado, cordas e sample de “A Fond Farewel” (Elliott Smith). Desejando sorte para si na vida adulta, “Godspeed” aborda a infância de Frank Ocean. Ao lado do cantor gospel Kim Burrell, essa canção possui uma atmosfera inspiradora e angelical. Com apoio adicional de um órgão, mas sem qualquer percussão, o cantor consegue encantar novamente.

“Futura Free” mais uma vez brinca com a voz de Frank, mas com novos detalhes adicionais. O cantor reflete sobre sua ascensão, com vocais distorcidos jogados num ótimo pano de fundo. Destaque para o piano e os temas abordados, tais como fama, religião e sexualidade. Ademais, temos uma faixa escondida na segunda metade da canção. Embora não tenha o mesmo temor do “channel ORANGE”, do seu jeito “Blonde” implora o ouvinte para ouvir o que Frank Ocean tem a dizer. Mesmo que não seja o seu melhor álbum, ele vai ser lembrado como o projeto mais forte de quem Ocean é como pessoa. Um LP que captura um ponto de vista único com uma imensa ambição. Como um dos poucos artistas assumidamente bissexuais do hip-hop, Ocean poderia ter feito declarações sexuais mais abertas. Mas os temas de suas canções são, em grande parte, sem gênero. O cantor preferiu mostrar o que as pessoas representam e, felizmente, essa abordagem mais pessoal ficou incrível. É o tipo de álbum bom para ouvir nos fones de ouvido, para assim conseguir capturar cada palavra e acorde. As canções de Ocean continuam geladas como sempre, enquanto sua lista de influências vão desde Kanye West aos Beatles. “Blonde” é um disco ousado de muitas maneiras diferentes. Embora falte percussão em algumas canções, instrumentalmente é um disco muito bonito. Ocean e seus produtores empurraram seus limites criativos na produção e atingiram uma marca. “Blonde”, sem dúvida, foi um sucessor perfeito para o extraordinário “channel ORANGE”.

90

Favorite Tracks: “Nikes”, “Pink + White” e “White Ferrari”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.